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O típico casario branco de Cadaqués, na Costa Brava da Catalunha, Espanha: como imitar o glamour?

Os chineses, que já fazem cópias piratas de relógios, calçados, bolsas, roupas de grife, softwares, computadores e milhares de outros produtos, estão agora copiando – legalmente – cidades históricas do Ocidente.

Está em plena construção em Xiamen, no sudeste da China, uma réplica perfeita da parte mais antiga de Cadaqués, a mais que milenar vila de pescadores na esplêndida Costa Brava da Catalunha, na Espanha, celebrizada no século XX pelo numeroso rol de personalidades residentes ou visitantes – do pintor surrealista Salvador Dalí, proprietário de uma desconcertante casa hoje tornada museu nas redondezas, até figuras tão distintas como Walt Disney e Pablo Picasso, o poeta espanhol Federico Garcia Lorca, o músico catalão Pablo Casals, o fotógrafo norte-americano Man Ray ou o também norte-americano compositor John Cage.

A cargo da empresa estatal China Merchants Zhang Zhou, a Cadaqués chinesa, com 440 mil metros quadrados, um centro comercial, um parque temático, hotéis e uma escola, estará incluída em uma cidade de lazer que terá capacidade para 15 mil hóspedes.

Antes de começar a obra, uma equipe chinesa composta por arquitetos, desenhistas e tradutores percorreu, fotografou e filmou minuciosamente a Cadaqués original, resplandecente no branco de seu casario, nas cores das janelas, na profusão de balcões típicos e exposta à intensa luminosidade do Mediterrâneo. O prefeito da cidade, Joan Borrell, serviu de anfitrião, e manifestou-se feliz pela “projeção internacional” que a cidade deverá alcançar.

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Es Maritim, o bar mais famoso de Cadaqués

Comentando a iniciativa chinesa, o colunista Xavier Moret, do jornal El Periódico, de Barcelona, manifestou-se cético quanto ao alcance do projeto:

“Os chineses são muito capazes de clonar Cadaqués palmo a palmo, incluída a baía, a igreja, a casa de Dali, o Es Maritim [bar mais famoso da cidade], os pescadores e até a avalanche de turistas, mas suspeito que nunca poderão copiar nem o rastro indefinido de glamour com que a gauche divine revestiu a esse povoado com vocação de ilha nem o maravilhoso sabor das lagostas ou dos ouriços do mar.”

Eu, que graças a Deus já pude estar lá, também acho.

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10 Comentários

JT em 08 de março de 2011

Caro Setti, Ficarei muito feliz com a publicação. Procurei numa caixa de fotos e encontrei três imagens de Veneza - uma delas comigo portando o bigode de Salvador Dali. Vou digitalizar as fotos assim que voltar do cinema (compromisso com a afilhada) e depois te informo o link, caso queira usar as imagens. Lembrar dessas coisas me trouxe bons sentimentos. Escrever sobre eles é como cristalizá-los. Dividi-los é como multiplicá-los. Grande abraço! Jean Quem agradece sou eu, caro Jean. E mande o link, vou ver se dá pra aproveitar o material amanhã. Um abraço

JT - Presentes de Carnaval em 08 de março de 2011

Caro Jean, seu post do leitor foi recebido e vai ser publicado hoje na série "Histórias de Carnaval". Entra daqui a pouto no ar. Abraço e obrigado

JT em 08 de março de 2011

Os chineses tem uma grande atração pela cultura ocidental. Há relatos de que até o cristianismo vem ganhando adeptos na China, especialmente entre as denominações protestantes. Eles querem nos compreender, antes de nos engolir. Como arquiteto, estou habituado em receber pessoas no escritório que trazem revistas com suas casas favoritas. Tenho que explicar que eticamente não posso projetar uma cópia, além disso estamos tratando de terrenos com dimensões e topografias diferentes, o mesmo se aplicando para o clima, percurso do sol, acessos, e uma infinidade de pormenores. Se copiar uma casa não é bom negócio, imaginem copiar uma cidade inteira! E o Carnaval vai passando. Hoje não dou muita importância para esta festa - confesso que nunca fui muito empolgado com ela. O que não quer dizer que não tenho boas histórias de Carnaval para lembrar. Ainda no tempo da faculdade, tive a oportunidade ímpar de fazer parte de uma pequena comitiva que viajou para a Itália, para estudar arquitetura renascentista. Passamos a terça-feira gorda em Veneza, onde o Carnaval é muito charmoso e romântico - ingênuo perto do brasileiro, mas muito autêntico. No meio da praça de São Marcos, entre tantas princesas mascaradas que nos encantavam apenas com o olhar, fui conhecer uma italianinha que pediu para pintar meu rosto. Escolhi um bigode de Salvador Dali. O toque da mão dela em meu rosto, seus olhos azuis me "tomografando", e sua voz suave me perguntando coisas sobre o Brasil foram suficientes para me arrebatar. Criei coragem para dizer: "Tu sei una belíssima dona". Recebi de volta um sorriso com doses cavalares de serotonina. O feitiço era recíproco. Neste momento, me chamaram para seguir com o roteiro de visitas à igrejas, museus e galerias - em alguns casos só pudemos ver a fachada. Tive tempo apenas para combinar de nos vermos de noite. Parti feliz quando soube que ela estaria me esperando. A noite chegou e a praça parecia maior. Estava coalhada de gente fantasiada. Procurei por ela por cada ladrilho daquele logradouro. Minha angústia só aumentava. Estava fazendo 22 anos justamente naquele dia! Quando deu meia noite os sinos tocaram. O Carnaval havia acabado. Achei que as pessoas ficariam mais um tempo por ali, mas elas foram embora. Alguns policiais tocavam uns poucos bêbados. Comecei a andar pelas vielas de Veneza, seguindo os grupos que se dirigiam para os hotéis, já imaginando que não a encontraria. De repente fiquei sozinho na madrugada - só estes instantes dariam um livro na minha cabeça: eu, andando como um fantasma pelas sombras de Veneza. A quarta-feira de cinzas amanheceu mais cinza do que nunca, quando entrei no trem para Mantova. Naquele momento eu sabia que nunca mais veria Elisa... Um dia espero encontrar o diário da viajem, com anotações de lugares visitados, menu das refeições, desenhos feitos à mão livre - inclusive do rosto da menina. Então, escreverei um conto mais detalhado sobre este episódio. Sob as arcadas de uma obra projetada por Leon Battista Alberti, fiquei me perguntando o motivo de não ter conseguido roubar um mero beijo daquela musa. No Brasil a molecada beija dezenas de garotas numa noite de samba, mas eu só queria um beijinho... Moral da história? Eu estava guardado para a minha esposa. Que bom! Caro Jean, seu conto-post está quase pronto. Capriche e mande que eu publico. Abração

Antonio Skoldharougs em 08 de março de 2011

Cadaqués sem a alma espanhola, sem Joan Miró, Sem Salvador Dalí e Pablo Picasso será apenas uma aldeia parecida, muito parecida, más não Cadaqués;

Thales em 07 de março de 2011

Querido Ricardo Setti, são posts assim que enriquecem ainda mais o seu blog, parabéns. Copiar coisas que deram certo é uma boa opção e até inteligente, mas já passou da hora do governo chinês valorizar algo que a China tinha e Mao Tsé-Tung enterrou: uma cultura milenar ímpar. Os turistas que vão a Cadáques tem o intuito de ver uma arquitetura milenar, a sensação de andar em ruas que tem muita história e de respirar um ar carregado de charme, coisas que nenhuma China consegue copiar ou fabricar, ela vai atrair turistas curiosos, um outro tipo público. A China que fez as Olimpíadas consegue fazer quase tudo, isso mesmo, QUASE tudo e não tudo! Obrigado pelos parabéns, caro Thales. E, evidentemente, concordo com você sobre as limitações que a China tem em imitar e clonar. Agora, veja que interessante: você sabia que existe um clone de Cadaqués no Caribe, na República Dominicana? Fiquei sabendo ao apurar essa matéria. Mas não consegui ainda ver imagens -- fotos ou vídeos -- do que parece ser uma miniatura da ex-vila de pescadores catalã que na verdade é um resort. A gente vê cada uma... Abraços

Caio Frascino Cassaro em 07 de março de 2011

Prezado Ricardo: Que coisa mais maluca!!! Clonar uma cidade?!?!?! De quem será que foi a idéia? Já imaginou se o sujeito resolve clonar o Rio de Janeiro, com Pão de Açúcar, Bondinho, Cristo Redentor e todo o resto? Só ia faltar a carioca, NÉ?!?!, mas isso é só um detalhe... Um abração. P.S. - trabalhando no feriadão, amigo? Não vai nem dar uma sambadinha na Sapucaí? Caro Caio, o que é que os americanos fazem em Las Vegas, se não tentar clonar Paris, Veneza etc? Cadaqués, que é uma graça, já tem uma réplica na República Dominicana, um resort ou algo assim é o responsável. Ainda não vi fotos ou vídeos do local, mas posso imaginar... E estou trabalhando um pouco, sim, no Carnaval. Não posso deixar os leitores sem resposta. Agora, Sapucaí não é comigo, não. Vejo só pela TV, e ainda assim não muito. Um abração

Rosa Maria Pacini em 07 de março de 2011

Fake é fake, Setti, não adianta! Ah, não tenha dúvida, cara Rosa. Abraço

Paulo Bento Bandarra em 07 de março de 2011

Quem te viu, e quem te vê! Depois da revolução comunista e da revolução cultural, agora querem importar a estética e a cultura burguesa alienígena. Em vez de desenvolverem a própria identidade que quase sumiu com a "esquerda progressista" de há pouco! Os maoistas dá lá são menos maoistas do que os nossos!

Mauro Pereira em 07 de março de 2011

Caro Ricardo Setti, boa tarde. Não sei o que o caro amigo acha do carnaval, mas para mim é uma grande enganação. Há muito perdeu a naturaidade e deixou de ser uma manifestação popular expontânea. Hoje é um espetáculo que envolve muito dinheiro e interesses, às vezes nem tanto decentes. Mas é melhor um feriado bom do que um feriado ruim. Então, ótimo carnaval para você! Quanto a afirmação do colunista Xavier Moret, guardada as devidas proporções, até mesmo porque não conheço Cadaqués, me permito discordar um tantinho só. Moret pode estar equivocado quando afirma suspeitar "que nunca poderão copiar nem o rastro indefinido de glamour com que a gauche divine revestiu a esse povoado com vocação de ilha nem o maravilhoso sabor das lagostas ou dos ouriços do mar.” Diferente de Xavier Moret, eu acho que os chineses podem copiar sim tudo o que o jornalista diz ser impossível a cópia. A única coisa que eles jamais conseguirão replicar é a personalidade do espanhol, seja ele catalão ou andaluz. Isso, pelo menos por enquanto, ainda não está disponível nos labratórios. Não me causa inveja os espanhóis, pois se eles têm Cadaqués, nos temos o Piscinão de Ramos! Ou tínhamos, pelo menos. Caro Mauro, o Carnaval realmente virou uma coisa comercial. Os patrocínios gigantescos, a disputa pelos direitos de transmissão pela TV, a transformação dos artistas populares -- mestres-salas, as porta-bandeiras, carnavalescos, mestres de bateria etc -- em profissionais do samba, cujos "passes", como no futebol, são adquiridos por escolas distintas e até rivais daquelas em que eles se formaram etc. O Carnaval continua tendo seu valor e é belo, sem dúvida, mas sua metamorfose é tema para uma larga discussão (me incomoda especialmente ver o número de "starlets", famosas com e sem aspas, colunáveis, grã-finos e toda uma multidão de paraquedistas que aderiram à moda de "sair" com escolas de samba feitas por gente modesta, que dá duro, que trabalha e ensaia o ano inteiro). Em relação a Cadaqués, acho que o colunista catalão tem razão, sim. Os chineses são incapazes de clonar o que ele menciona -- sem dizer a paisagem e a luz de Cadaqués, que tive a ventura de conhecer. A Costa Brava espanhola é continuação da Côte d'Azur francesa e da Costa Azzurra italiana. Como é que os chineses vão conseguir aquela cor de mar, aquelas rochas brancas, aquela luz etc? Abração

Karla em 07 de março de 2011

Já sei, agora, de onde vem essa sensibilidade incomum, entre os colunistas de VEJA, irreprimível nas suas colunas, como essa. Nesse "carne vale" você passou dos limites. Lispector e Cadaqués! Demais da conta, diriam os mineiros. PARABÉNS. A tua coluna salvou o meu carnaval. Aliás, salvou, também, todo o colunismo de VEJA que resolveu, como a presidenta "gerenta", descansar. A presidenta "gerenta" lá pelas barreiras do inferno. O colunismo nem tanto. PARABÉNS. Lispector e Cadaqués, combinados,...que trem lindo!!!! Muitíssimo obrigado, Karla. Nem sei o que mais dizer... Abração

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