De vez em quando, acontecia: Christie Hefner, presidente da Playboy Enterprises — a companhia-mãe da revista Playboy nos Estados Unidos e de todos os produtos licenciados com a marca no mundo inteiro — aparecia para uma visita, digamos, de inspeção.

Christie é filha do mitológico Hugh Hefner, criador de Playboy em 1953 e um dos impulsionadores da revolução de hábitos e costumes nos Estados Unidos nos anos 50 — a ponto de ser o fio condutor de todo um marcante livro do jornalista e escritor Gay Talese sobre as mudanças sexuais ocorridas no país, A Mulher do Próximo (Thy Neighbour’s Wife), publicado em 1981.

Em suas visitas, Christie conferenciava com Roberto Civita, presidente da Editora Abril, quem primeiro quis trazer a revista para o Brasil, com o vice-presidente executivo e diretor editorial Thomaz Souto Corrêa — braço direito de Roberto e quem negociou o primeiro contrato para a edição brasileira de Playboy, ainda sob o título Homem, em 1975 –, e com o pessoal que cuidava do business.

A visita que essa foto de Cacalo Kfouri registra, no dia 27 de fevereiro de 1998, tem história. Era uma ocasião especial: o contrato da Editora Abril com a Playboy Enterprises seria renovado, por mais 10 anos. E Christie checaria como andavam as coisas na área empresarial, que era a sua, e daria uma olhada no editorial.

Na foto, mostro a ela, durante reunião de que participaram outras pessoas ligadas à revista, as alterações que estávamos implantando, tanto no visual como no conteúdo.

Como das vezes anteriores, ela conferenciou com Roberto e Thomaz e fez uma reunião com um grupo de que participei, juntamente com o diretor-superintendente do negócio Revistas Masculinas, Nicolino Spina, com a diretora de Publicidade, Thais Chede Soares, com Marcelo Jucá, do Marketing da revista, e Claudia Saadia, gerente de assinaturas.

Tratava-se de uma “visita real”, e Thomaz me convocou para estar entre os anfitriões que conduziriam Christie e o então marido, Billy Marowitz, um advogado e ex-senador estadual de Illinois, por uma programação social no Rio de Janeiro, onde o casal depois passaria um ou dois dias a sós.

Christie era então uma bela mulher de 46 anos, sem um centímetro a mais nas formas ou meio quilo adicional no peso, praticante diária de atividade física, muito cuidadosa com a saúde e portadora de um único vício visível: era workaholic, com todos os sinais da mulher que quer e precisa se afirmar num universo literalmente masculino.

Em contraste com a cordialidade formal, mas permanente, dela, o marido, Marowitz, um baixinho sardento, era daquele tipo de americano que, fora de seu país, reclama o tempo todo e não encontra interesse em nada.

Quanto a mim, apesar de dirigir Playboy, não era muito (ou nada) chegado aos eventos sociais que a revista devia realizar, segredo que guardei durante os cinco anos em que estive no posto.

De todo modo, lá fui eu para o Rio, num fim de semana. Entre outras atrações, o programa preparado para Christie e o marido incluía um almoço no Antiquarius, irretocável restaurante português no Leblon. Almoço rico, longo, regado por excelentes vinhos e licores. Christie gostou de quase tudo, a começar pelo ambiente luminoso e movimentado do restaurante. Marowitz não gostou de quase nada.

Confesso que me espantei ao ver a CEO tão firme em reuniões de trabalho mimar pacientemente o marido sessentão, que fazia biquinho antes de dignar-se a dar uma garfada em um dos pratos magníficos à mesa ou provar apenas com a pontinha da língua vinhos de primeira.

Terminado o almoço, demos uma pequena caminhada pelo Leblon e, conforme a programação, tomamos o rumo do heliporto da Lagoa, para um passeio de helicóptero sobre as paisagens deslumbrantes do Rio. Thomaz deu um jeito de não ir, delegando-me a responsabilidade. O casal iria acompanhado de uma grande figura, que se tornaria um grande amigo — Henry Marks, diretor internacional da revista. (Algumas informações a respeito dele e sua foto você acessa clicando aqui.)

O helicóptero alçou voo, e o comandante não decepcionou: sobrevoou o histórico centro do Rio, a região do porto, chegou a baixar o máximo possível dentro do Estádio do Maracanã para que os visitantes constatassem a grandeza daquele colosso que, à época, podia abrigar 150, 200 mil pessoas, passeou sobre o Forte de Copacabana e as praias da Zona Sul, incursionou para perto do Pão de Açúcar, tornou evidente o luxuriante verde das montanhas que ainda sobrevive na cidade — e por aí vai.

Lá pelas tantas, tocou em direção à região de natureza então mais preservada da Cidade Maravilhosa e dirigiu-se para o sul, passando por São Conrado, Barra da Tijuca, Jacarepaguá e indo até a Restinga da Marambaia, uma das paisagens mais espetaculares do Brasil e que ocupa, sem dificuldades, um lugar também no ranking mundial.

Em minha primeira viagem de helicóptero, eu havia deixado de lado já há algum tempo o papel de improvisado guia turístico dos americanos e, com a cara colada no vidro do aparelho, estava em silêncio vivendo uma experiência única, com todos os sentidos alerta.

Quando me virei para comentar algo com o trio gringo, porém, me caiu o queixo: diante (ou melhor, acima) de toda aquela maravilha, os três, ruminando o almoço do Antiquarius, dormiam placidamente. E assim prosseguiram — Marowitz, desabado, ressonava alto — por todo o esplêndido caminho de volta, até instantes antes de o helicóptero pousar de novo de onde partira, na Lagoa.

O protocolo da visita se prolongaria, horas depois, com uma festa no night club Hippopotamus. Antes, porém, consegui um habeas-corpus do sempre generoso Thomaz e, saindo de fininho, voltei para São Paulo num voo noturno da Ponte Aérea.

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