E mais: A escassez de referências a privatizações no programa de Serra, Lula ganha mais apoio do empresariado, a filha de Pelé reaparece e se joga na política e o fortalecimento da Polícia Federal – uma herança de FHC para seu sucessor

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Já está fisicamente tomando corpo uma das atividades principais a que o presidente Fernando Henrique Cardoso vai se dedicar depois de deixar o Palácio do Planalto. Com grande discrição, e contribuições financeiras de amigos e empresários, está comprado um andar inteiro de um imóvel em região nobre de São Paulo para instalar o centro de estudos que FHC quer instituir tendo como base o imenso material que recolheu, anotou e gravou em seus dez anos de passagem pelo poder, desde que assumiu o Itamaraty no governo Itamar Franco, em 1992.

O centro provavelmente vai ser uma fundação, que em tal caso seria a proprietária do imóvel e seu conteúdo.

O próprio FHC tem falado pouco de sua vida pós-poder. Ele já disse que, inicialmente, quer passar três meses viajando. Manifestou também, de forma genérica, intenção de trabalhar com uma ou mais organizações não-governamentais (ONGs) no futuro. E aceitou, embora ninguém saiba bem como vai ser, um trabalho para a ONU, depois do convite um tanto fluido que recebeu do secretário-geral Kofi Annan para compor um grupo seleto que vai estudar questões ligadas ao desenvolvimento sustentável.

O que pouca gente sabe, além da compra do imóvel para o centro de estudos, é que FHC foi convidado, e aceitou, ser a partir de 2003 chairman of the board do influente Diálogo Inter-americano (The Inter-American Dialogue), entidade dedicada a assuntos do Hemisfério Ocidental e o único think tank em Washington especializado em América Latina e Caribe. Foi fundado em 1982 por um grupo de ex-altos funcionários, políticos, acadêmicos e empresários americanos – em todos os casos, tanto republicanos como democratas – e latino-americanos preocupados com a política belicista do governo Ronald Reagan (1981-1989) na então convulsionada América Central e interessados em oferecer alterantivas de políticas mais construtivas.

O ex-subsecretário de Estado Sol Linowitz, figura respeitada do establishment americano e ex-negociador dos Estados Unidos no Oriente Médio, é o idealizador e ainda hoje o “pai” do Diálogo. Integram-no um time de peso, que inclui, entre os americanos, o ex-presidente Jimmy Carter, o general Brent Scowcroft, ex-conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, a ex-representante comercial Carla Hills e o ex-subsecretário de Estado para assuntos Interamericanos Viron Vaky.

Dos latino-americanos, são membros atuais, além do próprio FHC, os ex-presidentes Violeta Chamorro (Nicarágua), Júlio Maria Sanguinetti (Uruguai) e Gonzalo Sánchez de Lozada, que agora volta ao poder na Bolívia, além do ex-secretário-geral da ONU Javier Pérez de Cuéllar e do escritor Mario Vargas Llosa, ambos peruanos.

O convite a FHC foi feito pelo presidente do Diálogo, o físico de formação Peter Hakim, ex-dirigente da Fundação Ford, no posto desde 1994.

Ser chairman significa ocupar posição de algum prestígio, mas não ter emprego com opulento escritório às margens do Rio Potomac. Trata-se de um posto mais honorífico, que, porém, propicia a FHC uma plataforma com visibilidade para falar de temas da região em Washington e no resto do Hemisfério. O presidente não vai precisar viver nos EUA, limitando-se a algumas visitas anuais e à presidência dos encontros periódicos da entidade.

Conheça um pouco do Diálogo em http://www.thedialogue.org

 Registro

Nas 80 páginas do programa de governo do presidenciável tucano José Serra, só aparecem duas únicas e escassas vezes a palavra “privatização”. Ambas as menções se referem à privatização da telefonia – e ao passado.

Lula, Trevisan e Staub

Foi o empresário e consultor Antoninho Marmo Trevisan o responsável oculto pela espetacular adesão, ocorrida esta semana, de um peso-pesado do empresariado à candidatura petista de Luiz Inácio Lula da Silva – Eugênio Staub, presidente da Gradiente.

Staub, velho eleitor do PSDB, dirige um colosso do setor eletro-eletrônico que faturou 262 milhões de dólares no ano passado, compôs a diretoria da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e presidiu o conselho do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), que reúne a fina flor do empresariado. Ele declarou publicamente seu voto a Lula em entrevista de página inteira à Folha de S. Paulo na segunda-feira, 23, dizendo considerá-lo o candidato mais apropriado para o momento que o país atravessa, por sua capacidade de “dialogar e somar”.

O processo de atração arrastou-se por mais de ano e meio. Começou em dezembro de 2000, num jantar a quatro organizado por Trevisan – que também declarou publicamente este ano seu voto a Lula – na casa de um terceiro empresário.

 Filha do Rei

Sandra Arantes do Nascimento, aquela filha produto de um efêmero romance de juventude que Pelé só reconheceu por força de sentença judicial, reapareceu – e em plena campanha eleitoral.

Ela é candidata a deputada estadual pelo PTB em São Paulo, sob o número 14789. E se apresenta, nas peças de propaganda, como “A Filha do Rei”.

Herança na segurança

Discretamente, ao que parece sem nem os presidenciáveis saberem, o governo FHC está deixando uma boa herança ao sucessor na área de segurança. A Comunidade Européia aprovou recentemente um megaempréstimo de 430 milhões de dólares para o reaparelhamento e fortalecimento da Polícia Federal – item que figura nos programas eleitorais dos quatro candidatos.

A dinheirama, que apenas começou a ser liberada, contempla dois programas: o Proamazônia, para todas as atividades da PF na região amazônica, e o Promotec, para a PF como um todo. Os dois programas prevêem, entre outros itens, treinamento de policiais e peritos, aquisição de equipamentos e armas, modernização da infra-estrutura pericial da PF, ampliação e modernização dos sistemas de comunicação e da área de informática e até a compra de barcos de patrulha para trabalho em rios considerados “problemáticos”, como o Paraná.

O rio, como se sabe, passa pela chamada Tríplice Fronteira – a região entre Brasil, Argentina e Paraguai que fervilha de contrabando, tráfico de armas e de drogas, e na qual o governo americano enxerga também perigosas atividades terroristas.

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