Artigo de 2004: Peixes gordos e a greve da PF

Artigo de 2004: Peixes gordos e a greve da PF Foto: Felipe Turioni - G1

E ainda: os “biclandestinos”, Sarney e sua Zona Franca, a vida dura de Dirceu, os ensinamentos de um adesivo maroto, variações sobre as “caixas 2”, juros devoram o PIB, as belas do tempo, o apetite de certos ex-candidatos à presidência e uma deputada estridente

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A greve de agentes, funcionários administrativos, peritos e escrivães da Polícia Federal iniciada nesta terça, 9, poderá prejudicar e certamente vai adiar o desenlace de uma espetacular operação contra quadrilhas de sonegadores de impostos sobre combustíveis em São Paulo.

A operação é a maior do gênero já realizada no país, pode abranger dezenas de prisões e deve alcançar peixes graúdos. Conta com a colaboração de outros setores do governo, como a Receita Federal, e está sendo cercada de grande sigilo e da máxima segurança. Até funcionários de pouca visibilidade que participam do trabalho investigativo têm merecido o permanente acompanhamento de escolta policial.

Biclandestinos

Por falar em Polícia Federal, está nas mãos da PF uma investigação destinada a identificar os cidadãos brasileiros que, recentemente deportados dos Estados Unidos por violação das leis de imigração, teriam voltado ao território americano.

Não fosse a greve, seria uma moleza: vários dos deportados, mal puseram os pés no Brasil, anunciaram alto e bom som aos noticiários de televisão nome, profissão e a intenção de tentar o mais rapidamente possível voltar a ser clandestinos nos EUA.

A Zona Franca de Sarney

Com essa história de estar cumprindo rigorosamente o Regimento Interno do Senado e, por isso, supostamente não poder indicar integrantes para uma CPI dos bingos em lugar dos líderes dos partidos pró-governo que se recusam a fazê-lo, o presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), aumenta seu cacife com o Palácio do Planalto.

Inclusive para conseguir continuar empurrando aquele projeto que amplia a Zona Franca de Manaus para toda a Amazônia e mais o Estado que representa, o Amapá. O projeto tem a oposição da área econômica do governo por trombar com a Lei de Responsabilidade Fiscal e, segundo técnicos do próprio governo, infringir acordos internacionais que o Brasil firmou no âmbito do Mercosul e da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Vida dura agora, vida dura à frente

Mesmo que passe a atual tempestade do escândalo Waldomiro Diniz – o que ainda parece longe de acontecer – e o ministro José Dirceu, da Casa Civil, deixe de ser assombrado por esse fantasma, nada indica que sua vida futura será um mar de rosas.

Além da corrosão de prestígio e de autoridade inevitavelmente decorrentes do caso, o ministro terá uma rotina duríssima. O presidente Lula ainda não abandonou a idéia de que Dirceu, designado uma espécie de gerente geral do governo, realize amiúde – se possível semanalmente – reuniões com cada ministro, para acompanhar o andamento das ações do governo.

Como Lula tem, excetuado o próprio Dirceu, 34 ministros…

Síndrome de Brasília

Para a turma de Brasília, incluídos certos jornalistas, que acham que o caso Waldomiro Diniz “paralisou o país”, recomenda-se uma viagem por um roteiro incluindo o interior de São Paulo, o norte do Paraná, o Triângulo Mineiro e o sul de Minas, o sul de Goiás, vastas parcelas dos dois Matos Grossos, de Santa Catarina, da Bahia e do Rio Grande do Sul – pelo menos.

Ruas de São Paulo

Adesivo colado ao vidro de um esplêndido Ford Coupé preto 1948, todo original, conservadíssimo e reluzente, que circula na capital paulista: “Carro antigo é como mulher de amigo: você olha, admira mas não põe a mão”.

Desembargadores federais

Ao contrário do que fez com os integrantes dos tribunais superiores, todos chamados formalmente de “ministros”, e os membros dos tribunais de Justiça dos Estados, nomeados, como tradicionalmente já ocorria, “desembargadores”, a Constituição de 1988 foi omissa quanto ao tratamento que deveriam receber os integrantes de uma instância por ela criada, os Tribunais Regionais Federais (TRTs).

Em vários julgamentos recentes no Supremo Tribunal Federal (STF), porém, os ministros da Corte têm utilizado, para os juízes dos TRTs, a denominação que muitos deles já vinham se auto-aplicando: “desembargadores federais”. A tendência agora é a expressão pegar de vez.

Turbilhão de maracutaias

A gritaria em torno do suposto favorecimento do governo à Geap Fundação de Seguridade Social no terreno dos convênios para fornecimento de planos de saúde aos servidores federais pode ter efeitos que vão além do caso propriamente dito.

Eventuais alterações no texto do decreto que trata desses convênios podem resolver especificamente o caso da Geap, entidade assistencial sem fins lucrativos dirigida pela ex-presidente do Conselho Regional de Medicina de São Paulo Regina Parizi Carvalho, médica filiada ao PT. Mas a barulheira está chamando a atenção de setores do governo e do Ministério Público para uma área onde existe um turbilhão de maracutaias.

Beneméritos do caixa 2

Diversas supostas entidades assistenciais sem fins lucrativos – não se está falando da Geap – efetivamente nunca apresentam qualquer lucro contábil. Mas movimentam fortunas em caixa 2 investidas no mercado financeiro e engordam a conta bancária de diretores ou mantenedores que, além de violarem as leis fiscais e o Código Penal, ainda posam publicamente de beneméritos.

Números relevantes

Para pagar juros da dívida pública, o país gastou em 2003, segundo o Banco Central, 145,2 bilhões de reais, equivalentes a 9,5% do PIB. Se desfrutasse da mesma situação de países que outrora esnobávamos, como o México, que empenhou 3% do PIB com a mesma finalidade, o Brasil teria gasto 45,8 bilhões. Teriam sobrado, assim, inacreditáveis, inatingíveis 100 bilhões de reais para investimentos em saúde, educação, segurança pública, saneamento básico e outras carências desesperadoras.

Números irrelevantes

O corrimão da escada principal do Palácio do Catete, no Rio, que entre 1897 e 1960 foi sede do governo da República e abrigou dezesseis presidentes, tem 1 metro de altura.

Mediawatch

Não tem sorte a bela Fabiana Scaranzi, a “garota do tempo” do “Jornal Nacional” da Rede Globo. Com a transferência para Nova York da não menos bela Patrícia Poeta – ex-repórter e apresentadora em São Paulo e, também, sua ex-substituta eventual –, ela parecia reinar, soberana, no território meteorológico global.

Mas a regra 3 que substituiu Patrícia, Rosana Jatobá, que a Globo trouxe há tempos da Bandeirantes, é igualmente páreo para Fabiana no quesito beleza. Confiram.

Perguntar não ofende (1)

Se o governo precisou designar uma força-tarefa de funcionários e técnicos de diferentes áreas do Executivo, inclusive a Advocacia Geral da União, para analisar mais de 40 mil processos de todo tipo paralisados na área de comunicação eletrônica – referentes a emissoras e retransmissoras de TV e rádios AM e FM –, o que fez durante um longo ano à frente do Ministério das Comunicações o atual líder governista na Câmara, deputado Miro Teixeira (sem partido-RJ)?

Não está sozinho

Se o ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, duas vezes candidato à Presidência (1998 e 2002), resolver enveredar pela fímbria de possibilidade que ainda existe de ser candidato a prefeito de Fortaleza pelo PPS, não será o primeiro político a mudar tão dramaticamente de objetivo.

Fernando Collor (PRTB), presidente entre 1990 e 1992, tentou a Prefeitura de São Paulo em 2000 antes de ser impugnado pela Justiça Eleitoral e, no ano passado, foi derrotado ao concorrer ao governo de Alagoas. Paulo Maluf (PPB-SP) elegeu-se prefeito de São Paulo em 1992 depois de ficar em quinto lugar em sua tentativa de chegar à Presidência em 1989. Antes dele, em 1985, elegeu-se para o mesmo cargo um ex-presidente da República – Jânio Quadros (1961). O ex-presidente já tentara em 1982, sem êxito, disputar novamente um posto que exercera entre 1955 e 1959: o governo paulista.

De presidente a deputado

Um caso célebre deu-se nos Estados Unidos. O sexto presidente americano, John Quincy Adams (1825-1829), voltou à política em 1830 como um simples deputado, e permaneceu na Câmara dos Representantes até sua morte, em 1848.

Decibéis

A deputada Alice Portugal (PC do B-BA) é forte candidata à voz mais estridente da Câmara.

No sentido literal.

Quando é que foi bom?

Em recente solenidade no Palácio do Planalto para a entrega do Prêmio Nacional de Gestão Pública, o presidente Lula, entre muitas considerações feitas ao longo de mais uma fala de improviso, disse o seguinte:

– Precisamos devolver ao Estado brasileiro a excelência de qualidade de serviços que um dia nós prestamos.

Com todo o respeito ao presidente: quando é que foi isso?

Advogados federais, advogados estaduais

Advogados federais que ameaçam entrar em greve por um reajuste de 100% nos salários reclamam, entre outras coisas, de ser muito baixo o piso de início de sua carreira no funcionalismo, próximo dos 3.400 reais mensais.

Já no Estado de São Paulo, que reúne mais da metade dos profissionais em atividade no país, advogados iniciantes em grandes escritórios rezam todo dia em agradecimento a Nosso Senhor Jesus Cristo quando conseguem ganhar mais que 1.500 reais.

Perguntar não ofende (2)

Alguém acredita que o governo vai descontar os dias parados dos funcionários da Polícia Federal em greve?

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