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A imensa multidão que ocupou a Puerta del Sol, no coração de Madri: tudo terminou dando em nada (Foto: EFE)

Ser “contra tudo isso que aí está” pode ser muito bonito — mas o movimento que ocupa as ruas de várias cidades do país há vários dias corre o risco de, sem um foco definido, dar em nada.

A Primavera Árabe, que começou no final de 2010, na Tunísia, tinha um foco claríssimo: derrubar as ditaduras que oprimiam (e ainda oprimem) dezenas de países. Ela se alastrou por uma dúzia de países, e conseguiu seu objetivo na própria Tunísia — hoje sob uma democracia claudicante, da qual participam membros do ancién régime — e no Egito, que acabou sob as incertezas de um governo da Irmandade Muçulmana. Na Síria, a resistência do ditador Bashar Assad levou a uma guerra civil da qual o país levará décadas para se recuperar.

Aqui no Brasil, a campanha das Diretas-Já — o maior movimento de massas da história do país — mobilizou dezenas de milhões de brasileiros nas ruas e praças públicas em torno de uma palavra de ordem límpida, clara e de compreensão imediata: acabar com a farsa do Colégio Eleitoral que “elegia” generais e fazer com que o povo voltasse a escolher o presidente da República.

Movimentos com dezenas de reivindicações perdem o foco e podem morrer na praia. Como ocorreu com o fenômeno realmente impressionante dos “indignados” na Europa, em 2011.

Vale lembrar, rapidinho.

Começou na Espanha, em maio de 2011, à época já muito afetada pela crise financeira internacional de 2008, com um governo socialista em fim de mandato, desgastado e exaurido.

As primeiras passeatas de jovens protestando contra o desemprego logo ampliaram sua gama de reclamações e tudo passou a entrar no bolo: os bancos, os banqueiros, o capitalismo, a globalização, as instituições internacionais como o Banco Mundial e o FMI, os políticos, os partidos políticos, o mau funcionamento da Justiça — e por aí vai.

Em poucos dias, centenas de milhares de pessoas passaram a reunir-se na Puerta del Sol, no coração de Madri. A aglomeração tornou-se um acampamento. O exemplo da capital enviou centelhas para outras grandes cidades — seguiu-se imediatamente uma grande mobilização na Plaça Catalunya, ponto central de Barcelona. Em uma semana, multidões incalculáveis saíram às ruas em uma centena de cidades.

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Praça Catalunha, 25 de maio de 2011: cada orador atirando para um lado (Foto: Ricardo Setti)

Parecia uma reprise, devidamente turbinada pelas redes sociais, do libertário maio de 1968 na França: as massas queriam tudo, e já — o fim da sociedade de consumo, do poder dos bancos ou dos privilégios de dinheiro e classe, mas também a liberdade de escolher o seu destino. Os slogans, embora menos criativos, lembravam os célebres “é proibido proibir” ou “a imaginação no poder”.

Assisti a muitas manifestações pela TV e fui ver de perto três delas em Barcelona.

Era um espanto: a generosidade e o calor das pessoas contrastavam com uma absoluta falta de objetividade. Em uma delas, lembro-me de que um orador criticava os cortes em investimentos públicos em saúde e educaçao realizados pelo governo nacionalista conservador da Catalunha. Por sua vez, uma professora de Letras protestava sobre as condições vigentes em sua universidade – e se comprometia a ensinar literatura ali mesmo, na praça.

Foi vibrantemente aplaudida. Seguiu-se outro orador, que reclamava dos banqueiros – vilões-mor do movimento – e repetia o lema de que os políticos já não representavam o povo (coisa que está ocorrendo aqui, como sabemos) e que o sistema eleitoral deveria ser modificado (algo fundamental, sobre o qual as massas, no Brasil, não dispõem de informação suficiente para reivindicar).

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Indignados na Grécia: a crise econômica foi o estopim (Foto: Louisa Gouliamaki / AFP)

Outra jovem pediu a palavra e passou a desfiar os maus-tratos a que estariam sujeitos os presidiários. Um barbudo de meia-idade discursou sobre os direitos dos animais. Todos criticavam a polícia. Realizaram-se “votações” simbólicas, com mãos levantadas, sobre os temas mais disparatados.

O exemplo espanhol, evidentemente, alastrou-se Europa afora, começando pela Grécia, que já atravessava uma brutal crise econômica, pela Itália, pelo Reino Unido, pela França. Com os políticos atarantados, os governos aparvalhados e mudos, os analistas de todas as ideologias tentando entender o que se passava, parecia que o mundo iria ser virado de cabeça para baixo.

A efervescência durou algumas semanas — e, no final, acabou não acontecendo  nada.

Aliás, na Espanha, iniciadora do movimento, aconteceu, sim: no ano seguinte, o Partido Popular, lá chamado “de direita”, venceu espetacularmente as eleições, passando a governar 15 das 17 comunidades autônomas do país (mais ou menos equivalentes aos Estados norte-americanos em matéria de poderes e competências) e obtendo maioria absoluta no Congresso de Deputados e no Senado. Algo a anos-luz do que esses movimentos sociais pretendiam.

A Grécia também realizou duas eleições consecutivas depois do levante dos “indignados”, e terminou com um governo de coalizão chefiado por um primeiro-ministro conservador que se acertou com o FMI, o Banco Central Europeu e o comando da União Europeia para implementar severas medidas de austeridade.

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Indignados da Franca se manifestam na Praça da Bastilha (Foto: AFP)

Algo semelhante, aliás, se passou com o próprio maio de 1968. A mobilização começou no dia 3 de maio, foi crescendo, tomando conta de todas as áreas e, no dia 22, já havia 10 milhões de trabalhadores em greve. As fábricas não produziam, as repartições públicas mal funcionavam, a Air France deixou de decolar, os transportes coletivos entraram em colapso, o lixo deixou de ser recolhido, parte da polícia cruzou os braços e até as coristas do mitológico cabaré Follies Bergère aderiram.

O presidente da República, general Charles de Gaulle, parecia ignorar o que ocorria e chegou a fazer uma visita protocolar à Romênia.

No dia 29, circulou o boato de que o grande heroi da resistência francesa ao nazismo na II Guerra Mundial “sumira”, enquanto uma colossal manifestação de 500 mil pessoas ocorria em Paris. Na verdade, ele De Gaulle voara sigilosamente de helicóptero até Mulhouse, na fronteira com a Alemanha, e depois até a própria Alemanha, para assegurar-se da lealdade dos generais comandantes do poderoso contingente militar que a França ainda mantinha no país em consequência dos tratados que deram fim à guerra.

Voltou no final da tarde para sua residência no interior rural do país e, no dia seguinte, 30 de maio, num fulminante discurso de 4 minutos e meio transmitido pela TV, descartou a agitação política como “mazorca” e, comparando-se com os manifestantes, proferiu a célebre frase — “eu sou a República, eu sou a França”. Na mesma fala, declarou dissolvida a Assembleia Nacional e convocou eleições gerais.

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Paris, maio de 1968: um gendarme solitário devolve um paralelepípedo que a multidão havia arremessado contra a polícia no Boulevard Saint Michel (Foto: AFP)

A reação seria imediata: uma passeata-monstro de 1 milhão de pessoas, tendo à frente o ministro da Cultura e grande intelectual André Malraux, atravessou Paris a partir da Place de la Concorde, cantando aMarselhesa. Realizada as eleições, o governo e seus aliados abocanhavam 386 dos então 467 assentos da Assembleia Nacional.

Não estou dizendo que nada disso vá ocorrer no Brasil.

Estou lembrando casos de gigantescos movimentos de protestos que, reclamando de tudo e reivindicando tudo ao mesmo tempo, acabam por não conseguir nada.

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