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Erdogan (à esquerda) com o papa da igreja ortodoxa copta, Shenouda III (dir.): por novos Estados laicos (Foto: AP)

O primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan tem ocupado ultimamente as manchetes políticas pelo endurecimento de suas posturas quanto ao principal conflito do Oriente Médio. No dia 2 deste mês, Erdogan, que apoia o reconhecimento do Estado palestino, expulsou da Turquia o embaixador de Israel após a diplomacia deste país se recusar a pedir desculpas pela morte, no ano passado, de nove ativistas turcos presentes em um navio que levava ajuda a moradores da sitiada Faixa de Gaza e foi impedido por forças israelenses.

Nesta quinta-feira, porém, o destaque da imprensa internacional a Erdogan tem foco em outra ideia defendida pelo premiê. Ao contrário de sua posição com relação à causa palestina, porém, essa pauta desfruta — infelizmente — de muito menos popularidade entre os países árabes.  Erdogan começou ontem no Cairo uma campanha para convencer o Egito, que após a queda de Hosni Mubarak votará uma nova Constituição, a se transformar em um Estado laico, um tabu praticamente inquebrantável nos países muçulmanos.

Radicais islâmicos rejeitam a ideia

A tarefa não parece nada fácil: além de 90% de seus 85 milhões de habitantes serem muçulmanos, é forte a influência da facção radical Irmandade Muçulmana, que adoraria ver o Corão servir de base para a nova Constituição e já deixou claro, via seu líder Esam el Erian, que não quer ajuda de estrangeiros para reorganizar o país.

Erdogan, ele próprio muçulmano, tem, porém, a oferecer aos egípcios o próprio exemplo da Turquia, país com maioria ainda mais ampla de seguidores do Corão — 96% — que, porém, é uma República laica desde 1923, desfruta de uma democracia razoavelmente estável e é o mais desenvolvido dos países islâmicos.

Erdogan parece ter obtido ressonância entre as camadas mais jovens da população egípcia, as mesmas que saíram às ruas pedindo a saída de Mubarak e a instalação da democracia no país. De acordo com relato do jornal espanhol La Vanguardia, de Barcelona, a transmissão ao vivo do discurso do dirigente turco na Praça Tahrir, durante o qual professou frases como “um Estado laico respeita todas as religiões; não tenham medo do laicismo” foi aplaudida várias vezes. Erdogan, que em sua visita se encontrou com o papa Shenouda III, chefe da Igreja Ortodoxa Copta, seguirá para a Tunísia e a Líbia, os outros países da chamada “Primavera Árabe”.

Legado de Attatürk, o “Pai dos Turcos”

O Estado laico na Turquia é o principal legado do fundador da República turca, Mustafá Kemal Attatürk, herói da I Guerra Mundial ainda como dirigente militar do Exército otomano derrotado.

Posteriormente, lideraria o movimento de independência da Turquia em sucessivas guerras contra os vencedores do conflito, a última delas contra a Grécia. Primeiro presidente da Turquia, Attatürk — tão endeusado até hoje que nenhum cidadão do país pode receber como sobrenome o que também lhe foi atribuído por lei e significa “Pai dos Turcos” — separou Igreja do Estado, instituiu o alfabeto ocidental como obrigatório e iniciou um amplo programa de reformas e modernização do país, além de aproximá-lo do Ocidente.

A ironia contida na viagem de Erdogan é que seu partido, o da Justiça e Desenvolvimento (AKP), islamista moderado, é visto com grande desconfiança pelo Exército, que se considera guardião do Estado laico turco, e com cujos generais o primeiro-ministro mantém uma relação tensa.

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10 Comentários

Paulo Bento Bandarra em 20 de setembro de 2011

Generalizei tanto como dizer que os brasileiros queriam entrar na guerra ao lado dos americanos ou que entramos por causa da perseguição aos judeus.

Paulo Bento Bandarra em 20 de setembro de 2011

Você e seus leitores costumam embolar a história, como colocar as diretas já e a golpe 64, ou atribuir a Filinto Müller ter enviado Olga para campo de concentração, em 1936. A Guerra não foi motivada pelos campos de concentração que sé se revelaram no fim da guerra, e principalmente depois da Guerra. No início da Guerra, com a invasão da Polônia, o mundo não tinha conhecimento disto. Não foi isto que motivou os países a entrarem na guerra. Assim como hoje tem judeus que não querem Israel, que consideram um erro, na época a ascensão do nazismo também viam razões razoáveis a perseguições aos capitalista e magnatas judeus. Até hoje se vê isto no Brasil e alguns se manifestam até neste Blog.

Paulo Bento Bandarra em 18 de setembro de 2011

Vendo o teu comentário para o SerigioD, "um mínimo de sensibilidade política isso não aconteceria", me lembra as manifestações dos judeus americanos sobre o início às perseguições aos judeus na Alemanha Nazistas, que de fato os judeus de lá não eram boas pessoas, como eram os judeus americanos, e portanto mereciam a perseguição justa. Você está delirando, Paulo, sobretudo ao generalizar "os judeus americanos".

Paulo Bento Bandarra em 18 de setembro de 2011

Em abertura de sessão na ONU, Dilma dará apoio a palestinos. Seria surpresa se fosse o contrário. Em que país do mundo a esquerda não é anti-semita? Um discurso pedindo para os palestinos primeiro o reconhecimento do Estado de Israel é que ela não faria.

Paulo Bento Bandarra em 16 de setembro de 2011

Ora, Setti, sempre a opinião pública foi contra os judeus, não seria agora que seria a favor de Israel. No Estado Novo, um estado nacionalista e socialista, os simpatizantes do regime iam ao bairro Bom Fim, em Porto Alegre, para bater nos judeus que saiam na rua nos fins de semana ou a noite. Saiam em grupos para caçar judeus. Não existia nenhum estado de Israel naquela época. Tem uma passagem, se não me engano, que um navio cheio de judeus percorreu vários portos do mundo e ninguém deixou eles desembarcarem. Não existia nenhum estado judeu. Faça de um jeito ou de outro, judeu sempre está errado. Isto que você diz contra Israel é que as coisas são orquestradas. Aquela frota não visava levar ajuda humanitária, mas levar provocação e estava preparada para ocorrer o que ocorreu. Produzir vítimas para a causa. Era só terem entregue para Israel que este teria dado aos palestinos. Mas a função nunca foi esta. Como a que a Turquia quer enviar com navios armados agora. Erdogan poderia pedir pessoalmente para o governo de Israel e este faria a entrega. Ou você duvida?

Corinthians em 16 de setembro de 2011

Setti, Qual seria a alternativa ? Permitir então que supostos grupos humanitários entrem em Gaza fornecendo armas e bombas ao Hamas e outros grupos terroristas ? E quanto aos mísseis que são lançados quase que diariamente contra Israel ? Se a ajuda era humanitária, por que se negaram a passar por uma revista e não atenderam aos pedidos de parar feitos por Israel ? Concordo que a abordagem de Israel tenha sido desastrada, mas ignorar estes fatos é complicado. Não vejo alternativa para Israel, eles tinham que agir desta forma e abordar os navios.

SergioD em 16 de setembro de 2011

Ricardo, concordo com você quando comentou com a Patrícia sobre o episódio da invasão dos barcos de ativistas turcos por forças de segurança de Israel. O episódio é por demais nebuloso pois ocorreu em águas internacionais. Só gostaria de lhe repassar uma dúvida: não haveria uma maneira de incapacitar os barcos antes de atingirem o litoral de Gaza poupando assim Israel de uma situação diplomática no mínimo delicada? Um abraço Amigo SergioD, se Israel tivesse um mínimo de sensibilidade política isso não aconteceria. A asfixia de Gaza tem mostrado que, além de injusta do ponto de vista humano, está funcionando de maneira oposta ao que o governo israelense pretendia. Cada vez mais a opinião pública internacional se afasta das posturas de Israel.

patricia m. em 15 de setembro de 2011

"... pedir desculpas pelos assassinatos, no ano passado, de nove ativistas turcos presentes em um navio que levava ajuda a moradores da sitiada Faixa de Gaza." . Vou traduzir para a linguagem certa: . "... pedir desculpas pelas MORTES EM CONFRONTO LEGAL, no ano passado, de nove ativistas turcos presentes em um navio que TENTAVA ENTRAR SEM PERMISSAO EM AGUAS TERRITORIAIS ISRAELENSES PARA *SUPOSTAMENTE* LEVAR ajuda a moradores da (sitiada) Faixa de Gaza." . Voce nao acha melhor? Afinal, os turcos da Irmandade Muculmana atacaram os soldados da IDF primeiro, heim... E poe o SUPOSTAMENTE porque dentro daquele navio tinha armamento... Se fosse so comida eles teriam entregue e os israelenses nao iriam roubar comida de palestino nao... Esse episódio ainda está nebuloso demais para apostar em certezas, Patrícia. De todo modo, mudei trechos do texto e acho que o tornei mais objetivo. Obrigado pelo toque.

patricia m. em 15 de setembro de 2011

Erdogan, o grande "democrata" que estava tentando afundar a Turquia no Islamismo de Estado e so nao conseguiu porque alguns guardiaes do estado laico ameacaram depor o sujeito. Lembra, Setti, quando ele queria instituir a obrigatoriedade do veu islamico nas universidades?

Paulo Bento Bandarra em 15 de setembro de 2011

Erdogan, que massacra os Curdos que lutam por seu Estado, e condena Israel pelo não reconhecimento do Estado terrorista Palestino. Grande conselheiro! Já sabemos quem está do lado dos palestino no nosso país agora. Os que falam fino com ditaduras e grosso com democracias.

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