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Maquete do AVE espanhol que cortará o deserto saudita, ligando Meca e Medina a Jeddah: dinheiro e autoestima (Foto: Renfe)

O trem de alta velocidade que a Arábia Saudita vai construir ao longo de seu pedregoso e infernalmente hostil deserto apresenta vários aspectos interessantes.

Primeiro, é mais um entre tantos avanços tecnológicos incorporados por um país ainda fincado em costumes e hediondas práticas medievais, especialmente no capítulo dos direitos das mulheres.

Segundo, o objetivo do projeto une a ultramodernidade do trem-bala a uma necessidade ancestral: a de facilitar a tarefa dos milhões de muçulmanos do mundo que fazem anualmente a peregrinação a Meca, terra natal de Maomé , a cidade mais sagrada do islamismo e , e de lá se deslocam a Medina, onde está o túmulo do profeta.

A aldeia milenar cuja fundação se perde na noite dos tempos hoje é uma cidade de 1,7 milhão de habitantes, que apresenta violentos contrastes arquitetônicos: a Sagrada Mesquita, centro da peregrinação dos fiéis, já está cercada de edifícios ultramodernos, com hotéis luxuosos, restaurantes caríssimos e centros de lazer.

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Meca, cidade mais sagrada do Islã, com a “Sagrada Mesquita” circundada por edifícios ultramodernos

Cada muçulmano deve pelo menos uma vez na vida peregrinar a Meca, viva no país que for.

Em terceiro lugar, trata-se de um um desafogo para a economia da Espanha, tão na marca de pênalti ao longo da atual crise do euro – e, mais ainda, um reforço na autoestima da indústria do país, que vem perdendo competitividade por diversos fatores, inclusive menos incorporação de tecnologia às importações do que seria desejável.

O fato de a concorrência para o trem-bala da Arábia Saudita ter sido vencida por um consórcio de 10 empresas espanholas, a que inevitavelmente se haviam somado duas empresas sauditas, não poderia ter vindo em melhor hora.

O trem-bala utilizará toda a tecnologia do AVE (Alta Velocidade Espanhola), trem de alta velocidade com a maior rede da Europa, e circulará por uma extensão de 450 quilômetros, ligando as duas cidades entre si e ao porto de Jeddah, no Mar Vermelho, ponto de entrada da maioria dos peregrinos. Poderá superar os 300 quilômetros por hora de velocidade e transportar mais de 160 mil passageiros por dia.

Por gordos 7 bilhões de euros (17 bilhões de reais), o consórcio, liderado por duas estatais espanholas do setor ferroviário, construirá as linhas, fornecerá 36 trens e poderá explorar o serviço por 12 anos.

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Paulo Toshiharu Watanabe em 02 de novembro de 2011

"450 quilômetros" pela bagatela de 17 bilhões de reais! Qual era a estimativa de "gastos" para o trem bala brasileiro?

danir em 02 de novembro de 2011

Olá Setti. Aproveitando o gancho deste artigo, conto mais algumas curiosidades que eu vi na Arábia Saudita, há uns trinta anos atrás. Todos sabem que a peregrinação a Meca é muito importante para o muçulmano, e que o movimento é grande quando chega a época. Mas o que eu não sabia e só me dei conta quando lá estava, é a complicação logística que isto causa. Para ter uma ideia, quando viajávamos pelo deserto, vimos dois verdadeiros depósitos de ônibus, todos em estado de novos e semi-novos, a maioria iguais àqueles que transportam escolares nos Estados Unidos, que ficavam armazenados no deserto somente esperando a época da peregrinação para serem usados e depois devolvidos ao depósito novamente. Não tenho o número certo de ônibus que estavam em cada um daqueles estacionamentos (ou poderíamos dizer depósitos) mas seguramente eram mais de cem, para serem usados em um período específico do ano apenas. Ao chegarmos em Jedah e arriscarmos umas caminhadas pela cidade, nos deparamos com uma construção que lembrava um pouco uma mistura de quartel com pousada, cujos paredões em toda sua volta alem de não serem muito altos, eram cheios de janelas, com grades. Enorme, ocupando um quarteirão inteiro, que era maior do que o quarteirão que estamos acostumados a ver no Brasil. Como não poderia deixar de acontecer, fomos conferir o que era aquela edificação estranha que reunia a arquitetura típica do mundo árabe com aquela idéia de quartel ou pousada. E vimos. Cada janela correspondia a um quarto com pelo menos meia dúzia de camas, e sua finalidade era ser usada pelos peregrinos quando fossem a Meca. Um ponto de passagem e hospedagem temporária para aqueles que não tinham posses para pagar os excelentes hoteis da cidade. Pelo que me informaram, era tudo patrocinado pelo governo Saudita. Tudo virava um formigueiro humano naquela época. Um detalhe que me chamou a atenção, é que todas estas instalações e o material de transporte ficava praticamente intocáveis durante o resto do ano, e os viajantes que por motivos profissionais estavam na Arábia Saudita nestas ocasiões eram gentilmente convidados a deixar o pais até uma data informada pelo governo para que mais lugares de hospedagem ficassem a disposição dos peregrinos. Me lembro que como estávamos a serviço de uma empresa Brasileira que era fornecedora do Ministério da Defesa da Arabia Saudita, alguns de nós eram autorizados a ficar; poucos, mas, a maioria nesta época ficava passando um período de folga em algum pais vizinho ou voltava para o Brasil. Desde a entrada no pais, em todos os lugares no aeroporto estavam avisos informando em diversos idiomas que ao entrarmos na Arabia Saudita estavamos sujeitos às leis islâmicas e que ao infringirmos tais regras estávamos sujeitos ás punições previstas para tais contravenções, não importando nossa origem ou credo. Naquela época não existia turismo para a Arábia Saudita, e só profissionais com algum assunto para tratar com empresas ou o governo saudita recebiam os vistos de entrada. Na época, alem do visto de entrada, era importante que ao chegarmos obtivéssemos um documento que nós chamávamos de "visto de saída", pois caso não o tivéssemos não conseguiriamos embarcar de volta para nossos países. Isto acontecia na Arabia Saudita e no Iraque. No Iraque era mais burocrático e lento. Nunca programávamos uma viagem à estes países que durassem menos de um mês, para não corrermos o risco destes entraves burocráticos. Não sei como está hoje em dia, mas posso dizer que nos Emirados é tudo bem mais fácil, alem de que o turismo é uma realidade muito importante. Em nossa relação com outros estrangeiros eles ficavam impressionados com a facilidade com que nos relacionávamos com o povo local, e éramos tratados com muita simpatia. Na verdade as palavras chaves eram Brazilin, Pele e Falcao. Era como se tivéssemos as chaves das cidades. O que mostra que o futebol brasileiro realmente é um agente de aproximação com outros povos que normalmente são muito mais fechados no relacionamento (os árabes de uma maneira geral gostam muito do futebol brasileiro, e são efusivos quando nos encontram). E os jogadores são os verdadeiros embaixadores de nosso pais naquela região. Outra curiosidade que chamou a nossa atenção na Arabia Saudita foi a existência de Clubes, que eram restritos aos Ocidentais onde se podia por alguns momentos viver como se estivessemos em uma cidade que não era Saudita. Restaurante, Piscina, e áreas de lazer, tudo cercado de muros altos e um pouco distante da cidade, ás margens do Mar Vermelho. Normalmente estes clubes eram patrocinados por empresas que tinham muito pessoal na Arábia Saudita, e assim encontravam um local onde se podia viver como em qualquer cidade europeia sem a preocupação de polícia religiosa olhando nossos passos e com um pouco de descontração. O local que visitei era um ponto de recreação de empresas italianas. E o ambiente era bastante agradável, alem de ter um restaurante muito bom. espero que estas reminiscências sejam de interesse e quando a ocasião aparecer, tenho muitas outras histórias para contar. É uma forma de dividir as impressões de minhas andanças pelo mundo. A propósito deste trem, acredito que sua utilização será intensiva em um ou dois meses do ano, coincidindo com a peregrinação e depois as composições ficarão paradas ou com baixíssima utilização. Algo parecido com o que acontecerá com o nosso trem bala só que por outras razões. Saudações a todos. Danir Obrigado pelo interessantíssimo comentário, Danir. Outros serão muito bem-vindos. Abração

Carlos Reis - USA em 02 de novembro de 2011

OTIMO PARA A ESPANHA, UMA GRANINHA BOA NA HORA CERTA, ELES MERECEM.

Luiz em 01 de novembro de 2011

E A AREIA DO DESERTO LEVANTADA PELO VENTO???

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