Que pena que Havelange e Ricardo Teixeira não estão sendo procurados pela Interpol, como Maluf. Mas a Justiça da Suíça comprova negociatas dos dois ex-cartolas

PARCERIA NA FITA Depois do escândalo, Teixeira e Havelange já renunciaram aos cargos na CBF e no COI (Foto: Wilton Junior / AE)

PARCERIA NA FITA — Depois do escândalo, Teixeira e Havelange já renunciaram aos cargos na CBF e no COI (Foto: Wilton Junior / AE)

Que pena que, na época dos fatos narrados abaixo, o pagamento de propina para obter vantagens não era considerado crime na Suíça. Caso contrário, tal como ocorre com Paulo Maluf, possivelmente os ex-cartolas João Havelange e Ricardo Teixeira — que nunca se deixaram apanhar no Brasil — poderiam estar sendo objeto de uma ordem de captura pela Interpol, a Polícia Internacional.

De todo modo, o processo que veio à tona por ordem do Supremo Tribunal Federal da Suíça comprova o que muita gente suspeitava mas não podia provar: que os dois ex-cartolas todo-poderosos, no Brasil e na Fifa, se envolveram em grossas bandalheiras.

(Reportagem de Alexandre Salvador publicada na edição impressa de VEJA

Ricardo Teixeira e João Havelange

Propina milionária

Processo divulgado pela Justiça da Suíça detalha o pagamento de 45 milhões de reais a Ricardo Teixeira e João Havelange

A existência de corrupção no comando da Fifa não é novidade. Só nos dias recentes, porém, com a divulgação por ordem do Supremo Tribunal Federal da Suíça de um processo mantido em sigilo, tornaram-se públicas as quantias milionárias das negociatas envolvendo dois brasileiros, João Havelange e Ricardo Teixeira.

De acordo com as investigações, eles podem ter recebido o equivalente a mais de 45 milhões de reais em depósitos feitos pela ISL, uma empresa de marketing esportivo, diretamente em suas contas bancárias ou nas de empresas ligadas aos dois. Em troca desses pagamentos, que os promotores suíços qualificam de “propina”, os dois dirigentes favoreceram a empresa na disputa pelos direitos de transmissão das Copas do Mundo de 2002 e 2006.

Havelange foi presidente da Fifa durante 24 anos, até ser substituído pelo suíço Joseph Blatter. Aos 96 anos, ele permanece como presidente honorário da entidade máxima do futebol mundial. Mas, em decorrência do escândalo, já renunciou ao lugar que ocupou por 48 anos no Comitê Olímpico Internacional (COI).

Quatro meses atrás, Ricardo Teixeira, que foi genro de Havelange, renunciou à presidência da CBF, cargo que ocupou por 23 anos, e à do Comitê Organizador Local da Copa de 2014. Ele também abriu mão de sua cadeira no Comitê Executivo da Fifa e hoje vive em Miami.

Fundada em 1982 por um dos herdeiros da Adidas, a ISL chegou a ser dona dos direitos de marketing e transmissão de megaeventos como a Copa do Mundo, a Eurocopa e a Olimpíada, mas faliu em 2001.

Blatter: "Não se pode julgar o passado com base nos padrões atuais" (Foto: AP)

Blatter: nos autos do processo, advogado da Fifa informou que a entidade considera que “propinas são encaradas como parte do salário na América Latina e na África” (Foto: AP)

Os dois pagaram indenização de 5 milhões de reais para encerrar processo

Apesar de não admitirem nenhuma atitude ilegal, os advogados dos dois acusados conseguiram que o processo por enriquecimento ilícito e administração desleal fosse encerrado em sigilo, em maio de 2010, em troca da indenização de 5 milhões de reais paga à promotoria. Os autos do processo mostram que determinado pagamento feito pela ISL a Havelange foi depositado por engano na conta da Fifa.

O diretor financeiro prontamente repassou o dinheiro a quem de direito. Embora Blatter não seja acusado de recebimento de propina, o processo mostra que ele foi informado da negociata e não tomou providências. Em sua defesa, Blatter diz que o pagamento de “comissão” ainda não era considerado crime na Suíça. “Não se pode julgar o passado com base nos padrões atuais”, afirmou.

De qualquer forma, consta nos autos, um advogado da entidade informou que ela considerava impossível exigir a devolução do dinheiro desviado, visto que “propinas são encaradas como parte do salário na América Latina e na África”. A divulgação do processo era pedida em ação movida por jornais europeus. Nos últimos dois anos, a Fifa vive contra a parede, obrigada a dar explicações constantes sobre denúncias de suborno a membros de seu comitê executivo.

Esse grupo de 24 cartolas de vários países é responsável pela escolha das sedes da Copa do Mundo. O desconforto de Blatter tem a ver com sua relação com Havelange. O suíço foi secretário-geral da entidade entre 1981 e 1998, período em que o brasileiro ditava as regras do futebol mundial.

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Nenhum comentário

  • ze do matogrosso

    ..pela foto dá prá ver a comemoração de mais ou menos 170 anos de pu…ria. brasil, país dos espertos.

  • JEBANIEL WOLFF

    Essa dupla – João Havelange e Ricardo Teixeira – roubou muito e durante longo tempo. E todos sabíamos (ou, pelo menos, desconfiávamos) disso, é ou não é, Setti? Sumiram recursos que poderiam se transformar em hospitais, universidades, creches, etc. e tal. E la nave va, ou tudo como dantes no quartel de Abrantes.