A disputa presidencial deste domingo no Peru está indefinida, mas, mesmo com as pesquisas de intenção de voto proibidas na reta final da campanha, vazou para o exterior o que todo mundo sabe – que ninguém vencerá o primeiro turno – e algo de já se suspeitava: os dois entre cinco candidatos com a maior chance de passar para o segundo turno, previsto para 5 de junho, são os que mais ameaçam as conquistas extraordinárias que o Peru conseguiu na última década.

De fato, se se confirmarem os levantamentos, iriam para o segundo turno o ex-coronel ultranacionalista Ollanta Humala, amigão do venezuelano Hugo Chávez que, tendo perdido a eleição de 2006, procura adoçar seu perfil, e a deputada Keiko Fujimori, filha do ex-presidente e ex-ditador Alberto Fujimori (1990-2000), ora cumprindo pena de 25 anos de cadeia por crimes contra a humanidade.

Ainda estão se engalfinhando por uma vaga em junho o ex-presidente Alejandro Toledo (2001-2006), o empresário, ex-ministro da Economia e ex-primeiro-ministro Pedro Pablo Kuczynski e o ex-prefeito de Lima Luis Castañeda. Toledo é em certa medida uma espécie de FHC do Peru, tendo realizado reformas que permitiram ao atual presidente Alan Garcia, continuador de sua política de rigor fiscal, controle da inflação e abertura aos mercados, administrar um período de grande prosperidade. Kuczynski já deixou claro que iria pelo mesmo caminho, tal como Castañeda que, mais situado à esquerda, propala maior preocupação social.

Humala: esquerdismo populista e até antissemitismo

Humala será um problemaço para o Peru, se eleito: seu esquerdismo populista, suas tendências estatizantes e seu autoritarismo assustam investidores nacionais e estrangeiros que impulsionaram o boom econômico iniciado durante a ditadura de Fujimori. Até antes da atual campanha próximo de Chávez, de Fidel Castro e do presidente boliviano Evo Morales, Humala viu-se envolvido, no seu passado de militar, em acusações de ser torturador quando participava da luta contra os terroristas do Sendero Luminoso. Não bastasse, na campanha de 2006 deixou escapar declarações antissemitas.

Sua família, da qual tem procurado mostrar-se afastado, não ajuda em nada: o pai, Isaac, integrante de um grupúsculo denominado Partido Comunista do Peru – Pátria Vermelha, e um dos teóricos do movimento “Etnocacerista”, que prega a cassação da cidadania do país a todo peruano que não tenha ascendência indígena.Sua mãe, Elena, já pregou publicamente o fuzilamento de homossexuais. Um de seus irmãos, Antauro, cumpre pena de 25 anos de prisão por sequestro.

Keiko: principal credencial é ser filha do ex-ditador

Keiko Fujimori, 35 anos, casada com um americano e mãe de duas filhas, deputada, sem nenhuma experiência administrativa, ostenta como principal credencial ser filha do ditador corrupto e violento que infelicitou o Peru por 8 anos (1992-2000), mas que conseguiu sufocar o terrorismo e dar um jeito na economia. Ela faz a típica campanha populista – de um lado, prometer tudo no âmbito social, desde 1 litro de leite por criança por dia e uma rede de creches de Primeiro Mundo por todo o país; de outra, mão dura contra o crime, o que inclui pena de morte para estupradores.

Em relação ao pai, mostra uma isenção ensaiada, prometendo que não vai anistiá-lo – quando boa parte dos peruanos ignora que a legislação não permitiria. Teme-se que, uma vez no governo, parta para uma gastança irresponsável que trinque a economia.

O país, que esteve esfrangalhado, hoje tem muito a perder

O Peru vai bem, embora conserve ainda um grande nível de pobreza, desigualdade social e falta de infraestrutura.

Mas o país esfrangalhado e miserável, consumido por uma hiperinflação, atormentado pelo desemprego e a paralisia econômica após o primeiro e catastrófico governo de Alan Garcia (1985-1990), há uma década cresce acima da média da América Latina, seu PIB há cinco anos engorda a mais de 5% anuais, índice que chegou a 7,7% em 2010 e deve se repetir ou mesmo ser superado este ano, dependendo de quem assuma o poder no dia 28 de julho próximo. A inflação, 3% ao ano, é bem menor do que a do Brasil.

Nos últimos cinco anos, pulou espetacularmente 24 posições no ranking de Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, um composto estatístico que considera a renda per capita, a expectativa de vida e a educação de 169 países; está agora em 63º lugar, 10 posições acima do Brasil.

O Peru e os peruanos, pois, têm muito a perder em caso de eleger um presidente irresponsável.

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14 Comentários

Marcelo Jose Gonçalves em 15 de abril de 2011

Não sei não, mas parece que voce pegou o que falaram de Lula em 2002 e so trocou o nome para Ollanta Humala. Exercício de adivinhação, "Humala será um problemaço para o Peru, se eleito", não da certo...

Jefff em 11 de abril de 2011

Alejandro Toledo é muito parecido com FHC que teria uma percentual de votos muito parecido com o colega peruano.

Jefff em 11 de abril de 2011

O ex-ditador Alberto Fugimori recebeu a comenda da Ordem do Cruzeiro do Sul das mãos do ex-presidente FHC após se reeleger pela terceira vez em 2000. Depois pediu a comenda de volta depois que El Chino caiu. Imagine se o ex-presidente Lula desse a comenda ao Khadafi por exemplo.

José Geraldo Coelho em 11 de abril de 2011

Pelo jeito teremos mais um despotóide governando na America Del Sur. Resta saber se será da esquerda ou de direita. Ou nenhum dos dois? O certo é que será um despotóide!

SergioD em 11 de abril de 2011

Ricardo, a declaração do Vargas Llosa saiu no El Mercurio do último sábado, dia 9/04/2011. Um abraço Obrigado, caro SergioD. Achei que era um artigo dele. De todo modo, vou procurar. Abraço

Not funny ... em 10 de abril de 2011

Só para não tornar a pergunta do tamanho do discurso maçante e inútil como a do Fidel ou Fidel II, vulgo Chaves, gostaria de saber: “Keiko casada com americano sem nenhuma experiência administrativa...” Pode se interpretar que caso fosse casada com algum membro do Sendero luminoso e não com americano seria mérito? Quantos candidatos com 35 anos nas Américas realmente tinham experiência administrativa? Pode citar alguma experiência administrativa do atual presidente americano Hussein quando candidato? O pai da Keiko é um ditador corrupto e violento por ter enjaulado o Gusmão e ter colocado ponto final no bloodshed, mas a turma do Gusmão apesar de ter ceifado mais de 25 mil vida dos peruanos é só ternura e incorruptível? Não, enjaular esse terrorista hediondo foi um excelente trabalho de Fujimori. Fujimori é corrupto e violento pela imensa roubalheira, comprovada na Justiça, que houve em seu governo, e pelas violações dos direitos humanos ocorridas durante boa parte de seu período no poder -- desaparecidos, pessoas assassinadas, torturas. O que você chama de "a turma do Gusmão" são os terroristas do Sendero Luminoso, assassinos sanguinários que não merecem qualquer compaixão, naturalmente.

Caio Frascino Cassaro em 10 de abril de 2011

Prezado Ricardo: Os peruanos deveriam olhar para o Bresil e aprender o que a irresponsabilidade pode causar à economia. O desespêro das autoridades econômicas na questão do dólar chega a ser patético. Vazou para a imprensa, obviamente de caso pensado, o encontro que o presidente do BNDS teve com empresários no qual criticou-se fortemente a política econômica praticada pelo Ministério da Fazenda na figura pusilânime do sr. Mantega (aliás, acho que falta um "i" no nome dele). O diagnóstico é muito simples: o país caminha para um desastre de proporções épicas. O dólar abaixo de R$1,60 serve como âncora para a inflação, que apesar disso já apresenta sinais de caminhar para o descontrôle. Como já disse em comentário anterior e confirmado por um post recente, o Brasil marcha de forma acelerada para um crise cambial, pois a partir do momento em que o déficit em conta corrente passar do 100 bilhões de dólares se tornará não financiável, resultando no já conhecido estouro da manada e em uma desvalorização do real da ordem de 30% ou 40%, o que certamente levará a inflação para os dois dígitos. Aí, meu caro, a estabilização da moeda, conseguida a duras penas através do plano real e de todas as políticas complementares a ele (venda das estatais, lei de responsabilidade fiscal, abertura do capital da Petrobrás, o PROER, entre outras), estará por um fio, assim como o próprio governo Dilma, que pode se tornar um "pato manco" bem antes do final do mandato da presidente. Por isso, os peruanos que se cubram: a chance deles pulverizarem os ganhos obtidos por dois governos consequentes são imensas, pois, além de tudo, são uma país economicamente muito mais frágil que o Brasil, não tendo uma estrutura econômica que permita suportar um largo período de descontrôle fiscal. Um abraço

SergioD em 10 de abril de 2011

Ricardo, ando meio afastado do BLOG pois estou em viagem de férias pelo Chile, mas venho acompanhado seus post na medida do possível, quando consigo um bom sinal wifi para o celular (nem pensar em usuar a rede telefônica pois as tarifas para uso de internet no exterior sao proibitivas, assim como o teclado desse computador que uso onde nao acho o til de jeito nenhum, somente no ñ). Venho acompanhando com interesse o que a imprensa chilena vem publicando sobre as eleiçoes peruanas. O jornal El Merccurio dedica duas ou três páginas sobre a eleiçao, inclusive com uma estrevista com Mário Vargas Llosa, que nao tem opiniao nada abonadora sobre os dois candidatos que estao liderando as pesquisas. Me recuso a externar sua opiniao sobre Olanta Umala e Keiko Fujimore pois a achei deselegante, deabonadora para um Prêmio Nobel de Literatura. Seu apoio é total para Alejandro Toledo. Nao tinha a mínima idéia de que o Chile é o país com maior quantidade de investimento estrangeiro no Peru. Daí sua grande preocupaçao com o resultado da eleiçao tanto no front econômico quanto político pois Umala tem idéias nao muito diplomáticas quanto ao Chile, o que lhe valeu uma repreensao do atual presidente peruano, Alan Garcia. Segundo analistas polìticos chilenos, a APRA, partido de Garcia, nao apresentou cadidato, quer dizer, apresentou um candidato a ser, como diríamos no Brasil, critianizado, que logo abandonou o pleito. Segundo eles o grande interesse do Sr. Garcia seria de voltar nas eleiçoes de 2016. Meio como era a pretensao de JK para 1965. O partido, agora, na última hora, estuda o apoio ao candidato Pedro Pablo Kuczynski. A grande discussao por aqui ainda é o acesso da Bolívia para o mar, o que já é consedido pelo porto de Iquique, no norte do país. Acesso alfandegário, com parte do porto consedida ao país vizinho, nao soberania territorial para Bolívia. Hoje o Peru é quem mais se opoe a nao se conseder território costeiro a Bolívia por conta do intenso intercâmbio econômico entre Peru e Chile. A medida do possível comento os resultado do primeiro turno semana que vem. Grande Abraço do amigo que tem saudades de participar do BLOG. Vinha sentindo sua falta, amigo SergioD. Muito bom saber que você passa férias no Chile, maís magnífico, povo civilizado e gentil, de que gosto muito. Seus comentários serão sempre benvindos. A questão da saída da Bolívia para o mar nunca sai de pauta. Eu já escrevia sobre isso no começo dos anos 70, quando trabalhava na Internacional do Jornal da Tarde... Aliás, minha primeira viagem ao exterior para trabalhar como jornalista foi exatamente ao Chile, em 1970, para cobrir as eleições. Estava eu então nos meus verdes 24 anos... Eu não tinha ideia da importante informação que você traz: de que o Chile é o país que tem mais investimentos no Peru! Isso mostra a pujança da economia do pequeno Chile e, também, o quanto os dois países, que já tiveram terríveis divergências no passado, estão hoje ligados. Vou procurar o artigo do Vargas Llosa. Agora fiquei curioso. Não estou com o Estadão em mãos porque também estou fora do país, mas vou acessar o jornal pela Web. Abraço

Tuco em 10 de abril de 2011

. Por aqui já vimos esse filme. Aliás, o estamos vendo, ainda. .

Amadeus em 10 de abril de 2011

. Setti, . É a velha história contada pelo Medici: "A economia vai bem mas o povo vai mal". . A renda per capita da dupla "Eu e o Agnelli" vai muito bem por aqui. Certamente que a da dupla "Você e o Eike" também não tem do que reclamar. . Provavelmente lá os Eikes e Agnellis também se deram bem. Mas os "Eu e Você" nem tanto. . E na democracia mandamos "Nós", não é mesmo? .

alexandre em 09 de abril de 2011

os indicadores macroeconômicos do Peru são excelentes mas os sociais ainda deixam a desejar. Por isso o discurso do Humala encontra eco em boa parte do eleitorado. Mas o povo peruano tem que entender que estabilidade econômica e crescimento são pré-requisitos para o desenvolvimento social. A princípio o Humala tem pinta que pode colocar tudo a perder mas vai que ele dê uma de Lula e se torne um pragmático ? Espero que o Peru não perca as suas conquistas

Agilmar Machado Filho em 09 de abril de 2011

Parece uma tendência, não só da AL mas também do mundo em geral, a degeneração política. Basta ver em que mãos estão a maioria dos países hoje em dia.

Paulo Bento Bandarra em 09 de abril de 2011

Não é muito diferente do que aqui. Também aqui se escolhe o menos pior, pois bom mesmo nenhum dos candidatos eram. Era a escolha no menos horrível e perigoso. Nem isto se conseguiu! Serra é que se livrou duma boa. Escapou da enorme cama de gato que Lula aprontou para ele. Imagina este caos deixado por Lula e o PT nas ruas gritando contra salário mínimo, dólar baixo derretendo, calote nos restos a pagar, corte monstruoso no orçamento, fechamento de concursos públicos e suspensão total das nomeações, caos nos canteiros de obras do PAC, obras paralisadas, estatais aparelhadas, sindicatos "petesados", caos na saúde e na segurança ... E com tudo isto o povo aplaude de pé o estelionato, contente da vida de ser tratado de bobo! Até o desarmamento que ele foi contra vão fazer assim mesmo se lixando para o povo e a sua segurança.

jfaraujo em 09 de abril de 2011

Tomara que os eleitores do Peru tenham vergonha na cara e escolham um presidente que com visão de desenvolvimento alicerçado na livre iniciativa e no respeito à liberdade de expressão, e não um destes porcos esquerdistas, populistas retrógrados sem cérebro, que existem aos montes na A. L..

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