Image
A espalhafatosa capa do álbum: prenúncio do fim de uma era?

Por Daniel Setti

Parece que foi outro dia, mas há exatos 20 anos Michael Jackson (1958-2009) lançava Dangerous, o quarto álbum de sua carreira adulta – iniciada com Off The Wall, de 1979 e continuada com Thriller, de 1982, e Bad, de 1987 – e também o último relevante.

Depois, quando já fora abalado por um turbilhão de escândalos e reposicionado em um contexto musical comercial que já não o valorizava como antes, ainda editaria os inexpressivos Blood on the Dancefloor (1987) e Invincible (2001).

Dangerous foi também o derradeiro projeto megalomaníaco do Rei do Pop no âmbito artístico. Tanto pelas dimensões do contrato de seis discos que acabara de assinar com a Sony – cuja estimativa era de um faturamento de US$ 1 bilhão caso fossem suficientemente bem-sucedidos, algo que não ocorreu – quanto pelos recursos que utilizou para concebê-lo e divulgá-lo.

Investimento pesado na forma e no conteúdo

Image
Michael, já bastante branco, em 1991

Ainda tentando pelo menos se aproximar do fenômeno Thriller, até hoje a bolacha mais vendida da história (110 milhões de cópias), Michael investiu pesado musicalmente, na forma – explorando a longa duração cabível em um CD, com exagerados 77 de música – e no conteúdo, recrutando diferentes produtores (saía o grande Quincy Jones, presente desde Off the Wall, chegavam os jovens Bill Botrell e Teddy Riley, entre outros convidados).

O resultado sonoro seguia a linha dos dois álbuns anteriores. Ou seja, mais um ambicioso pacote pautado pela variedade de estilos (de baladas politicamente corretas como “Heal the World” a pérolas funkeadas da talha de “Black or White”), rico em inovações (anteciparia o chamado R&B moderno, gênero dominante das paradas de música negra dos anos 1990) e comercialmente potentes (seis das 14 faixas foram hits).

Perda do trono

Como na ocasião do lançamento de Bad, disco que acumula até hoje cerca de 30 milhões de cópias vendidas, Dangerous também não serviu nem de longe para se igualar a Thriller. Ainda assim, renderia ao longo dos anos 32 milhões de exemplares comercializados. À época, chegou chegando nas paradas, ocupando por quatro semanas seguidas o topo da lista da revista Billboard.

No entanto, em janeiro de 1992, perdeu o posto para o azarão Nevermind, do Nirvana, sinalizando que uma revolução comercial e musical acabara de começar: a preferência dos consumidores da indústria fonográfica por bandas de rock ruidosas ligadas ao chamado grunge de Seattle em detrimento de quem reinava até então, os cantores e cantoras de pop dançante (Prince, Madonna, George Michael e o próprio Jackson, entre outros) ou bandas de hard rock com dois pés no exagero estético (Guns n’Roses, Skid Row, Poison…).

Clipes multimilionários

Image
Com Naomi Campbell no clipe de “In The Closet”

É impossível falar de Michael Jackson e Dangerous sem mencionar seus vários e caríssimos videoclipes. Precursor no hábito de promover álbuns com clipes multimilionários e impactantes – quem se esquece do vídeo de Thriller, o melhor já feito até hoje? -, Michael deu especial atenção a este departamento para o novo lançamento.

Quase sempre em formato curta-metragem, os clipes foram saindo, um mais grandiloquente, superproduzido e longo que o outro. E, além de revelarem ao mundo o quão mais branco e cirurgicamente modificado Jackson havia ficado desde Bad, traziam como novidade uma série de participações especiais de peso.

O então astro-mirim Macaulay Culkin brilhava em “Black or White”; “Remeber the Time” elencava o craque do basquete Magic Johnson, a top model Iman e o ator Eddie Murphy; Michael Jordan, rival de Johnson, era o convidado em “Jam”; e outra supermodelo, Naomi Campbell, rebolava com Michael em “In The Closet”.

O impacto de “Black or White”

O que mais marcou, porém, foi mesmo “Black or White”, dirigido pelo mesmo John Landis de Thriller, com seus onze minutos na versão sem cortes, exibido em “cadeia mundial” (fala-se em 500 milhões de telespectadores) duas semanas antes do lançamento do álbum. No Brasil, coube ao Fantástico, da Globo, mostrá-lo.

Petrificada, a audiência babou pelos efeitos especiais de última geração (o mais comentado seria o que “fundia” pessoas) e arregalou os olhos para a dança final do astro. Estranhamente agressivo, Michael berrava, quebrava coisas e punha insistentemente a mão sobre a genitália.

Uma vez mais – assista abaixo e comprove -, ele fazia história.

DEIXE UM COMENTÁRIO

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dezessete + onze =

7 Comentários

Alisson Costa em 20 de abril de 2019

Último álbum relevante de MJ foi o HIStory de 1995. Aliás nele estão algumas de suas melhores músicas e as letras com certezas são as mais diretas e agressivas de sua carreira. Blood on the dance floor não conta porque é um álbum de remixes com algumas faixas inéditas (e boas diga-se de passagem). Invincible é fraco mesmo fazer o que. Abraços.

Aderson em 10 de maio de 2014

"ainda editaria os inexpressivos Blood on the Dancefloor (1987) e Invincible (2001)." autor da matéria se esqueceu de History? Ah, e Blood On The Dance Floor não é de 1987. Uma rápida pesquisada pela menos sobre a discografia do artista tema do artigo é sempre uma boa antes de ligar o nome "Veja", sempre com textos tão bem escritos, a um texto com falhas tão grosseiras.

Vinicius em 23 de setembro de 2012

Vinicius, seu comentário estava repleto de termos ofensivos inteiramente desnecessários -- além de tudo. Por isso, deletei. Se você escrever civilizadamente, publicarei sua opinião. Desse jeito, não.

Najara [ em 21 de setembro de 2012

Só queria saber o porque essa contante manifestação sobre a pele do Michael? Todos sabem que ele teve um problema de pele, por sinal muito comum. Michael era um ARTISTA e sempre sera lembrado por suas musicas e bem feitos. O mair defeito dele foi ter sido bom de mais. E nunca ter retrucado com jornalistas ridiculos. Micael o ETERNO REI DO POP. Pessoas como Michael, não nascem a cada sem anos. Elas nascem a penas 1 vez. Pra mim, Mike é inquestionavel. teve seus altos e baixos como todos nos temos, não julgo as suas escolhas porque não passei pelo o que ele passou, não senti o que ele sentiu. Michael era estraordinario! Fico muito contente por ter vivido na epoca de MICHAEL JACKSON.

jader pereira em 10 de dezembro de 2011

Ah,me esqueci de agradecer pelo vídeo original da versão completa de Black or White.Sò havia visto a versão condensada. Não há de que, caro Jader. É um prazer. Abração

jader pereira em 10 de dezembro de 2011

Não sabia dessa disputa do M.J com o disco Nirvana em 1992.Foi mais ou menos nessa época que se acelerou seu processo de relegação ao ostracismo.Faz sentido.

Marco em 27 de novembro de 2011

Amigo Setti: Daniel,não gosto do Michael,mas ele realmente sabia fazer alguma coisa q estimulava e agitava milhões de pessoas, talvez fazer do sofrimento uma razão para fazer isso. Teu pai sabe bem disso, isso tbm é usado para clamores politicos muitas vezes fabricados e exagerados. A maior parte dos jovens gosta q essas coisas venha de fora com proporções de tipo um monstro a fim de poder lutar, as sensações se tornam refinadas para uma boa música, ou gritos de agonia. Abs.

VER + COMENTÁRIOS
TWITTER DO SETTI