Por Daniel Setti

Como grande entusiasta das séries de TV norte-americanas – sobretudo as lançadas a partir do boom do formato, entre as décadas de 1990 e 2000 -, venho me perguntando há algum tempo sobre as peculiaridades deste rico universo.

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Campeões de Audiência

Estou longe de ser um especialista no tema, tampouco conheço a fundo seus bastidores, e evidentemente não assisti a todas as séries já lançadas (as elogiadíssimas The Wire e Mad Men, só para citar duas, estão entre as pendências).

Mas há 4 fatos que me chamam especialmente a atenção sobre o funcionamento do gênero. Abaixo palpito um pouco a respeito de cada um:

1-São relativamente poucos os atores e atrizes que conseguem triunfar no cinema após obterem sucesso nas séries

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George Clooney na fase Plantão Médico, ou “ER” no original: um dos poucos a ganhar Hollywood (Foto: Divulgação)

Que exemplos podemos dar de participantes de TV shows criados nas duas últimas décadas que realmente conquistaram Hollywood, construindo uma carreira cinematográfica respeitável? George Clooney, revelado na eletrizante Plantão Médico, ou, na versão original, ER (1994-2009), é o caso mais claro. Ainda que seja um pouco canastrão, colaborou com grandes cineastas (Irmãos Coen, Steven Soderbergh) e protagonizou fitas de qualidade do porte de Boa Noite e Boa Sorte (2005). Quais outros os leitores citariam?

2-Muitos dos astros que, por fim, conseguem migrar da telinha para a telona, no final das contas acabam não atuando em filmes, digamos, memoráveis.

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“Grey’s Anatomy” revelou a bela Katherine Heigl. Mas ela segura a peteca na telona? (Foto: Divulgação)

Houve quem apostasse que Jennifer Aniston, a Rachel de Friends (1994-2004), ou mais recentemente, Katherine Heigl, a Izzie de Grey’s Anatomy, se transformariam em portentosas divas da sétima arte após suas consagrações em séries.

Sim, elas agora mudaram oficialmente de time, são consideradas atrizes de cinema. Mas que longas imperdíveis seríamos capaz de listar com estas duas no elenco? Por serem bonitas, gostosas e carismáticas, ambas acabam sendo “catalogadas” por produtores apenas para comédias românticas, a maioria consideravelmente descartável.

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As estrelas de “Sex and the City”: mais do mesmo (foto: divulgação)

Outra que é sempre empurrada para este nicho é Sarah Jessica Parker, a eterna Carrie de Sex and the City (1998-2004). Tão eterna que, percebendo o fiasco de sua posterior empreitada Hollywood, correu de volta à série, transformando-a em duas películas bastante criticadas. Especula-se, inclusive, que uma nova temporada esteja em fase de planejamento.Melhor se saiu Kim Cattrall, a voluptuosa Samantha, escalada para O Escritor Fantasma (2010), de Roman Polanski.

Fato é que tanto Parker quanto Aniston sofrem de uma espécie de maldição: os telespectadores se acostumaram tanto a verem-las em seus consagrados papéis na TV que rejeitam suas aparições em outros contextos, atendendo por outros nomes e vivendo outras vidas.

3-Existe um “mundinho” de estrelas que só transitam entre séries

Não sei se por medo de serem as novas Sarah Jessicas, ou porque o negócio das séries é cada vez mais rentável (quem não se lembra do 1 milhão de dólares que cada um dos “friends” recebia por episódio?); quiçá simplesmente porque o cenário mudou, e atualmente encabeçar os créditos de um seriado pode render um grande prestígio. Afinal, a trinca Coppola-Scorsese-Spielberg não teria se envolvido com o formato (respectivamente em The 4400, Boardwalk Empire e Falling Skies, entre outros projetos) se nele não enxergasse mais do que umas cifras extra.

No final das contas, é pela combinação destes elementos que uma porção de atores e atrizes aclamados em séries pensam n vezes em deixar o seu seguro território televisivo e tentar a sorte no cinema. Também é fácil imaginar o comportamento de seus agentes, uma pequena máfia a movimentar os bastidores deste mundinho. “Te consigo um papel no novo projeto do Jerry Bruckheimer”, ou “o cara da HBO entrou em contato para falar de um novo piloto” devem ser mais frequentes que “bom dia” nas conversas entre este tipo de empresários e seus clientes.

Sendo assim, é cada vez mais lotada a fila dos astros que só giram na órbita das séries. Por exemplo, da saudosa e esplêndida Six Feet Under, ou A Sete Palmos (2001-2005) surgiram os protagonistas de três outros seriados: Rachel Griffiths aportou em Brothers & Sisters (2006-2011), que aliás abrigou ex-participantes de The West Wing (Rob Lowe) e Ally McBeal (Calista Flockhart); Pete Krause foi parar na recente Parenthood, novo emprego também de Lauren Graham (Gilmore Girls); já Michael C. Hall acabou encarnando o desconcertante serial killer que dá nome a Dexter.

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Kyle Maclachlan foi o genial Dale Cooper antes de ser os maridos bananas Trey e Orson, em 2 séries diferentes (Foto: Divulgação)

E não pára por aí. Pelo contrário. A promiscuidade entre os casts é contagiante, chega a lembrar o troca-troca de jogadores e técnicos do futebol brasileiro. Kyle Maclachlan, o agente Dale Cooper da inesquecível Twin Peaks (1990-1991) – candidato a melhor personagem da história do gênero -, pouco fez de relevante desde então, a não ser encarnar dois maridos bananas, Trey em Sex and the City e Orson em Desperate Housewives.

Por sua vez, após meio decênio vagando por filmes mixurucas, Courtney Cox, a Monica de Friends, retornou à TV com o sitcom Cougar Town; e Lisa Eldenstein, a insinuante chefa de hospital Cuddy em House – e antiga integrante de Plantão Médico -, mal havia anunciado que não renovaria o seu contrato para a oitava temporada do seriado e já confirmava sua presença em The Good Wife (a mesma, aliás, que tem Cris Noth, o par de Carrie em Sex in the City, sem contar que a protagonista, Juliana Margulies, teve forte presença nas primeiras temporadas de Plantão Médico…”).

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Hugu Laurie com Lisa Eldenstein em “House”: ela não perdeu tempo e pulou para “The Good Wife” (Foto: Divulgação)

A manobra dos roteiristas para sacar Eldenstein de House, por causa de um desacordo salarial da atriz com os produtores, foi radical: no último episódio da sétima temporada, o peculiaríssimo médico vivido por Hugh Laurie invade a casa de Cuddy com um carro. A tolerância da doutora com seu ex-namorado, que o público pensava ser infinita, chega ao fundo do poço, ela finalmente se escandalizada o suficiente e, por fim, desaparece da trama.

E Lost? Pela febre que causou entre 2004 e 2010, o thriller de 7 temporadas não tinha potencial para revelar os novos Brad Pitts e Angelina Jolies? Matthew Fox (Jack) e Josh Holloway (Sawyer) despontavam como candidatos a novos galãs, enquanto Evangeline Lilly (Kate) era a musa de repetidos verões. Sobrava carisma em Jorge Garcia (Hurley) e apelo “étnico”, algo que encanta os produtores, em Yunjin Kim (Sun) e Naveen Andrews (Sayid).

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Fox, Evangeline e Holloway: os astros de “Lost” esperam a próxima jangada para Hollywood

Mas cadê? O tempo está passando, e nada das estrelas da ilha perdida cruzarem o oceano de incertezas e atracarem na terra firma de Hollywood. A última notícia que temos sobre Fox é que foi preso esta semana após socar a barriga de uma motorista de ônibus em Cleveland, no Estado norte-americano de Ohio. Dizem que contracenará com o próprio Brad Pitt em um filme a ser lançado no ano que vem.

Mas acho que em geral, do mesmo jeito em que temiam os “Outros”, os célebres náufragos receiam embarcar na canoa furada que levou os colegas Daniel Dae Kim (Jin) à nova versão de Havaí 5.0, de pouca repercussão, e Dominic Monaghan (Charlie) e Sonya Walger (Penny) a FlashForward, que de tão confusa afundou em menos de um ano e apenas uma temporada.

4-As séries são grandes recuperadoras de nomes que estavam “por baixo”

Por fim, é impossível não reparar a função restauradora das séries norte-americanas. Sabe a gata de calça boca-de-sino daquele filme policial de 1974 que você nunca mais viu? Pode ser que ela reapareça na próxima temporada do seu seriado preferido.

Sentiu saudades do promissor bonitão que roubou a cena naquela comédia bobinha em 1985 e depois sumiu? Talvez seu nome esteja nos créditos do novo trabalho da ABC. Nem que participando rapidamente de em um mísero episódio (uma única edição de Nip/Tuck trazia pontas de Kathleen Turner e Brooke Shields, por exemplo; Edward Norton e Chazz Palminteri dão canjas na divertida Modern Family).

A lista de nomes meio esquecidos, meio “por baixo” que ressurgiram como a Fênix na telinha nos últimos tempos é extensa. Vamos a alguns deles, separados por décadas:

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Beals (abaixo, à direita) e Grier (a terceira da esquerda para a direita da fila de cima) de “The L Word”: recuperadas

Anos 1970: Pam Grier, onipresente em longas do gênero Blaxploitation, reapareceu em The L Word (2004-2009). Sugestão para os próximos candidatos: Mark Hammil, Sissy Spacek, Burt Reynolds.

Anos 1980: o período mais suculento para a volta dos que quase foram. Alguém viu, por exemplo, algo do Patrick Dempsey entre Namorada de Aluguel (1987) e seu retorno triunfal em Grey’s Anatomy? Por onde andava Jennifer Beals, a imortal bailarina de Flashdance (1983), antes de The L Word?

As mesmas perguntas valem para Rob Lowe – outro que salta de série em série desde que saiu do limbo – e Robert Sean Leonard, o Wilson de House, antes conhecido por não muito mais que o suicida Neil de Sociedade dos Poetas Mortos (1989). Também não dá para dizer que a ex-A Gata e o Rato (1985-1989) Cybill Shepherd fora vista muito publicamente até ressuscitar em The L Word. Sugestão para os próximos candidatos: Matthew Broderick, Corey Feldman.

Anos 1990: naquela década, eles estrelavam trabalhos de bolas da vez, como Quentin Tarantino e David Lynch. Depois andaram relativamente desaparecidos. Atualmente, é só zapear por seu canal de séries favoritos para encontrá-los: Steve Buscemi (Boardwalk Empire, depois de uma ótima aparição em A Família Soprano), Tim Roth (Lie to Me, que também incorporou Jennifer Beals), William Baldwin (Parenthood) e, até pouco tempo atrás, Patricia Arquette (Medium). Sugestão para os próximos candidatos: Winona Ryder, Bridget Fonda.

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17 Comentários

Paula Soares em 29 de dezembro de 2011

Como você, também sou fã de seriados americanos. Há anos venho assistindo "I love Lucy", "Mary Tyler Moore", "Lost in Space", "Batmasterson", "Dr. Case","Dr. Kildaire", muitos outros daquela época e alguns atuais. A América (USA) conquistou o mundo e tornou-se grande potência nao pelas armas, mas pela riqueza cultural como música, cinema etc. Sorry periferia, mas nao adianta espernear nem negar esse fatos: nessa área, eles ditam moda... (ca entre nos, em outras também, nao e?) ,

maria em 27 de dezembro de 2011

Carissimo! comentário instigante, de aquecer o coração! E faço uma conexão gostosa: David Fincher brilhou em The West Wind (pausa) e um dia fez A Rede Social e colocou um amigo atuando como o reitor de Harvard - que na vida real é um show de gente, mais que o Larry Summers,rs e que produziu John Le Carré num filme que está apontando... Pro Paulo Francis a melhor série que ele viu foi esta que vai sair em filme, jamais chegou aqui (?). Para mim foi Memórias de Brideahed, acho que escrevi errado. Prime Suspect também é brilhante ( Helen.... Helen....) mas também sou louca pelas séries do Tio Sam. Vejo Justified, esplêndido! Mas the best foi WALLANDER. Depois dela, nada foi bom. Fugi do tema, né? Abraços de gratidão, pura! Obrigado, Maria. Grandes dicas, as suas. Abraços, Daniel

Mag em 26 de dezembro de 2011

Adorei! Não podemos esquecer da veterana Sally Field que depois de indicações e Oscar virou a matriarca de Brothers and Sisters. Sou tio sam's addict too! esse povo esquerdoso êh uma palhaçada! Ótimo artigo!

Odracir Silva em 26 de dezembro de 2011

Gosto eh gosto... e "Breaking bad" ee superior ao "Mad men".

Caíque em 09 de setembro de 2011

Jennifer Beals também está em "Lie to Me", é a ex-mulher do protagonista. Gil Bellows parece que saiu de "Um Sonho de Liberdade" diretamente para Ally McBeal. É verdade. Obrigado pelas lembranças. Abraço

Marcio Severo em 08 de setembro de 2011

Achei. A Glen Close faz uma advogada em Damages.

Marcio Severo em 08 de setembro de 2011

Existem alguns nomes de peso que também dão suas zapeadas pelas séries. A Sharon Stone apareceu em dois ou três episódios da Law & Order: SVU, onde também já vi o Jeromy Irons e a Katy Bates e o Laurence Fishburne está na CSI. Já vi também a Glen Close numa série, mas não me lembro em qual ( são tantas)

Perry em 07 de setembro de 2011

Não precisa escancarar. Todo mundo já sabe que você é COLONIZADO pelo Tio Sam. Milhões de pessoas, dezenas ou mesmo centenas de milhões de pessoas no mundo todo admiram as séries americanas, por uma excelente razão: elas são ótimas. E você não tem mais nada a dizer aqui no blog a não ser ofender quem nele trabalha? Que coisa mais triste...

Wilson em 06 de setembro de 2011

Daniel, Não podemos nos esquecer da Helen Hunt que fez sucesso com a série Mad About You (Louco por Você)e ganhou o Oscar de Melhor Atriz em 1997 com Melhor é Impossível em que faz par com Jack Nicholson. É a exceção confirmando a regra... Excelente lembrança, Wilson! Obrigado. Também lembrei posteriormente da Katie Holmes. Mas, pensando bem, esta também não "virou" em Hollywood. Abraço Daniel

marco em 05 de setembro de 2011

Além de saudáveis movimentos contra a corrupção, devemos lançar outro movimento pela net: q West Wing volte á Tv. Apoiadíssimo, Marco. E é um absurdo a Warner vender os DVDs de 6 temporadas e deixar na mão os fãs, não lançando a 7ª e última temporada, como já reclamei no blog... Um abraço

Lu em 05 de setembro de 2011

Imperdível com Jennifer Aniston: “Fora de Rumo”… quem se envolve com a história esquece totalmente que a Jen foi a Rachel Green. Mas, claro, duas horas de filme não ofuscam 10 anos de F.R.I.E.N.D.S

Lu em 05 de setembro de 2011

Imperdível com Jennifer Aniston: "Fora de Rumo"... quem se envolve com a história esquece totalmente que a Jen foi a Rachel Green. Mas, claro, duas horas de filme não ofuscam 10 anos de F.R.I.E.D.S

Mariazinha em 04 de setembro de 2011

Sou viciada em várias séries americanas e gostei da reportagem.

carlos em 04 de setembro de 2011

Todos os quatro items são a mais pura verdade. Se antes Hollywood era o lugar de onde saiam os roteiros e atores de qualidade, agora é na TV que encontramos o que está cada vez mais raro no cinema.

Aulus Plautus em 03 de setembro de 2011

Na mosca!

Maria Angela em 03 de setembro de 2011

Tentei comentar a reportagem antes mas não tinha espaço. Parece que mudou então aproveito para dizer que gostei bastante. Site variado e interessante. Voltarei outras vezes obrigado.

Helio Nayeb Filho em 03 de setembro de 2011

Gostei muito de seu comentário. Também sou fã das séries americanas, talvez o que há de melhor no cinema hoje em dia, e concordo em geral com suas observações e opiniões. Parabéns!

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