Artigo de 2005: Queda de braço vetou Gates com Lula

Artigo de 2005: Queda de braço vetou Gates com Lula O (rápido) encontro entre Bill Gates e Lula em Davos, a 28 de janeiro de 2005 (Foto: Getty Images)

E também: Chávez ovacionado no Fórum Social Mundial, as opiniões de Saramago, as estatísticas de Frei Betto, prefeitos calamitosos, Ronaldinho igualando Leônidas, Dilma e a venda de energia para a Argentina, o recorde de Dida – e Greenhalgh negociando com a Playboy

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A audiência privada que o bilionário Bill Gates, dono da Microsoft, queria ter com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, por fim não ocorreu – mas provocou uma queda de braço dentro do governo. Gates acabou se encontrando rapidamente com Lula apenas durante um evento com vários outros participantes.

O dono da Microsoft desejava o encontro para discutir com o presidente a política do governo brasileiro pró-utilização de sistemas operacionais gratuitos (como o Linux) para os computadores de entidades públicas federais. A Microsoft, detentora do sistema Windows, predominante em todo o planeta, é diretamente interessada no assunto. No caso brasileiro, mais ainda, uma vez que o governo, além da política para os órgãos púbicos, pretende também subsidiar a compra de 1 milhão de computadores dotados de softwares gratuitos para consumidores de baixo poder aquisitivo.

O ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan – um dos membros “pró-business” do governo –, achava que Lula deveria avistar-se com Gates. Em nome da posição do governo brasileiro sobre o software livre, Sérgio Amadeu, presidente do Instituto Nacional de Tecnologia de Informática (INTI), órgão ligado à Casa Civil, mobilizou-se em sentido contrário. Conseguiu o discreto apoio de seu chefe, José Dirceu, e do chanceler Celso Amorim. O chanceler fez chegar a Gates a informação de que uma audiência pode ser considerada se ele se dispuser a vir ao Brasil para avistar-se com Lula.

Música para os ouvidos

Um interlocutor brasileiro perguntou ao presidente da Venezuela, Hugo Chávez, do que ele mais gostou do Fórum Social Mundial, recém-encerrado em Porto Alegre. Chávez não teve a menor dúvida em responder: foi do slogan dos estudantes que, durante seu discurso no ginásio Gigantinho, gritavam “Um, dois, três, quatro, cinco, mil, queremos Hugo Chávez presidente do Brasil!”

Saramago e a democracia

O escritor português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura de 1998, aproveitou o Fórum para novamente, como vem ocorrendo nos últimos meses, fazer críticas às imperfeições da democracia.

Com a autoridade de quem militou a vida inteira no stalinista Partido Comunista Português e só reconheceu que havia uma ditadura violadora dos direitos humanos em Cuba depois da última leva de dissidentes fuzilados pelo regime de Fidel Castro, em abril de 2003.

Frei Betto e “7 mil famílias” ricas

Também luziu no Fórum o invariável Frei Betto, amigo do presidente Lula e seu ex-assessor até o final do ano passado. Dessa vez, em uma de suas intervenções em Porto Alegre, proclamou, extraindo não se sabe de onde a estatística, que “7 mil famílias” – os “verdadeiros donos” do Brasil – detêm “400 bilhões de reais” da dívida pública brasileira.

Betto ainda não sentiu os efeitos do puxão de orelhas involuntário que o próprio Lula lhe aplicou ao longo do documentário Entreatos, do diretor João Moreira Salles, quando, candidato em final de campanha em 2002, comentou achar exageradas e improváveis as estatísticas do amigo sobre a miséria no Brasil. As sobre riqueza, pelo visto, são tão confiáveis quanto.

Concentrada e pulverizada

Embora boa dívida pública total do país – que se aproxima de 1 trilhão de reais – esteja certamente concentrada em conglomerados empresariais e financeiros, ela também está pulverizada entre dezenas de milhões de cidadãos comuns, que detêm, entre outros ativos, cadernetas de poupança, dinheiro em fundos de investimento, CDBs, quotas de previdência privada ou recursos em fundos de pensão.

É coisa nossa

Por que tanta estranheza com a quantidade de prefeitos que decretaram e decretam indevidamente situação de emergência ou estado de calamidade pública em seus municípios para obter vantagens – tais como ajuda dos governos estadual e federal e dispensa de licitações – num país, como o nosso, onde já falsificaram até remédio para câncer?

A marca de Dida

Se, como se espera, o goleiro Dida for escalado pelo técnico Parreira para jogar contra a seleção de futebol de Hong Kong nesta quarta-feira, 9, ele completará 73 partidas pela seleção brasileira, ultrapassará o número de vezes que Branco defendeu a camisa amarela e estará somente a duas partidas de igualar a marca do grande Nilton Santos.

Com suas atuais 72 participações, ele deixou para trás supercraques como Zico (71), Gerson (70) e Junior (69).

Ronaldinho x Leônidas

Em matéria de artilharia, se Ronaldinho Gaúcho, com 20 gols marcados, fizer um golzinho só, vai superar Roberto Dinamite e Didi e igualar-se a ninguém menos do que Leônidas da Silva.

O Islã e a Adidas

Ao libertar dias atrás oito reféns chineses capturados no início de janeiro e cumprimentá-los um a um na frente de uma câmara de TV, o representante de um certo “Batalhão de Al Numan” do igualmente desconhecido Movimento de Resistência Islâmica do Iraque – uma das incontáveis organizações que combatem a invasão americana, o “imperialismo”, a globalização e o Ocidente em geral – tinha a cabeça coberta por um kaffieh típico e usava um agasalho esportivo com a marca da multinacional Adidas.

Ditadores hereditários

O governo torceu um pouco o nariz diante da palavra “ditador” utilizada pela mídia para qualificar o ditador sírio Bashar Assad, acionado por Brasília na tentativa de libertar o engenheiro João José de Vasconcellos Junior, feito refém por terroristas no Iraque.

Na verdade, porém, Bashar é ditador já de segunda geração: seu pai, Hafez Assad, tomou o poder num golpe de Estado em 1970 e governou por 30 anos até morrer, em junho de 2000. O Parlamento pró-forma da Síria imediatamente alterou a Constituição de forma que Bashar, então com 34 anos, pudesse escapar da exigência da idade mínima de 40 anos para governar o país.

Seu caso vem se juntar ao de vários ditadores hereditários. Um clássico do passado é o de Anastasio Somoza, que mandou na Nicarágua de 1936 até ser assassinado, em 1956, sendo sucedido pelos filhos Luis (1956-1967) e Anastasio, o “Tachito” (1967-1979). Outro, o de François “Papa Doc” Duvalier, que reinou no Haiti de 1957 a 1971 e conseguiu deixar o poder absoluto para o filho Jean-Claude, o Baby Doc (1971-1986).

Ainda está na moda

Atualmente, além de Assad, há pelo menos dois ditadores que, tal como nas monarquias, receberam o mando por consangüinidade: Joseph Kabila, do Congo (o pai, Laurent Kabila, governou de 1997 até seu assassinato em 2001) e Kim Jong-Il, da Coréia do Norte (o pai, Kim Il-Sung, “O Grande Líder”, tiranizou o país durante 49 anos até morrer, em 1994).

Embora banida no Ocidente, a moda está longe do fim: os ditadores Muammar Khadafi, da Líbia, e Hosni Mubarak, do Egito, preparam filhos para quando Alá os chamar.

Números relevantes

O Clickárvore, um programa de reflorestamento com espécies nativas da Mata Atlântica realizado via internet e apoiado por várias empresas, permitiu o plantio de mais de 3,8 milhões de mudas. Qualquer pessoa cadastrada pode plantar com um clique diário no site do programa. O link é clickarvore.com.br

Números irrelevantes

O Palácio da Alvorada, ora em obras de restauração, tem um total de revestimentos em madeira de 1.800 metros quadrados.

Os apagões e a Argentina

Só este ano tivemos três apagões em São Paulo, dois no Rio de Janeiro, um na Bahia, um no Espírito Santo, um em Santa Catarina, um no Rio Grande do Norte e um no Rio Grande do Sul (nesta terça, 1º).

A ministra das Minas e Energia, Dilma Roussef, que depois do primeiro da série garantiu que não se repetiriam grandes apagões, parou de falar no assunto. Da mesma forma, deixou de assegurar que não faltará energia nos próximos anos para prometer que, se o problema apontar no horizonte, o governo vai com antecedência “avisar a sociedade”.

Diante disso, será que é mesmo o caso de o governo vender 700 megawatts de energia para a Argentina durante o próximo inverno, como se anunciou em Buenos Aires?

Bom demais

Assistir ao general Manuel Contreras Sepúlveda, ex-todo-poderoso chefe da Dina, a polícia política da ditadura do general Augusto Pinochet no Chile (1973-1990), ser levado de algemas, num camburão, para receber notificação da Suprema Corte de que tinha sido condenado a 12 anos de cadeia pelo seqüestro e posterior desaparecimento de um militante de esquerda, em 1975.

Como diz aquela propaganda, há certas coisas que não têm preço.

Greenhalgh e “Playboy”

O candidato do PT e do Palácio do Planalto à presidência da Câmara, deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (SP), é um homem versátil. Ex-advogado de presos políticos durante o regime militar, ex-vice-prefeito de São Paulo, tradicional defensor do MST e de seus militantes perante os tribunais, ele já até renegociou contrato de estrela de capa da revista Playboy.

O caso ocorreu em 1997. Um olheiro da revista tinha descoberto uma bela militante do MST e funcionária da prefeitura de Teodoro Sampaio, na região do Pontal do Paranapanema, oeste de São Paulo. Procurada, ela topou ser fotografada e assinou o respectivo contrato. O vazamento da notícia sobre a existência do contrato com Débora Rodrigues provocou um racha interno no MST e grande repercussão na mídia.

Greenhalgh conseguiu autorização de Débora para cuidar de seus interesses e visitou a redação da revista disposto a criar caso. Playboy subiu o valor do cachê previamente estipulado e aceitou uma condição imposta pelo deputado: que não fosse utilizado, no ensaio, nenhum símbolo do MST – na verdade, a última coisa que passava pela cabeça dos editores fazer.

Com 18 páginas, o ensaio de Débora foi capa da edição de outubro de 1997 da revista.

Fumaça no Senado

Para o Brasil, que foi o segundo país do mundo a assinar a chamada Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco, participou ativamente de sua negociação ao longo de quatro anos no âmbito da Organização Mundial da Saúde (OMS), presidiu por três anos os trabalhos e tem excelentes resultados para mostrar no combate aos efeitos do tabagismo, é constrangedora a demora do Senado em ratificar o documento.

O Brasil assinou a convenção em maio do ano passado, e a Câmara dos Deputados ratificou-a no mesmo mês, por unanimidade. Desde então, dorme no Senado, sob forte pressão do lobby dos plantadores e da indústria do fumo.

A grande ironia do caso é que, sem a ratificação final do tratado pelo Congresso, os plantadores – cuja atividade econômica e empregos criados constituem supostamente o alvo da preocupação dos senadores – não serão beneficiados pelos diversos protocolos previstos no documento que visam encontrar e financiar culturas alternativas ao fumo.

Menos fumantes

O Brasil desfruta de posição de destaque internacional na luta contra os efeitos do hábito de fumar. A OMS registra dados oficiais brasileiros dando conta de que, graças a diferentes políticas gradualmente introduzidas pelos governos após a redemocratização do país, houve uma grande redução na proporção de fumantes na população – que caiu de 32%  em 1989 para 18,8% em 2003.

Segundo a OMS, o cigarro é responsável por meia centena de doenças graves, começando pelo câncer e doenças cardíacas. O hábito de fumar mata 5 milhões de pessoas por ano no mundo, 200 mil delas no Brasil.

Ampulheta

Nesta quinta-feira, 3, faltam 1.446 dias para o presidente americano George W. Bush encerrar seu segundo e último mandato.

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