Artigo de 2003: Radicais do PT repetem história velha na esquerda

Artigo de 2003: Radicais do PT repetem história velha na esquerda A senadora Heloísa Helena, até dezembro de 2003 membro da ala mais radical do PT (Foto: Lailson Santos - VEJA)

E mais: PC do B na mira, uma observação de Britto, a “elite paulista” de Heloísa, uma nova editora surge, a segunda-dama no concurso de Miss, o dedo do PSTU, o segundo Rolls-Royce presidencial – e os 46 bilhões de juros da dívida

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A reforma da Previdência finalmente aterrissa no Congresso, e tende a ser um divisor de águas no partido do governo, o PT. Aliás, já está sendo, com a oposição religiosa, quase histérica dos chamados “radicais” a medidas racionais, e socialmente justas, como a taxação dos servidores inativos ou o teto único para aposentados do funcionalismo e do setor privado.

Seja qual for o resultado da votação da reforma – e o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está jogando pesado para ganhar –, não é difícil prever que ou os radicais se enquadram, ou serão expelidos do partido e do governo. Talvez a preocupação com os holofotes do “Jornal Nacional” que, segundo o puxão de orelhas aplicado a João Batista Babá (PT-PA) pelo próprio Lula durante almoço com a bancada do PT na terça, 29, tanto atraem o deputado, esteja fazendo a ala radical esquecer-se da história do último meio século.

Basta consultá-la, porém, para perceber que processos de mudança de rumo em partidos de esquerda instalados no poder ou próximos a chegar a ele não são exceção, mas a regra. É história velha na esquerda. Os sociais-democratas alemães retiraram o marxismo-leninismo de seus estatutos num congresso em 1958 – e já na década seguinte o SPD compartilhava um governo de união nacional com os adversários democratas-cristãos. Mais tarde, governariam por longos anos a então Alemanha Ocidental com Willy Brandt e Helmut Schmidt, e mantêm-se no leme há cinco anos com Gerhard Schroeder.

Na Espanha, a ruptura com dogmas marxistas e a modernização partidária iniciada ainda durante a ditadura do generalíssimo Francisco Franco (1939-1975) pelo secretário-geral Felipe González levaram o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) à vitória eleitoral em 1982 e a 14 anos de uma gestão que conduziu a Espanha para a modernidade. Além disso, eleito com uma plataforma anti-norte-americana, foi González quem atropelou seus radicais e promoveu o ingresso da Espanha na OTAN, a aliança militar ocidental.

Na França, foram necessárias quatro tentativas consecutivas do dirigente socialista François Mitterrand até sua primeira eleição, em 1981. O chamado Programa Comum da Esquerda – guarda-chuva que abrigava socialistas, comunistas e radicais de esquerda – incluía a estatização de bancos, produziu a maior fuga de capitais da história da França e levou Mitterrand a uma pragmática virada rumo a privatizações, política fiscal conservadora e, lá adiante, o afastamento dos comunistas.

Esse tipo de metamorfose atingiu até os partidos comunistas europeus, e isso antes mesmo do desabamento da União Soviética. A tragédia que sepultou numa ditadura militar sangrenta o governo do marxista Salvador Allende no Chile, em 1973, convenceu o secretário-geral do PC italiano, Enrico Berlinguer, de que era inviável para a esquerda governar sem ampliar alianças rumo ao centro. Surgiu então o “eurocomunismo” – um comunismo que abraçava a democracia e a livre iniciativa, recusava a tutela soviética e favorecia alianças fora do campo da esquerda. Após a queda do Muro de Berlim, em 1989, os comunistas italianos trocaram de nome (para Partido Democrático de Esquerda) e de símbolo (saiu a foice e o martelo, entrou a rosa). Em 1996, aportariam pela pela primeira vez ao governo, numa coalizão. Seu líder, Massimo D’Alema, seria eleito primeiro-ministro dois anos depois, governando até 2000.

Em todos esses casos – na Alemanha, na França, na Espanha ou na Itália –, os dissidentes que não aceitaram a linha majoritária deixaram o partido, fundaram correntes alternativas e perderam-se no anonimato e na irrelevância.

Por que com PT, no Brasil, seria diferente?

O PC do B na alça da mira

Além da atuação dos “radicais”, também causa irritação no governo e no comando do PT a má-vontade em relação às reformas, sobretudo a da Previdência, observada não apenas em aliados relutantes, como o PSB e o PDT, mas em aliados fiéis, como o PC do B.

Dependendo do comportamento do PC do B na votação das reformas, não será grande surpresa se o estado-maior petista pensar até em rever a antiga aliança eleitoral entre os dois partidos, que marcham juntos em eleições federais desde 1989.

Como tem um grande eleitorado – o maior do Brasil nas eleições passadas –, o PT na prática carrega nas costas o PC do B, que não emplacaria seus atuais 12 deputados federais apenas com votos próprios. Para ficar em um único caso: em São Paulo, se o partido tivesse concorrido sozinho, não teria com seus 229.542 votos atingido sequer o quociente eleitoral necessário para eleger um único deputado – 280.297 votos. Juntando, porém, ao oceano de votos petistas as votações de seus dois candidatos, ambos foram eleitos: Aldo Rebelo (atual líder do governo na Câmara) e Jamil Murad.

Ajuste ou reforma?

Ex-ministro da área por 14 meses entre 1992 e 1993, o ex-deputado e ex-governador gaúcho Antônio Britto (PPS) acha que o governo precisa resolver se quer uma reforma ou apenas um ajuste na Previdência. Um ajuste, diz ele, é até fácil. Já uma reforma requer uma transição, e o custo da transição, prevê, seria “caríssimo”.

Diz Britto:

– O governo e o Congresso terão que decidir se pensam na folha de pagamentos de hoje ou na aposentadoria daqui a 30 anos.

“Elite paulista”

No bate-boca que protagonizou com o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), durante reunião da bancada na terça, 29, a senadora Heloísa Helena (PT-AL) atacou o colega como sendo membro da “elite paulista”.

Se se referia a berço de ouro, a senadora não tem idéia do que diz. O pai de Mercadante, o general-de-exército da reserva Oswaldo Muniz Oliva, foi, é verdade, diretor da Escola Superior de Guerra e terminou a carreira como chefe do Departamento de Engenharia e Comunicações do Exército, mas antes disso levou a vida apertada de quem, com o salário contado de militar, tinha seis filhos para sustentar.

Nascido em Santos (SP), o general gramou, carreira afora, em diferentes Estados e em postos nem sempre amenos, como o 3° Grupamento de Fronteiras em Rondônia. Quando já era oficial-de-gabinete em Brasília do então ministro da Guerra, general Costa e Silva, em 1967, o carro da família era uma kombi standard. Certa vez, para equilibrar o orçamento, o então tenente-coronel Oliva viu-se compelido a vender uma preciosidade: seu equipamento de rádio-amador.

Nova editora na praça

O editor Pedro Paulo de Senna Madureira, que revolucionou meia dúzia de grandes diferentes editoras brasileirs em sua carreira profissional, parte agora em vôo solo, com empresa própria.

Já está na Europa comprando títulos para a Editora Senna Madureira.

A segunda-dama em concurso de miss

Em geral sóbria e discreta, mulher do vice-presidente José Alencar, Marisa Alencar, fez levantar sobrancelhas com sua decisão de participar no sábado, 26, do júri do 49º concurso de Miss Brasil, certame moribundo e desmoralizado que a Rede Bandeirantes e um elenco de patrocinadores tenta ressuscitar.

O suco é nosso, mas o preço…

O suco de laranja brasileiro, importante item da pauta de exportações do país, vive assombrado pela produção da Flórida, não é mesmo?

Pois a famosa produção da Flórida para a safra 2003-2004 acaba de ser divulgada pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos: 198 milhões de caixas.

Bem abaixo das 350 milhões de caixas que só a produção do Estado de São Paulo deve atingir.

O problema, para os exportadores, é que esses 350 milhões de caixas paulistas representam cerca de 15% mais do que o esperado pelo mercado internacional, e isso pode jogar para baixo o preço. Não se sabe, ainda, se o consumidor brasileiro de suco pode ter alguma vantagem no bolso.

Pelos precedentes semelhantes, provavelmente não vai ter.

Vida nova

Aparentemente recuperado da derrota na tentativa de continuar no Senado pelo PFL do Amazonas, o ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), ex-ministro da Justiça e ex-senador Bernardo Cabral sentou de vez praça no Rio de Janeiro.

Mora em apartamento na Rua Constante Ramos, em Copacabana, e dá consultoria em escritório à Rua 13 maio, no Centro.

Teve PSTU na linha

Ficou claro para muita gente, inclusive para o governo, que teve não só o dedo, mas a intenção política do PSTU na tentativa de incluir um gatilho salarial automático no acordo entre os operários então em greve da General Motors em São José dos Campos (SP) e a empresa. A idéia seria disparar o gatilho a cada vez que, a partir do acordo, a inflação acumulada chegasse a 3%.

Embora notoriamente carente de votos, o PSTU dispõe de influência no Sindicato dos Metalúrgicos de São José e quer sabotar a todo custo a política econômica do governo Lula, à qual faz oposição feroz. Não por acaso, o ex-candidato presidencial do partido em 2002, José Maria de Andrade, participou das negociações, na sua condição de membro da direção da Central Única dos Trabalhadores (CUT).

O gatilho, conhecido instrumento criador e realimentador de inflação, é visto com horror em Brasília e considerado ilegal pelo governo à luz da legislação do real. Foi por essas e outras que o ministro do Trabalho, Jaques Wagner, enviou para reunião com as duas partes um homem de sua estrita confiança, o secretário de Relações do Trabalho, Osvaldo Bargas, que de bobo em matéria de artimanhas sindicais não tem nada – metalúrgico de profissão, integrou por longos anos a diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

Jantar a bordo, em terra

Está feia a coisa para as companhias aéreas – e, claro, para os passageiros.

Bom exemplo é o vôo 1576 da TAP que deveria decolar nesta segunda, 28, às 17h20, do Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, com destino ao Porto e escala em Lisboa. O avião teve “problemas técnicos”, alojaram-se os passageiros num hotel próximo, o Caesar Park, e o vôo só partiu na terça à tarde.

Até aí tudo bem. O problema é que, para fazer economia em duas pontas – não perder refeições estocadas e não pagar jantar para os passageiros no Caesar Park –, a tripulação, com evasivas, reteve os passageiros a bordo por quatro longas horas e acabou servindo o jantar com o avião estacionado.

Número irrelevante

A embaixada brasileira em Berlim tem 7.600 metros quadrados de área.

O segundo Rolls-Royce

A história já foi contada neste espaço: a garagem do Palácio do Planalto guarda desde o início do primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) um Rolls-Royce – o carro mais nobre do mundo – em mau estado de conservação, transferido do Itamaraty pelo seu então diretor administrativo, embaixador Carlos Garcia.

É um carro preto, fechado (não conversível), de corpo alongado, quase uma limusine. Apesar dos esforços do responsável pela área de transportes do Palácio do Planalto, o coronel da reserva Paulo Renato Caldas Fayão – que conseguiu legalizar o automóvel no Detran e licenciá-lo –, não tinha sido possível estabelecer ao certo o ano de fabricação e o modelo.

Mas graças à cooperação de Philip Hall, executivo-chefe da The Sir Henry Royce Memorial Foundation – entidade que leva o nome de um dos fundadores da mitológica marca e cuida de todas as questões históricas ligadas a ela, por delegação da empresa –, a charada está desfeita. Segundo Hall informou à coluna, comprado pela embaixada do Brasil em Londres (na época chefiada pelo extravagante magnata da mídia Assis Chateaubriand), o carro é um Phantom V, ano 1959, chassis número 5 AS 89. A carroceria foi feita pela centenária fabricante ParkWard.

História deletada

Embora tenha chefiado por dois anos e meio a Advocacia-Geral da União (AGU), o hoje ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes não mereceu uma linha sequer sobre seu currículo no site do órgão (www.agu.gov.br).

Já o sucessor de Mendes, José Bonifácio Borges de Andrada, mesmo tendo exercido a função por apenas seis meses, tem seu vasto currículo estampado no site, com direito a links para discursos e palestras.

Pior é o caso do ex-advogado-geral e ex-ministro da Defesa Geraldo Quintão, que apesar de ter carregado por seis anos e meio o piano da AGU não deixou rastro de currículo – nem data de nascimento – no site.

Style news

Usando colares, brincos e tiaras feitas por tribos indígenas de seu Estado, a deputada estreante Perpétua Almeida  (PC do B-AC) é destacada representante do estilo “étnico” entre as parlamentares do Congresso.

Matando dois coelhos

O Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), criado pelo presidente Lula para mastigar as reformas antes de encaminhá-las ao Congresso, tem servido também a outros propósitos do governo.

Volta e meia, ministros que o integram acertam ponteiros sobre assuntos extra-pauta com empresários e sindicalistas também membros do CDES. O ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, por exemplo, aproveitou o intervalo de recente reunião para conversar com diretores de pelo menos dois bancões – o Bradesco e o Itaú – sobre a necessidade de aumentar a oferta de linhas de crédito para empresas exportadoras.

Número relevante

Até o final do governo Lula, o Brasil precisa pagar US$ 46 bilhões de juros e amortizações da dívida externa.

Perguntar não ofende

Como é que o governo vai cumprir a promessa de dobrar o salário mínimo até o final da gestão do presidente Lula, em 2006, se, além de ter concedido aumento real de menos de 2% este ano, não prevê aumentos reais em 2004, 2005 e 2006 nos estudos enviados ao Congresso junto com o projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO)?

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