O “eleitor de resultados”, voltado para as questões práticas de seu dia a dia e interessado em candidatos que resolvam os problemas de seu quotidiano – marca registrada das eleições de 1990 – já decidiu boa parte do que deveria. Mais da metade dos 27 governos estaduais estão, a esta altura do campeonato, preenchidos, e os 503 novos deputados federais e 31 novos senadores foram inapelavelmente escolhidos.

Foi a eleição do voto a favor, do voto pragmático, foi a vez da ressaca e do descanso depois do paroxismo ideológico vivido nas eleições do ano passado, em que finalmente o País cruzou a linha da vergonha da escolha do presidente e matou uma vontade de votar que há três décadas corações e mentes eram obrigados a amargar. As eleições de 1990 trouxeram consigo o voto sem dramaticidade, colocado na urna não como gesto de paixão e fúria, mas como concretização de uma saudável rotina democrática.

Não temos ainda todos os nomes dos acidentes geográficos do novo mapa político brasileiro, mas o que ficou para trás já permite que cheguemos a algumas conclusões sobre alguns dos fatores que influíram no processo eleitoral, a saber:

O Palácio do Planalto:

Foi um Grande Eleitor silencioso. Fez uma operação tão vigorosa quanto discreta em São Paulo e empenhou-se muito cautelosamente em alguns outros Estados, mas vai jogar, e jogar pesado, no segundo turno, já que a estratégia do presidente Fernando Collor para ter maioria no Congresso e tocar sem problemas seu programa de governo passa pelos governadores eleitos e sua influência sobre as respectivas bancadas.

Os governadores:

Recuperaram seu poder de influência, depois de terem sido espantosamente desnecessários na campanha presidencial do ano passado. Na sucessão estadual deste ano, pelo contrário, foram quase sempre o fator central das diferentes disputas – seja para empurrar para cima seus candidatos, como aconteceu com os governadores de São Paulo, Orestes Quércia, ou do Paraná, Álvaro Dias, seja para arremessá-los no fundo do despenhadeiro das preferências do eleitorado, como sucedeu com os do Rio, Moreira Franco, e de Minas, Newton Cardoso.

O horário eleitoral gratuito:

A grande piada é chamá-lo, justamente, de “gratuito”, já que os candidatos investem fortunas na produção dos programas de rádio e, sobretudo, de televisão, as emissoras perdem faturamento no horário nobre e o Tesouro – ou seja, o contribuinte – paga parte dessa conta, já que os prejuízos potenciais das empresas de comunicação podem ser abatidos do Imposto de Renda. O que tinha um propósito democrático em sua criação, na década de 60, virou um monstro que precisa ser domado pelo novo Congresso.

A Justiça Eleitoral:

Uma vez mais, o País fica reconhecido a seu papel democratizante, de ampliar direitos onde a lei restringia. Com exceções – como o caso do TRE da Bahia, cujas trapalhadas com o controle do horário eleitoral levaram à intervenção do próprio TSE -, mereceu o elogio e o aplauso gerais. E, mais uma vez, gerou uma pergunta incômoda para o restante do aparelho judicial: se a Justiça Eleitoral pode ser razoavelmente rápida e eficaz, por que as outras não?

Os partidos:

Surpreenderam de ponta a ponta. Quem daria alguma coisa no ano passado pelo moribundo PFL, que agora elegerá uma fornada de oito, talvez nove governadores, e boa bancada federal? E o PRN, que iria engordar com o fenômeno Collor, mas apenas resfolega, penosamente, para deixar de ser nanico?

Os partidecos:

Voltaram, em 1990, a ser a grave questão moral que foram no ano passado. Que existam à vontade, como manda a liberdade de organização, mas o novo Congresso precisa deixar de lado a demagogia do atual e estabelecer regras rigorosas para seu acesso à televisão no horário eleitoral. Caso contrário, vamos continuar vendo o que vimos: aventureiros fundam partidos com meia dúzia de cupinchas, adquirem o direito automático a alguns segundos no horário eleitoral e passam a comercializá-lo com despudor de camelô. 

O povo ficou quietinho no seu canto, mas ontem foi quem saiu de casa e decidiu

O deputado Luiz Inácio Lula da Silva apresentou já em 1989 boas propostas a esse respeito: o direito à TV, sugeriu ele, levaria em conta não apenas o número de congressistas eleitos por cada legenda na eleição anterior, mas o seu tamanho real, incluindo número de filiados em todo o País, número de Estados e municípios em que foi organizado corretamente etc. Há outras ideias a respeito. É preciso começar a discuti-las.

As ideologias:

Os escombros do Muro de Berlim fizeram seus efeitos. Digam o que disserem os teóricos, a vida prática mostrou que o eleitor fugiu dos discursos ideológicos em 1990 com velocidade digna de trombadinha que corre da polícia.

Os empresários:

Chiaram, reclamaram, ameaçaram, mas no final acabaram, como sempre, pagando boa parte da conta.

A Igreja:

Foi discretíssima. O que terá acontecido?

O povo:

Ficou quietinho no seu canto, pouco se manifestou em ruas e praças, comícios e cortejos de automóveis -, mas ontem foi quem saiu de casa e decidiu.

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