As diferentes abordagens existentes para o uso de fontes confidenciais em reportagens e o porquê de lançar mão delas o menos possível; até o New York Times, melhor jornal do mundo, viu-se abalado pelo comportamento antiético de um de seus repórteres

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Já está à venda há duas semanas o livro Burning Down My Master’s House: My Life at The New York Times, em que o ex-repórter Jayson Blair conta sua triste história de mentiras na redação do maior jornal do mundo.

Suas matérias maquiadas e reportagens falsas, pelo menos 36 ao longo de dois anos, provocaram, como se sabe, um terremoto que levou à queda do editor executivo Howell Raines e de seu segundo, Gerald Boyd, a uma corajosa mas terrivelmente constrangedora autoexpiação pública do jornal publicada em quatro páginas de uma das edições de maio do ano passado e à instituição da função de ombudsman, algo a que o Times sempre se recusou, por considerar satisfatórios e suficientes seus controles internos de qualidade.

O livro, e o filme que se seguirá – pelo qual Blair já embolsou mais de 1 milhão de dólares, num estridente exemplo de coisa feia que compensou –, já estão provocando, novamente, tal qual ocorreu quando o escândalo veio à tona, discussões sobre a ética jornalística e a credibilidade da mídia.

Mais do que natural, diante da trajetória de um jovem jornalista que subiu depressa demais e, para isso, inventou reportagens inteiras, colocou frases suas na boca de supostas fontes, mentiu sobre viagens que não fez e fabricou personagens inexistentes.

Para quem quiser se aprofundar nesse lodaçal que envergonha a todos nós, jornalistas, mas que é bom para nos manter alerta, o livro está disponível, com bons descontos em relação ao preço original de 24,95 dólares, em qualquer livraria virtual americana. É fácil de encontrar também no Brasil. Na Livraria Cultura, em São Paulo, por exemplo, custa 104,54 reais.

Se você, leitor, lançar mão de qualquer site de busca na internet, vai verificar que, de Genebra à Patagônia, as barbaridades de Blair estão sendo convenientemente reviradas a partir de seu relato.

Mas não se encontram, no grau desejável, reflexões sobre um aspecto do caso que é importantíssimo, e para o qual, no Brasil, a primeira pessoa a chamar a atenção foi a jornalista Renata Lo Prete, titular do “Painel” da Folha de S. Paulo e ex-ombudsman do jornal – não por acaso durante o programa de televisão deste Observatório, em 3 de junho do ano passado, dedicado, justamente, ao affaire Jayson Blair: o uso exagerado (e, no caso, falso) do off por parte do então repórter.

No Brasil, confusão

Um dos principais problemas com Blair é que ele atribuía um número excessivamente grande de informações a fontes não identificadas.

Tratava-se, em geral, de informações relevantes e não raro decisivas para a história que ele pretendia contar. Várias dessas fontes, comprovou-se depois, simplesmente não existiam.

O uso indiscriminado deveria ter chamado a atenção de seus superiores, até porque textos seus publicados desde 1999 continham problemas e vinham sendo corrigidos. Mas o sinal de alerta passou em branco.

Como a história de Blair está voltando à baila, seria interessante abordar aqui no Observatório esse instrumento da profissão que tanto serviu às armações do ex-jornalista: o off.

Esta é, na verdade, uma velha obsessão do articulista, que já tratou do assunto em outras publicações. Nelas, como aqui, sempre é bom começar pelo começo: o real conceito do off, palavra do inglês utilizada genericamente entre nós para designar os diferentes graus da confidencialidade das fontes de informação.

Não é pequena, no Brasil, a confusão existente sobre o off, seu conceito, desdobramentos e práticas, tanto entre leitores, internautas e telespectadores como entre fontes – mas também entre nós, jornalistas.

(Como reagirá o leitor comum ao ler nos jornais, como tantas vezes ocorre, uma informação relevante, transcendental, importantíssima para determinada matéria, sobretudo nas más traduções de agências internacionais, que no texto é atribuída a “uma fonte que não quis se identificar” ou “que não se identificou”? Dá a impressão de que um sujeito de capa preta, chapéu e aparência do antigo Fantasma do gibi em seus trajes urbanos se aproximou e soprou a notícia para o repórter. Inquirido sobre quem era e onde trabalhava, teria respondido: “Não, eu não quero me identificar”. Quem escreve esse tipo de bobagem, e a todo momento, é um de nós: um jornalista. Será que ele tem realmente idéia do que é o off?).

Para lançar luz sobre a questão do off, vale sempre ir à origem: o velho, bom e sólido jornalismo que ainda se pratica no Reino Unido e nos Estados Unidos – solidez que a guerra ao Iraque e o combate ao terrorismo têm feito tudo para solapar, mas ainda não conseguiram.

Foi na Velha Albion e na sua ex-colônia que o jornalismo profissional, como o conhecemos hoje, lançou seus fundamentos, a partir da segunda metade do século XIX. (Enquanto no Brasil, por exemplo, tudo o que faziam nossos jornais e revistas era competir pelo beletrismo estéril, a imprensa americana já tinha 500 repórteres cobrindo a Guerra Civil de 1861-1865).

E, independentemente de preferências ideológicas, não há como negar que é na quality press britânica e na grande imprensa americana que se pratica o jornalismo mais rigoroso, e onde a ética jornalística está mais enraizada sob a forma de práticas, códigos e, quando necessário, punições e expiações públicas, como ocorreu no caso Blair e, mais recentemente, em duas diferentes situações vividas pelo USA Today.

Três situações distintas

No Brasil, a palavra off (abreviatura de off the record) vem sendo usada a torto e a direito para abrigar indistintamente, sob o mesmo conceito, pelo menos três situações distintas em que a fonte real da informação não aparece.

A mais usual é quando ocorre o que americanos e britânicos chamam de not for attribution: o veículo pode publicar as informações, inclusive citações entre aspas, mas a fonte que as forneceu não deve ser mencionada pelo nome. A informação, em suma, não deve ser atribuída a ela.

A segunda situação é a do background: o sentido geral das declarações pode ser usado pelo jornalista na montagem da história, mas ele não está autorizado a publicar citações entre aspas nem a identificar a fonte.

(Existe ainda o deep background, quando o jornalista pode montar sua matéria com base em dados e comentários de uma determinada fonte, mas ela não o autoriza a fornecer indicação sequer indireta sobre quem é, ou de que foi ela quem forneceu as informações. Típico para repórteres que viajam ao exterior, sobretudo em países conflagrados, é o deep background que, às vezes com surpreendente facilidade, pode-se obter na embaixada americana, inclusive com o adido militar. Eu próprio já lancei mão disso em diferentes situações, inclusive no Chile de Pinochet).

Por fim, e só por fim – basta consultar os códigos de ética de grandes e médios jornais americanos, britânicos e canadenses – vem o off the record, que curiosamente guarda um significado muitíssimo diferente, e com freqüência quase oposto ao adquirido em território tupiniquim: as informações devem ser usadas unicamente para ajudar o repórter a compreender o quadro geral de um fato ou de uma situação, mas em hipótese alguma incluídas na reportagem a ser produzida.

Elas estão, como diria a tradução ao pé da letra, “fora de registro”.

A desculpa da correria

No Brasil, além de colocarmos situações muito distintas no mesmo e genérico balaio do off, perdemos em boa parte a noção básica, essencial, primeva segundo a qual atribuir a fontes identificáveis o maior número possível de informações deve ser a regra geral da reportagem e do jornalismo, a meta ideal a ser perseguida.

Quanto mais clara e expressa ficar a origem da informação, maior será o grau de verossimilhança da reportagem e, em consequência, a credibilidade do veículo e do próprio jornalista.

Nos nossos veículos que editaram manuais de redação e/ou códigos de ética, nem sempre isso está expresso com toda clareza. O Globo é uma das exceções: “O anonimato deprecia a informação”, diz seu Manual de Redação e Estilo. “É o que basta para que se evite o off tanto quanto possível”.

Mas claro que a vida é dura, e que há incontáveis situações em que aceitar a confidencialidade é a única forma de obter informação. É por isso que a grande imprensa do mundo todo prevê normas para esses casos.

Vários de nossos veículos, felizmente, também, e a Folha de S. Paulo talvez seja a que mais minuciosamente tratou do assunto em seu Novo Manual de Redação.

Além disso – justiça se faça à Folha –, ainda em julho do ano passado, dois meses depois do episódio Blair, o jornal reviu e tornou mais rígidas suas normas sobre a utilização do off, inclusive com mais participação da cadeia hierárquica no trato desse instrumento. Portanto, regras existem, mesmo que se possa questioná-las aqui e ali.

Essas normas – e o próprio bom senso –, mais no exterior do que entre nós, costumam incluir a exigência de que, quando a identificação do autor da informação é inviável, se apresente ao leitor/telespectador/ouvinte/internauta o máximo de indicações possíveis sobre suas credenciais como informante.

Como diz o código de ética do tradicional Philadelphia Inquirer, “a fonte e a qualidade da informação que um jornal apresenta a seus leitores nem sempre podem ser tornadas evidentes. (…) Devemos [nesses casos] dar a nossos leitores o máximo de indicações possível a respeito da procedência da informação para que eles possam avaliar seu real peso”.

“Um assessor do ministro do Trabalho” é bem melhor do que uma vaguíssima “fonte do governo”, ou uma mais genérica ainda “fonte autorizada”. “O diretor de um laboratório farmacêutico multinacional” guia mais o leitor sobre a autoridade da informação do que “uma fonte do setor farmacêutico”. E por aí vai.

O problema é que, no dia-a-dia das redações, os manuais vão para o espaço, e normas, regras e recomendações acabam se perdendo de vista. Na prática, abusamos, muitas vezes escandalosamente, do recurso à confidencialidade da fonte.

Com a desculpa da correria dos fechamentos, da falta de gente e de recursos que assola a mídia, ela se torna cada vez mais uma alternativa preguiçosa ao penoso mas indispensável trabalho de entrevistar pessoas, ir atrás de dados e segredos escondidos em documentos, escarafunchar arquivos eletrônicos ou em papel – todo uma pesada rotina que o bom jornalista deve encarar desde os primeiros passos como foca.

O contraste é imenso quando confrontado com posturas rigorosas como a do venerando The Washington Post (que recentemente apertou ainda mais suas diretrizes já duras para o uso da confidencialidade): entre outros pontos, o jornal requer que o repórter, ao lançar mão do off, peça on the record à fonte a razão de sua exigência de confidencialidade e a inclua na reportagem.

Em nome do interesse do leitor e do interesse público, e em nome da nossa própria credibilidade – que em última instância determina, ou deveria determinar, nossa capacidade de sobreviver na profissão –, precisamos ter mais cuidado, mais parcimônia e mais escrúpulo com o off.

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