Image
Em protesto realizado em junho, mulheres enfrentam a lei saudita que as proíbe de dirigir automóveis (Foto: Fayez Nureldine – AFP/Getty)

O impacto da “Primavera Árabe”, como ficou conhecida a sucessão de quedas de ditaduras na Tunísia, no Egito e na Líbia, continua a reverberar na Arábia Saudita, país conhecido por sua feroz ditadura monárquica, suas desigualdades abissais, o domínio do islamismo radical e a implacável opressão e discriminação às mulheres.

Após pressão – via redes sociais – que em março contribuíram para que o reino liberasse 130 bilhões de dólares destinados às áreas social e de infraestrutura, agora um frágil, tênue esboço de direito está sendo concedido às mulheres: a participação feminina nas eleições municipais — elas próprias algo recente no país, já que começaram em 2005. Por um conselho do reino do qual só participam homens, evidentemente.

A partir de 2015 – o que exclui, portanto, as eleições da semana que vem -, as mulheres sauditas poderão votar e se candidatar, anunciou no sábado o rei Abdullah bin Abdulaziz al-Saud. Uma decisão inédita em 88 anos da monarquia al-Saud. “Nos recusamos a marginalizar as mulheres na sociedade nos papéis que estejam de acordo com a sharia (lei islâmica)”, disse, no que soa como uma ironia num dos países do mundo em que as mulheres menos têm direitos.

Mas ué, se eles “se recusam a marginalizar” as mulheres, porque só tomaram esta medida agora? E quanto aos outros direitos femininos, como dirigir automóveis sem autorização de um homem, viajar, ir a médicos sem restrição — sem contar a barbaridade que é uma mulher saudida jamais poder avistar-se com um homem, mesmo em local público, sem a companhia de um parente?

De todas as maneiras, votar em eleições de pouca importância, e ser votadas, é melhor do que nada.

O anúncio do velho rei, de 87 anos de idade, há seis anos no poder, sucedendo ao irmão, Fahd, é mais um gesto para acalmar os protestos do que uma mudança estrutural minimamente consistente. Até porque apenas metade dos cargos dos 285 conselhos municipais é escolhido por votação.

A Arábia Saudita continua um reino das trevas, e as principais potências do Ocidente, dependentes do petróleo do reino e de seu apoio militar e estratégico, fecham os olhos ao regime de terror que reina no país — onde se atropelam sem hesitação os direitos humanos, onde a polícia secreta é onipresente, onde se prendem, torturam e matam os opositores, onde não há liberdade de expressão, liberdade de imprensa, liberdade sindical, mínima igualdade de direitos para as mulheres e é inimaginável o conceito de alternância no poder.

DEIXE UM COMENTÁRIO

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

2 + dez =

4 Comentários

Tito em 18 de outubro de 2013

É uma senhora hipocrisia mesmo. É o maior aliado dos EUA, que invadiu e massacrou população de países com a desculpa de serem "ditaduras fanáticas". Países que em comparação com a Arábia Saudita se parecem (pareciam) com um passeio no parque.

stefanyeh em 06 de outubro de 2011

ameuiiiii

patricia m. em 27 de setembro de 2011

O negocio eh o seguinte, sai a familia real saudita e quem entra no lugar, dou um doce para quem acertar. Melhor quem a gente conhece e em tese consegue controlar do que o que esta acontecendo agorinha mesmo no Egito e na Libia: os radicais anti-ocidente tomando conta. Isso sim, nao eh nada bonito de se ver. Por isso mesmo eu nao dou a menor pelota para o que as mulheres sauditas vestem ou nao, se dirigem ou nao, etc etc etc. Quer saber, eh problema delas.

Marco em 27 de setembro de 2011

Amigo Setti: Parece q por lá continua ainda a Lei da Selva. Abs.

VER + COMENTÁRIOS
TWITTER DO SETTI