Image
O Botafogo passou o Corinthians e tem o uniforme mais poluído do Campeonato Brasileiro

Amigos, finalmente surgiu, no Campeonato Brasileiro de Futebol, um clube com a camisa mais poluída por publicidade do que a do até então campeoníssimo Corinthians: a do Botafogo, do Rio.

Ali não escapou nada — nem o que sobrou das faixas verticais pretas, tradicionalíssimas, do glorioso alvinegro carioca. (Sim, o que sobrou, porque as faixas desapareceram das costas dos jogadores, e só existem na parte dianteira da camisa principal e nas mangas). Elas também abrigam publicidade berrante, em letras amarelas.

Há publicidade também no peito, nas costas, nas mangas das camisas, na parte posterior dos calções e nas meias.

Estão jogando décadas de história para o alto

O futebol é uma atividade comercial, e não há nada de errado com publicidade nas camisas, pelo contrário. Gosto do capitalismo, acredito nele. O problema é a overdose — que, vai ver, nem funciona para os anunciantes.

O fato é que os exageros a que assistimos no Brasil, somados a certas exigências da TV e à infinita liberdade concedida pelos clubes às grifes de material esportivo — Nike, Adidas, Reebok etc –, que desenham e redesenham camisetas, calções e meias dos jogadores a seu bel prazer, jogando décadas de história para o alto, estão descaracterizando uniformes tradicionais, símbolos já incorporados ao imaginário coletivo, que aos poucos se tornam irreconhecíveis.

Os exemplos estão por toda parte. O Palmeiras é um dos mais marcantes. Entre tantos casos, vou mostrar algumas mudanças no uniforme do time do Parque Antarctica. O alviverde chegou durante um tempo, quando da parceria com a Parmalat, a trocar a camisa verde inteira, que é a alma do clube, por outra, totalmente diferente, listrada de verde desmaiado e branco. Mais tarde, inventaram de mudar o verde-periquito por um verde escuro e tristonho, que, sabe-se lá, pode até haver contribuído para afundar o time. As cores foram e voltaram, e o verde-periquito, eternizado no distintivo do time, acabou sumindo: a camisa atual tem um tom mais escuro.

Em certos países mais esquentados, a torcida, diante disso, tornaria a vida dos cartolas um inferno.

Alterações no uniforme do Palmeiras:

camisa-palmeiras-brasao

Image
O uniforme de 1993, começo da parceria com a Parmalat: totalmente diferente
Image
Em 1997, vão-se as listras, e vem um verde escuro e tristonho

Ocorre algo parecido com o Flamento, com o Vasco, com o Coritiba…

As faixas do antes eterno uniforme do Flamengo já engrossaram, já afinaram, já mudaram o vermelho de tom — o negro não mudou porque não há como. O Vasco e a Ponte Preta põem e tiram da camiseta, conforme dá na telha da grife responsável, a tradicionalíssima faixa diagonal nas costas. O Cruzeiro variou seu tom de azul meia dúzia de vezes. As imposições da TV já fizeram Corinthians e Botafogo ostentarem uniforme igualzinho ao do Santos. O Coritiba trocou tantas vezes de layout que só olhando para o placar para saber que o time era um dos que estavam em campo. A Portuguesa saiu das faixas rubro-verdes históricas para versões de uniforme ridículas. E por aí vai.

Ganha-se dinheiro, perde-se em simbologia, em história

O futebol, se com isso ganha dinheiro, perde em estética — e muito mais em itens de valor incalculável, mas enorme, como a simbologia, a história, a tradição.

Que são ingredientes fundamentais para a emoção com que o esporte mais popular do mundo toca o coração de bilhões de torcedores.

Publicitários e designers arrogantes que acham que isso não conta não sabem nada de futebol, e sabem pouco da vida.

DEIXE UM COMENTÁRIO

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

19 + 6 =

11 Comentários

Carlão em 02 de agosto de 2011

Ricardo, meu caro Minha esposa faz, entre outras coisas, mochilas personalizadas para torcedores fanáticos. A ideia é reproduzir o mais fielmente possível a camisa do time de coração do cliente. É curioso, mas a clientela é claramente dividida entre aqueles que preferem a reprodução fiel da camisa tradicional e os que querem uma imagem fidedigna do uniforme atual. Idade parece não influir na preferência, tendo como amostra as que serão usadas por maiores de 10 anos (quem decide o que um bebê vai usar são os pais). A crítica à poluição causada pelos patricinadores é inteiramente endossada pelos comentários que recebemos dos clientes: "ficou até melhor que a camisa, pois não tem aqueles #%$@&** de patrocinadores!" Se você quiser dar uma olhada no nosso blog bem modesto, o endereço está no fim do comentário. Não queremos transformar o seu blog em espaço de propaganda gratuita, por isso este último parágrafo pode ser cortado, combinado? Abração do Carlão blog: http://vsbbolsas.blogspot.com

Lapeno R em 02 de agosto de 2011

Grande reportagem, ja era tempo de alguem escrever isso. Infelizmente a maioria esmagadora se nao for unanime de todas equipes brasileiras serem dirigidas por pessoas que tem deficiencias intelectuais, nao respeitam a historia de seus proprios clubes, e parece sofrerem de crise de ditadores depois que assumem o posto. E como outros leitores tambem citaram, eu nao compro mais camisa alguma do meu time (SPFC) que contenha qualquer patrocinio estampado. Antes era mais facil de comprar produto do fabricante oficial sem os patrocinios,mas hoje ta mais dificil encontrar. Entao tenho comprado camisas estilo ''retro'' que se encontram no ML ou a venda de sites da internet, que nao possuem nome de nenhum comercio, e somente o distintivo da equipe e talvez no maximo um emblema menor do fabricante. Abracao Ricardo! Quem agradece sou eu, caro Lapeno. Um abração pra você também.

Fã do Diogo Mainardi em 02 de agosto de 2011

Não querer que os times tenham patrocínio é um pensamento esquerdista-comunista anti-publicidade Ué, mas como foi que você descobriu que eu sou um esquerdista perigoso? Basta ler meu blog para ver que sou contra as privatizações, considero FHC um neoliberal, não gosto dos Estados Unidos, admiro o Fidel Castro e o Chávez e sou um ferrenho adversário do capitalismo, não é mesmo? Além de minha profunda e inabalável admiração pelo lulo-petismo. Tudo isso é tão certo quanto dizer que você tem a cabeça no lugar.

A BACCELLI em 01 de agosto de 2011

As vezes ligo a TV ja' com o jogo iniciado e fico na duvida : !Qual e' o meu time ? O adversario esta' jogando com uma camisa da cor da do meu time e vice e versa. E' uma loucura. A unica coisa representativa de um clube, dentro do gramado, e' sua camisa tradicional. Meu pai sempre me dizia : Meu filho, quando voce assistir seu time jogando olhe apenas as camisas pois as veste e' um f.d.p. que nao esta' nem ai' com o que esta; usando . E' isso ai' .

JT em 31 de julho de 2011

A camisa do Palmeiras é tão emblemática para entender o futebol brasileiro, que merecia um estudo mais aprofundado. Nos anos 80 a camisa verde-periquito já não impunha mais tanto respeito assim. Afinal de contas eram tempos de um fila sem títulos que parecia não ter fim. O verde-periquito havia se convertido em verde-garrafa-de-vinho... A parceria com a Parmalat,iniciada em 1992 mudou a história do clube e serviu de referência até para times europeus. Pela primeira vez um patrocinador era também co-gestor do futebol em um clube. A mudança no uniforme refletiu isso. A listras verdes claras e brancas influenciaram inclusive na psicologia dos jogadores, que passaram acreditar nas vitórias e a impor mais respeito em campo. Logicamente os palmeirenses mais fanáticos torceram o nariz para o novo uniforme, mas ele, de repente, ficou mais bonito e aceitável quando o time voltou a colecionar títulos. Esta parceria foi positiva para os dois lados. Até o encerramento dela foi planejado, com a volta da camisa totalmente verde, mas num tom mais escuro. Ironicamente, foi com ela que o time faturou a Libertadores de 1999, até hoje o título mais importante do Palestra. Só que a partir daí as mudanças nos uniformes começaram a se suceder com mais freqüência, a ponto de se banalizar. A cada troca de patrocinador, fornecedor, ou diretoria, mudava também o tom de verde. A camisa atual até que é bem simpática. Ela tolera muito bem o patrocinador principal. O problema são os espaços cedidos nas mangas e na região do umbigo. O que atenuava um pouco a poluição visual, era a imposição da logomarca das diversas empresas em branco sobre o fundo verde (que talvez por isso tenha ficado mais escuro), independentemente de suas cores originais. Mas agora um banco arrendou as mangas e colocou seu laranja chamativo em letras gordas, espalhado também pelas camisas de outros grandes times. Aí virou bagunça total - o que não deixa de ser reflexo da situação do Palmeiras como um todo. Particularmente, não penso que a culpa dos uniformes feios seja de quem desenha as camisas. O problema se resume ao excesso de patrocinadores com cores e tipologias diferentes, que as diretorias dos clubes impõem aos uniformes. Creio que esta onda de excessos irá passar. As grandes empresas que estampam suas marcas nos peitos dos jogadores deixarão de tolerar a concorrência visual com marcas menores, e as coisas irão se equilibrar novamente. No capitalismo, isso se denomina "autorregulação".

Eduardo Mesquita em 31 de julho de 2011

Perfeito! Mas além da arrogância dos designers tem a ganância dos clubes, que mudam as camisas para que os torcedores troquem a 'defasada' por uma nova. Sou corinthiano e tenho vergonha da camisa oficial do clube. Comprei uma camiseta branca e mandei bordar o distintivo. Pois é, caro Eduardo. Sou corintiano, assim como meu filho, minha filha e minha mulher (espero que meu netinho também venha a ser, embora a mãe torça para o São Paulo...). Não tenho vergonha, mas acho a camisa esteticamente um horror. Estou aos poucos -- depois de velho... -- fazendo uma pequena coleção de camisas oficiais e tenho 5 do Corinthians, mas nenhuma com os atuais patrocinadores. A da Batavo era bem legal. Em uma delas, acho que anterior à Batavo, para matar saudades, mandei colocar nas costas "Tevez"... Meu maior orgulho foi a que meu filho me deu: uma da seleção da Holanda com dedicatória do grande Johan Cruyff, com quem ele fez há tempos uma longa entrevista para a revista da ESPN. Tenho até uma do Espanyol, de Barcelona, uma espécie de Juventus -- até a turma do Barça simpatiza com ele... Pelo jeito, você concorda com minha birra de torcedor. Obrigado! Abraços

Tuco em 30 de julho de 2011

. Parabéns, RSetti pela clareza de mais este texto! Quiçá alguém que possa decidir acerca do tema tome providências. Como não há absolutamente nada a acrecentar - e muito menos a discordar -, apenas deixo registrado que o uniforme de um time é a bandeira vestida! E quem se habilitaria a vilipendiar uma bandeira? .

José Geraldo Coelho em 30 de julho de 2011

Os jogadores de hoje parecem mais com os pilotos de Fórmula 1. E o mais ridículo é o calçãoo com publicidade no traseiro.

José Geraldo Coelho em 30 de julho de 2011

Os jogadores de hoje parecem mais com os piloos de Fórmula 1. E o mais ridículo é o calçãoo com publicidade no traseiro.

amanda em 30 de julho de 2011

mas nenhuma camisa é mais feia que a da seleção brasileira.

Anderson em 30 de julho de 2011

rRicardo Concordo com vc com relação ao excesso de patrocínios, isso e um mal que assola os times do Brasil e infelizmente parece que todos caminham por esse rumo. Com relacoa a mudanca de cores, já nao sou contra, veja hoje os times mais poderosos do mundo (e antigos e tradicionais) como Manchester, Barcelona e real Madri, trocam as cores de sua camisa quase todo ano. A camisa reserva do Manchester já foi preta, azul, amarela, branca, etc do barcelona já foi amarela, branca, preta, grena, rosa e por aí vai. Acho que isso e estratégia que pode gerar mais resultados para uma equipe do encher a camisa de patrocínios. E ainda sobre as cores, Lem da camisa do palmeiras de 93, a primeira listrada se nao me engano, me diga pelo menos um detalhe de camisa de outro time... E por que as vezes fazer uma mudanca deixa marcas na memória... Eu me referi sempre à camisa e ao uniforme principal, caro Anderson.

VER + COMENTÁRIOS
TWITTER DO SETTI