Artigo de 2004: Os ouvidos de Dirceu

Artigo de 2004: Os ouvidos de Dirceu José Dirceu com o assessor Waldomiro Diniz, em 2004 (Foto: Lula Marques - Folha imagem / VEJA)

E ainda: ofensiva dos governadores do PMDB, os cabelos de Mercadante, Alckmin e o “abril vermelho”, a miopia de Duda Mendonça, o novo gabinete de FHC, Temer em SP, as flores vermelhas do PT e o grande repórter Maklouf Carvalho

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Com a tempestade do caso Waldomiro Diniz amainando para os lados do Palácio do Planalto, o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, vem abrindo brechas em sua agenda para conversas com pessoas de diferentes tendências de fora do governo.

Quer saber dos visitantes a opinião sobre o governo, seus integrantes e seu desempenho. E tem ouvido muitas críticas, que vão da aspereza da política econômica à paradeira geral e que incluem até a atuação de ministros muito caros ao presidente Lula. Rebate comentários, ouve em silêncio outros, muitas vezes deixa clara sua contrariedade diante das críticas.

Mas, e isso os interlocutores valorizam, tem ouvido e registrado tudo.

 Testa franzida

Há razões de sobra para o governo se preocupar com a reunião desta segunda, 19, entre os cinco governadores do PMDB. Dela, saiu uma pesadíssima lista de reivindicações, começando pela virtual demanda de renegociação das dívidas dos Estados – algo que o Planalto e especialmente o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, consideram absolutamente fora de questão.

E a lista provém de uma turma que, embora inclua um governador francamente de oposição, Jarbas Vasconcellos (PE), ex-aliado de FHC, e outra de oposição eleitoreira, Rosinha Garotinho (RJ), inclui dois aliados de primeira hora do presidente Lula nas eleições de 2002 – Roberto Requião (PR) e Luiz Henrique (SC) – e um francamente cooperativo, Germano Rigotto (RS).

Bravatas com salário

Uma vez mais, nessa ameaça de greve geral do funcionalismo público por reajustes salariais, os sindicalistas da Coordenação Nacional das Entidades dos Servidores Federais (Cnesf) partem para a radicalização com a ameaça de “greve geral por tempo indeterminado” a partir de 10 de maio.

Já está virando tradição essa história de pular etapas normais num movimento reivindicatório civilizado, que deveria incluir outras ações com crescente grau de endurecimento antes da tomada de uma decisão tão extrema e radical – por exemplo, manifestações de diversos tipos, uma greve geral simbólica de advertência de algumas horas de duração, greves alternando-se por setor ou, mesmo, uma greve geral por prazo fixo, e curto.

Será que essa bravata toda tem algo a ver com a eterna incapacidade de o governo cortar o ponto – e, portanto, o salário – dos grevistas pelos dias não trabalhados?

Disfarçando

É também “por tempo indeterminado” a greve dos funcionários do INSS que, desde a terça, 20, inferniza a vida de centenas de milhares de brasileiros. Para disfarçar um pouco, fizeram-na ser precedida por uma paralisação de advertência no mês passado.

Hair news

À medida que o governo gasta seus dias de mandato e se acumulam os problemas, diminuem os cabelos remanescentes do líder no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), e embranquece a barba do ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto.

Contraste e tropa de choque

Além da manifesta intenção de manter a ordem e a lei no Estado de São Paulo, há conotação política na linha dura adotada pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) contra a invasão de prédios públicos e particulares na capital por integrantes de movimentos de sem-teto, enfrentada com negociação mas também com a tropa de choque da Polícia Militar.

O governador é possível presidenciável em 2006 e estabelece, sem fazer alarde, um contraste com a atitude vacilante do governo federal diante da onda de invasões de terra promovidas pelo MST neste “abril vermelho”.

Boa notícia escondida

Onde andará Duda Mendonça que não vê isso? O governo vive apregoando realizações que não realizou – como a ridicularia do programa Primeiro Emprego, que deveria obter 250 mil vagas para jovens entre 16 e 24 anos de famílias pobres até o final do ano, e mal passou de 500.

Mas esconde boa notícia, como a recente decisão de corrigir integralmente, e já a partir de julho, as aposentadorias do INSS prejudicadas pelo célebre erro de cálculo acontecido em fevereiro de 1994, que acabaram afetando 1,1 milhão de brasileiros aposentados entre março de 1994 e fevereiro de 1997.

Não é nada, não é nada, será – se efetivamente cumprida a decisão – um reajuste de 39,67%.

Gabinete ex-presidencial

É magnífico, com ares efetivamente presidenciais, o gabinete que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso vai ocupar na sede do instituto que leva seu nome e que, além de abrigar um grande volume de documentos sobre seu governo (1995-2003), funcionará como um centro de estudos de problemas brasileiros.

Amparado em doações, o Instituto FHC ocupa um andar inteiro da antiga sede do Jockey Club de São Paulo, no centro da cidade. O andar passou por ampla restauração e agora móveis, quadros e objetos modernos misturam-se à sobriedade de velhos lambris. O gabinete do ex-presidente tem vista para o Vale do Anhangabaú, para o antigo, tombado e restaurado prédio da Light (hoje um shopping center) e o Teatro Municipal.

Mal comparando

Se bobear, FHC talvez vá ficar mais bem instalado do que esteve em seus oito anos no terceiro andar do Palácio do Planalto.

Mantega e o “Sucatão”

Quando admitiu ser “uma vergonha” deixar Lula voar no velho Boeing 707 presidencial, o “Sucatão”, o ministro do Planejamento, Guido Mantega, certamente mexeu com os brios do pessoal da Força Aérea Brasileira (FAB), que prodigaliza milagres com o equipamento e as verbas de que dispõe para manter voando em boas condições uma frota quase toda obsoleta. Mantega fez a mesma coisa também quando confessou, com todas as letras, em relação aos aviões que atendem aos ministros: “Eu não me arrisco”.

Mas a verdade é que o ministro só fez expressar, em público, o que outros ministros e autoridades fazem em conversas privadas.

 Style news

São de ofuscar os olhos dos interlocutores as jóias que costuma usar a professora de ciência política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Maria Helena Guimarães de Castro, secretária de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo.

Dois pesos

Passou batida a notícia, publicada no “Painel” da “Folha de S. Paulo”, de que o ministro da Previdência, Amir Lando, contratou uma empresa privada para fazer uma varredura anti-escuta telefônica nos gabinetes de seu Ministério. Não chamou para a tarefa nem a Polícia Federal nem a Agência Brasileira de Informações (Abin).

Já quando José Serra, ministro da Saúde do governo FHC, fez a mesma coisa para, conforme defendia, proteger o sigilo de informações, inclusive sobre genéricos, no auge da briga a respeito de patentes com os grandes laboratórios e com o governo norte-americano, foi acusado de ter montado um esquema de espionagem privado.

 Duro de engolir

É amarga a pílula que está engolindo, em nome de uma inexistente “unidade partidária”, o presidente nacional do PMDB, deputado Michel Temer (SP). Sem a mais remota chance na eleição para a Prefeitura de São Paulo em outubro próximo, ele é – até segunda ordem – candidato do partido à sucessão da prefeita Marta Suplicy (PT). Isso em decorrência da posição do presidente regional do partido, o ex-governador Orestes Quércia, de só aliar-se ao PT se pudesse indicar o candidato a vice na chapa.

Marta preferiu uma chapa “puro-sangue” com o secretário de Governo, Rui Falcão, como vice. E Temer vê-se partindo para o sacrifício mesmo sendo da ala do PMDB que apoiou o governo FHC e, ao longo dos oito anos de mandato do ex-presidente, foi impiedosamente hostilizada pela corrente “oposicionista”, de que Quércia era membro saliente e barulhento.

Números relevantes

60 milhões de brasileiros que vivem em 9,6 milhões de domicílios urbanos não dispõem de coleta de esgoto.

Números irrelevantes

O edifício-sede do Ministério da Justiça, em Brasília, tem 23 mil metros quadrados de área construída.

Os canteiros do PT

Não vai acabar tão cedo a polêmica sobre se os canteiros de flores vermelhas implantado em gramados do Palácio do Alvorada e da Granja do Torto infringem ou não a legislação, por reproduzirem a estrela do PT, um símbolo partidário.

Consenso, para valer, só há em relação a um ponto: os canteiros de sálvia que contaram com o beneplácito de dona Marisa Letícia são de um mau-gosto atroz.

Dispensando comentários (final)

A coluna informou, em edição recente, que o primeiro animal arrematado no 1° Leilão do Cavalo Lusitano, realizado nos dias 5, 6 e 7 de março na requintada Sociedade Hípica Paranaense, em Curitiba, foi um macho, Varadero Marumby. E lembrou que, a respeito do cavalo, os organizadores do leilão forneceram, no material de divulgação, o seguinte e eloqüente detalhe: “Neto de Tarado – garanhão que dispensa comentários”.

Deixamos, porém, de informar na ocasião por quanto se arrematou Varadero Marumby, e alguns leitores escreveram a respeito. Pois bem, o neto de Tarado saiu por 20 mil reais.

A lição da persistência

O jornalista Luiz Maklouf Carvalho acaba de dar uma lição de como a perseverança é fator essencial do trabalho do bom repórter. Seu recém-lançado livro O Coronel Rompe o Silêncio (Editora Objetiva, 234 páginas) já faz parte obrigatória da historiografia contemporânea ao trazer à luz o depoimento inédito e valiosíssimo de um militar que combateu a guerrilha do Araguaia – movimento armado que o PC do B instalou no norte do país entre 1972 e 1975.

O hoje coronel da reserva Lício Augusto Ribeiro, então major do Centro de Informações do Exército, foi responsável pela morte de quatro dos 59 guerrilheiros mortos pelas Forças Armadas, e é o mais graduado participante do combate à guerrilha a falar sobre o assunto. Maklouf chegou a ele depois de ter lido seu nome completo pela primeira vez em A Ditadura Escancarada, de Elio Gaspari (Companhia das Letras, 2002, 508 páginas). Batalhou na internet, achou um número de telefone, insistiu, cercou, trocou e-mails com o homem – até que ele cedeu e falou.

Previsão

Pelo jeito, governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB), só vai sossegar em seu assanhamento com o MST quando sem-terras ocuparem seu gabinete no Palácio Iguaçu.

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