A frase, preciosa para quando se quiser contar a história real do Plano Collor, foi dita pelo presidente da República a um qualificado interlocutor, que já ocupou postos de alta relevância na administração e hoje, embora não seja membro do governo, apoia as linhas gerais da mais atrevida reforma econômica feita no País. O presidente Fernando Collor já governava havia alguns meses e o interlocutor lhe perguntou como foi que ele havia encomendado o plano. Collor sapecou:

— Eu disse que queria um plano que matasse a inflação em seis horas. Se fosse para liquidar em 12 horas, não servia.

Está certo que a inflação não foi liquidada – nem em seis horas, nem em 12, nem nos sete meses e uma semana do novo governo. Mas a infernal impetuosidade que Collor transformou em marca registrada estava ali inteirinha – tanto na frase como no plano, que superou todas as expectativas de ousadia ao se desencadear, de forma fulminante, já nas primeiras horas do governo nascente. 

É interessante lembrar um entre tantos exemplos do Collor que 35 milhões de eleitores elegeram para comparar com o Collor que está inerte diante da torrente de omissões, trapalhadas e incoerências em que se transformou o governo nos últimos dias. É como se o irrequieto e desconcertante lutador de caratê tivesse engordado e perdido os reflexos. As coisas vão acontecendo, vão corroendo o prestígio e a autoridade do governo, e Collor deixa o barco correr, arranjando um jeito ainda de enveredar por agradável, mas certamente pouco produtivo, périplo português. 

A questão da demissão do procurador-geral da Justiça do Trabalho e sua substituição antes do término do mandato é apenas a última das crises desnecessárias armadas no território do governo: o Planalto, ao não tomar conhecimento do procurador-geral da República como chefe do Ministério Público, compra uma briga inglória, que atropela a Constituição e irrita o Judiciário. Não se vê, até onde a vista alcança, qualquer objetivo remotamente razoável para o desgaste correspondente. Diante disso, é inevitável que se pergunte onde está o Collor que, governador de Alagoas, clamava contra os atropelos à lei na questão dos funcionários marajás do Estado e exprimia inquebrantável fé no Supremo Tribunal Federal. 

Já não tão recente, mas mais grave, é a saída do advogado Luiz Octávio da Motta Veiga da Petrobrás. Como se sabe, ele deixou a presidência da estatal falando de algo que se recusou a fazer e que tem os traços fisionômicos, o CIC e o RG de uma grossa falcatrua – um empréstimo irregular e generoso da estatal à [companhia aérea] Vasp que, se efetuado, seria danoso aos cofres públicos.

Motta Veiga é um homem de passado limpo, e lançou suspeitas em variadas direções, inclusive sobre um integrante do governo conhecido como homem competente e honrado – o embaixador Marcos Coimbra, secretário-geral da Presidência e cunhado do presidente. Ora, se Motta Veiga faz acusações levianas, deve ser processado. Se não, o governo tem a obrigação de investigar o que ele diz que aconteceu. Se não acontece nem uma coisa nem outra e fica tudo por isso mesmo, o eleitorado de Collor começa a não reconhecer, no presidente que está no palácio, o candidato que prometia transparência no palanque e fez fama como alguém que não contemporiza com situações turvas. 

O caso Petrobrás, aliás, colocou novamente em evidência a pessoa que teria proposto o mau negócio à Petrobrás – o empresário Paulo César Farias, o PC – uma figura nebulosa que, apesar de tido como um repositório de vulnerabilidades, continua a falar em nome do presidente, inclusive em missões políticas. É o caso de mais uma vez se perguntar onde está o Collor que falava o diabo da política de privilegiar amizades inconvenientes de seu antecessor, José Sarney.

Na Petrobrás, Motta Veiga, como se recorda, afundou atirando para não ser, antes disso, carbonizado por lança-chamas localizados dentro do esquema de poder mais próximo ao presidente. A carbonização, aliás, passou a ser um neologismo utilizado por pessoas que, se fossem integrantes do governo Sarney, se diriam vítimas do odioso processo da fritura, pelo qual o então presidente se livrava de auxiliares indesejáveis fingindo o tempo todo que precisava de seu concurso – e usando, na hora do arremesso final à frigideira, alguém de dentro do governo para que os respingos de óleo fervente não atingissem seus próprios dedos.

Foi carbonizado, por exemplo, o ministro da Justiça Bernardo Cabral – nem mesmo sua santa esposa, dona Zuleide, acredita na versão de que partiu de Cabral a iniciativa de sair. Não seria muito mais cristalino mandar o ministro pegar o chapéu? Onde estaria o Collor que abominava a fritura?

A lista de indagações e perplexidades não para aí – passando, naturalmente, pela curiosidade sobre o paradeiro do presidente que jurou solenemente, sem que ninguém lhe tivesse cobrado, não utilizar em seu governo personalidade alguma que tivesse desempenhado “funções ministeriais” nas administrações passadas.

Um passarinho veio nos lembrar que o presidente esqueceu a promessa. Já que perguntar não ofende, como lembra diariamente a coluna Canal 3 do Estado, cabe, então, indagar, diante do Collor de hoje, onde está o Collor de ainda um dia desses.

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