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Na composição, foto de Emmerich e retrato de Shakespeare: versão de um reles diretor de filmes-catástrofe poderá passar a ser uma “verdade” aceita por milhões

Amigos do blog, posso entrar tarde em determinadas polêmicas, mas não deixo de fazê-lo.

Que cruel ironia da cultura contemporânea que seja um reles diretor de filmes-catástrofe, o alemão Roland Emmerich, autor, entre outros, de Independence Day e O Dia Depois de Amanhã (sic, título espantoso que adquiriu em português The Day After Tomorrow), e não um grande estudioso das letras com moléculas que fosse de credibilidade, ou um membro da alta cultura, o responsável pela mais divulgada versão, até hoje, de que William Shakespeare (1564-1616) não existiu.

Melhor dizendo, o maior poeta da língua inglesa, cuja obra constitui um dos mais transcendentais integrantes do patrimônio artístico e cultural da Humanidade, existiu, sim, mas foi somente, além de um “ator analfabeto, mentiroso, oportunista e bêbado”, uma fraude: teria se apropriado, mediante chantagem, da obra de um nobre, Edward de Vere, barão de Oxford.

O gênio que classificou com esses adjetivos o imortal poeta inglês foi Rafe Spall.

Quem demônios é Rafe Spall?

O ator de 28 anos que representa Shapespeare no filme de Emmerich, intitulado Anonymous.

O que será que ele sabe do mundo, da História, da vida, da cultura, das artes?

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A casa em que Shakespeare viveu em Stratford-Upon-Avon, no condado de Warwickshire, Inglaterra: ingleses furiosos

A real identidade do autor da obra de Shakespeare foi não raras vezes constestada, mas sempre por estudiosos.

Agora, com um filme como este que estreou na terça, 25, no Festival de Cinema de Londres – e a colossal polêmica que vem causando –, a versão hollywoodiana, superficial e irresponsável de Emmerich atingirá milhões de pessoas mundo afora. A “verdade” de um filme feito para chamar atenção e faturar alto nas bilheterias acabará se transformando na própria, sem aspas, para muita gente.

Com típica contenção britânica, Paul Edmonson, especialista do Shakespeare Institute da Universidade de Birmingham, PhD em literatura por seus trabalhos sobre o poeta, comentou que “existe o risco de que gente que até agora nunca havia questionado a autoria da obra de Shakespeare possa ser induzida a erro pelo filme”.

Os britânicos procuram não levar a coisa para o lado de ancestrais rivalidades, mas estão furiosos que seja, desta feita, um alemão, cujo conhecimento de Shakespeare até então era zero, o autor dessa polêmica.

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11 Comentários

victor em 18 de novembro de 2012

É só um filme... É bem provável que nem mesmo o diretor acredite nisso.

wilson em 02 de novembro de 2011

Parece papo de cospiração, sem noção nenhuma, WS era de familia católica numa época de perseguição por causa disto se refugiou nas suas obras recomendo ao "experto" ler mais WS.

Mendes em 01 de novembro de 2011

Faz lembrar a frase de Millôr Fernandes que disse que o verdadeiro autor da Ilíada e da Odisseia não foi Homero, mas sim um outro sujeito que viveu na mesma época, que também era cego e por coincidência também se chamava Homero.

SCF em 01 de novembro de 2011

Prezado Setti, acho que há exagero seu! 1º) É evidente que o diretor não pode ser "responsabilizado" por essa polêmica, ele apenas tomou conhecimento dela (feita por estudiosos, você mesmo admite) e viu oportunidade de divulgá-la via cinema. Ele não precisa ser PhD no Shakes para divertir o público - e ganhar uma grana, claro. Se alguém achar que a versão é errada, que faça outro filme com a sua, ora! 2º) A consternação não é por ele ser alemão especificamente, mas por ser um estrangeiro que aborda um mito inglês. Afinal, é correto falar na ancestral rivalidade França-Inglaterra, mas não Alemanha-Inglaterra: por séculos eles foram aliados em vários assuntos e campanhas militares, inclusive boa parte da realeza inglesa é de origem germânica. A relação degringolou há apenas uns 100 anos, quando a expansionista Alemanha, recém-unificada, começou a incomodar a liderança do império britânico.

Vera Scheidemann em 01 de novembro de 2011

Shakespeare é genial demais para ser uma fraude. Sem chance... Vera Pois é, Vera. O pior é o sujeito que se abanca no direito de duvidar disso. Se ainda fosse um estudioso que se debruçou 30 anos sobre a questão... Mas um diretor de filmes-catástrofes de Hollywood, com todo aquele superficialismo -- para não falar do interesse em criar polêmicas rentáveis? Abração

mané brasileiro em 01 de novembro de 2011

Setti Esse josta deve ser o milésimo a detratar o grande bardo. Shakespeare ainda estará brilhando quando,desse diretor,nem pó restar.

Ismael em 01 de novembro de 2011

A receita é velha e sempre a mesma, imputar a pecha de fraude a trabalhos ou personalidades de reconhecida genilaidade. O Código Da Vince tem a mesma cara, a do embuste. Anne Rice, que era atéia, escreveu recentemente sobre Jesus e curiosamente apontou que em suas pesquisas históricas que os detratores de Jesus são vistos com muito mais naturalidade que um detrator da Rainha Elizabeth, por exemplo. A grita é geral quando alguém resolve falar mal da rainha ( se é que alguém ousa), mas de Jesus, Leonardo Da Vince, Shakespeare ou alguem que tenha feito uma contribuição verdadeira em prol da humanidade, destes pode.

Marco em 01 de novembro de 2011

Amigo Setti: Para entender W.Shakespeare,tem q se levar em conta sua inexatidão e independência como verdadeiro tema, a liberdade política é seu maior símbolo. Hamlet ou Brutus. Abs.

Observador100 em 01 de novembro de 2011

Caro Setti Puxe a orelha do revisor! Trancendentais ?? grande abraço O revisor sou eu mesmo. Cometo erros, como qualquer um. Já corrijo. Obrigado por avisar. Abraço

João em 31 de outubro de 2011

Os britânicos são mestres na vil arte de relatar a História da sua maneira, daí eu ver com certo gosto que uma produção estrangeira coloque em questão um dos maiores expoentes da cultura britânica (e mundial). Mas falando mais sériamente, não acho que a queixa se deva às origens germânicas do Emmerich. Esse é um americanóide típico, não pode representar nada além do vazio. À rivalidade história entre britânicos e alemães sobrepõe-se um respeito mútuo que é muito forte. Todos os reis britânicos desde George I têm ascendência germânica. A atual casa de Windsor chamava-se Sachse-Coburg-Gotha até a primeira guerra mundial. George Friedrich Haendel e Wilhelm Herschel eram alemães emigrados (e vários outros). Eu vejo nessa história uma reação à mediocridade de nosso tempo. Algumas pessoas mais sensíveis estão perdendo a paciência e a tolerância com o domínio de gente como Emmerich e sua impostura cultural.

elizabeth the best em 31 de outubro de 2011

Ele pode ser um mero realizador de filmes catástrofe, mas...grandes scholars na Inglaterra discutem acaloradamente há séculos a propriedade das obras de shakespeare. Várias são as vertentes. A de que teria sido lord Oxford o autor das obras é apenas uma delas. Ao realizar este filme, ele deve ter escolhido esta vertente. E provavelmente o autor do roteiro entende profundamente do assunto. Eu já tinha lido sobre isso numa entrevista da Vanessa Redgrave. Pelo que me lembro parece que ela trabalha no filme. Tudo se resume ao fato, de que a extraordinária obra teatral atribuida a Shakespeare, dadas as condições da època parece inadmissível ter sido feita por alguem sem contar com o poder necessário para adquirir instrução à altura. Acho que está será uma discussão eterna, sem ganhadores ou perdedores.

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