Amigos, a Espanha, Estado de Direito democrático com Constituição em vigor desde 1978, vive há alguns minutos, desde as 19 horas do Brasil – meia-noite, hora espanhola — uma situação inédita: multidões pacíficas de centenas de milhares se manifestam pacificamente, em grande parte simplesmente com sua presença física nas ruas e praças, em dezenas de cidades e, teoricamente, desde a meia-noite isto está proibido por uma decisão da Junta Eleitoral Central (uma espécie de TSE espanhol), porque esta é a norma 24 horas antes de eleições como as que ocorrerão neste domingo, 22. Concentrações são vedadas.

O Tribunal Supremo, julgando um recurso impetrado por um partido de esquerda, manteve a decisão da Junta – e, portanto, considerou ilegais as manifestações.

Batata quente para o governo e seu possível candidato

Com isso, a Junta e o tribunal arremessaram uma tremenda batata quente no colo do governo do primeiro-ministro socialista José Luís Rodríguez Zapatero. O governo socialista, que deverá perder as eleições segundo indicam todas as pesquisas de intenção de voto, teoricamente precisaria, por meio da Polícia Nacional, desalojar os manifestantes — uma loucura absoluta, na vida prática, diante do tamanho das multidões, da quantidade de cidades em que os “indignados” estão postados com seus cartazes e faixas.

Mais complicada é, especificamente, a situação do ministro do Interior e vice-primeiro ministro, Alfredo Pérez Rubalcaba, ao qual se subordinam a Polícia Nacional e a Guarda Civil.

Rubalcaba muito provavelmente será o candidato socialista à chefia do governo nas eleições nacionais de março próximo, já que o desgastado Zapatero anunciou, há semanas, que não será mais candidato, após dois mandatos de 4 anos.

Uma ação policial contra multidões pacíficas é a pior coisa que poderia acontecer ao ministro.

Manifestações são proibidas, mas não serão reprimidas

Velha raposa da política, porém, Rubalcaba conseguiu dar uma entrevista coletiva em que driblou com um palavreado intenso e ziguezagueante a perguntas incômodas de repórteres e terminou por dizer que, sim, todas as leis e decisões judiciais são e serão sempre respeitadas no país. No caso das concentrações, porém, esclareceu, a polícia “cumprirá seu papel” – mas “informando aos cidadãos que as concentrações foram vedadas pela Junta Eleitoral”, e só entrará em ação em caso de haver “distúrbios”.

Sem dizer estas palavras, afirmou que as manifestações são, sim, proibidas, mas que a polícia não vai reprimi-las.

Já há vários minutos, na central Puerta del Sol de Madri, uma massa humana de 50, 70, 100 mil pessoas – ninguém sabe dizer ao certo quantos são – continua em protesto silencioso, muitos levando lenços ou fitas adesivas na boca. É o “Grito Mudo” contra a decisão de vedar as manifestações. Em Barcelona, outra multidão enche a Plaza Catalunya, coração da cidade.

Há várias mesas-redondas diferentes emissoras de TV, tentando analisar o que se passa e quem, se é que alguém, poderá se beneficiar eleitoralmente dos protestos apartidários e, em grande parte, contra os partidos existentes e os políticos de todas as tendências.

Os analistas se contradizem, falam todos ao mesmo tempo, não chegam a conclusão alguma.

Estão perplexos – como o governo, como os políticos, como muita gente mais.

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5 Comentários

Sancho P. em 21 de maio de 2011

A Espanha, a boa Espanha de Quijote, hombre de La Mancha, dá mais um belo exemplo ao mundo ao tomar a Puerta del Sol madrilenha e exigir uma nova forma de política. Uma política consentânea com a contemporaneidade, que respeite o humano e os seres que o acompanham nesta fútil ou gloriosa caminhada. O ímpeto castelhano contamina parte de Europa e estimula milhares de jovens a abandonar videogames, redes sociais – enfim, a virtualidade, para entrar na liça real contra o cancro político que faz a derrocada de grandes nações. Até quando, presa desta taba dirigida pelos mais primitivos e vis senhores, a sociedade brasileira vai suportar tanta indignidade em silêncio? E como não bastasse a humilhação de ver subtraída sua humanidade, ainda paga altíssimos impostos para sustentar uma corja das mais repulsivas. Até quando, Brasil? Recusa o falso destino da mediocridade, imposto pelos impostores de sempre, os velhos e atrasados coronéis do Maranhão, Alagoas, Roraima que tudo dominam e submetem a seus porcos caprichos. http://politica.elpais.com/politica/2011/05/20/actualidad/1305920877_763863.html

João Perdido em 21 de maio de 2011

Será que as Democracias ocidentais estão se desfazendo?? Estamos assistindo o fim de um modelo de governo? Afinal os manifestantes não querem derrubar o governo, o sistema, o capitalismo, mas o que querem realmente.. Que encruzilhada... João

Jotavê em 21 de maio de 2011

A leitura de alguns artigos de jornais espanhois confirma minha desconfiança. A vinculação espúria da política contemporânea ao poder econômico está na raiz dessas manifestações. A corrupção epidêmica e a ditadura dos "mercados" apontam no mesmo sentido: tanto faz quem está lá em cima. Mudam os atores. O script será exatamente o mesmo. Berna González Harbour foi ao ponto. Ninguém está se rebelando CONTRA o sistema, O problema é que o espetáculo oferecido pela política não se ajusta com os valores democráticos que O PRÓPRIO SISTEMA vende à população. A revolta é feita EM NOME dos valores apregoados diariamente pelos donos do poder - valores que eles diariamente desprezam. Não é um problema espanhol. Madri, como o Haiti, também é aqui.

reimundo em 21 de maio de 2011

Êêêê, o socialismo vai mal. Na Espanha, conseguiu despertar a repulsa da população; Na França, seu candidato ganhou um ship de prisioneiro e não pode deixar os EUA; No Brasil, o "premier" petista Palocci se enrosca a cada dia com novos fatos sobre os seus milhõe$.

Berlatto em 20 de maio de 2011

Setti, enquanto isso aqui no Brasil? Pasmaceira geral. A cambada de políticos lesa pátria, deitam e rolam. Ô!, povo ignorante...

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