Image
Mingus: gigante em vários sentidos (Foto: Andy Freeberg)

Por Daniel Setti

Morto em janeiro de 1979 em decorrência de uma esclerose lateral amiotrófica, Charles Mingus foi mais um destes grandes da música que partiram antes da hora. Caso ainda vivesse, completaria 90 anos neste domingo, dia 22.

Muito mais do que um gênio do contrabaixo

Se tivesse “apenas” sido um dos maiores contrabaixistas da história do jazz, Mingus já teria deixado uma marca irreversível. Mas o grandalhão nascido na base militar de Nogales, Arizona (EUA) também eternizou-se como um dos jazzistas mais fascinantes, folclóricos e turbulentos – chegou a esmurrar um trombonista de sua banda durante um show – dos quais se teve notícia, além de um dos mais importantes e inovadores compositores do gênero, sempre aberto a experimentos.

Mestiçagem e racismo

Por ter aprendido diversos instrumentos e estudado composição na juventude, Mingus desenvolveu uma faceta criativa muito particular, que compunha seu perfil único, da mesma forma que a interessantíssima salada que formava o seu DNA: tinha ancestrais africanos, chineses e suecos.

A mestiçagem em plena América parcialmente segregada lhe custou muitos obstáculos na vida, como por exemplo o veto ao cargo de violoncelista em orquestras de música erudita.

Época de ouro

Cada vez mais amargo e revoltado contra o racismo, tornou-se um ícone musical da luta pelos direitos civis a partir dos anos 1950. O que coincidiu com a época de ouro de sua carreira, durante a qual, trazendo na bagagem experiências ao lado de gigantes como Louis Armstrong, Duke Ellington – com quem mais tarde gravaria o maravilhoso Money Jungle – , Charlie Parker e Miles Davis, passou ao cargo de bandleader.

Comandou bandas em diversos formatos (de quartetos a miniorquestras com 11 instrumentistas) e lançou uma impressionante série de trabalhos solo. Entre os quais se destacam Pithencanthropus Eretus (1956), Mingus Dynasty (1959) e, sobretudo, Mingus Ah Um (1959).

Obra-prima

Este último causou tamanho impacto que, além de ser até hoje citado como uma das obras-primas definitivas do jazz, tornou-se tema de um ótimo documentário realizado em 2009 pela BBC sobre o incrível o ano de 1959 para o gênero: além de Mingus Ah Um, viu o lançamento de Kind of Blue, de Miles, Davis, Time Out, de David Brubeck, e The Shape of Jazz to Come, de Ornette Coleman, cada qual revolucionário à sua maneira. Assistam ao especial televisivo, batizado 1959 – The Year That Changed Jazz, com legendas em espanhol:

Ah Um fotografa o apogeu da criatividade de Mingus, reunindo todas as características que identificaram sua obra.

Seja pela linda melodia e o arranjo com toques dissonantes da balada “Goodbye Pork Pie Hat”, em homenagem ao saxofonista Lester Young, que acabara de falecer (aqui em versão ao vivo na Suíça em1975, com time de craques que inclui o sax barítono de Gerry Mulligan)…

…ou pela aparentemente cômica, mas na verdade raivosa “Fables of Faubus”, um ataque instrumental a Orval Eugene Faubus (1910-1994). Então governador de Arkansas, Faubus realizava campanha em favor da segregação racial nas escolas:

Há quem prefira o “caos organizado” de “Better Get it on Your Soul”, a faixa de abertura, farta nas maluquices que Mingus adorava inserir nos arranjos. Como por exemplo berros, palmas e percussões, além de pausas inesperadas e solos tresloucados:

Após Mingus Ah Um, o genial contrabaixista ainda seguiria em grande fase até meados da década de 1960. Neste período escreveria algumas de suas composições mais surpreendentes e características como “So Long Eric”, na qual se nota outra marca “mingusiana”, as inusitadas alternâncias no andamento. Abaixo, Mingus e grupo a interpretam em show de 1964 na Noruega:

Enfim, daria para encher páginas e páginas virtuais com a música de Charles Mingus. Por hora, esta coluna presta um humilde tributo.

DEIXE UM COMENTÁRIO

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

um × dois =

10 Comentários

J.Torres em 24 de abril de 2012

Não irei perder-me aqui em loas a esse gênio. Conto somente uma historinha. Ainda adolescente, um amigo me ligou e disse que havia conseguido alguns discos num sebo. Lembro bem: um B.B.King de nome L.A.Midnight (nunca saiu em cd ao que saiba, um disco fantástico) e um Mingus de nome Live at Town Hall, ambos nacionais. Assim fui apresentado a esse músico fantástico. Era Mingus com uma orquestra. E nunca me esqueci também das notas da contracapa. Diziam que depois de dois ou três bis, fecharam a cortina do palco, mas um grupo de pessoas da plateia subiu e segurou as cortinas. Não deixaram que fossem fechadas, queriam mais. Li em algum lugar que esse disco foi relançado em cd, agora duplo, mas nunca consegui comprá-lo.

Reynaldo-BH em 21 de abril de 2012

Ok, Setti.. mas não influencia o André para ser merengue! Deixa o menino ser Barça! Hehehe... Bom domingo, meu amigo. (PS: Daniel precisa postar algo dele. Seria legal ver o trabalho musical. Pelo que sabe de música, certamente será bom.) Meu caro Reynaldo, ali o problema será complicado, porque o pai é corintiano fanático, e a mãe, sãopaulina roxa! Então Barça x Madrid é secundário, hahahaha.. Quanto ao Daniel postar coisas dele, tanto ele como eu achamos que não é o caso. Soaria como auto-elogio, ou auto-glorificação, sei lá. Agora, que ele é bom músico, e conhece música uma barbaridade, não há dúvida. Obrigado e um bom fim de semana. Abração

Reynaldo-BH em 21 de abril de 2012

Daniel, ok, ok.. vocês venceram. Não deu para ver o jogo. Estava na Marcha contra a Corrupção aqui em BH e não vi a anomalia.. hehehe. Antes tinha ido pegar o meu quarto cachorro vira-lata resgatado das ruas. Ou seja, dia cheio. Mas temos terça e quarta. Vamos mandar os ingleses do Chelsea de volta ao frio! E esperamos por vocês. (Se conseguirem passar pelo Bayern!). Como bom merengue, você deve estar contente... Ok, ok... Veremos na terça e quarta! Blau-grana al vent, un crit valent tenim un nom, el sap tothom Barça, Barça, Baaarça. Caro Reynaldo, o Daniel está atuando musicalmente hoje, respondo por ele. Nem eu, que sou pai, sei ao certo como ele torce aqui. Merengue, na família, seguramente sou eu, por causa do velho Real Madrid do princípio de minha adolescência. Respeito e admiro o Barça, mas, você sabe, futebol não tem jeito: a gente pega um rumo a certa altura da vida e não tem como (nem deve) mudar. Acho que a Liga já é do "Madrid", como se diz aqui. E a Champions seria sensacional se tivesse os dois grandes espanhois na final, não? Um abração

Reynaldo-BH em 21 de abril de 2012

Sábado é dia de esperar as dicas do Daniel! Hehehe... Hoje, pegou pesado! The Angry Man of Jazz. A seleção está ótima. Óbvio, que em se tratando de Charles Mingus, sempre teremos uma ou outra preferência que ficou de fora. Para quem quiser admirar ainda mais o maluco brigão, a autobiografia "Beneath the Underdog" é uma excelente pedida. Já verifiquei na Amazon e está na lista, em promoção. Em BH tinha no Café da Travessa, na praça da Savassi. Infelizmente, a especulação imobiliária fechou a livraria/bar/café/restaurante/palco de shows ao ar livre, etc. Vale a pena pedir na Amazon. Valeu Daniel! Valeu digo eu, Reynaldo! Obrigado por curtir o Música no Blog! Um abraço do Daniel

cacalo kfouri em 21 de abril de 2012

a biografia dele, beyond the underdog, é impressionante.

Matheus em 21 de abril de 2012

Amigo Setti: Daniel,como o som é longo e de qualidade continuamos, O The economist, chamou Arminio Fraga, de Shakira de barba, de como ele chama a atenção de investidores no Mundo. Dizem q é uma celebridade das finanças, A sua empresa Gávea, administra U$ 7 Bi em ativos nessa area é o nome mais dourado do mercado financeiro. Pq a comparação, pq transcende a América Latina. Abs.

Matheus em 21 de abril de 2012

Amigo Setti: Falando em Lendas, morreu tbm o Mrs. Guitar, Bert Weedon. Abs.

Matheus em 21 de abril de 2012

Amigo Setti: Daniel, o mundo para hoje para ver Barça e Real, é o clássico mais famoso do Mundo! Abs. Estamos assistindo. EStamos no intervalo, Barça 0 x Madrid 1. Com o neto presente e tudo! Abraço

Matheus em 21 de abril de 2012

Amigo Setti: Daniel, já q o som tá bom, continuamos, terça feira, passou o debate do amigo do teu pai, Albeto dimes,Observatório de Imprensa, como ex lutador, discordo q essas lutas sejam rinhas humanas, q a globo pretende colocar em sua grade de programação e concordo q o futebol pode apesar de ser circustanciamente tbm violento. Acho q o único esporte q não é violento é o Voley, não acredito em nenhum esporte pacifico. Abs.

Matheus em 21 de abril de 2012

Amigo Setti: Daniel, é o Marco, muito bom! Puxa, gastei quase R$ 700,00, para arrumar meu HD,ficou pronto ontem, e continua o cheiro de queimado, por isso vou usar o do Matheus,ainda bem q tem garantia. Mas aproveitando a qualidade do som, deixa eu te fazer uma fofoca, sabe o tal de Gabriel Pensador, o prefeito de Bento Gonçalves, aqui do PT, pagou um cache para ele de R$ 170.000, dizem q o Gabriel pensador tbm é empresário da area do futebol,no qual Bento é candidata a receber uma das seleções. O detalhe q o cachê é literário para promover obras infantil. A Tabela nesses casos aqui nas feiras do Livro é de 500,00 até R$ 700,00. Ziraldo cobra R$ 30.000 o mesmo cachê do Mauricio de Souza. Tenho certeza q o teu pai e o A. Nunes, para promover cultura não cobrariam nada. Abs.

VER + COMENTÁRIOS
TWITTER DO SETTI