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Chico, com o não menos saudoso Arnaud Rodrigues, na capa do primeiro álbum de Baiano e os Novos Caetanos

Por Daniel Setti

Como só os grandes humoristas sabem ser, Chico Anysio, que morreu na última sexta-feira aos 80 anos, era de uma polivalência assustadora. De ator capaz de dar verossimilhança cômica a 1001 tipos a escritor, não faltavam dotes no currículo do cearense morto na sexta-feira passada aos 80 anos.

Compositor prolífico – e de música “séria”

Evidentemente, a música era também um dos tópicos desta lista interminável de talentos. Um dois mais importantes, aliás. Só entre as catalogadas pelo bom site Discos do Brasil, há 25 canções de autoria ou coautoria de Chico Anysio, sendo nenhuma delas humorística.

E,como fazia um de seus célebres personagens, Bento Carneiro, o Vampiro Brasileiro, ele parecia viajar no tempo, criando letras para divas de diferentes eras da música brasileira, de Dalva de Oliveira (1917-1972) e Dolores Duran (1930-1959) a ElisRegina(1945-1982).

Entre elas, escreveu com Hianto de Almeida “Qualquer Madrugada”, para a mítica Maysa (1936-1977), que a gravou em 1960:

Baiano e os Novos Caetanos: paródia genial e drible na censura

Chico Anysio não seria Chico Anysio, porém, se sua habilidade musical também não fosse usada em favor do humor. E esta combinação sem dúvida atingiu seu auge com o grupo Baiano e os Novos Caetanos, criado com Arnaud Rodrigues (1942-2010), mais conhecido como “Paulinho”, e Renato Piau.

Se tivesse parado no título – o melhor nome-paródia de banda da história – já estava bom. Mas havia ainda a cabeleira de “Baiano”, o músico-hippie criado por Chico (um mix capilar do Caetano fase Londres e Moraes Moreira), e as canções dos dois discos que o trio lançou, em 1974 e 1975.

O clássico definitivo do trio é o samba-rock “Vô Batê Pa Tu”, que abre o primeiro álbum. Pelo título e por versos como “O caso é esse/ Dizem que falam que não sei o que/ Tá pá pintá ou tá pá acontecer/ É papo de altas Transações”, poderia até parecer algo sem o menor sentido.

Porém, se contextualizado com o que vem depois (“Deduração um cara louco/ Que dançou com tudo/ Entregação com dedo de veludo/ Com quem não tenho grandes ligações”) ficava claro o contexto político da música, escrita em plena ditadura militar. Genialidade ímpar para driblar a censura.

(Texto originalmente publicado no blog Lá Vem o Mala da Lista. Para ler mais sobre a relação entre Chico Anysio e a música, clique aqui)

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4 Comentários

Osvaldo Aires em 28 de março de 2012

Acabei de preparar esse tributo ao Pink Floyd. Me desculpa, tinha que dividir com alguém. http://cinenegocioseimoveis.blogspot.com.br/2012/03/musica-momento-sublime-o-muro-que-nem-o.html#!/2012/03/musica-momento-sublime-o-muro-que-nem-o.html

Kitty em 27 de março de 2012

Caro Daniel, Senti sinceramente a morte de Chico Anísio. Sempre assistia seus programas na TV e curtia muito os seus personagens.Foi realmente um gênio que sempre ficará na nossa lembrança. Um abraço-Kitty

Vera Scheidemann em 27 de março de 2012

Todos já disseram tudo sobre o Chico e nada foi exagero. Ele era genial demais ! Vera

SergioD em 27 de março de 2012

Daniel, assistir ao Chico City, com o seu impagável prefeito Walfrido Canavieira, filho do professor Raimundo, era um programa noturno fantástico. Como era no meio da semana ajudava a manter o ânimo do povo para as agruras do dia seguinte. Dizer que Chico Anísio era genial hoje não dá a mínima noção do quão verdadeiramente genial ele foi. Assisti a um show seu na década de 70 e gargalhei até chorar em diversas passagens de suas intermináveis histórias, como "a verdadeira história do descobrimento do Brasil", a do foguete brasilero, o Saci Pererê 1o, a do dia em que foi jogar futebol no interior do antigo estado do Rio, onde um menino vendia seus produtos com o seguinte bordão: "facas e canivetes para depois do amistoso", etc.... Falar mais sobre essa figura é impossível. Que descanse em paz. Abraços

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