Vocês se lembram da polêmica causada pela divulgação da marca que identificará as Olimpíadas de 2016?

Muita gente achou que a marca, que sugere três pessoas se abraçando ou dançando de mãos dadas, lembra a silhueta do Pão de Açúcar e também algo do símbolo olímpico de cinco anéis entrelaçados, poderia ter sido inspirada ou mesmo calcada num quadro “A Dança”, do pintor francês Henri Matisse (1869-1954), ou no logotipo de uma ONG americana, a Telluride Foundation, que se dedica a diferentes causas sociais na pequena cidade do mesmo nome, no Estado do Colorado.

Os responsáveis pela marca vencedora para os Jogos do Rio – a Agência Tátil Design – negaram sequer terem buscado inspiração em ambas as fontes. E Fred Gelli, sócio e diretor de criação da empresa, em uma das entrevistas a respeito, ao responder qual seria o principal diferencial da marca, acabou fazendo uma afirmação que pretendo contestar:

[O principal diferencial é] A tridimensionalidade da marca, que está caracterizada por volumes, luz e sombras, que não são encontradas em nenhuma outra marca que já se inspirou nos valores de união e amizade. (…) É uma marca que tem frente e verso, em cima e embaixo.

Será?

Gelli, por estar na faixa dos 30-40 anos de idade, não chegou a conhecer na ocasião, e talvez não lhe tenha sido propiciada a oportunidade de ver direito, em livros e outro tipo de documentação, a extraordinária marca que o arquiteto Oscar Niemeyer criou para o IV Centenário da cidade de São Paulo, em 1954, juntamente com projetos que mudaram a fisionomia da capital, como o Parque do Ibirapuera, seus museus, pavilhões, teatro e a famosa marquise, além do obelisco em homenagem ao Soldado Constitucionalista.

O logotipo de Niemeyer era, sem dúvida alguma, tridimensional. Tinha também volumes, luz e sombras.

Confira você mesmo nas imagens que estamos postando: uma, da maquete do logotipo. Outra, da marca erigida em concreto, na inauguração do Parque do Ibirapuera, presidida pelo governador Lucas Nogueira Garcez, quase invisível, de chapéu preto, em meio a um grande grupo de políticos e autoridades. A terceira, em papel, num folheto sobre a Comissão do IV Centenário.

Não se sabe se a marca do grande arquiteto foi inspirada em valores como união e amizade, como diz Gelli, mas, quando se pensa no quarto centenário de uma grande cidade, dificilmente essas categorias estarão ausentes.

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8 Comentários

R. Lhero em 26 de março de 2011

Vamos ser claros: - O logotipo das olimpíadas no Brasil é uma CHUPETA e/ou uma CAMISINHA, estilizadas e coloridas. Enfim, a cara do Brasil. Just that!

carlos nascimento em 26 de março de 2011

Ricardo, Com sua licença, vou aproveitar para falar sobre futebol, essa paixão nacional. Vejo que novamente os Corintianos estão se iludindo, o imperador MICO - Adriano - acaba de ser contratado. O nosso grande RA já declarou, fui..., vc como grande Corintiano que é, quando irá...? Eu tinha minhas dúvidas sobre o gosto duvidoso dos corintianos pela morbidez, agora tenho certeza, são masoquistas, gostam de sofrer de verdade, o golpe do gordo não foi suficiente, querem sofrer em nova escala, o animador de babaquices - andrés -vai fechar o seu ciclo com chave de ouro, ou seja, sem ter ganho nada. Abraços Carlos Nascimento.

Markito-Pi em 26 de março de 2011

Seem contar,caro Setti, a escultura de um africano , se não me engano, que abre a novela Insensato Coração.A peça é MUITO anterior à logotipia da Olimpiada. Acho ate que o Hans Donner a usou de sacanagem.

Bama em 25 de março de 2011

Esse Fred quem enganar quem?

JT em 25 de março de 2011

Deixando de lado a ironia do meu comentário anterior, tenho as seguintes considerações: - O logotipo das Olimpíadas do Rio é bonito, sim! Tem curvas harmoniosas, cores alusivas à cidade e ao país, lembra o Pão de Açucar e em alguns ângulos dá para ler "Rio". O logotipo é muito superior, por exemplo, ao das Olimpíadas de Londres. - Eu não teria problema nenhum em reconhecer as influências de um trabalho que tivesse apresentado como original. Tudo o que o ser humano faz pode ser comparado com algum exemplo anterior. É muita ingenuidade achar que algo pode ser concebido do zero. - Tudo o que você vê na rua, lê ou assiste, fica gravado na memória e se torna parte de um repertório, mesmo que de modo inconsciente. A pintura de Matisse, por exemplo, foi parar na capa do livro "Arte Moderna", de Giulio Carlo Argan - uma referência obrigatória nas faculdades sérias de arquitetura, publicidade e artes plásticas. Com certeza o Fred Gelli já folheou este livro. - Preciso discordar que a escultura e monumento de Oscar Niemeyer foi concebida para ser o logotipo do IV Centenário de São Paulo. Você pode até transformar uma escultura num logotipo, mas isso não quer dizer que ela foi concebida para tanto. - Nos anos de 1950, nem todos os eventos cívicos eram mercantilizados. As comemorações do aniversário de 400 anos de São Paulo não foram pensadas para gerar lucros imediatos, a não ser o lucro institucional da própria cidade - um conceito pouco difundido até então. Por isso não vemos o monumento de Niemeyer para São Paulo em camisas, bonés, cadernos, livros e todo tipo de bugiganga imaginável, da época. - Nos anos 50, nem logotipos para Copas do Mundo e Olimpíadas existiam como tais. Estes eventos eram reconhecidos por cartazes, com formas mais complexas e de difícil reprodução em miniaturas.

Marcos em 25 de março de 2011

Eu não suporto o Niemeyer e o estalinismo ridículo dele. Preferia esquecê-lo.

JT em 24 de março de 2011

Tenho uma teoria de que o Niemeyer gosta muito de laranjas. Seria descascando uma, usando um canivete de bolso, que ele teve o "insight" para conceber a escultura transformada em logotipo do IV Centenário de São Paulo. Depois ele transformaria este logotipo numa de suas marcas registradas: as rampas de acesso que ele carimbaria nos museus espalhados pelo Brasil e pelo mundo, graças aos partidos - alguns comunistas, outros nem tanto. Vide os museus de Niterói, Curitiba e Brasília, só para ficar em três exemplos. Todas as rampas de concreto do Niemeyer são brancas e anti-derrapantes. É o lado avesso da casca de laranja. Se vocês olharem por baixo, verão a cor alaranjada das superfícies porosas, encardidas pelo tempo. Aliás foi comendo laranja, com muita vitamina C, que Niemeyer completou Cem anos... Brincadeira, gente! Niemeyer tem seus méritos sim. Não nego que ele seja um grande artista e um mito em carne e osso. Aliás, penso que ele seja mais escultor do que arquiteto. O arquiteto, numa definição enxuta, é aquele pensa a ocupação humana dos espaços - o que, convenhamos, não era exatamente o forte do senhor intocável.

José Geraldo Coelho em 24 de março de 2011

Dizem que não foi plágio, mas que foi, foi! E plágio descarado. O logotipo da Ong americana pode ter sido,e tenho quase certesa que foi "inspirado" no quadro de Matisse, mas o logotipo mas o da Rio 2016 é cópia descarada do da Ong. Coisa de sem-vergonha, muambeiro das artes visuais. Picareta. Tem uma novela da Globo que tem na abertura uma escultura com o mesmo tema. Não sei com que intenção.

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