Mario Monti, o primeiro-ministro indicado pelo presidente Giorgio Napolitano para formar – e aprovar no Parlamento — um novo governo na Itália em gravíssima crise, era conhecido por “SuperMario”, por sua eficiência discreta, nos dez anos em que foi comissário da União Europeia – ou seja, um dos 27 integrantes do órgão executivo da UE, espécie de superministro.

Primeiro, de 1995 a 1999, encarregado de assuntos como mercado interno, questões aduaneiras e taxação. Depois, de 1999 a 2004, para livre-concorrência.

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O Parlamento italiano é quem aprovará — ou não — a aposta do presidente Giorgio Napolitano e das instituições europeias em Mario Monti

Sua competência como economista, professor universitário, ex-reitor da Universidade Bocconi, renomada instituição de Milão onde ele próprio se formou, com doutorado em Yale, nos EUA, onde foi aluno do Prêmio Nobel James Tobin, fizeram-no capaz de proezas políticas. Sua primeira nomeação foi proposta ao Parlamento pelo agora ex-primeiro-ministro conservador Silvio Berlusconi. A renovação de seu mandato, pelo ex-primeiro-ministro de centro-esquerda Romano Prodi.

Tudo isso, e mais a confiança absoluta que recebeu da cúpula da UE, do Banco Central Europeu e do FMI, foram levados em conta pelo discreto, mas experiente presidente Giorgio Napolitano, que aos 86 anos é não apenas um dos poucos políticos italianos que pode sair à rua sem ser xingado ou receber um tomate na cabeça, como é o homem público de maior aprovação no país, com o espantoso índice de 90%.

Uma economia enorme, com graves problemas

As qualidades todas que Napolitano corretamente enxergou em Monti não tornam menos complicada sua tarefa. As crises com países como Irlanda, Portugal e Grécia já foram, como sabemos, suficientes para abalar gravemente a UE e o euro, a preocupar os Estados Unidos, a China e o mundo. O balança-mas-não-cai da Espanha não ajudou em nada a melhorar o clima.

Com a Itália e sua enorme economia, a coisa definitivamente não é brincadeira. Quarta maior economia da Europa e décima maior do mundo, com um Produto Nacional Bruto de 1,8 trilhão de dólares, a Itália equivale, em tamanho do que produz, ao triplo do que o fazem gregos, irlandeses e portugueses, ou à soma de Espanha, Grécia, Irlanda e Portugal. Sua dívida pública é equivalente a 120% do PIB, e sua rolagem se torna a cada dia mais problemática – títulos do Estado italiano chegaram a ser colocados no mercado, dias atrás, pagando juros de 7,432%, considerados estratosféricos para os padrões do Primeiro Mundo, sobretudo para um país com a economia semiparalisada.

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A cerimônia de designação de Monti (à direita, em primeiro plano) por Napolitano (à esquerda) no Qurinale, o palácio presidencial (Foto: Andreas Solaro / AFP)

Não bastasse o tamanho do desafio de fazer os mercados confiarem em que o país irá, sim, cumprir seus compromissos com bancos e organismos internacionais, depois da sucessão de promessas de reformas empurradas com a barriga pela irresponsabilidade do governo Berlusconi, Monti tem diante de si um enorme e complicado xadrez político.

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Napolitano, hábil e respeitado, viu em Monti o caminho para restaurar a credibilidade da Itália. Na foto, ele assina a indicação do premier  (Foto: Andreas Solaro / AFP)

Vejam só o que ocorre no plano político:

* Os parceiros-chave de Berlusconi, os separatistas de extrema-direita da Liga Norte (LN), já declararam em oposição, por não aceitarem um governo, como o de Monti, formado apenas por técnicos. O jornal do partido, La Padania, já acusou seu gabinete de ser um “governo dos bancos”.

* O partido de centro-esquerda recentemente fundado, e que já obteve bom sucesso nas eleições municipais deste ano, Itália dos Valores (IDV), do ex-juiz Antonio Di Pietro, quer que o governo de Monti tenha um prazo fixo – quando seu propósito é terminar o mandato de Berlusconi, que se estenderia a maio de 2013.

* O partido de Berlusconi, Partido da Liberdade (PDL), cujo chefe deixou o governo sob vaias mas alegando pretender “colaborar”, pretende que o programa de Monti seja apenas executar as medidas já compromissadas por Berlusconi e, ademais, que convoque eleições antecipadas.

O candidato seria seu secretário-geral Angelino Alfano, o ex-ministro da Justiça que negociava com o Congresso as leis feitas sob medida para proteger Berlusconi e seu império de negócios – não raro comprando, em dinheiro, deputados, ou oferecendo-lhes prostitutas, viagens e festas, tal era o clima de podridão moral que reinou na política italiana na era do muito impropriamente chamado de Il Cavaliere

* A esquerda quer mudar a legislação eleitoral, enquanto a direita, favorecida por ela, recusa-se a tocar no assunto.

Agora, vejam só o que ocorre no plano das medidas econômicas:

* A esquerda quer adotar medidas que taxem o patrimônio dos mais ricos, algo a que a direita e a centro-direita se opõem energicamente.

* A esquerda não quer que se toquem nas aposentadorias antecipadas, pelas quais o trabalhador recebe proporcionalmente ao tempo de recolhimento à Previdência, quando os conservadores acham que isso é um dos pontos essenciais das reformas.

* A direita, por sua vez, é contra a extinção da aposentadoria apenas por tempo de recolhimento – sem considerar a idade –, porque se calcula que 70% dos trabalhadores do norte da Itália, área em que está seu celeiro de votos, se beneficiarão pela medida.

* Os sindicatos e as entidades patronais pretendem que os custos trabalhistas sejam amenizados com aumento de imposto de renda sobre os mais ricos, medida a que a direita se opõe.

Em torno de dois pontos, parece haver um grande consenso no Parlamento: a privatização de propriedades e serviços públicos do governo central e dos governos regionais e a volta do imposto municipal sobre imóveis, como o IPTU brasileiro, que havia sido abolida por Berlusconi.

Para o resgate da Itália, é pouco.

Haja gás para o SuperMario.

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aparecido em 07 de janeiro de 2012

A social democracia está colocando os paises europeus de joelhos....enquanto isso, a China ocupa todos os espaços....ficam discutindo isso e aquilo com as aposentadorias, como aqui no Brasil, até chegar um dia em que não vai ter para mais ninguém. Por aqui estamos apenas começando na tal social democracia....

José Alberto Scur em 19 de novembro de 2011

ACUSAR BERLUSCONI DISSO OU DAQUILO É FACIL. DIFICIL É RECONHECER A GRANDE CONTRIBUIÇÃO DESTE LIDER Á ECONOMIA DA ITALIA. SE ELE FEZ FESTAS, SURUBAS, BUNGA BUNGA ISSO NÃO É MOTIVO PARA JOGA-LO NA PRIVADA. ACHO ELE MUITO MAIS DIGNO QUE A MAIORIA DOS MINISTROS TUPINIQUINS, QUE ROUBAM CONTINUAMENTE E EM ESCALA INDUSTRIAL AS MERENDAS DAS CRIANCINHAS, BEM COMO OS REMEDIOS E RECURSOS DA SAUDE DOS POBRES. SE BERLUSCONI FEZ FESTAS, O FEZ COM SEUS PROPRIOS RECURSOS, ABUNDANTES POR ACASO...O RESTO É INVEJA DE QUEM NÃO PODE VICER COMO ELE (EU TRABALHEI TODA VIDA PARA CHEGAR AOS 60 COM MUITA GRANA E PODER FAZER ESSAS FESTAS......FRACASSEI....).

Julian Matos em 18 de novembro de 2011

Ao Ricardo e ao leitor Marco (17:21), Marco, obrigado pelo comentario e o desejo de boas vindas! Mas leitor do blog sou desde o seu começo durante a campanha do ano passado. Ricardo, lembro de um comentario seu, em um video da Veja on line, sobre o resultado das eleições no Tocatins (pode ter sido outro ex-território): algo como, "um estado tão novo na federação e já tão velho na política", grande sacada. Marco, tento comentar aquilo que está mais perto da minha praia e também disfruto dos comentarios de outros leitores. Um abraço, Julian Caro Julian, você tem boa memória. Eu me referi a vários estados ex-territórios, principalmente ao Amapá e a Roraima. Não me recordo de ter feito a mesma avaliação sobre Tocantins. Um abração

Marco em 17 de novembro de 2011

Amigo Setti : Julian Matos (16:02), Gostei do teu texto reforçado, q se aplicou em explicar, não me lembro de uma participação muito efetiva tua no Blog, mas seja bem vindo e se possível aguardemos mais contribuições regulares como esta em nossa comunidade d amigos. Abs.

Julian Matos em 17 de novembro de 2011

Caro Ricardo: Seu resumo é excelente do que está passando no país transalpino. Permita-me desenvolver uma interpretação sobre a crise européia que já havia mencionado em comentários anteriores. A Itália é o país da Europa mais parecido com Brasil. Tudo dentro das suas proporções, a Itália possui uma grande desigualdade interna entre o norte e o sul, um mercado ainda bastante regulado pelo estado e, bem, uma classe política que monta e desmonta partidos para assumir cargos e nomeações. Ao lado de tudo isso, possui um setor privado formado tanto por pequenas, medias e grandes empresas que fizeram o país apesar da classe política. Nenhum governo italiano encontrou força suficiente para enfrentar os grupos de interesses que permitissem a modernização econômica do país. As ineficiências são muitas: justiça lenta (existe até uma expressão “torpedo italiano” no âmbito jurídico da propriedade intelectual), mercado de trabalho altamente regulado, muita informalidade, burocracia e dificuldade para abrir negócios e pagar impostos. Não solucionar estes problemas condenou o país a 10 anos de estagnação com taxas de crescimentos ridículas. País fundador da União Européia, o imobilismo interno italiano, levou a Alemanha a jogar um perigoso jogo de pôquer com a dívida soberana italiana. Ao não deixar o Banco Central Europeu monetizar a dívida (alias como estão fazendo os EUA e a Inglaterra), ou seja, colocar a máquina de imprimir dinheiro para funcionar, Itália, assim como Espanha e outros periféricos, se comporta como um país em desenvolvimento – endividado em uma moeda que não controla – essa história já conhecemos. O pulso entre o Banco Central Europeu, Alemanha e os países PIGS (Portugal, Itália, Grecia, Espanha) já levou a mudança de governo em todo sul da Europa e o próximo deles será na Espanha nas eleições deste sábado (segundo as pesquisas). Os novos governos parecem “convencidos” em adotar as diretrizes franco-alemãs, qualquer alternativa parece muito pior. Nessa partida de pôquer está em jogo um novo reparto de poder na Europa e uma nova rodada de cessão de soberania dos Estados nacionais em favor da União Européia. Na Europa, a crise não é econômica, é política. Enquanto isso, que nos preparemos para fortes emoções. Como dizem os espanhóis, “que dios nos pille confesados”. Um abraço, Julian

Wagner Ferraz em 17 de novembro de 2011

Setti, seria bacana falar sobre a Chevron, pois enfim, vira caso de polícia!! Uma semana vazando oleo e a imprensa nada?

Um Gênio Só Não Faz (,) Verão em 17 de novembro de 2011

Feliz é a Itália. Tem um Mario Monti para substituir e consertar as cacas feitas pelo mafioso Berlusconi, enquanto que o Brasil teria que ter uns 100 gênios HONESTOS para assuir o Governo e consertar as cacas de Sarney, Collor, Lula-1, Lula-2, Dilma... e ainda não nasceu nenhum desses gênios...

Marco em 17 de novembro de 2011

Amigo Setti: Grande texto, me lembrei daquela frase dos nossos patricios: " Ainda não sei se é melhor comprar uma Ferrari ou sustentar um orfanato ". Abs.

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