Playboy Entrevista (1986): Jô Soares

Playboy Entrevista (1986): Jô Soares Adaptação da montagem original com três imagens de Jô publicada na revista (Fotos: Playboy)

Uma conversa franca com um gênio do humor sobre sua intimidade, seus casamentos, sua namorada, suas facas e revólveres, Brizola e Mastroianni, a arte de fazer graça e quanto, afinal, ele ganha (este post contém a íntegra da reportagem originalmente publicada)

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Quando José Eugênio Soares desistiu de fazer concurso no Instituto Rio Branco, trinta anos atrás, o Itamaraty perdeu o que poderia ter sido um mag­nifico diplomata. Afinal, José Eugênio já aos 18 anos falava cinco idiomas além do português, fora educado em Lausanne, na Suíça, e tinha sido apro­vado nos rigorosos exames de seleção da Universi­dade de Cambridge, na Inglaterra. Se o Itamaraty saiu perdendo, o Brasil inteiro, em compensação, ganhou Jô Soares, esse campeão do bom humor, do bom gosto e da alegria de viver. Um dos maiores ibopes da televisão brasileira e um extraordinário showman que, entre outras proezas, detém o recor­de provavelmente mundial de ter feito sozinho no palco mais de mil vezes um único espetáculo — Vi­va o Gordo e Abaixo o Regime – em apenas duas cidades, Rio e São Paulo, entre 1978 e 1983. Seu espetáculo atual, Um Gordoidão no País da Inflação, o seu quarto one man show, segue a mesma trilha: depois de um ano e meio de suces­so no Rio e outro tanto em São Paulo, começa este mês, pelo interior de São Paulo, uma sucessão de temporadas que se estenderá a Brasília, ao Estado do Rio e às principais capitais brasileiras ao lon­go de 1987.

Mas não é só: com o Viva o Gordo brilhando como sempre na tela da Globo, ele já começa a bo­lar novos quadros e personagens para o programa do ano que vem, ao lado de seus amigos e colegas de criação humorística Max Nunes e Hilton Mar­ques. Depois de dezoito anos, Jô voltou a pintar e expôs, semanas atrás, com sucesso, na Galeria Ipanema, no Rio. Ele planeja ainda uma exposição em São Paulo e comete periodicamente artigos de humor na imprensa. Entre um comercial e ou­tro que consegue encaixar em sua trepidante agen­da — ele fez este ano campanhas para os televiso­res Philips e tintas Suvinil e tem programada ou­tra para os molhos Pomarola — Jô já programa o próximo show, que quer estrear em janeiro de 1988, no Rio. E, como se tudo isso não bastasse, anima­do com o computador pessoal que passou recente­mente a usar para redigir e armazenar ideias, anda flertando de novo com um antigo projeto: escre­ver um romance, tendo como tema a cidade de São Paulo e alguns de seus personagens.

Não é de estranhar, assim, que sua namorada e paixão há dois anos e meio, a estudante de Comu­nicação Visual na PUC carioca Flávia Maria Gusmão Junqueira Pedras, a Flavinha ou “Biti­ca’; como é tratada por Jó, diga: “Tenho  22 anos, o Jô tem 48 — mas muitas vezes eu não aguento o pique dele”. É esse pique que faz Jô ler ou pelo menos correr os olhos em sete ou cinco jornais diários, dependendo de estar em seu belo apartamento de cobertura na Lagoa, no Rio, ou sua confortabi­lissima casa no Jardim Paulista, em São Paulo. Ele também é leitor regular de PLAYBOY, devora reli­giosamente Veja aos domingos, folheia e xereta várias outras publicações e nunca dorme sem ler li­vros — de Rubem Fonseca a Kurt Vonnegut Jr., do contista “marginal” americano Frederick Well aos clássicos franceses. Seu interesse parece inesgo­tável. Ele é capaz de interromper por instantes a gravação de um comercial para mandar Pepê, su­persecretário há oito anos, ir para casa gravar um capítulo de uma mini-série da televisão a que ele assistirá de madrugada. Ou, então, de alugar dois filmes para ver durante uma viagem Rio-São Paulo feita a bordo de sua nova e bela picape F-1000 cabine dupla, que tem TV, videocassete, geladeira e uma mini-despensa. “Estradas são sem­pre perigosas”, diz Jô. “Então eu queria uma coi­sa grande, sólida, e como não tem tanque de guerra à venda, a não ser para o exterior…”, brinca ele. (Seus outros carros são um Monza SR Branco, em São Paulo, e, no Rio, um fusquinha para serviços gerais e uma réplica brasileira de Porsche, conver­sível, vermelha, que ele brinca ser “uma Brasília enfeitada”. A picape e o Monza ele comprou com o produto da venda de uma jóia esplêndida que en­feitava sua garagem e suas incursões noturnas: uma Mercedes-Benz verde metálico 1978.)

É essa ligação constante com o que está aconte­cendo que permite a Jô recriar a cada nova apre­sentação seu show no teatro, e gravar, diariamen­te, seu comentário-relâmpago no Jornal da Globo. Toda essa frenética atividade não impede que ele seja um namorado dedicado e romântico, um amigo dos amigos — “às vezes subo à sala do Bo­ni [seu amigo há 26 anos] na Globo só pra dar um beijo nele, dizer `tou morrendo de saudades’ “ —, um pai terno e orgulhoso de Rafael, 22 anos, que vive no Rio com a mãe, a atriz Thereza Aus­tregésilo, primeira mulher de Jô, sua sócia e amiga até hoje. “Rafinha” nasceu uma criança-problema, mas é um rapaz criativo, executor de Bach e Beethoven ao piano — foi ele, aliás, quem compôs a música de abertura de Viva o Gordo e Abaixo o Regime.

Irrequieto e irreverente, Jô sempre foi — desde o tempo em que, filho único e morando com os pais na cobertura do anexo do Copacabana Palace, no Rio, vestia uma capa e fingia que ia se atirar lá de cima na piscina. “Os turistas americanos grita­vam, apavorados, ‘Please, don’t do it”; diverte-se ele ainda hoje. Foram justamente pessoas de teatro e show business que o conheciam da piscina do Co­pa, como o dramaturgo e homem de TV Silveira Sampaio, já falecido, que, atraídos pelas brinca­deiras e números inventados por Jô, acabaram por levá-lo a redator de programas na antiga TV Rio. Nessa época, por volta de 1957, ele conheceu Tô­nia Carrero, Paulo Autran e Adolfo Celi — e foi “mais ou menos por aí”; segundo ele próprio ava­lia, que tudo começou.

Foi, como se sabe, uma trajetória riquíssima. Além de seus próprios shows, Jô fez ou participou de quase duas dezenas de programas de sucesso na televisão, do Simonetti Show na antiga Excelsior (onde substituiu Boni como redator) à inesquecí­vel Família Trapo na Record, ou ao criativo Pla­neta dos Homens, na Globo. Fez cinema, inclu­sive como diretor (O Pai do Povo, de 1978— “fil­me quase secreto, ninguém viu”, brinca), no teatro dirigiu de Shakespeare a Dürrenmatt, de Millôr Fernandes a Neil Simon. Além de tudo, toca bon­gô e piston, é exímio atirador — com revólver 38 ou pistola Magnum —, é altamente político sem ser partidário, brinca com a religião mas é devoto de Santa Rita de Cássia, e entende de futebol com a autoridade de quem assistiu in loco à Copa de 1954, torce com fanatismo pelo Fluminense e tem enorme ternura pelo Corinthians. “Oiô é inesgo­tável’: decreta seu grande amigo Roberto Colossi, que trabalha com ele há 24 anos e é seu empresário exclusivo há doze. Para entrevistar este personagem riquíssimo do mundo brasileiro dos espetáculos, PLAYBOY designou o editor especial Ricardo A. Set­ti. Seu relato:

“Para mim, foi uma missão muito especial desde o início. Pudera: quem começou a entrevistar Jô pa­ra PLAYBOY foi Thomaz Souto Corrêa, que além de seu amigo pessoal há 26 anos é não apenas um experiente jornalista como também o diretor da di­visão da Editora Abril a que a revista está subor­dinada. Eu tinha, então, a responsabilidade de manter a qualidade que Thomaz imprimira às pri­meiras duas horas de gravação.

“A tarefa, contudo, tornou-se duplamente espe­cial pela figura que Jô Soares é. Depois de acompanhá-lo durante oito dias, eu o definiri a como um furacão carinhoso. Estive com ele nos bastido­res de seu show, em São Paulo, durante a feitura de Viva o Gordo no Teatro Fênix da Rede Globo, no Rio, assisti à filmagem de quatro diferentes comer­ciais seus na Lynxfilm, em São Paulo, e vi Jô gra­var seus flashes para o Jornal da Globo na sede da emissora, também em São Paulo. Gravamos um pouco nos intervalos desse frenético corre-corre, mas a maior parte da entrevista foi feita em sua bela casa paulistana de dois andares, piscina, árvores frondosas, lareira e vasta biblioteca, próxima ao Par­que do Ibirapuera, cuidada pelo casal de caseiros Francisco e Salete. A primeira sessão em sua casa começou à meia-noite de um dia em que Jô tinha filmado por dez horas seguidas no tórrido estúdio da Lynxfilm. Na noite anterior, depois de traba­lhar durante catorze horas em Viva o Gordo, ele só dormira três — e posso jurar que estava lépido como quem acabou de acordar e tomou um bom ba­nho.

“Com Jô, o velho chavão de que humorista é si­sudo na vida pessoal desaba fragorosamente. Ele brinca o tempo todo, contando piadas, improvisan­do trocadilhos, inventando apelidos, gozando a si mesmo — a um ponto tal que certos quadros do Vi­va o Gordo n.° 210, a que assisti durante seis ho­ras, tiveram que ser refeitos porque o clima de bom humor a sua volta às vezes faz as pessoas rirem na hora errada. ‘A equipe tem que achar graça para dar certo’, diz Francisco Milani, diretor do programa. `O astral dele é lá em cima’, atesta Cecil Thiré, an­tecessor de Milani no posto. Depois de conviver tão intensamente com Jô, eu assinaria embaixo.

“Terminada a entrevista, com doze horas gra­vadas, ele me convidou para uma sessão de queijos e vinhos junto a Flávia, sua namorada. Coma la­reira acesa — fazia um frio de 10 graus — con­versamos até de madrugada, às vezes coma presença de Jaime, um de seus buldogues. (O outro, Euri­co estava no Rio.) Na hora de me despedir, ocorreu-me fazer uma última pergunta: ‘Jô você é feliz?’ Imediatamente me dei conta de que era uma per­gunta desnecessária.

PLAYBOY — Você já fez mais de 150 personagens diferentes até hoje. Qual foi a coisa mais esquisita que teve que fazer para desempenhar um papel?

JÔ SOARES — Não foi nem no palco nem na televisão, foi num comercial de poupança em que eu tinha que subir num elefante para mostrar um cofrinho [risos].

PLAYBOY — E como foi?

JÔ — Aí foi aquela história: onde é que tem a porra do elefante? Era lá em Campos, no interior do Rio. Fazia um calor de 40 graus e eu entrei num circo pequeno, que tinha quatro elefantes e um domador alemão [risos]. Eu falei: “Ah, aí estão Os elefantes”. E ele [imita o sotaque, brincando]:“Nôn elefânde, é tudo elefanda. Elefânde hômen nôn deixa ninguém montar, nôn. Elefânde de zirrrco é tudo mulher, nôn é hômen, nôn. Hômen fica lá na salva” [risos]. Ele disse que eu podia escolher entre três. “Aquela quarta nôn pode, porque ela é lôca” [risos].

PLAYBOY — Louca?

JÔ — Eu olhei pra ela e ela tinha um olho esbugalhado [risos]. E o alemão explicou: “Falta de hômen” [risos]. Bem, eu montei numa elefanta que estava ao lado da maluca. Quando montei, as elefantas acharam que era número de circo, começaram a levantara pata, a se abaixar, e eu gritando:“Pára com esse negócio! Segura isso!” [Risos.] O alemão rolava no chão de rir, dizia: “Ah! Ah! Elas pensam que estão na zirrrco! Ah! Ah!” E não tomava a menor providência. Enquanto isso, a elefanta maluca me tentava pegar com a tromba. E eu com o cofrinho na mão [gargalhada]. O mais maluco foi que depois de tudo isso o diretor do filme disse: “Não ficou bom, não”. Me mandou descer da elefanta, subir numa escada com o cofrinho e aí filmou, porque tinha chegado à conclusão de que, do jeito que tinham feito, eu e a elefanta não aparecíamos direito juntos no mesmo filme, a elefanta aparecia em outro plano. Então, fui filmado na escada, deram um take inteiro da elefanta e ficou parecendo que eu estava cavalgando um elefante. Ou seja, tudo aquilo de antes foi em vão [risos].

PLAYBOY — E qual foi a situação mais difícil que você viveu num palco?

JÔ — Só vivi uma situação extremamente difícil. Foi na peça Oscar [1961], que eu fiz com a Cacilda [Becked] e o Walmor [Chagas] em São Paulo. O teatro tinha uma escada em espiral e eu devia fazer uma entrada no meio do terceiro ato. Na hora, desci correndo e quebrei o pé. Tive que fazer quase o ato todo com o pé quebrado. Doia que era uma loucura.

PLAYBOY — E platéia que não ri, já aconteceu?

JÔ — [Rindo] Graças a Deus, não. Mas uma vez num show sentou um sujeito na primeira fila, no meio, e durante duas horas ele conseguiu não esboçar um único sorriso! E foi um daqueles espetáculos quentes, as pessoas rindo barbaridade — mas o sujeito ficava assim [fecha a cara]. Quando acabou, o público aplaudia de pé e ele nem esperou, foi logo saindo. Agora eu me pergunto: por que foi que esse filho da puta fez questão de sentar na primeira fila? [Gargalhada]

PLAYBOY — Como humorista e comediante, com o quê você gosta mais de brincar?

JÔ — Como ridículo, que vem justamente de riso, né? Com a seriedade, a austeridade, a pompa, a hipocrisia.

PLAYBOY — Você se lembra da primeira vez em sua vida em que você fez sucesso, em que montou alguma coisa e pensou: “Opa, me dei bem”?

JÔ — Acho que isso já aconteceu quando eu falei pela primeira vez. Pelo seguinte: até os 2 anos e pouco eu não falava. Meu avô dizia à minha mãe:“Que pena, Mercedes, você teve um filho aos 40 anos de idade e saiu um me­nino mudo” [risadas]. Eu ria muito, mas não falava. Aí, um dia, mamãe estava sentada len­do ao lado do berço e eu brincava com latas de talco vazias, que eram a coisa de que eu mais gostava. Eu pegava as latas de talco e jo­gava no chão. Ela punha no berço de novo e dizia: “Menino, não faz mais isso”. Aí eu pe­gava e jogava de novo. Então, lá pela terceira ou quarta vez, ela disse: “Não faz mais isso que a mamãe vai ficar zangada com você, vai fa­zer pam-pam em você”. Ela se virou, e eu jo­guei de novo. Ela ficou doida e, quando se vol­tou para mim, eu falei: “Caiu…”

PLAYBOY — Quer dizer que já da primeira vez que você falou foi, de certo modo, uma piada…

JÔ — É, só falei quando houve necessidade, e já para fazer uma gracinha. Aí foi um corre-corre. “Ele fala, ele fala!” [Gargalhada] Então eu vi que aquele negócio funcionava — e não parei até hoje [risada].

PLAYBOY — Você tem medo de perder a graça?

JÔ — Graça é coisa que não se perde. O humo­rista só perde a graça se ficar reacionário, se começar a ter preconceitos, a dizer: “Ah, es­se assunto eu não abordo, com essa coisa eu não brinco”.

PLAYBOY — E você brinca com tudo?

JÔ — No meu primeiro show eu tinha um quadro que era a Última Ceia filmada pelo Ac­tor’s Studio. Tinha o Marlon Brando de Cris­to, a família era como se fosse assim tipo de fil­me de gângster, e quem vinha cercar a casa era o tenente Pilatos. E eu fazia em inglês, ainda tinha essa cara de pau! Dizia: “Muito bem. Chrát! Jogue os milagres pela janela e saia com as mãos pra cima!” [Risos] Aí tinha um tiro­teio, e ele se entregava para que seus discípu­los pudessem sair pelo mundo disseminando sua palavra. A mãe, a Virgem Maria, dizia pra ele, com sotaque italiano: “My son, please, não se entregue”. E o Cristo [voz de Marlon Bran­do]: “I have togo, Mom” . E ela: “Você é tão tei­moso! Puxou seu Pai” [risos]. Então, não existe tema intocável para o humorista. Respeito é outra coisa.

PLAYBOY — Um de seus mais célebres perso­nagens foi o dr. Sardinha, inspirado no ex-ministro Delfim Netto. Como ele reagiu, na época, a esse quadro?

JÔ — Foi um quadro bolado quando o Delfim foi nomeado ministro da Agricultura e que, como muitas coisas da Velha República, pa­recia um absurdo total: chamar um ex-ministro da Fazenda para a Agricultura. En­tão o dr. Sardinha era o administrador de um supermercado que, das finanças, tinha sido colocado para tratar das frutas e legumes. Foi ideia do Max Nunes. Só que o Delfim, que é indiscutivelmente um sujeito inteligente, aproveitou o personagem: quando pergunta­ram sua opinião, ele disse que achava fantás­tico, que morria de rir.

PLAYBOY — Como o Delfim se comportou no primeiro contato pessoal que teve com você?

JÔ — Foi numa entrevista feita pela revista Manchete, durante um almoço. Depois propu­seram tirar uma fotografia. Eu estava com um terno azul igual ao dele [risos], mas eu estava como Jô, e disse: “Me dêem um tempinho pra eu fazer o dr. Sardinha”. Entrei no banheiro, molhei o cabelo, botei pra trás, pus óculos — porque na realidade só com isso é que eu com­punha o personagem — e saí. Ele me olhou e falou [faz expressão de espanto divertido]: “Mas é terrível!” [Gargalhada] Porque de repente foi uma transmutação, né? E aí tiramos uma fo­tografia segurando um abacaxi [risos].

PLAYBOY — Ele se comunicou outras vezes com você?

JÔ — Uma vez ele me mandou uma carta bem-humorada dizendo que já estavam sur­gindo no cenário político brasileiro [risos] ou­tras pessoas que eram bem mais engraçadas do que ele [risos], e se não era possível também criticar outros um pouco mais. De todo mo­do, tem pessoas que não têm [em relação aos per­sonagens] esse nível de sutileza.

PLAYBOY — Quem, por exemplo?

JÔ — O Carlos Átila [porta-voz da Presidência durante o governo Figueiredo], que ficava indig­nado com o personagem [chamado, justamen­te, “O Porta-Voz”] [risos].

PLAYBOY — O Porta Voz foi retirado do ar em maio de 1984. Você poderia reconstituir o epi­sódio?

JÔ — É impossível reconstituir esse episódio pelo seguinte: ele nega que tenha pedido pa­ra tirar do ar [risos]. E, ao mesmo tempo, ele foi tirado do ar a pedido dele. Quer dizer, foi uma coisa feita tão através de porta-vozes [ri­sos], que fica impossível de se definir. Acho que, se em vez de ser porta-voz ele fosse voz, e viesse a público dizer [mudando o tom] “eu acho aquele porta-voz engraçado”, ou “o que a gente sofre como porta-voz”, você já pensou? Porque o personagem não era propria­mente contra ninguém, era um retrato do patético e do difícil de ser porta-voz [naque­la época]. Mas o problema do porta-voz é que de repente [ar irônico] ele assume tanto seu pa­pel que ele vira a voz que ele não é.

PLAYBOY — A “voz” que o Carlos Átila por­tava parece que também não recebia as suas gozações muito bem, não? Como foi seu en­contro casual com o ex-presidente Figueire­do?

JÔ — Eu estava indo para a gravação de um comercial em São Paulo e de repente, na Aveni­da Brasil, apareceu um Landau preto, enor­me, cheio de antenas. O [Roberto] Colossi ain­da brincou: “Será que tem uma autoridade ali dentro?” Eu, de pura gozação, disse: “Pe­lo número de antenas, no mínimo deve ser o Figueiredo”. Aí o carro do Colossi emparelhou com o Landau e era mesmo o Figueiredo, já ex-presidente, junto com o [empresário e ami­go pessoal George] Gazale e uma terceira pes­soa que não tenho certeza quem era, mas o Co­lossi acha que era o [ex-ministro da Aeronáuti­ca, brigadeiro] Delio Jardim de Mattos. Os dois me cumprimentaram, rindo, e eu cumpri­mentei o Figueiredo também: “Oi, presiden­te, tudo bem?” Ele olhou para mim [faz care­ta] , fez um muxoxo e virou o rosto pro outro lado [gargalhada]. E acabou sendo engraçado, porque fechou o sinal e nosso carro logo ficou cercado de gente pedindo autógrafo. O Colossi gritava assim: “Presidente, olha só o que é po­pularidade” [gargalhada] .

PLAYBOY — E o vice de Figueiredo, o hoje mi­nistro Aureliano Chaves, como reagia ao per­sonagem que você criou do Vice, o que nun­ca assumia?

JÔ — O Vice no começo não falava no Aure­liano: era só a observação de que vice não as­sumia, vice não era nada… Mas um dia o Au­reliano deu uma declaração que ia contra o Fi­gueiredo — depois de o Figueiredo já ter da­do mil desmentidos sobre coisas que dizia. E foram perguntar ao Aureliano no dia seguinte se ele tinha algo a acrescentar, se era aquilo mesmo, e o Aureliano: “Quando eu falo eu sei o que estou dizendo, não preciso dar desmentido”. Foi em pleno Jornal Nacional, uma por­rada. A partir disso, no próximo quadro, eu dizia: [Faz sotaque nordestino esganiçado] “Vi­ce não é nada. Tirante Aureliano, que fala — porque vocês viram, esse fala —, o resto, ó”. E ele me telefonou para agradecer.

PLAYBOY — Telefonou?

JÔ — É, e foi engraçado porque uma vez eu es­tava chegando na Globo e ele estava saindo com o dr. Roberto [Marinho, presidente das Or­ganizações Globo]. O dr. Roberto falou: “Ô, Jô, como vai? Conhece aqui o vice-presidente?” Eu falei: “Sim, claro. E muito obrigado pelo seu telefonema, dr. Aureliano, foi muito ca­rinhoso”, e tal. E aí o dr. Roberto ficou olhan­do espantado, como se imaginasse: “O que se­rá que o Aureliano telefonou pra ele, e pra quê?” [Risos] Aí, o Aureliano foi embora e, quando subi no elevador com o dr. Roberto, contei o caso para ele.

PLAYBOY — Falamos de vários de seus perso­nagens até agora. Como é que eles morrem? Quando é que você os mata?

JÔ — No caso de Viva o Gordo, a gente pára de fazer quando termina o ano. Então eles não têm uma morte, ficam num estado de hiber­nação. Quando é possível voltar a usar um per­sonagem antigo, a gente usa. Acho sempre melhor tirar personagem do ar deixando sau­dades do que dizer: “Pô, esse já encheu”.

PLAYBOY — Qual é o personagem que você mais gosta ou gostou de fazer?

JÔ — Eu não sei. Gosto muito de fazer todos. O Gardelón. Essa velhinha que estou fazen­do agora eu adoro. Eu gosto de fazer o Vira-Mão, aquele dr. Ariel que de repente é obri­gado a fingir que é bicha. Tinha um persona­gem que eu adorava fazer que era o Figuran­te, porque acho figurante uma figura patéti­ca, extraordinária. Acho que figurante é pa­drão no mundo inteiro, é sempre uma coisa surpreendente. Fui vero filme Sacco e Vanzet­ti, e de repente, na cena em que estão levan­do os dois pra cadeira elétrica pelo corredor [risos], tem um guarda que está na segunda fila que está chorando como um louco [garga­lhada]. O figurante assumiu aquela dor. Ele está sacudindo a cabeça [risos, e imitando] e chorando. O diretor não percebeu, e depois deve ter dito: “Por que é que este filho da pu­ta foi chorar?” É uma coisa de segundos, mas eu tenho uma percepção visual muito gran­de. As pessoas podem pensar que meu senti­do mais desenvolvido é o paladar, mas não é. E a visão [risos].

PLAYBOY — Depois de perguntar sobre mor­te de personagem, vale perguntar sobre o sur­gimento. Por exemplo, o Gardelón, aquele ar­gentino, um dos mais populares que você criou, foi tirado da vida real?

JÔ — Foi inspirado num empresário argenti­no que já morreu, Luís Zapir, que também di­zia “muy amigo”, só que em sentido diferente do que faz o personagem. Pra mostrar que era um empresário por dentro, qualquer pessoa que você citava ele dizia: [faz a voz cava, rou­ca, do personagem argentino] “Si, conozco, es muy amigo, muy amigo”. Quando bolei pra fazer o quadro, o Max Nunes — é aquele toque do gê­nio — disse: “Não, é melhor inverter. O cara faz uma imensa sacanagem com ele e diz que é amigo dele. E ele então diz que sim, é `muy amigo”‘. Era para ser um bordão, uma coisa de 30 segundos, e acabou virando um quadro. O personagem é muito rico.

PLAYBOY— Também muito popular era aque­le português que dizia: “Q’rias, mas não t’os dou”. Existiu alguém assim?

JÔ — Sim. Era um português que conheci no Brasil, um comendador, que era uma figura gozadíssima. Um nouveau riche, riquíssimo mas grosso, grosseiríssimo! Eu tinha 14 anos e estava com meus pais em Montecattini, aquela estação de águas na Itália, e lá estava o português. Um dia, a gente estava saindo do hotel — bem de estação de águas, aquela coi­sa solene, de O Ano Passado em Marienbad [cé­lebre filme do diretor francês Alain Resnais] — com ele, e ia entrando uma mulher lindíssi­ma, morena, alta, pele bem clara. Era uma prostituta de luxo, e que foi pra cima dele xin­gando e reclamando: “Mascalzone! Sei un mas­calzone!” (“Salafrário! Você é um salafrario!”) E ele, em português, respondia assim pra ela: [Faz sotaque fortíssimo do personagem] “Não, não! Reclamas, mas não tens razão! Tu que­rias 20 mil liras! Q’rias! Mas quanto vales? Va­les zero! Dei-te 5 mil, lucraste 5 mil!” Todo mundo no hall do hotel horrorizado, e meus pais e eu rindo às gargalhadas. Quando con­tei essa história pro Max, ele disse:“É um qua­dro pronto. Vamos fazer”. E o engraçado é que o “q’rias” é um bordão que pegou inclusive em Portugal. O [jornalista e deputado] Sebas­tião Nery contou que estava num elevador de Lisboa, um dia, abriu a porta, o elevador cheio, um cara de fora disse assim: “Mas eu queria descer”. O elevador inteiro respondeu: “Q’ria, mas não desces!” [Risos]

PLAYBOY — Mas esse novo personagem, o mo­rador da fronteira Brasil-Uruguai que dentro da própria casa tem que usar passaporte, cer­tamente é imaginário.

JÔ — É criação totalmente abstrata. Mas o que a gente já recebeu de carta de Santana do Livramento [cidade gaúcha na fronteira com o Uruguai] agracendo aquele quadro! Um se­nhor me escreveu pedindo que não citasse o nome dele mas dizendo que, na sua juventu­de, tinha um bordei cuja casa ficava exatamen­te metade no Uruguai e metade no Brasil. As moças cobravam ou em pesos ou em cruzei­ros — ou mil-réis, sei lá. E era engraçado, por­que tinha sujeitos que diziam assim: “Então vamos transar lá no Brasil, que aqui no Uru­guai tá muito caro” [gargalhada] . Esse tipo de coisa já aconteceu várias vezes comigo, mas ocorrer com um quadro surrealista desses é incrível, não? Ah! Dentro do bordel ainda ti­nha um cara só para fazer câmbio, com uma caixinha e tudo!

PLAYBOY — Você tem inúmeros personagens femininos. Por quê?

JÔ — Todo comediante tem. O Chico [Anísio] tem uma porção, o Peter Sellers tinha uma porrada, o Jerry Lewis. Todo comediante his­triônico tem, porque é uma possibilidade a mais. Da mesma forma que faço vários per­sonagens com sotaque.

PLAYBOY — Mas não tem algo a ver com esse conceito tão contemporâneo de porção mu­lher, do lado feminino?

JÔ — Eu não sei se tenho. Mas acho que [se ti­ver] ponho pra fora muito bem, no sentido de ser uma pessoa muito solta. Eu uso brinco, eu uso jóias, não tenho nenhum preconceito nes­se sentido, nenhuma rigidez.

PLAYBOY — Como surgiu a ideia de seu brin­co?

JÔ — Acho que o brinco é quase uma fixação infantil, de filme de pirata que a gente vê, né? Só que, na hora de você botar o brinco, você realmente não faz lembrar o pirata, mas a mu­lher que usa brinco. Não tenho o menor pro­blema nesse sentido. É evidente que, quando uso um personagem feminino, uso todo um lado feminino que existe dentro de todos nós… a não ser talvez no Rambo [risadas]. E no Ro­nald Reagan!

PLAYBOY — Proponho falarmos mesmo do la­do masculino. Você é considerado um homem bem-sucedido com as mulheres. Como é que começou? Quem foi sua primeira namorada?

JÔ — A minha primeira namorada — foi na Suíça, onde eu já estudava — era uma irania­na. Lembro até hoje o nome: Omah Harieh. Eu tinha 13 anos.

PLAYBOY — E ela?

JÔ — Devia ter um ano a mais.

PLAYBOY — Como é que era o namoro? Anos dourados?

JÔ — É, era certinho, tinha festinhas, a gente ia dançar. Namoro mesmo.

PLAYBOY — Uma forte paixão ou não? Você escrevia poesias para ela?

JÔ — Várias. Apaixonadíssimas.

PLAYBOY — Bonitinha?

JÔ — Era uma gracinha. Era bonitinha. A gente estudava na época com um rapaz cha­mado Cyrus Sfandiari Bachtiari, que era pri­mo da Soraya [ex-imperatriz do Irã].

PLAYBOY — Você era amigo do Aga Khan também, não?

JÔ — Conhecido. Amigo de freqüentar e sair junto, não, porque havia uma rivalidade muito grande entre nossas escolas: eu no Lycée Jacquard, o Karin no Rosey. Ele era um cara muito bonito, um atleta extraordinário em to­das as modalidades. E: era bem cê-dê-efe.

PLAYBOY — Paquerador?

JÔ — Não, era uma pessoa super-sossegada.

PLAYBOY — Quanto tempo durou o namoro?

JÔ — Uns oito meses. Depois tive uma porção de namoradinhas assim de colégio. Mais tar­de namorei uma moça que todo o colégio in­vejava, todo mundo achava lindíssima, uma alemã filha de um magnata, a Angela Müne­mazin.

PLAYBOY — E como é que você conquistou a Angela?

JÔ — No charme. Muitas gracinhas, muito carinho. E uma coisa engraçada: fui passar um mês na casa dela na Alemanha — coisa nor­mal na Europa — e ela vinha me acordar às 10 horas para irmos à piscina. Mas eu levan­tava às 9h30, escovava os dentes, fazia a bar­ba, penteava o cabelo, trocava o pijama, bo­tava um perfume, deitava e fingia que estava dormindo. Aí ela dizia: “Você acorda de um jeito tão incrível!” [Risos]

PLAYBOY — E a descoberta do sexo, como foi?

JÔ — Bem, na adolescência a gente lê, vê re­vistas, vê mulher pelada. Eu me lembro de duas coisas. Uma, no colégio São José, em Pe­trópolis, onde estudei mais ou menos dos 9 aos 12 anos. Tinha um aluno que escrevia livros eróticos, como se fosse um diário dele, e em­prestava pra todo mundo [risos]. Outra expe­riência maravilhosa foi quando a gente des­cobriu no colégio, na Suíça, que na casa em frente morava uma moça linda que ficava pelada na janela. Isso dava para as janelas dos banheiros. Era uma fileira de binóculos [risos] olhando para aquela moça tirando a roupa…

PLAYBOY — E a iniciação sexual com uma mu­lher?

JÔ — Tive uma iniciação sexual que, para um brasileiro, acho que foi tardia. Foi com 18 anos.

PLAYBOY — O fato de você ser um garoto gor­do influiu ou era a questão do padrão europeu, talvez uma dose maior de ingenuidade?

JÔ — Acho que é mais por aí. Não é que [as pessoas] fossem ingênuas, mas na minha épo­ca de colégio, nos anos 50, a iniciação sexual na Europa era por volta dessa idade: 17, 18 anos.

PLAYBOY — Foi como? Com prostituta?

JÔ — É, foi um caminho meio ortodoxo [ri­sos], já na volta ao Brasil. Claro que antes dis­so eu tive relações amorosas com algumas na­moradas na Europa que foram transas sexuais, mas era uma coisa muito mais assim de se amassar, de se pegar e tal. Não no sentido clás­sico do ato [risos]. Mas então foi dentro dos moldes mais machistas e mais profissionais [risos] possíveis. Porque é uma coisa que fica na cabeça do homem, que ele tem que tran­sar. Todo mundo mente, né, diz que já tran­sou, acho que desde os 9 ou 10 anos de idade. Aquilo já estava me deixando preocupadíssi­mo, alucinado [risos].

PLAYBOY — Bem, mas todo mundo sabe que, depois, você parou de se preocupar. Você in­clusive adquiriu reputação como um corteja­dor, um homem galante. Como foi que você conquistou Theresa, a sua primeira mulher?

JÔ — O que aconteceu foi o seguinte: o [jor­nalista] Ivan Lessa me convidou para assistir a um Fluminense e Botafogo, que seria na noi­te seguinte. Como eu não tinha um tostão, ele disse que compraria antes os ingressos e pas­saria pra me pegar. Mas ele me deu o cano. E aí a única coisa que eu podia fazer de graça era ir ao teatro, porque eu já conhecia as pessoas [do meio teatral]. A Theresa estava fazendo Pe­dro Mico, do Antonio Callado, com o Milton Morais, no Teatro de Bolso, que pertencia na época ao [homem de teatro] Aurimar Rocha. O Aurimar me conhecia de fazer números e brincadeiras em bares, de contar coisas, e me apresentou à Theresa, já fazendo questão de que eu fizesse alguma coisa pra ela. Eu fiquei encantado com a receptividade da Theresa. Depois ela me disse: “Vamos sair e você me deixa em casa, eu moro aqui perto”. A gente saiu e ela pegou a minha mão. Fiquei muito tocado com aquilo. Aí fui ver a peça de novo, fui mais uma vez, fui outra, outra… Cada vez ia levando uma rosa, um presente…

PLAYBOY — De rosa em rosa, você acabou ca­sando.

JÔ — Por coincidência, o Aurimar, que pro­duzia Pedro Mico, ia montar A Compadecida, do Ariano Suassuna, e me convidou para fa­zer o papel do bispo. Foi em 1959, minha pri­meira coisa em teatro, quase concomitante aos convites que vieram logo após para fazer tele­visão. Eu tinha recusado muitos convites, e a Theresa me falou: “Você tem que começar por alguma coisa, senão você não começa nunca”. Então eu casei, e o engraçado é que no come­ço quem sustentava a casa era a Theresa, por­que eu não trabalhava, depois passei a ganhar, mas pouquíssimo. Ela tinha um apartamen­to enorme, e tudo, e eu disse: “Dei o golpe do baú”.

PLAYBOY — E como foi seu caso de amor com a Sílvia Bandeira?

JÔ — Eu já tinha convidado a Sílvia para uma peça que eu estava dirigindo, O Estranho Ca­sal, de Neil Simon, mas ela não fez. Anos de­pois, em 1980, eu a encontrei quando estava preparando um espetáculo chamado Brasil, da Censura à Abertura e a Sílvia me disse que, se eu voltasse a fazer um convite, ela aceita­ria. Ela foi assistir ao meu show Viva o Gordo e Abaixo o Regime e aí… Foi uma coisa assim, daquelas de paixão, foi uma coisa insegurá­vel, uma daquelas paixões que acontecem na sua vida e são irremediáveis. Tanto que eu che­guei em casa — foi muito doído, não? — e fa­lei para a Theresa: “Olha, eu me apaixonei”. Ao mesmo tempo foi uma coisa bonita porque foi muito aberto, um jogo limpo. Por isso é que eu acho que continuo muito amigo da The­resa até hoje e vice-versa. Teve que ser uma coi­sa fulminante para você romper um relacio­namento de vinte anos, que obviamente é um relacionamento que deu certo. Aliás, uma re­lação não precisa durar tanto pra dar certo. No momento em que duas pessoas têm interesse em estar juntas, já deu certo. O tempo, aí, já e uma questão de relatividade, como dizia o Einstein [risos].

PLAYBOY — E o processo de conquista ou se­dução da Sílvia, como foi?

JÔ — Fiz coisas que, sei lá, são do meu estilo. Um dia, por exemplo, ela e eu estávamos em São Paulo, eu para gravar um comercial, ela gravando para o Telecurso. Eu ainda só estava cortejando, não tinha havido ainda nada com ela. Ela tinha que acordar cedo e pediu no ho­tel o café para as 6 da manhã. Aí eu acordei antes, me arrumei, fui pra porta [do apartamen­ra dela] e quando o garçon chegou eu falei: “Deixa que eu entro”. Pus flores num vasinho, bati na porta, e entrei servindo o café: [Com voz animada de garçom eficiente] “Bom dia! O seu café!” [Risos]

PLAYBOY — Depois que você se separou da Síl­via, li uma declaração sua comentando que ti­nha ficado 43 anos, sem intervalo, como filho e marido. E aí finalmente se sentia como aos 18 anos, recebendo a chave da casa — só que com cartão de crédito e carro na garagem.

JÔ — E sendo um cara conhecido…

PLAYBOY — Foi quando suas amigas na Globo o apelidaram carinhosamente de Gordo Galinha. Segundo consta, você transou com metade da praça.

JÔ — [Risos] A ísis [de Oliveira] dizia… Bem, não é bem assim.

PLAYBOY — Mas se trata de reconstituir esse período, não de saber o nome das mulheres com quem você transou.

JÔ — [Malicioso] Mas isso, mesmo que você quisesse, eu também não falaria [risos], não só por uma questão de discrição, mas por uma questão de respeito. Não é uma coisa muito nesse sentido. É que eu de repente comecei a usufruir de uma independência que eu tinha — não que eu fosse amarrado por causa dos meus dois casamentos —, mas de cujo nível só tomei consciência quando fiquei solteiro.

PLAYBOY — E isso se materializava como?

JÔ — Até de uma maneira absolutamente bo­ba, do Pepê perguntando: “Seu Jô, o que o sr. quer jantar?” É o tipo de resposta que eu nun­ca dei na minha vida. Geralmente eu queria jantar o que e na hora que minha mulher queria.

PLAYBOY — E também a liberdade de pôr li­vro em cima da geladeira, ou deixar o paletó na poltrona por três dias?

JÔ — Esse tipo de liberdade eu sempre tive. Só perdi um tipo de liberdade, que é uma coisa absolutamente insignificante, na época em que fui casado com a Silvia: eu não conseguia ler na cama, porque com qualquer luz, por menor que fosse, ela não conseguia dormir. Tive que mudar meus horários [risos] de lei­tura.

PLAYBOY — Nesse período, como foi o seu na­moro com a Cláudia Raia?

JÔ — Foi pouco antes de namorar a Flavinha. Aconteceu no trabalho. A Cláudia é uma moça muito bonita. Foi uma coisa que aconteceu e que foi evidentemente muito divulgada pelo fato de que se tratava de um namoro de pes­soas conhecidas, mas que não teve a impor­tância que certa imprensa sensacionalista deu.

PLAYBOY — Como a Flávia surgiu em sua vi­da?

JÔ — Fiquei encantado quando conheci a Flá­via. Porque ela tem um astral — não gosto des­sa palavra, porque está tão desgastada, está se desgastando até como austral, já está pintan­do inflação de novo na Argentina [risos]… Mas ela tem uma vibração, além de ser bonita por dentro e por fora. E tem um riso avassalador. Foi assim: eu tenho um grande amigo, o Ân­gelo de Aquino, pintor, que se separou quase na mesma época que eu [1982]. Passamos a sair juntos à beça, a namorar, saindo cada um com a sua garota, naquela coisa assim de… na­morar pouco tempo as pessoas, né, que é fru­to desse sentido de independência também. Um dia [no final de 1983] eu estava no teatro, liguei pro Angelo e, ao invés de sair, ele ia fa­zer um jantar na casa dele para a Luciana Clark, filha do Walter Clark, muito amiga de­le, e que iria com uma amiga. Eu disse: “En­tão eu vou pra aí”.

PLAYBOY — Aí aconteceu.

JÔ — Conheci a Flávia e fiquei encantado. Conversamos, e ela dizia que era minha fã, mi­nha tiete, como ela diz. Quando era 1h30, era uma noite de verão lindíssima, eu convidei to­dos para irem para a minha cobertura tomar champanhe no terraço. A conversa foi até as 4 da manhã, papo mesmo. Eu, evidentemen­te, querendo namorar, mas no começo ela te­ve uma resistência muito grande porque, po­xa, uma moça de família tradicional, com 20 anos, eu com 46 — ela tinha a idade do meu filho Rafael e eu a do pai dela, o Gabriel. No começo, eu não tinha consciência de como era pra valer, como era sério. Ela telefonava pro Angelo, conversava horas a fio, e eu disse pra ele: “Pra mim a Flávia não liga, estou senti­do falta”. E isso levou dois meses! Apesar de não pintar nada, no fundo o que havia era um namoro camuflado, porque ela ia muito a mi­nha casa, a gente conversava, ficava no terraço ouvindo música, era extremamente agra­dável.

PLAYBOY — Você fez algum kamikaze român­tico para ela também?

JÔ — Fiz mil e um… Não me lembro direito. Mas quando já estávamos namorando teve um momento inesquecível. Ela fez 21 anos e eu dei uma festa em minha casa. Ela estava toda de branco, com uma gravatinha borboleta ver­melha, uma graça — e o engraçado é que ela tem hoje 22 anos mas tem cara de 15! [risos], de vez em quando era barrada na Ponte Aé­rea… Mas aí, na hora de viro bolo, uns violi­nistas que eu conheço entraram tocando Parabéns a Você no violino. Ela ficou vermelha! Consegui fazer com que ela sentisse uma emo­ção de aniversário de 5 anos de idade. No ani­versário seguinte também teve surpresa. Fo­mos ao cinema e eu disse que o presente esta­va no bolso e eu daria mais tarde. Depois, disse que estava brincando, tinha que pegar em ca­sa. E quando a gente chegou em casa — foi em São Paulo — e abriu a porta, tinha um Escort conversível embrulhado com um laçarote imenso, um gravador tocava o Parabéns e o Pe­pê, o Chico e a Salete estavam uniformizados no quintal, com as luzes acesas e um balde com champanhe.

PLAYBOY — Se alguém lhe perguntasse o que é sua relação com a Flávia, você diria que é seu terceiro casamento?

JÔ — Eu não chamaria de casamento, mas ao mesmo tempo ela é minha mulher-namorada. Ela passa a maior parte do tempo comigo, em­bora no Rio more com o irmão. Não quer di­zer também que a gente não se case. Não há preocupação nesse sentido, há ocupação com o relacionamento. A gente se curte. Por incrí­vel que pareça, nós somos uma pessoa de 48 anos e uma de 22 com uma afinidade enorme. Ela é uma pessoa de um imenso senso de hu­mor, muito inteligente, fascinante, compa­nheira à beça e de uma imensa integridade.

PLAYBOY — Os pais dela resistiram no início, por causa da diferença de idade ou outra razão?

JÔ — A Beatriz, mãe dela, evidentemente re­sistiu, ficou assustada. Não foi uma resistên­cia agressiva, nada disso. O Gabriel não sei, mas ele disse uma coisa bonita pra Flávia quando ela contou [sobre nós]: “Só espero que seja uma coisa mais séria”. Mas tanto o pai quanto a mãe dela são pessoas extraordiná­rias.

PLAYBOY — Você é basicamente monógamo? Como você administrou a questão da fideli­dade ao longo de sua vida?

JÔ — Nem sempre administrei muito bem [ri­sos] essa monogamia. Mas acho que é o cami­nho certo. Qualquer coisa que fuja dessa ten­dência é mais por insegurança, por necessi­dade de afirmação — isso de conquistar uma mulher bonita, inclusive sendo gordo, porque o gordo geralmente tem que batalhar muito mais. Mas o caminho natural no fundo leva à monogamia. Já aconteceu, no meu tempo de solteiro, de solteiríssimo, de namorar três mulheres ao mesmo tempo, e aí fica um infer­no, porque inclusive sua casa vira uma peça de Feydeau [autor de comédias de vaudeville francesas]. Você tem que mudar o cenário to­da hora [risos]. “Ih, tem isso aqui, isso aqui não é dela. Epa, chegou a outra!” É uma palha­çada.

PLAYBOY — Ao longo dessa entrevista, volta e meia surge o tema ser gordo, e não por acaso: você é o gordo mais famoso do Brasil, e hoje tira esta circunstância de letra. Mas, no come­ço, foi duro? Já li declaração sua de que era di­fícil tirar garotas para dançar, esse tipo de coisa.

JÔ — Isso na época de criança, aí pelos 7 anos de idade. Depois, sempre transei normalmen­te, porque sempre fui gordo.

PLAYBOY — Sempre foi? Já nasceu gordinho?

JÔ — Já nasci gordo. Acho que uma coisa le­va à outra. Você é gordo porque come. E co­me porque é gordo.

PLAYBOY — É verdade que você comeu um frango inteiro quando tinha 2 anos?

JÔ — Isso era o papai que falava, mas acho que era brincadeira, sacanagem dele [risada].

PLAYBOY — Quanto você pesava quando ti­nha, digamos, 18 anos?

JÔ — Eu tinha uns 100 quilos. Com 15 anos, embora não pareça nas fotos, eu pesava 90. Mesmo com uma altura como a minha atual, 1,70m, era gordo. Sempre fui, e transo o fato com a maior naturalidade possível, sobretu­do porque é um tipo de gordura meio exóge­na, fica um pouco fora de mim, como se fosse um corpo que eu vestisse. Não sinto meu pe­so, tenho uma agilidade meio fora do normal para um cara que pesa 115, 118 quilos, como eu — às vezes peso 105, fico nessa variação.

PLAYBOY — E a saúde, como vai?

JÔ — Tenho uma vitalidade, um vigor físico muito grande. Meu eletro é ótimo. Não tenho os problemas típicos de gordo.

PLAYBOY — Qual é sua pressão?

JÔ — Já cheguei limítrofe à hipertensão, 14 por 9. Hoje em dia é 12 por 8 [pressão normal, quase de atleta].

PLAYBOY  — O seu colesterol é normal?

JÔ — Não. Abaixo do normal.

PLAYBOY — E os triglicérides?

JÔ — Tudo isso é abaixo do normal. E num teste que se faz de probabilidade de enfarte, a minha média está junto à da dona de casa, que é a categoria mais baixa que tem.

PLAYBOY — E ser gordo ao longo de sua vida o atrapalhou em alguma coisa? Por exemplo, essa coisa de inibição, de namoradas…

JÔ — Não, porque a gordura me acabou fa­zendo vencer a timidez. Sou uma pessoa muito tímida, e então, para que essa gordura não fi­casse um peso [risos], eu transformei isso em, tentar aparecer de outra maneira, e não sim­plesmente pelo fato de ser gordo. Acho que foi até um estímulo dentro da minha carreira, e para procurar ser sempre a pessoa mais leve possível. Eu não sou aquele gordo de anedo­ta. Tanto é que o que eu faço em humor difi­cilmente é baseado na gordura. Todos os per­sonagens que eu faço o Chico Anísio poderia fazer. Só que aí eles iriam ser magros [risos].

PLAYBOY — Aquele seu famoso regime, em 1972, fez você baixar para 80 quilos…

JÔ — E foi para controlar peso, não para ema­grecer. Tenho a impressão de que emagreci tanto porque o objetivo do regime não era emagrecer, mas não engordar mais. Eu esta­va com 160 quilos, que já não é peso, já é me­dida, já é sacanagem. E continuava engordan­do! Aí, parei: “Pô, realmente…”

PLAYBOY — Você até brincou num show que tinha perdido “um homem inteiro”. Mas o que houve depois? Porque você não manteve aquele peso?Você parece não ter se sentido bem com aquele peso, com aquela figura.

JÔ — Porque eu sou o único gordo que ema­greceu e que não teve estímulo. Todo mundo dizia assim: “Ah, você fica tão melhor gordo!” [Risos]

PLAYBOY — E houve, naturalmente, quem achasse que você, magro, perdeu a graça, não é? Como se fosse possível.

JÔ — Claro. Ao que eu respondia que, se gor­dura fosse engraçado, não precisava de humo­rista. Você comprava 1 quilo de toucinho, pen­durava aquilo na sala, na frente da televisão, e ria o ano inteiro [risos].

PLAYBOY — Mas fisicamente houve algo? Vo­cê se sentiu flácido? Fraco?

JÔ — Nada, nada.

PLAYBOY — Houve algum problema de iden­tidade, de não se sentir a mesma pessoa, de­pois de uma vida inteira tendo um tipo de lay­out?

JÔ — Não. O que aconteceu, mas que só per­cebi depois, foi que não que tivesse ficado me­nos engraçado, tanto que meu show Ame um Gordo antes que Acabe fez grande sucesso. O que aconteceu é que realmente perdi meu trade mark, o meu logotipo. Comecei a desleixar, pe­la falta de estímulo. E outra coisa fantástica é que cheguei a 160 quilos e hoje tenho 115, mas as pessoas acham que voltei a engordar tudo de novo…

PLAYBOY — O que você come hoje? Você ain­da tem que se policiar?

JÔ — Ah, tenho. Como carnes, presunto, ovos, fritadas, saladas em geral, salada de ovo, maionese… Porque minha dieta corta os car­boidratos, não as calorias. Não posso comer frutas, leite — graças a Deus, porque detesto leite puro —; massas, pão, arroz.

PLAYBOY — Se você hoje quiser perder 5 qui­los, tem que fazer o quê?

JÔ — Basta não sair da minha dieta. Eu saio normalmente duas, três vezes por semana. E também comer em horários certos.

PLAYBOY — O que você curte comer?

JÔ — O que eu gosto mesmo?

PLAYBOY — Sim, proibido ou não.

JÔ — Porcaria. Tudo quanto é porcaria: san­duíche, pastel, chocolate… Tudo que é lixo eu adoro [risos]. Além de gostar também, quan­do viajo para o exterior por exemplo, de co­mer o que há de melhor no mundo. Mas se for uma opção de sair da dieta por um dia, vou direto ao lixo, porque acho que é fixação de criança que fica na gente.

PLAYBOY — Dê um exemplo de prato refina­do, transado, de que você goste muito.

JÔ — Não tenho esse tipo de preferência. Sei que tenho um paladar infantil. Adoro Coca-Cola, por exemplo [risos].

PLAYBOY — Por falar nisso, em matéria de drinques, de que você gosta?

JÔ — Coca-Cola [risos]. Adoro. E infelizmen­te não há Coca dietética no Brasil, porque é proibido. Sempre peço a quem viaja pro ex­terior, se puder, pra me trazer latas de Diet Co­ke. Aí é uma farra.

PLAYBOY — Mas bebida alcoólica, drinque mesmo?

JÔ — Gosto muito de vinho, tinto e branco. Quase só bebo quando estou no exterior.

PLAYBOY — E em casa?

JÔ — Comecei a beber aos 40 anos, no show Viva o Gordo e Abaixo o Regime, porque eu dis­tribuía uísque para as pessoas e brindava com elas. Aí passei a curtir tomar um uisquinho, mas nada de especial. Eu bebo o tempo todo é café.

PLAYBOY — Você gosta de fazer comida?

JÔ — [Gozador] Não. Eu gosto de esquentar comida pronta.

PLAYBOY — Você parece gostar muito de ob­jetos: aqui na sua casa tem caixas de charutos com belos Davidoffs dentro, cachimbos, espa­das de samurais, facas, quadros, livros anti­gos, que devem ter sido de seu pai…

JÔ — Do meu avô. Tem um Larousse do iní­cio do século que é uma obra-prima, porque além de tudo é um elogio à imbecilidade do cientificismo. Tem verbetes assim: “Aviação: mania de alguns idiotas que pensam [risos] que algo mais pesado que o ar poderá se ele­var do solo”.

PLAYBOY — Você gosta de revólveres, não? Tem coleção?

JÔ — Já tive. Tenho revólveres. Gosto de fazer tiro ao alvo.

PLAYBOY — E de onde veio isso?

JÔ — Ah, de criança. Uma das vantagens do ator é que ele pode continuar brincando de bangue-bangue. Você acha que o Clint East­wood não adora ficar brincando de cowboy e de detetive?

PLAYBOY — Você fez curso de tiro?

JÔ — Ultimamente não tenho praticado, mas eu fazia no estande do Fluminense. Atirava de 38, sei atirar de Magnum, que é uma arma be­líssima. Tive coleção de revólveres e me des­fiz porque não tenho apego às coisas, fui dan­do de presente. [Jô dá em seguida uma longa explicação técnica so­bre duas réplicas de revólveres Colt 38 e 45 usados ­no Velho Oeste americano, que servem como enfei­te na mesa de centro de seu confortável living em São Paulo.]

PLAYBOY — E suas facas?

JÔ — [Apanhando facas em cima da lareira acesa e mostrando] Esta aqui, que parece mais uma jóia, é a lame des Ardennes, francesa. Esta ou­tra é a Bowie, inventada pelo David Bowie — pena que esta entrevista não seja a cores… Esta outra é a faca-punhal dos comandos de paraquedistas ingleses.

PLAYBOY — E você foi comprando isso pelo mundo?

JÔ — Ah, é, eu vejo, compro. A Flávia, que viaja comigo, morre de rir porque eu fico fa­zendo compra de criança, né? Revólver, car­tucheira, faca… [Mostra uma faca enorme, de ca­bo verde e serra muito cortante na parte superior da lâmina] Este é um presente da Flávia, uma coisa carinhosíssima, que é [risos] a faca do Ram­bo. Feita no Brasil, feita a mão. Foram fabri­cadas cem delas. Fui ver o filme e falava [faz voz de quem implora] “Eu queria tanto essa fa­ca do Rambo!” [risos] Foi o melhor presente de aniversário que já ganhei. As espadas de sa­murai eu comprei em Nova York, que, é o gran­de empório do mundo. Evidentemente, de­pois de ver os filmes do Kurosawa, que no fun­do continuam toda a tradição doswerstern, não há como não ficar fascinado pelas histórias de samurai. Mas apesar disso sou a pessoa mais pacífica do mundo, porque acho que toda a violência que eu teria se esgota nessas brin­cadeiras. Vira coisa lúdica. Sou incapaz de sair carregando uma arma, apesar de saber atirar.

PLAYBOY— Como é sua relação com o dinhei­ro? Você gosta de gastar?

JÔ — Não sou um esbanjador, mas sou um gastador. Minha relação com o dinheiro é de generosidade. Uma coisa certamente herda­da de meu pai. Ele era realmente o chamado mão-aberta, tanto que ganhava muito dinhei­ro e depois perdeu tudo. Eu tinha passado nos exames para estudar em Cambridge e, como as coisas já não estavam indo muito bem, eu voltei da Europa, mas a gente continuou ain­da morando no anexo do Copacabana Palace [para onde afamilia se mudara nove anos antes]. Dali algum tempo não deu mais. Meus pais foram morar em Petrópolis num apartamen­to alugado que tinham, e depois não pintou nem para o aluguel e eles foram morar num apartamento emprestado por uma tia minha. Nessa ocasião eu me mudei, com minhas coi­sas levadas por um “burro sem rabo” — aque­les caras que carregam aquele carrinho — para um quarto alugado na Rua Prado Júnior [na época, rua onde viviam músicos de boate, artistas e boêmios, em Copacabana].

PLAYBOY — E como você suportou esse baque?

JÔ — Numa boa, pelo seguinte: eu via meus pais numa boa, papai chegando em casa e di­zendo: “Dinheiro para amanhã já temos!” O último grande negócio que ele ia fechar na vi­da, já quando estava financeiramente zerado, era uma concorrência para a construção da hi­drelétrica de Três Marias, no governo JK. Ele trouxe para participar da concorrência o gru­po suíço Greiff, e foi outro grupo que ganhou. Meu pai disse: “Ah, agora vou poder dormir em paz, porque eu só andava pensando nesse dinheiro que ia entrar…” Foi a reação mais sau­dável, sem nada de desespero.

PLAYBOY — Você já fez seu primeiro milhão de dólares?

JÔ — [Ar irônico] Não. Eu acho que já devo ter gasto isso [risos].

PLAYBOY — O que você tem?

JÔ — Essa casa [de São Paulo], uma coberturinha que é um estúdio na Rua General San Martin [em Ipanema], e a minha cobertura [na Rua Baronesa de Pixoné, na Lagoa].

PLAYBOY — E investimentos?

JÔ — Como eu não entendo nada de investi­mento, patavina, o que ganho através da mi­nha firma, a Jô Soares Produções Artísticas, em vez de aplicar em ações, ou fundos ou isso ou aquilo, eu aplico em ouro. Que, é claro, fi­ca tudo guardado em custódia num banco.

PLAYBOY — E quanto é que a Jô Soares Pro­duções Artísticas ganha na Globo?

JÔ — Eu preferia não entrar em detalhes de salário até por discrição, timidez. Devo ser um dos mais altos salários de ator da Globo, devo estar nivelado por cima a nível de salário. Eu não acho que seja nem mal nem bem remu­nerado. Pelos padrões da TV brasileira, é de forma correta. Evidentemente que num país como os Estados Unidos, se eu fizesse um pro­grama de televisão por semana, provavelmen­te em dois anos eu estaria rico. [Mais tarde, em outra etapa de gravação, Jô revelaria seu salário na Globo: 174 000 cruzados mensais]. Porque acho que o rico, nos moldes capitalistas, é o sujeito que pode parar de trabalhar e viver de ren­das.

PLAYBOY — E você não pode?

JÔ — [Negando peremptoriamente com a cabeça] Mas de forma nenhuma!

PLAYBOY — Pelo padrão de vida, pelas obriga­ções que tem ou por quê?

JÔ — Meu padrão de vida… Você viu que eu não tenho uma entourage enorme, nem nada. Cinco empregados, e porque eu tenho duas casas. Não sou pessoa que tenha despesa ab­solutamente especial nem nada. Mas natural­mente tenho despesas: com ex-mulher, com filho, [enfático e divertido] comigo! — duas ca­sas, muitas viagens, muita coisa.

PLAYBOY — Quanto você fatura num comer­cial?

JÔ — Varia. Na campanha da Philips [Jô co­mo Zé da Galera, sempre dizendo no final “Se li­ga, Brasil!”] o faturamento total foi de 150 mil dólares, evidentemente ao câmbio oficial. Mas é claro que é um número bruto: tem aco­missão do meu empresário, tem outras comis­sões, tem o próprio acerto com a Theresa de­pois que eu me separei.

PLAYBOY — Como foi?

JÔ — Como minha renda varia muito de mês a mês, achei que não era justo que ela tivesse uma pensão ou uma mesada, fixada em ORTN ou o que fosse. Então ela tem uma par­ticipação em tudo que eu ganho, tem a firma dela e continua como sócia na minha firma, para poder ter acesso a ela, saber quando mi­nha firma realmente fatura.

PLAYBOY — Você escreve, pinta, representa, toca instrumentos. Você se considera um ator, um comediante, um jornalista, um showman ou o quê? Como é que você se classifica?

JÔ — Eu acho que sou basicamente um ator e um comediante. Ao mesmo tempo me con­sidero um autor: tudo que faço, mesmo a ní­vel de interpretação, tem uma autoria muito própria. Mas o que talvez mais me comova en­tre todas as coisas que faço, o que mais admi­ro — não que eu admire em mim — é o ator. É uma coisa comovente, porque mantém mui­to aquela criança viva dentro da gente, é um trabalho extremamente lúdico, de brincar.

PLAYBOY — Você já chegou até a dizer que não vai amadurecer nunca. Como é isso?

JÔ — O ator está sempre amadurecendo, e não chega a um estado total de amadureci­mento porque aí seria perder um pouco essa característica de brincar. O adulto [normal­mente] perde a criança que tem dentro de si, e só volta a encontrá-la em situação de carência ou de solidão. Então eu estou com 48 anos e não consigo me ver como um adulto, nesse sentido. Acho que alguns dos planos mais sérios que a gente concebe na vida é com 8, 9 anos de idade, quando não tem a menor competência de conhecimento lógico, mas uma intuição enorme. Acho que tomamos cer­tas decisões muito importantes nessa idade. Eu mesmo, quando tinha 10 anos, decidi pes­soalmente que não tinha condições de ingres­sar no ginásio e resolvi repetir o quinto ano primário.

PLAYBOY — Para o ator que você é, você culti­va então essa criança?

JÔ — Não é que eu queira manter, é algo que independe da gente, porque senão você fica um ribambito, quase um gagá, se fazendo de menino. É que, sem querer, você é um meni­no. O francês é que usa, como eu costumo di­zer sempre, a palavra certa para interpretar: jouer un rôle, que é brincar de fazer um papel. O inglês também, to play. O Paulo Autran, de Tartufo, está brincando de Tartufo, com 60 e poucos anos, e aquilo é um grande barato. Vi agora em Paris o filme Macaroni, do Ettore Sco­la, com Marcello Mastroianni e Jack Lem­mon. Tinha visto também Ginger and Fred, com o Mastroianni e a Giulietta Masina. Você chora à beça, não de tristeza, mas de emoção. E por acaso o Mastroianni se hospeda sempre no mesmo hotel que eu em Paris, o Hôtel de l’Abbaye, em Saint Germain, onde sempre ficam também a Liv Ullmann, o Jorge A­mado, o Chico Buarque…

PLAYBOY — Mas que guerra nas estrelas!

JÔ — Meu me apresentei a ele como um ator brasileiro, disse que seus dois últimos traba­lhos me haviam comovido imensamente. Ele agradeceu. Nasce uma cumplicidade imedia­ta, não é? Porque você olha no olho e vê que ele sabe do que estou falando, e eu sei que ele está entendendo. Conversamos e, no final, eu falei: “É impressionante como você se supe­ra em cada trabalho”. E ele: [Imita a cara de Mastroianni fazendo gozação] “Pois é, nem sei onde eu vou parar…” Brincadeira! É esse tipo de coisa que eu acho um barato. Depois, na TV francesa, fizeram a ele uma pergunta séria, gravíssima, sobre se ele era parcial em re­lação a certos trabalhos, e ele respondeu assim mesmo: “Não sou parcial. Faço o que gosto, apesar de às vezes ter que fazer coisas chatas, como esta entrevista aqui. Isto é um saco. Is­to aqui é uma merda” [gargalhada]. É fantás­tico esse tipo de coisa. Muitas vezes, por coi­sas assim, dizem “ah, é artista, é maluco”. Não, ele é criança. O difícil é aliar as duas coi­sas — ser uma criança com disciplina, obede­cer horários, estudar, aplicar-se em seu “brin­quedo”.

PLAYBOY — Aproveitando a deixa, em que consiste o aplicar-se em seu trabalho?

JÔ — Acho que se precisa da paciência para sempre estar observando o cotidiano, estar li­gado em todos os acontecimentos, não ter pre­conceitos, não abrir mão da irreverência. É trabalho. Um espetáculo eu levo seis meses es­crevendo e dois meses ensaiando. Nesses dois meses, repito exaustivamente tudo aquilo até chegar ao que de melhor eu posso dar. Quan­do eu escrevia meus shows com o Armando Costa — que morreu há dois anos, aos 50 anos, e me faz uma falta incrível, porque era um grande amigo íntimo — a gente escrevia du­rante seis meses, nove horas por dia sem pa­rar, mas rindo os dois como loucos. Então, quando termina um espetáculo meu, ele tem cinco ou seis horas na primeira leitura. É des­sas seis horas que eu tiro uma hora e 50 minu­tos. Durante a apresentação, ainda gravo o show diariamente para depois ver alguma coi­sa que eu improvisei e de que não me lembro bem. Posso incorporá-la ao espetáculo, que es­tá sempre variando, mas em cima dos quadros básicos.

PLAYBOY— No caso do Viva o Gordo, como vo­cê e a equipe trabalham?

JÔ — No começo do ano, fazemos reuniões básicas em que se decidem quais os novos per­sonagens que vamos fazer. Participam o Max Nunes, o Hilton Marques [principais redato­res, com Jô, do programa] e eu. As vezes também o [Francisco] Milani, [ator e] diretor do progra­ma. Daí se parte para escrever os textos, e pede-se a colaboração dos redatores novos [na Glo­bo, quase uma dezena]. O Max e o Hilton organizam. Na primeira gravação do ano, temos quatro dias para fazer o primeiro programa [normalmente feito em um dia, no resto do ano]. Gravamos dois programas, dois e meio, na ver­dade, e aí a gente seleciona o que vai ao ar no primeiro e no segundo do ano.

PLAYBOY — Além da equipe, quem assiste es­ses programas iniciais para aprovação?

JÔ — O Walter Lacet, diretor da linha de shows, depois o Daniel Filho e, finalmente, o Boni. Depois, semanalmente, quando o pro­grama já está estruturado e indo para o ar, há uma reunião de produção feita semanalmen­te, com quinze dias de antecedência [em rela­ção à data em que o programa vai passar], onde se decide o roteiro de gravação, o cenário, a roupa. Além de nós, criadores, participam a produção, figurinista, sonoplastas, cenógra­fos. Gravado cada programa na segunda, fa­zemos uma reunião para ver se está montado na ordem certa, como é que vai ser sonoriza­do etc.

PLAYBOY — O criador Jô Soares tem uma fa­mosa gaveta de ideias. Como funciona?

JÔ — O meu arquivo era uma gaveta. Anota­va ideias em tudo quanto era lugar, guarda­napos de restaurantes, papeizinhos e jogava tudo numa gaveta, ou em várias gavetas, sem usar pasta nem nada. Veja você: meu show an­terior ficou cinco anos em cartaz, este já está há três, e durante esse tempo todo eu vou pre­parando o próximo show, fazendo resumo de monólogos etc. — e tudo nas gavetas. Sou o desorganizado mais organizado do mundo. Quando eu estava escrevendo como Manduca [Armando Costa] — ou Funfum, que era como a gente se tratava e como ele chamava as pessoas mais queridas — , eu dizia: “Porra, Fun­fum, eu sei que tal ideia está nas gavetas”. Ele morria de rir.

PLAYBOY — Você falou que o arquivo “era” uma gaveta. Não é mais?

JÔ — É que agora eu tenho um computador, um PC-Paq da Microtec. Foi o Rubem Fon­seca quem me botou na cabeça de escrever com computador — inclusive o personagem do seu livro Bufo & Spalanzani escreve com computador. Durante um jantar em que co­nheci Rubem, eu disse: “Será que eu pego is­so?” Ele falou: “Claro. Uma pessoa inteligente como você pega num mês”. Não devo ser tão inteligente, porque levei dois meses para aprender [risos]. Tenho dois programas: o Fra­mework, onde eu escrevo, e o D-Base III, on­de uma digitadora vai armazenar todo o meu arquivo, que eu vou ditar pra ela. Depois, as novas ideias eu mesmo vou arquivar. Hoje, só escrevo nele, e na metade do tempo que eu gas­tava antes.

PLAYBOY — Mesmo antes do computador, vo­cê sempre brincou muito em seus textos e per­sonagens com políticos e a política. Mas que político o cidadão Jô Soares gostaria, por exemplo, de ver na Presidência da Repú­blica?

JÔ — Posso dizer quem eu não gostaria de ver na Presidência, que é mais fácil: o Jânio — inclusive porque votei nele em 1960 e já vi [ri­sos] — , o Brizola e o Maluf.

PLAYBOY — Mas você votou no Brizola para governador em 1982.

JÔ — Votei. E quando disse que ia votar, ele tinha só 3 ou 4% nas pesquisas de opinião. Eu estava no estúdio e de repente ele tocou no te­lefone: [Imita o sotaque gaúcho de Brizola] “Sou­be que tu vais votar em mim. Queria agrade­cer. E olha, vamos ganhar”. Aí eu pensei: “Tou votando num maluco! Com 4% na pesquisa e acha que vai ganhar”. Então ele percorreu um caminho belíssimo, vindo de quinze anos de exílio, ganhando com tudo o que ocorreu durante a eleição e nas apurações. Se ele tives­se então se dedicado a fazer um governo ex­traordinário, seria coroar uma vida. Mas ele tem uma fixação enorme em ser presidente. Acho que ele não gosta de governar. Ele gosta é de se candidatar.

PLAYBOY — O Jânio também já telefonou e es­creveu para você, não?

JÔ — A primeira vez foi uma brincadeira que fizemos no meu programa com um persona­gem que era um misturador de gente, o pro­fessor Apocalipse. Tinha uma mistura dele que era o Jaragão, mistura de Jânio com Re­nato Aragão. “O que é que ele faz?”, pergun­tavam para o professor. Eu dizia: “Pode fa­zer qualquer coisa, porque são dois trapalhões juntos”. E o Jânio me mandou um telegrama indignado mas engraçado, em que ele falava. [imita Jânio com perfeição] em “insulto que repilo”, em “brincadeira soez”. Eu respondi para ele dizendo que para mim “trapalhão” signi­ficava impetuoso, uma pessoa capaz dos ges­tos mais bruscos nos momentos de emoção, que era brincadeira. Mas me reservava o di­reito de continuar brincando com figura pú­blica tão famosa e, como eu votei nele em 1960, assinei: “Do seu eleitor mais engraçado, Jô Soares”. Aí ele me mandou uma carta cari­nhosíssima. E, entre outros telefonemas, uma vez ele me telefonou para dizer que Dirce Ma­ria, Tutu, sua filha, tinha um cachorrinho que não falava português, porque era americano, mas estava escrevendo sua autobiografia. Lá pelas tantas da conversa, fiquei aliviado por entender aquele papo: ela estava escrevendo um livro infantil que era a autobiografia do ca­chorrinho, e o Jânio queria saber se eu podia ser fotografado ao lado do cachorro, porque no livro o cão tinha vários amigos famosos, co­mo o Tancredo, o Roberto Carlos [risadas].

PLAYBOY — O PT seria uma opção para você? O que você acha do partido?

JÔ — Acho que o PT seria um partido extraor­dinário pela sua integridade. Só que [faz ar de desalento] é um partido sem o menor senso de humor, e acho que não se faz nada sem humor, nem política. Essa falta de jogo de cintura deu a eleição [para prefeito de São Paulo em 1985] ao Jânio.

PLAYBOY — Quem é um líder que você ad­mira?

JÔ — O líder e uma coisa de momento, como no caso em que o Antonio Carlos Magalhães [atual ministro das Comunicações] falou no Jor­nal Nacional, para milhões de pessoas, que trai­dor era o brigadeiro Hélio, que apoiava um corrupto para a Presidência. Eu não acredito em líder, não tenho líderes. Para mim o fun­damental é ter a independência e a liberdade de poder criticar, brincar com todos eles, por­que minha posição é a de um anarquista —anarquista no sentido de ver até numa ceri­mônia de sagração do novo Papa que ele en­trou com o sapato trocado, entende? Por isso é que não subo num palanque nunca, só por causas como as eleições diretas. Mas eu te­nho, é claro, admirações pessoais.

PLAYBOY — Era esse o sentido original da per­gunta: figuras públicas que o comovem, que você admira.

JÔ — Tem uma figura pública que me como­ve, que me emociona, que é o Funaro, porque é um homem que está lutando para mexer em alguma coisa, mesmo.

PLAYBOY — Ele já foi ao seu camarim em São Paulo, não?

JÔ — Ele foi assistir ao meu espetáculo. A gen­te só soube na hora que ele estava na platéia, nas últimas filas. Porque ele não pediu con­vite, não mandou nenhum assessor ligar, não avisou coisa nenhuma. Parou lá no estaciona­mento, subiu a Rua Augusta a pé, foi na bi­lheteria, comprou quatro ingressos — e esta­va com a mulher, o filho e a nora — e entrou. Sem o menor aparato, sem a menor segurança — melhor dizendo, sem “o” menor segu­rança, porque a segurança maior ele tinha, que era o apoio do povo. Quando falei que ele estava na platéia ele foi evocionado de pé. Até brinquei: “Assim não dá. Vocês estão aplau­dindo ele mais do que eu” [risos].

PLAYBOY — E no camarim?

JÔ — Depois ele foi lá, e foi muito simpático, disse que agradecia qualquer colaboração que a gente fazia pela divulgação do Plano [Cruzado], e que realmente tínhamos que transfor­mar esse país, que era uma batalha, uma lu­ta, mas tinha que ser conseguido. Não sei se estou sendo indiscreto, mas ele também dis­se: “Pois é, Jô, isso é um primeiro passo. Por­que aí a gente vai poder mexer com tudo — os furos nas estatais, toda essa paralisa­ção da máquina do Estado — tendo o respal­do popular de que a gente precisa”.

PLAYBOY — Ele não reclamou que seu show “Um Gordoidão” ainda seja “no país da inflação”?

JÔ — Não, eu é que falei pra ele: “Olha, mi­nistro, estou torcendo pra trocaro título”. Eu já tinha dito isso inclusive no jornal da Globo. Bem, depois fui fazer um show em Brasília on­de estava o [ministro da Educação] Jorge Bor­nhausen, assessores ministeriais e até o [ex-ministro das Minas e Energia e senador biônico] César Cals [risos]. E fiz o show que faço, que é muito político, e na hora em que digo que é preciso ter fé para mudar, fé na transição, fa­lei até em não mexer na Lei de Informática e na necessidade da reforma agrária e de o Pla­no Cruzado dar certo mesmo. Quando che­guei ao Rio, tinha uma carta carinhosa dele, de próprio punho, agradecendo a menção fei­ta. Depois telefonei pra ele. Eu acho o Funa­ro um homem de uma [emocionando-se] imensa coragem, acho que ele alia a ternura à bra­vura.

PLAYBOY — E aí você incluiria também a luta pessoal dele contra a doença?

JÔ — Sim. Acho que é uma coisa que ele nem sabe, porque nunca foi dita por mim: ele é um homem que venceu uma batalha muito maior do que qualquer outro interesse, e foi uma ba­talha que eu também travei. Tive um proble­ma não igual, mas semelhante ao dele, e ven­ci. Então acho que é uma pessoa que está jo­gando para a História. Acho o Funaro uma pessoa incomprável.

PLAYBOY — Você então teve um problema de saúde desse tipo, um câncer?

JÔ — Eu nunca falei a esse respeito porque não queria que fosse utilizado o nível sensa­cionalista. Eu tive um melanoma, que é um câncer considerado de alta periculosidade, que pode matar em seis meses. E, graças a Deus e ao dr. Dráusio Varella [oncologista pau­lista, pesquisador e especialista em melanoma] eu fiquei curado. Foi há mais de cinco anos, e o prazo de periculosidade do melanoma depois de operado é de um ano, com dois anos dimi­nui mais, com três anos quase desaparece, com quatro anos some e com cinco anos, en­tão, você está inteiramente curado.

PLAYBOY — E como foi que você descobriu?

JÔ — É uma pintinha preta que aparece, uma berruguinha. Era nas costas. Eu notei e mos­trei pro Max Nunes, que além de ser um gê­nio do humor é médico cardiologista, e ele achou que estava feia e eu devia tirar. Depois, em São Paulo, durante um almoço, eu peguei uma rebarba de consulta como David Serson [conhecido cirurgião plástico], que olhou e falou: “Vamos tirar”. Para resumir: foi pro labora­tório e deu positivo. Por um acaso, fiquei sabendo do resultado no intervalo do primeiro para o segundo ato do meu show Viva o Gordo e Abaixo o Regime, em São Paulo. Fiz um se­gundo ato sem saber o que estava falando. E ainda tinha um jantar depois com uns ami­gos — eu estava casado com a Sílvia — e só pude falar [sobre o problema] quando cheguei em casa. Liguei pro Max Nunes, que é padri­nho do meu primeiro casamento, às 2 e meia da manhã chorando como um doido: “Padri­nho, deu positivo”. Fui fazer depois o rastrea­mento com anestesia local — uma pesquisa com microscópio eletrônico numa área maior em volta da berruga — no Hospital Albert Einstein. Não havia sinal nenhum de células afetadas ali. Me deu um alívio: peguei as mãos do dr. Guiduli, que conduziu o exame, e bei­jei. O David Serson, que abriu a área, foi cos­turando, e no final disse: “Eu já operei até a minha mãe, mas essa foi a operação mais emo­cionante que fiz na vida”. A equipe toda cho­rou.

PLAYBOY — Que alívio!

JÔ — Mas depois o Serson me mandou pro­curar o Dráusio. Eu não queria. Dizia: “Já es­tou livre”. O medo é tão terrível que você não quer nem se aproximar de mais nada que se assemelhe àquilo. O Colossi também insistia, e eu: “Que mania, não me encha o saco”. Passaram-se dez ou quinze dias e eu fui agradecer ao patologista do laboratório, o dr. Gia­notti, que é um craque: “Tive essa merda, gra­ças a Deus não tenho mais”. Aí ele também disse: “Mas vai procurar o Dráusio”. No meio da conversa entrou uma secretária e disse: “Dr. Gianotti, sua mãe, na Dinamarca”. E ele: “Diz pra ela que quando eu puder eu ligo de volta. Estou falando de um assunto sério”. E claro que eu acabei procurando o Dráusio. Só mais tarde [risos] fiquei sabendo que a mãe de­le não estava na Dinamarca, não, morava ali perto mesmo. “Dinamarca” era o código da secretária para dizer que era uma ligação no ramal “D” do PBX do laboratório [risadas]. Aí telefonei pro Dráusio tarde da noite — acho que inconscientemente queria que ele estives­se dormindo, pra eu dizer que não o tinha en­contrado — mas ele atendeu, e disse: “Eu vou te ver”. Veio então aqui em casa aquela figu­ra alta e bonita, me examinou. Eu comecei a tomar BCG do Butantã por via oral, numa do­sagem especificada pelo Dráusio — todo o tra­balho dele na luta pela vida, na pesquisa do melanoma, é baseado no uso do BCG. O BCG aumenta as defesas imunológicas. E a partir daí surgiu um caso de amor, de amizade. O Dráusio hoje é um dos meus grandes amigos íntimos. Então, voltando ao Funaro, por isso é que eu acho que é um homem que joga pra História, porque ele batalha com isso.

PLAYBOY — Do ministro Funaro para o presi­dente Sarney: você sabe o que ele acha da “fis­cala do Sarney”? Vocês conversaram sobre isso quando você recebeu a Ordem do Rio Bran­co, em junho?

JÔ — Não, ali foi uma coisa muito simpática, mas meio rápida. Quando me vi de frente ao Marco Maciel, nós dois rimos muito, por mo­tivos óbvios e pelo fato de a gente aparecer jun­to na abertura do programa [graças à técnica do chroma-key, por superposição de imagens lá apa­rece na abertura de Viva o Gordo numa recepção, em pé, rindo ao lado de Sarney e Maciel]. Quan­do digo que não consigo me ver como adulto é que em minha relação com as pessoas eu sou muito mais filho do que pai, sou muito cari­nhoso, beijo todo mundo. Naquele dia, acho que quebrei o protocolo [risos], porque eu abracei o presidente e dei um beijo na dona Marly.

PLAYBOY — O Jô homem de televisão e teatro, jornalista eventual, pintor bissexto parece es­tar sempre de bem coma vida. O que falta você fazer?

JÔ — Tudo o que não fiz até agora [risos].

PLAYBOY — Então uma pergunta clássica pa­ra encerrar: se você ganhasse uma montanha de dinheiro, uma fábula, o que faria?

 JÔ — Se eu ganhasse sozinho um prêmio na quina da Loto que fosse um absurdo, aí, sim, eu ia poder sossegar e fazer só o que eu gosto. Ou seja: eu faria um programa semanal de te­levisão, um show no teatro, escreveria, pinta­ria um pouco e de vez em quando gravaria um comercial [grande gargalhada].

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