E também: ACM Neto surpreendente, um leilão de respeito, o Fome Zero vai bem, Coppola se rende ao Rio, Morais em campanha para a ABL, o enxame de funcionários do governo, a contradição de Mangabeira Unger e um furo no discurso de Lula

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Mal tomou posse, no dia 18, e o novo presidente do Paraguai, Nicanor Duarte, passou a impressão de que vai mesmo mexer nas estruturas podres do país. Começou por uma faxina geral no comando das Forças Armadas que, segundo ele, tiveram ao longo de décadas uma “identificação nefasta” com a corrupção.

Todo mundo sabia disso. A novidade é que o fato foi, finalmente, reconhecido por um presidente da República. Duarte, que tomou posse diante de presidentes de países vizinhos, inclusive Lula, fez já na solenidade um enérgico e inédito discurso em favor do Estado de Direito – reconhecendo implicitamente que o existente no Paraguai é de opereta –, prometendo combater as “máfias” que infestam o país e não dar trégua ao crime organizado que, infiltrado no Estado, controla o contrabando, o narcotráfico e a pirataria.

É preciso ter um pé atrás, talvez dois, e aguardar para ver, em se tratando do Paraguai. E nunca é demais lembrar que Duarte pertence ao mesmo Partido Colorado que infelicita o país vizinho desde 1947 – o mesmo partido que sustentou durante 35 anos, a partir de 1954, a interminável, sanguinária e corrupta ditadura do general Alfredo Stroessner. Mas já é alguma coisa ter um presidente que, em seu discurso de posse, cita a ONG Transparência Internacional para lembrar, com vergonha, que seu país é tido como o terceiro mais corrupto do mundo, atrás apenas da imbatível Nigéria e de Bangladesh.

O que é que tudo isso tem a ver com o Brasil? Muito – na verdade, muitíssimo. É praticamente impossível citar, hoje em dia, um problema grave de segurança pública no país que não tenha alguma ramificação importante, quando não a própria raiz, no Paraguai. Tráfico de armas, tráfico de drogas, contrabando, roubo de cargas, furto de veículos, produtos falsificados, pirataria, lavagem de dinheiro – todo um nutrido, riquíssimo elenco de crimes graves que perturba a vida do Brasil e dos brasileiros tem no Paraguai um santuário, sob o abrigo generoso e cúmplice das autoridades.

Só para ficar num caso: estima-se em nada menos de 600 mil o tamanho da frota de veículos roubados no Brasil que circula sem problema algum no Paraguai. O recém-findo governo do presidente Luis González Macchi (1999-2003) concluiu, em março passado, um controvertido programa de legalização de propriedade de automóveis e caminhões roubados que, decorrido determinado prazo, não foram oficialmente reclamados por seus antigos proprietários do outro lado da fronteira. Aliás, o próprio González Macchi, em 2001, passou pelo inacreditável constrangimento de saber que o BMW oficial da Presidência por ele usado tinha sido subtraído de um proprietário no bairro de Moema, em São Paulo, em 1998.

Diante do colossal dossiê de barbaridades perpetradas contra os interesses brasileiros no Paraguai, o governo tem sido sistematicamente leniente ao longo dos anos. Um misto de má consciência ainda pelos efeitos no país vizinho da Guerra do Paraguai (1864-1870) com a patrulha politicamente correta contra o “imperialismo brasileiro” tem intimidado sucessivos governos a exercerem sobre o Paraguai a pressão necessária.

Agora, porém, com um presidente em Assunção que reconhece a bandalheira e se diz disposto a combatê-la, o presidente Lula e seu governo têm pelo menos a quem pegar pela palavra.

O forte de ACM Neto

Parte do auê em torno da atuação do jovem deputado de primeiro mandato ACM Neto (PFL-BA) se deve à inevitável bajulação que cerca o avô, o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA).

ACM Neto, 24 anos, tem atuado com desenvoltura e mostra habilidade oratória que muitos outros estreantes já exibiram em Brasília em diferentes legislaturas. Seu forte, porém, é o conhecimento do Regimento Interno da Câmara dos Deputados e do Regimento Comum do Congresso – conjunto extenso e intrincado de regras de funcionamento do Legislativo que a grande maioria dos parlamentares não domina.

História em leilão

É de primeira qualidade o lote de objetos históricos que estará sendo leiloado até a noite desta quinta-feira em São Paulo pelo leiloeiro oficial Luiz Fernando Moreira Dutra.

Em meio a dezenas de obras de arte contemporâneas que fazem parte do leilão – como óleos de Cícero Dias, Antonio Henrique Amaral, Manabu Mabe, Alfredo Volpi e Aldo Bonadei, entre outros – há preciosidades como uma casaca e uma sobrecasaca do imperador D. Pedro II, um uniforme militar de seu genro, o Conde D’Eu, um vestido e três pés de meia que foram da Princesa Isabel, papéis de exercícios caligráficos do imperador quando criança e serviços de porcelana inglesa que já serviram ao Duque de Caxias e a D. João VI.

História em leilão (2)

As roupas que vestiram o imperador têm como lance mínimo modestíssimos 7.500 reais no evento da Dutra Leilões.

Será que o Ministério da Cultura, como deveria, vai arrematar alguma dessas peças?

O leiloeiro Luiz Fernando Moreira Dutra, que já apregoou incontáveis peças de valor histórico, conta: “Em 20 anos de trabalho no ramo, jamais tive o privilégio de ver arrematada uma delas por um representante do nosso governo”.

Fome Zero sem bumbo

Se efetivamente já foram capacitadas equipes para o Fome Zero em 1.237 cidades brasileiras, conforme informação oficial, então o governo está deixando de bater o bumbo para alguma coisa do programa que, finalmente, dá certo.

A meta inicial era atingir 1.000 municípios até o final do ano. Com 1.237 cidades tendo equipes habilitadas para a gestão e fiscalização do Fome Zero e já podendo, portanto, ser beneficiadas pela distribuição de dinheiro do programa, é possível que o cartão-alimentação atinja até o final do ano famílias em 1.700 cidades – 70% mais do que o governo prometeu.

O apartamento de Coppola

Depois de mais uma estada no Brasil, desta vez de três semanas – e ao que tudo indica realmente inesquecível –, o cineasta Francis Ford Coppola encarregou um amigo de procurar um apartamento para comprar no Rio.

Forneceu ao amigo duas balizas: deve ter uma boa vista e pode custar até 1 milhão de dólares.

Para a minha vaga, não

Em campanha para a cadeira número 39 da Academia Brasileira de Letras, vaga desde a morte de Roberto Marinho, no dia 6, o jornalista e escritor Fernando Morais mereceu a seguinte resposta de um futuro eleitor, quando lhe indagou se, além de votar, iria trabalhar por sua candidatura:

– Eu só não trabalharia para você se fosse para a minha vaga.

A inspiração de Valadares

Em sua campanha para a Academia, Fernando Morais conta que tem cumprido a etiqueta da casa e procurado, para agendar visitas pessoais, mesmo eleitores já comprometidos com a candidatura do senador Marco Maciel (PFL-PE), subitamente revelado ao mundo como escritor.

Para esses, Morais tira do fundo do baú uma receita dada pelo legendário governador e senador mineiro Benedito Valadares, já falecido, autor de grande número de tiradas do anedotário político brasileiro, como o célebre “estou rouco de tanto ouvir”. Quando percebia que, em alguma disputa, já tinha perdido o voto do interlocutor, Valadares lançava mão de uma última cartada: “Sei que vosmecê está comprometido com Fulando de Tal. Sei e respeito sua opção. Mas se na solidão, no lusco-fusco da cabine indevassável, sua mão vacilar, não deixe de considerar com carinho o nome deste seu obscuro admirador.”

Quem pagará o fardão de Scliar?

Por falar no assunto, poderá ser rompida a tradição de ser pago pelo governo de seu Estado natal o fardão com que o escritor gaúcho Moacyr Scliar tomará posse em setembro na Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleito em julho. Sabedores do constrangimento do escritor em ver sacrificados em 50 mil reais – custo estimado do uniforme completo – os apertados cofres do governo do Rio Grande do Sul, amigos de Scliar se movimentam para que empresários do Estado assumam a despesa.

O custo do fardão, inspirado numa antiga farda do corpo diplomático brasileiro, explica-se pelo refinamento de seus componentes. A camurça de lã verde-garrafa em que é confeccionado, por exemplo, vem da Inglaterra, e os bordados que a ornamentam são feitos em fios de ouro importados da França.

Fazem ainda parte do uniforme completo uma capa longa e um chapéu de dois bicos ornado com plumas brancas, ambos feitos da mesma camurça de lã, além de uma espada e de um colar de ouro com o lema da ABL, em latim — “Ad Immortalitatem” (rumo à imortalidade).

Não é bem assim

É exagero e tem leve conotação ideológica contra dizer, como tem sido insistentemente repetido, que nos fundos de contribuição definida o participante (no caso, o funcionário que ingressar no serviço público depois da reforma da Previdência) “não sabe” o valor que receberá como aposentadoria.

Dos mais de 12 milhões de brasileiros que pagam mensalmente uma certa quantia para ter uma aposentadoria complementar no futuro (tanto os participantes de fundos de pensão “fechados”, mantidos por empresas para seus funcionários, como os que contribuem para a chamada “previdência complementar aberta”, ou seja, o conjunto de planos de aposentadoria oferecidos por bancos e seguradoras), a grande maioria está incluída em planos de contribuição definida.

Em todos os casos, a instituição – fundos de pensão, bancos ou seguradoras – demonstra periodicamente ao participante como está a rentabilidade das aplicações e, com base nelas, quanto possivelmente será sua aposentadoria, dependendo do tipo de plano em que o interessado está inscrito.

Números irrelevantes

As idades dos 38 membros da Academia Brasileira de Letras (há duas vagas), somadas, chegam a 2.863 anos.

Números relevantes

O Brasil produzirá este ano 22 milhões de toneladas de açúcar, a um custo por tonelada – 160 dólares – considerado o menor do mundo.

Enchente de funcionários

Ou há um engano nas contas e previsões oficiais, ou o governo Lula quer combater o desemprego contratando funcionários. O fato é que a estimativa do ministro da Previdência, Ricardo Berzoini, de que entre 20 e 25 mil pessoas ingressarão no serviço público da União por ano depois da reforma da Previdência estabelece um contraste escandaloso com as políticas de contratação que vinham vigorando na gestão FHC.

Se a estimativa se confirmar pelo teto, e mesmo se supondo que as novas contratações só começassem em 2004, os eventuais dois mandatos de Lula significariam 175 mil novos funcionários.

Durante os oito anos de FHC, foram contratados 52 mil funcionários.

Molecagem

O presidente nacional do PFL, senador Jorge Bornhausen (SC), só tem uma expressão para designar a introdução como contrabando, no projeto do governo sobre a reforma da Previdência aprovado na Câmara dos Deputados, da estatização dos seguros de acidente de trabalho no país: “passa-moleque”.

Bornhausen jura que a medida vai cair no Senado.

Imprensa “comprada”

É cada vez maior a obsessão com a mídia do ex-guru do ex-candidato à Presidência e hoje ministro da Integração Nacional Ciro Gomes, o filósofo Roberto Mangabeira Unger. Invariavelmente incluída por ele na relação das mazelas brasileiras, a imprensa brasileira agora é referida por Mangabeira Unger como “comprada”.

O curioso é ter uma vez mais tocado no assunto, por escrito, num dos carros-chefe da mídia do país, a “Folha de S. Paulo”, onde escreve toda terça-feira.

Desde a Revolução Francesa

A demissão do diretor executivo da Fundação Nacional de Saúde (Fundasa), Antonio Carlos de Andrade – punido pelo fato de ser marido de uma deputada, Maninha (PT-DF), que se absteve de votar com o governo durante o primeiro turno de votação da reforma da Previdência na Câmara dos Deputados –, além de ser um escândalo do ponto de vista moral, investe simbolicamente até contra um princípio consagrado na Constituição.

Está lá, no capítulo que trata dos direitos individuais, artigo 5°, inciso XLV: “Nenhuma pena passará da pessoa do condenado”.

Várias constituições brasileiras repetiram esse princípio, com diferenças de palavras. Ele surgiu na Revolução Francesa de 1789, mas, no PT, parece que ainda não pegou.

Disseram — Lula e Churchill

Em seus nem sempre felizes improvisos, o presidente Lula, entre outras pisadas na bola, já levou duas vezes Napoleão Bonaparte à China, onde o Corso jamais esteve. Na recente visita oficial ao Peru, em mais um improviso feito num encontro com governadores de província, o presidente a certa altura abordou a prática democrática, comentando, literalmente: “É como dizem alguns democratas no mundo, a democracia é muito difícil de ser exercida, mas é o melhor regime para governar um país, um Estado, uma cidade”.

Na verdade, não foram “alguns democratas no mundo” que proferiram a frase, nem é exatamente essa a citação famosa. Lula deve ter querido se referir a um célebre discurso feito na Câmara dos Comuns em 1947 pelo então ex-primeiro-ministro britânico sir Winston Churchill, um dos ganhadores da Segunda Guerra Mundial, que logo depois do fim do conflito perdeu as eleições mas voltaria ao governo novamente em 1951 e o exerceria até 1955.

“Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito”, disse Churchill. “Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais (…)”.

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