O que será que o PT vai fazer com a reeleição? E mais: o Brasil na luta armada angolana, as mangas de Palocci, nuances do vaso sanitário presidencial, Bradesco em ascensão, Bresser Pereira põe o dedo na ferida, a Justiça em férias e Itamar em Roma

A reforma da Previdência, já se viu, vai ser uma tremenda batalha. Mal o ministro Ricardo Berzoini começou a falar no assunto e o corporativismo, tal como Cérbero, o hediondo cão de três cabeças da mitologia grega, colocou as suas de fora (com a diferença de que Cérbero, aqui no Gigante pela Própria Natureza, tem múltiplas, incontáveis cabeças). A reforma tributária, então, nem se fala: todo mundo é favorável – União, estados e municípios –, desde que o imposto a ser extinto ou reduzido, se for, seja o alheio. E alguém acha que a reforma da legislação trabalhista vai ser fácil?

Pois bem, como essas fazem parte das prioridades do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é cada vez mais provável que consumam o tempo e as atenções de governo e Congresso por boa parte do mandato do presidente. Como ficará, em tal caso, a reforma política? Que prioridade o governo daria a ela? A colunista Dora Kramer lembrou com propriedade um dia desses, no Jornal do Brasil, que as manobras de cooptação que o PT tem feito junto a diversos partidos a cada dia que passa lhe retiram base moral para propor um dos baluartes da reforma política – a exigência de fidelidade partidária. A reforma, pois, tenderia a ir sendo empurrada com a barriga.

Mas suponhamos que o governo consiga aprovar em prazo razoável as reformas da Previdência, a tributária e a trabalhista. Aí, não tem jeito: chegaria a vez da reforma política. Ela comporta um grande elenco de assuntos, que vão da fidelidade partidária à discussão do voto distrital, passando pela chamada “cláusula de barreira” (percentual mínimo de votos para que um partido possa eleger representantes e ter tempo disponível na TV) e indo até a extinção dos atuais suplentes biônicos de senador e, mesmo, o fim do voto obrigatório.

Uma reforma assim teria, porém, que passar por um tema especialíssimo: a reeleição. Cumpre aqui revolver, do armário já meio embolorado das lembranças, a de que o PT foi ferrenhamente contrário ao instituto da reeleição para ocupantes de cargos no Executivo, quando a proposta foi apresentada ao Congresso, em 1997, para beneficiar o presidente Fernando Henrique Cardoso.

E agora? Quando chegar a vez de dar passos na areia ultramovediça da reforma política, o que é que o PT, gostosamente instalado no Palácio do Planalto e na Esplanada dos Ministérios, vai fazer com a reeleição? Lula disse pelo menos duas vezes, em comícios na campanha eleitoral, que, se eleito, não concorreria de novo.

Mas uma das mais influentes figuras do partido, o presidente da seção paulista, Paulo Frateschi, colocado pelo signatário diante desse problema – eventual reeleição de Lula – ainda na véspera do segundo turno da eleição presidencial, quando só Deus em pessoa tiraria a vitória do então candidato do PT, admitiu que Lula de fato prometera não se recandidatar. Mas, ressalvou, “no devido momento” o novo presidente seria convencido a mudar de idéia, já que o partido tem “um projeto de poder” e vai querer ter seu fundador novamente disputando.

O próprio Lula, em pelo menos duas reuniões recentes, chegou a coçar a cabeça diante da extensão da pauta do governo, comentando: “Mas como tem coisa pra fazer em quatro anos…”. Atos falhos de ministros referindo-se a dois mandatos de Lula já ocorreram duas ou três vezes – a primeira delas logo no primeiro dia no cargo do novo ministro do Trabalho, Jacques Wagner, quando discursou:

– Espero que os corações dos brasileiros se mantenham acesos pelos quatro anos… pelos primeiros quatro anos do governo Lula.

Cedo ou tarde, tão certo como vai continuar havendo Carnaval todo ano, a questão da reeleição voltará a ser discutida. Não há razões para supor que o compromisso público do presidente de que não se recandidataria não tenha sido de boa-fé. Mas, tal qual ocorreu com uma coleção de idéias, iniciativas, medidas e instituições dos amaldiçoados tempos “neoliberais” de FHC, também a reeleição acabará alegremente absorvida pelo novo governo petista.

Aí, sem dúvida, será a vez de FHC assistir a tudo, de camarote. Quem sabe em Paris.

Dinheiro para Savimbi

O governo do presidente José Eduardo dos Santos em Angola sempre desconfiou, mas hoje, decorrido quase um ano da morte do dirigente guerrilheiro Jonas Savimbi numa emboscada do Exército, em fevereiro de 2002, tem absoluta certeza e provas materiais de que uma grande empresa brasileira com interesses no país era forte financiadora da sua organização, a  União para a Independência Total de Angola (Unita).

Quer dizer, essa empresa financiou uma organização guerrilheira que combatia, desde a decretação da independência angolana, em 1975, um governo (o do Movimento Popular pela Libertação da Angola, o MPLA, originalmente comunista) que o Brasil apoiava e apóia. (O fato de o governo ainda hoje ser ditatorial e corrupto não muda as coisas).

Além disso, o dinheiro privado brasileiro se juntava aos gordos recursos que, durante muitos anos, eram canalizados para Savimbi pela CIA americana e o regime racista sul-africano do apartheid, encerrado em 1994 com a eleição do dirigente oposicionista histórico Nelson Mandella para a Presidência.

 Fashion news

Grande encurtador de orçamentos e custos, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, precisa urgentemente mandar encurtar também as mangas de alguns de seus paletós.

Segredos do gabinete presidencial

O presidente Lula deve a seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, não apenas uma série de facilidades propiciadas pela transição pacífica de governo, como também uma ou outra providência de cunho mais doméstico.

Uma delas, conhecida por pouquíssima gente, tem a ver com a dignidade do gabinete presidencial, situado no 3° andar do Palácio do Planalto. FHC já tinha quase um ano no governo quando uma boa alma soprou ao presidente que a descarga do vaso sanitário do banheiro de seu gabinete era indiscreta, podendo ser ouvida com clareza na sala de espera. Construído entre 1959 e 1960, o Planalto, além de não ter paredes com os recursos de isolamento acústico existentes hoje, foi equipado com modelos antigos – e ruidosos – de válvulas embutidas na parede.

FHC mandou trocar.

 A força do Bradesco

Todo mundo divulgou, mas não é verdade que, com a compra do BBV Banco espanhol, anunciada semana passada, o Bradesco teria ultrapassado o Banco do Brasil (BB) em número de agências no país.

Somando suas 2.928 agências às 438 que vai incorporar do BBV Banco, as 3.366 agências do Bradesco ainda são inferiores às 3.443 do BB – sem contar a forte possibilidade de o Bradesco eliminar algumas por superposição com sua atual rede.

Mas não é brincadeira a força do Bradesco, o segundo maior banco do país, maior inclusive do que a Caixa Econômica Federal (CEF) tanto em ativos (R$ 156,9 bilhões contra R$ 123,4 bilhões) quanto em agências (excluídos postos de atendimento, tem 1.416 mais que a CEF). Deixando atrás o Itaú, o Bradesco aos poucos se aproxima do próprio BB, embora este ainda mantenha a liderança com mais de R$ 50 bilhões mais em ativos.

A mil

O ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser Pereira continua a mil. Neste primeiro semestre letivo, vai dar três cursos na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo: Macroeconomia para o Brasil, com seu velho parceiro acadêmico Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governador Mário Covas em São Paulo durante seis anos, e dois outros, Metodologia Cientifica para Economistas e Interpretações do Brasil, com o professor José Márcio Rego.

No segundo semestre, será professor visitante da École de Hautes Etudes en Sciences Sociales, de Paris.

Sobre o governo de Lula, Bresser continua com posição mantida na fase de transição:

– No plano da política econômica está ficando cada vez mais claro que Serra faria mudanças maiores do que as que estão sendo planejadas pela equipe de Lula.

Justiça em férias

O bloqueio de impostos do Rio de Janeiro em conseqüência de não-pagamento de dívidas com a União, teve, como se sabe, sua suspensão ordenada provisoriamente pelo ministro Ilmar Galvão, do Supremo Tribunal Federal, a quem a governadora Rosinha Matheus recorreu.

O despacho do ministro, proferido há duas semanas, ainda vai demorar pelo menos outras duas para ser submetido ao plenário do STF.

O motivo? As férias forenses – essa magnífica invenção brasileira que faz com que boa parte do Judiciário, sobretudo os tribunais superiores, pare na prática de funcionar nas vésperas do Natal e só volte ao batente em fevereiro.

As razões de magistrados e funcionários da Justiça não poderem, como todos os demais mortais, tirar férias em caráter rotativo, de forma a que milhões de brasileiros possam penar menos à espera de decisões judiciais, permanecem mergulhadas em impenetrável mistério.

Vidão

E o ex-presidente Itamar Franco, hein? Atendeu, como informou o Palácio do Planalto, a um “apelo” do presidente Lula e aceitou ser embaixador do Brasil em Roma.

Dessa forma, vai viver em uma das melhores cidades do mundo e trabalhar na esplêndida Piazza Navona, onde fica a sede da embaixada, o Pallazzo Doria Pamphili, jóia arquitetônica do século XVI. Como complemento a tais sacrifícios, vai embolsar por volta de 8 mil dólares por mês de salário.

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