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Fernando Lugo, do Paraguai: raro caso de presidente que não lutou por sua reeleição na América Latina (Foto: veja.abril.com.br)

Criticado por tantas coisas — desde uma certa afinidade com o “bolivarianismo” do ditador da Venezuela, Hugo Chávez, como por questões pessoais, como o fato de ter tido um filho quando era bispo da Igreja Católica –, o presidente do Paraguai, Fernando Lugo, está surpreendendo até a oposição (principalmente o velho Partido Colorado, que mandou no Paraguai durante meio século) ao resistir à pressão de correlegionários, ministros e puxa-sacos de todo gênero para que tente mudar a Constituição de forma a poder candidatar-se à reeleição em 2013.

Justamente o Paraguai da bagunça, da falta de instituições confiáveis, de uma democracia ainda claudicante após a corrupta e sanguinária ditadura do general Alfredo Stroessner (1954-1989) e de três presidentes seguintes ainda integrantes do Partido Colorado, foge à regra de praticamente toda a América Latina, inclusive o Brasil, onde a reeleição ou foi extorquida do Legislativo por pressões, ou por corrupção ou, no mínimo, por decisões eticamente controvertidas.

É ainda do Paraguai que vem um outro surpreendente sinal, desta vez de repúdio a ditaduras além-fronteiras. O Senado do Paraguai continua, firme, se recusando, como  faz há mais de dois anos, a aprovar o ingresso da Venezuela no Mercosul.

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O Senado do Paraguai em sessão: “não” à Venezuela no Mercosul (Foto: expomercosur.com)

Os acordos do Mercosul prevêem a chamada “cláusula democrática” — mérito, diga-se de passagem, dos ex-presidente José Sarney, do Brasil, e Raúl Alfonsín, da Argentina: países sem instituições democráticas não podem integrar o órgão. Prevêem, ainda, que a adesão de qualquer país deve ser aprovada pelos Congressos dos países-membros.

No caso — vergonhoso — do Brasil, confirmando decisão da Câmara dos Deputados, o Senado aprovou a adesão da Venezuela em dezembro de 2009, apesar da notória feição autoritária do regime de Chávez, que sufoca a imprensa livre, intefere no Judiciário, persegue opositores, confisca propriedades de grupos econômicos não afins com o regime, moldou uma Constituição e um legislativo à sua maneira e, em grande parte, governa por decreto.

O único consolo para a triste decisão do Senado brasileiro foi a votação apertada (35 votos a 27). A Argentina e o Uruguai já tinham aprovado então a entrada do que seria o quinto integrante do bloco.

Quem diria: o velho Paraguai dando exemplos — e lições — de apreço à democracia.

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francisco meireles em 26 de fevereiro de 2012

faltou aclarar que a oposição de direita é que tem a maioria no senado. Outro ponto que não achei elegante foi chamar o meu pais de bagunça e que não tem instituições confiáveis. Aqui a justiça é tao oscilante como no Brasil por exemplo

Sergio em 23 de fevereiro de 2012

Estamos tão mal acostumados com presidentes safados e corruPTos, que quando o cara faz o que estava combinado, corre o risco de ser endeusado politicamente.

roby em 23 de fevereiro de 2012

Se essa "cláusula democrática" é mesmo para valer, a Argentina não deveria ser expulsa? Aliás, esse tal de "Mercosur" existe para valer? Acho mais fácil acreditar que, assim como "nosso" próprio ex-apedeuta-em-chefe, o presidente paraguaio tenha percebido que sua pretensão não passaria pelo Congresso — ou que o preço dessa aventura seria nimiamente elevado, mesmo para os padrões frouxos do presidencialismo vigente na América LatRina.

alberto santo andre em 22 de fevereiro de 2012

parece-me que mesmo nao tendo um passado, e uma posicao muito limpa,lugo ainda cheira menos mal, que as outras ratazanas encrepitadas no poder no mercosul,quem diria que um dia diriamos que o mal cheiroso ,ainda esta perfumado, em relacao aos outros excrementos sul americanos;relmente estamos no fundo do poco moral.

Hattori Hanzo em 22 de fevereiro de 2012

Ora se não gosta por que tecer elogios? O cara faz parte do FSP, presidente de um País de ladrões, pedófilo e outras cosas mais. Eu não elogia esta gente em nada, já você... Elogiei uma ATITUDE de um dirigente político, e não ele, suas ideias ou sua personalidade. Quem não percebe a diferença entre elogiar uma atitude de um dirigente político e o mais não tem neurônios no lugar, ou está de má-fé.

Hattori Hanzo em 22 de fevereiro de 2012

Foi mesmo? Por isto então ele é melhor do que os outros comunistas do FSP da região? Não foi este que, apesar de padre, tinha filhos com menores de idade? Pelo visto sua moral é um tanto elastica não? Ué, elogiar uma atitude de um político, uma atitude específica, significa aprovar tudo o que ele fez na vida privada? A propósito, não gosto nadinha do Lugo do ponto de vista ideológico. E não me ofenda. Não tenho moral elástica, não. Quem é você para vir me dizer isso?

Hattori Hanzo em 22 de fevereiro de 2012

Ele esta com cancer o mané. è só por isto. Alias este ano o inferno vai ficar mais vermelho... vão três numa tacada só, o diabo é que se cuide. O Hospital Sírio-Libanês de São Paulo disse que o presidente do Paraguai está curado.

José de Araújo Madeiro em 22 de fevereiro de 2012

Positivo, Ricardo Setti. Pontos para o Paraguai. Abs;Madeiro

jose afonso em 22 de fevereiro de 2012

Eu me lembro que o presidente do Paraguai foi acusado de ter molestado jovens de 12, 13 e 14 anos enquanto membro da Igeja Catolica. Ter um filho seria o de menos, apesar de ir contra as normas da igreja. Nao me lembro se aquilo foi apurado atem o fim. Esses governantes sao uma escoria humana.

SergioD em 22 de fevereiro de 2012

Lugo recusou a reeleição assim como Lula se recusou a partir para um terceiro mandato, embora não faltasse que lhe sussurasse tal possibilidade, que certamente seria aprovada no congresso. Talvez de forma até mais barata que a de 1997. Abraços

Jefff em 22 de fevereiro de 2012

Pena o seu amigo FHC não ler tido a oportunidade de ler esse post em 1996 e aprovar a emenda da reeleição sabe lá a que preço!

Marcos Conservador em 22 de fevereiro de 2012

Bom texto. Importante observação. Devo mencionar, entretanto, que qualquer um, se comparado com o Lulla ou Chavez, passa e ter pinta de "gentleman". O presidente do Paraguai faz - nada mais, nada menos - o que qualquer presidente de país civilizado faria. Não chamaria (minha posição pessoal) ninguém de exemplo somente por seguir a constituição e cumprir com suas obrigações. Lulla, Chavez e o resto da quadrilha é que servem de exemplo negativo.

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