Os 70 anos de Jorge Ben (Jor), um dos grandes gênios musicais brasileiros

O gênio Jorge: 70 anos e nova volta ao amigo que nunca deveria ter abandonado, o violão

Por Daniel Setti

Mesmo que o nível da produção musical de Jorge Ben Jor nas últimas três décadas tenha deixado a desejar em comparação com as duas anteriores – quando atendia apenas por Jorge Ben -, ele continua sendo um dos grandes gênios de nossa música. E que, ao completar 70 anos no próximo dia 22 de março, precisa ser reverenciado como tal.

Para isso revisito texto publicado há dez anos em minha finada coluna Massa Sonora, hospedada pelo site da MTV, batizado “Que mestre Jorge saiba o que está fazendo”.  Na ocasião, o nosso aniversariante se preparava para desempoeirar o violão e gravar um acústico da emissora após 25 anos de altos e baixos – mais baixos do que altos – empunhando guitarra elétrica.

O tal especial Unplugged até que rendeu momentos bonitos, e ele inclusive topou voltar ao formato para o 70º aniversário, e acaba de gravar uma edição do “Luau MTV” em Paraty. Esperamos que não soe morno como o disco de 2002, que não denotava, nem de longe, uma vontade especial de Jorge em retomar os seus anos de ouro, 1963-1975, durante os quais lançou álbuns espetaculares como Samba Esquema Novo (1963), Ben (1972) e A Tábua de Esmeralda (1974).

As palavras daquele texto sobre a importância do músico de Madureira, porém, continuam valendo. Reproduzo trechos abaixo, seguidos por divertido vídeo extraído de edição do Fantástico de 1974, apresentada por um então jovem Fulvio Stefanini, com interpretações as clássicas “Cadê Teresa” e “Bebete Vãobora” (ambas do disco Jorge Ben, de 1969):

Jorge Ben é um artista único na música brasileira. Compulsivamente reverenciado e imitado, serviu de inspiração para figurões do quilate de Caetano Veloso e Gilberto Gil. O primeiro regravou vários de seus sucessos, como “Charles, Anjo 45”, “Jorge de Capadócia” e  “Olha o Menino”, e o último chegou a dar a seguinte declaração: “depois que vi Jorge tocar, quis parar. Ele já tinha feito tudo o que eu havia imaginado”.

Intuição

Gil se referia tanto às inacreditáveis letras criadas intuitivamente por Jorge, capaz de transformar a  mais estapafúrdia bula de remédio em uma estrofe suingada ou até mesmo um refrão irresistível (“O Homem da Gravata Florida”, “O Circo Chegou” e “Xica da Silva,  por exemplo), como à sua capacidade de criar ritmos inspirados em fontes diversas. Da bossa de João Gilberto à jovem guarda de Erasmo, do funk de James Brown à psicodelia setentista.

Algo intimamente relacionado ao enfoque que deu ao violão. A maneira de tocar que Jorge inventou para o instrumento se eternizou pela simplicidade e capacidade de síntese musical. O filho de etíope que gostava de samba e rock quebrou o punho, “desceu a mão” nas seis cordas, trocando os dedos pela palheta e desrespeitando as firulas jazzísticas da bossa nova. Quase sem querer, criou a batida definitiva (às vezes samba-rock, às vezes, samba-funk, dependendo do contexto) e deixou todo mundo babando.

Talento anti-patrulhas

Mesmo inovando e “profanando” a bossa, ganhou a simpatia dos adeptos do gênero. Ao mesmo tempo, era amigo da turma suburbana carioca da pesada, liderada por jovens roqueiros como Tim Maia e Erasmo Carlos. Mais tarde, por andar com os tropicalistas, tornou-se alvo da patrulha político-purista, que implicava com uma letra aparentemente ufanista como a de “País Tropical”, em tempos de ditadura militar e repressão.
No entanto, Jorge minaria a intolerância intelectualóide com a arrepiante “Charles, Anjo 45”, até hoje um dos mais fortes relatos musicais a respeito do crime organizado nos morros cariocas (impossível se esquecer  de versos como “Muitas queima de fogos/ E saraivada de balas pro ar/ Pra quando nosso Charles voltar”).

Resistir à sua música era, definitivamente, algo típico das “pessoas de temperamento sórdido” descritas por ele na letra do clássico “Os Alquimistas Estão Chegando os Alquimistas”, de 1974.

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7 Comentários

  • Marco

    Amigo Setti:Daniel, justo reconhecimento, além do talento não dá para deixar de reconhecer sua humildade, um dos artistas com mais inspiração nas coisas práticas e d simbolo da rotina do cidadão brasileiro.
    Abs.

  • Marco

    Amigo Setti: Daniel, já q estamos falando de clássicos, vou falar sobre o Grenal de ontem. Teu pai não gosta muito do Ibsen Pinheiro, mas agora quem separa o politico da pessoa sou eu, Ibsen falou uma coisa certa : “Grenal q não vale título só serve para arrumar ou desarrumar a casa”. Pq estou falando isso o Grêmio numa enorme crise, agora com a chegada do Luxa, ganha folêgo. O Inter, acabou afetado animicamente, acho q o grande adversário do coringão na Libertadores, anota aí, vai ser o Boca Juniors, pela tradição.
    Abs.
    Grenal é sempre Grenal, Marco. E essa Libertadores promete fazer a gente sofrer.
    Um abraço,
    Daniel

  • Markito-PI

    Daniel, my dear.
    Já que V. atribui “genio” a Jorge fiquei curioso para saber como V. qualificaria Ary Barroso, Luis Gonzaga, Dorival Caymmi,Tom Jobim, Heitor Vila Lobos, Nelson Cavaquinho e Cartola, só por amostragem, claro.
    Gênios também, é claro.
    Cada qual à sua maneira.
    Abraço

  • Marco

    Amigo Setti: Daniel, e mais uma vez o teu pai estava certo, consultado por mim, quem era o melhor o Dagegol ou Gladiador, ele me disse q o Gladiador se adpataria mais fácil ao nosso estilo de futebol, ele simplesmente acabou com o jogo ontem, não q o Dagoberto fosse mal, mas o Dagegol, não consegue terminar nenhuma partida por causa do seu joelho q incha.
    Abs.

  • fernando pawlow

    Caro Daniel Setti,um disco como “Africa Brasil”(meu favorito,ao lado de “Tabua…”,”Gil e Jorge”e “Solta o pavão”) é ainda combustível poderoso de qualquer pista.Não envelheceu em nada,ainda novinho em folha.Não é trabalho de fácil classificação,pois a simbiose neste disco desafia mesmo os rótulos “samba-rock” ou “samba soul”,conorda?
    Outro artista difícil de classificar e ainda por digerir é Luiz Melodia.Sugestão para outro texto.Parabéns por este,saudações do Pawlow
    “Africa Brasil” é absurdamente bom, concordo. O melhor momento dele com guitarra, seguramente. Também estou de acordo com a complexidade do Melodia. Uma hora ele aparece neste espaço, aliás.
    Abraço,
    Daniel

  • fernando pawlow

    Valeu Fernando. E grande lembrança.
    Abraço
    Daniel

  • Carlos Augusto Francisco

    OLA!Realmente O JORGE MERECE TODO O NOSSO RESPEITO E ADMIRAÇÃO.EU SOU GUITARRISTA,CANTOR E COMPOSITOR GRACAS A ELE,NOS MEUS SHOWS A MAIORIA DAS MUSICAS SAO DELE.GOSTARIA MUITO Q VCS LANÇASSEM UM DVD COM OS PROGRAMAS ELE FEZ COM VCS,SERIA MARSVILHOSO EU TENHO QUASE TODOS OS CDS MAIS DVDS TENHO ALGUNS,MAIS SEI O Q MESTRE TEM MUITO MATERIAL,AINDA NAO LANÇADOS,NÉ?E PARABENS A VCS PELO MARAVILHOSO TRABALHO