Ele se chamava Manolis Kantaris, 44 anos, trabalhador, residente em Atenas. Rumava para uma maternidade de Atenas, na Grécia, pois lhe nascera uma filha, e levava uma câmera de vídeo para registrar o grande evento. Quando descia do automóvel perto do hospital, três jovens lançaram-se sobre ele para roubar a câmera e Kantaris, que aparentemente reagiu, foi esfaqueado e morto.

A boataria de que havia sido assassinado por imigrantes do Afeganistão – algo que a polícia confirmaria ao prender dos jovens afegãos, somando-se a eles um paquistanês que está foragido– detonou uma onda de violência xenófoba inédita na Grécia, país que está em frangalhos depois de virtualmente ter quebrado e de o governo do primeiro-ministro socialista Giorgos Papandreu estar sendo socorrido, mediante contrapartidas drásticas, pela União Europeia, o Banco Central Europeu e o FMI.

Bandos neonazistas

Bandos de militantes neonazistas ligados ao movimento Chrisi Avigi (“aurora dourada”) foram às ruas, invadiram dezenas de ônibus e espancaram todas as pessoas que lhes pareceram estrangeiras. Militantes de extrema esquerda também apareceram, passando enfrentar os neonazistas, a polícia entrou em ação e a onda de violência produziu dezenas de feridos e resultou na morte de um imigrante de Bangladesh. A polícia revistou 900 pessoas, deteve 670 e prendeu 36, 27 dos quais imigrantes ilegais.

A crise econômica, o desemprego e o medo do futuro são agora a explicação – ou o pretexto – para a onda de racismo que, como um rastilho, se espalha pela Europa.

Exemplos não faltam. Ainda recentemente, comentei o enorme crescimento eleitoral de um partido na Finlândia que, embora tenha propostas concretas e razoáveis para a economia e a gestão pública, já leva o problema no nome: Autênticos Finlandeses. A impecável Dinamarca, a pretexto de controlar imigrantes ilegais, atropelou o Tratado de Schengen sobre livre circulação na Europa e, pela primeira desde que aderiu ao chamado “Espaço Schengen”, há 15 anos, criou barreiras em suas fronteiras — imaginem — com a Suécia e a Alemanha.

Berlusconi vocifera contra uma “ciganópolis”

Para citar outros poucos exemplos, na civilizadíssima Milão, capital do Norte da Itália, governada há 20 anos por conservadores e onde a centro-esquerda é favorita no segundo turno da eleição para prefeito nos próximos domingo e segunda-feira, o Povo da Liberdade (PDL), partido do primeiro-ministro Silvio Berlusconi, faz uma campanha baseada na homofobia, na propaganda de que a cidade será “meca das drogas” caso o partido perca e, principalmente, na hostilidade a grupos étnicos, como ciganos e árabes.

O próprio Berlusconi, natural de Milão e proprietário do time de futebol do Milan, concedeu uma entrevista a 5 canais de televisão em que vociferou:

—   Milão não será nunca uma ciganópolis árabe (sic) governada pela foice e o martelo.

Na Catalunha, provavelmente a comunidade mais tolerante da Espanha, um prefeito do Partido Popular (PP), conservador, acaba de ser eleito em Badalona, terceira maior cidade, com base numa plataforma de linha dura contra os imigrantes romenos de origem cigana, a quem atribui a criminalidade na cidade e aos quais promete não dar preferência nos serviços sociais em detrimento aos nacionais e, sem que haja apoio em lei para uma autoridade municipal fazê-lo, “expulsar” os clandestinos.

“Islamização da Catalunha”

As eleições de domingo passado revelaram ainda um crescimento na região do claramente xenófobo Plataforma per Catalunya (PxC), auto-denominado “um partido catalão independente baseado na segurança dos cidadãos e no controle da imigração”.

O PxC defendeu, na campanha, brecar a “islamização da Catalunha”, se colocou contrariamente a que os 400 mil muçulmanos que vivem na região há mais de 10 anos recebam nacionalidade espanhola e defendeu a tese de que “a imigração islâmica, da África subsaariana, a andina e a oriental” ameaçam modificar “de forma irreversível a fisionomia europeia da Catalunha”.

Imigrantes aportam mais do que recebem

Na Grécia, berço da democracia, foi constragedor verificar que um em cada morador de Atenas considera justificados os ataques indiscriminados contra imigrantes, segundo pesquisas de opinião pública realizadas depois da pancadaria. O mesmo se deu quando o cantor de protesto Dionysis Savvopoulos, um ícone da resistência cultural à “ditadura dos coronéis” que oprimiu a Grécia entre 1967 e 1974, disse que os imigrantes “deveriam ser enviados a ilhas remotas para cultivar a terra”.

Tudo isso num momento em que a Fundação La Caixa, uma das maiores instituições financeiras da Espanha, divulga um estudo mostrando que os imigrantes, que representam 12,2% da população espanhola, absorvem somente 6,8% dos serviços sociais, 6,1% dos gastos do país com educação e 5,1% dos investimentos em saúde. São, portanto, o que se chama de “contribuintes líquidos” do Estado – aportam mais do que se gasta com eles.

Contribuição vital para a Europa

A juventude da população imigrante explica em boa parte o fenômeno, tanto é que apenas 0,5% das pessoas que recebem aposentadoria pública Espanha são imigrantes de fora da Europa. O quadro, muito provavelmente, não é distinto nos demais países europeus, mas preconceito e ódio racial, como se sabe, não são produtos da razão.

A hostilidade aos imigrantes deixa de levar em conta que eles acorreram à Europa para realizar trabalhos que os nacionais não aceitavam (e ainda não aceitam) fazer, e que sua contribuição foi vital para a prosperidade e o bem-estar de que os diferentes países de acolhida vinham desfrutando até explodir a crise de 2008. Sem eles, a Europa não chegaria até onde chegou.

Cruel ironia da história

Por uma cruel ironia da história, muitos dos europeus que hoje querem livrar o continente de imigrantes da América Latina, da África, da Ásia e da Europa Oriental são descendentes de portugueses, espanhóis, gregos e mesmo italianos que, nos anos 50 e 60, emigraram em massa para fazer o “trabalho sujo” em países ricos de então como a Suíça, a França, a Alemanha e a Grã-Bretanha.

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13 Comentários

wagner sc em 14 de abril de 2012

''Pelo jeito você quer jogar os imigrantes no mar, ou estou enganado, Wagner? Se imigrante não enriquecesse a cultura o Brasil ainda estaria no século XVIII.'' haha que resposta patética.. os imigrantes não europeus devem voltar para seus países.. O Brasil não é a europa.. é óbvio que o brasil foi enriquecido com a imigração.. imigração européia e o brasil nem cultura tinha.. e hoje há dúvidas se tem cultura também haha Na europa a imigração não está ajudando em nada.. Só cria mais problemas.. a população branca está diminuindo e a dos imigrantes aumentando logo o preconceito irá aumentar cada vez mais..

Pessali em 31 de maio de 2011

É bem possível que a Grécia seja o primeiro país a virar a mesa na "primavera Européia." Esse homem que foi assassinado, um bom grego que estava filmando o caminho para o hospital para ter sua filha, e foi friamente assassinado por invasores estrangeiros, foi só a faísca que deu início ao incêndio. Acho que de repente, ao testemunharem essa brutalidade contra seu compatriota, os gregos perceberam o que estava acontecendo e aonde aquilo tudo ia chegar, e resolveram ir às ruas. Me faz pensar...quanto sangue terá que ser derramado para o ocidente acordar para a realidade?

Pessali em 31 de maio de 2011

Segue firme Europa, levanta tua cabeça!

wagner sc em 31 de maio de 2011

claro qualquer um que nao concorde com vcs sobre os imigrantes e pouco informado,ignorante e etc vcs da veja e de outras revistas so querem isso msm! querem ver a europa cheia de imigrantes e quanto mais estranho(que nada tem a ver com a cultura branca europeia) melhor... a midia so mostra bobagens como imigraçao enriquece a cultura e bla bla bla... Pelo jeito você quer jogar os imigrantes no mar, ou estou enganado, Wagner? Se imigrante não enriquecesse a cultura o Brasil ainda estaria no século XVIII.

Raphael Machado em 31 de maio de 2011

Que piada. O trabalho de imigrantes terceiro-mundistas na Europa não é necessário. Graças às políticas assistencialistas e pró-alógenos, a Europa está repleta de autóctones bem qualificados porém no desemprego. Não é à toa que em todos os países da Europa Ocidental...a maioria dos imigrantes são outros europeus. Ou seja, cai o mito da "necessidade do imigrante". No mais, em que se encontra refutado o fato de que a maioria dos crimes violentos na Europa Ocidental são cometidos por imigrantes? "Name-calling" não muda fatos. Você parece pouco informado, caro Raphael. A maioria esmagadora dos imigrantes nos países da União Europeia é constituída, sim, de imigrantes de fora da Europa. E não existe essa estatística "comprovando" que a maioria dos crimes violentos é cometido por imigrantes de fora da Europa. Se você me indicar uma fonte confiável, aí passarei a acreditar.

jfaraujo em 28 de maio de 2011

Eu tinha muita vontade de viajar para a Europa, desde a Holanda, França, Alemanha, mas principalmente tinha vontade de conhecer a Rússia, São Petesburgo, Moscou, Volgogrado, a Sibéria, são lugares lindos, porém tenho conhecimento de que os europeus, e mais especificamente os russos, são extremamente xenófobos, e nada hospitaleiros. Por isso, é melhor fazer turismo por aqui mesmo, aliás, no Brasil sobram lugares lindos para se conhecer.

Ailton em 27 de maio de 2011

Como está cada dia mais dificil um latino ultrapassar os portões dos aeroportos do Estado Unidos, ficou o Brasil como a segunda escolha. SAomos muito complacentes, as vezes beiramos as raias da ingênuidade, os espanhóis ao vir brasileiros a desembarcar em Barcelona. Madrí ou qualquer outro aeroporto hispânico, de imediato ele é detido por 24hs em salas, sem água e alimentos, sob muita ofensa, xingamentos e humilhações esses brasileiros são recolocados no mesmo avião, de volta ao Brasil. Chegou a hora de retribuir tanta descordialidades que sempre nos dispensaram.

Ailton em 27 de maio de 2011

Espanhóis já são 380 mil só na Bahia, e cada dia chaga mais pelo aeroporto "2 de Julho"( atual, Luiz Eduardo Magalhães) Bahia sempre os recebera de braços abertos, todos vem para ficar, sejam migrantes legais ou ilegais, penisula hibérica sempre mandou ordas de hispanicos ao nosso Estado. Eles resolvem os seus problems de desempregos com 'exportações" de migrantes. sempre foi assim, Estados Unidos e Brasil são os destinos mais procurados.

Think tank em 27 de maio de 2011

Por entender que a reação é um ato de sobrevivência de todo ser vivo diante de uma ameaça, pouco importa se é um passarinho ou uma pessoa, que vem da parte mais superficial da mente antes de qualquer raciocínio lógico, martelar a reação como justificativa do assassinato é atestado de ignorância comportamental, uma farsa. Autoridades que insistem na mantra de que foi assassinado ou ferido por ter reagido é patética, (casos de assassinatos sem reação é que não faltam) é uma tática para mascarar a própria incompetência. A reação é sempre espontânea, ato inconsciente para não morrer, mesmo pessoa pacata reage de forma inimaginável.

Paulo Bento Bandarra em 27 de maio de 2011

É fácil achar soluções para problemas que não temos, e temos evitado. Afinal, as vagas para refugiados para a ONU sempre são ofertadas em números escassos. Só "reagimos" melhor ao problema por que não o temos. Tivéssemos a enxurrada de populações com culturas, educação e comportamentos radicalmente contrárias as nossas, não acho que reagiríamos diferente. Imagine-se juntar as nossas massas desassistidas, uma multidão de emigrantes para dar tudo! Juntando a isto, como neste exemplo, o aumento de criminalidade e ineficiência do Estado.

Jeremias-no-deserto em 26 de maio de 2011

Muito pior é a situação de imigrantes muçulmanos do Mogreb nos paises europeus como a França, Alemanha, Suécia e Dinamarca,por exemplo. A rejeição em assimilar novos costumes e a enorme diferença cultural entre esses povos têm motivado reações violentas por parte dos europeus.A imprensa internacional tem registrado um aumentou significatico do número de estupros a jovens suecas cometidos por imigrantes islâmicos e na França os cidadãos nativos não podem circular em bairros onde predomina a população muçulmana.A situação não é diferente na Inglaterra. É de se esperar, pois, uma radicalização entre imigrantes e os naturais dessas nações, mórmente em paises que apresentam uma economia em crise, como é o caso da Grécia.

Karla em 26 de maio de 2011

Foi esse o caldo de cultura que levou ao surgimento dos nazistas. Uma Alemanha em frangalhos sujeita a um Tratado, o de Versalhes, que esmagava o povo alemão. Esse mundo é mesmo um horror, diria Ernesto Sabato.

Pequeninão em 26 de maio de 2011

Imigração precisa ser acompanhada de assimilação, ou vira conflito. A enorme onda de imigrantes muçulmanos para a Europa criou condições para a criação de sociedades paralelas. Igual as colônias de alemães e italianos no Sul do Brasil até metade do século XX. A diferença é que alemães e italianos são cristãos e de cultura européia, da qual a nossa veio. Já o mundo muçulmano é hostil a todos os valores ocidentais: igualdade jurídica, liberdade de expressão, liberdade religiosa, respeito a vida... Os clérigos muçulmanos ainda regulam a vida deles e pregam a morte dos cruzados e infiéis dia sim e dia também. Que cidadão quer seu país cheio desses cavalos-de-tróia? Antes de aceitar mais imigrantes é salutar assimilar os que já estão presentes, né?

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