Artigo de 2003: Recorde de ladroagem

Artigo de 2003: Recorde de ladroagem Ilustração: Pixabay

E ainda: Arábia Saudita de fora da rota do governo, Maciel vira a casaca, brigas no STF, Vicentinho e Marinho contrariam Lula, o “Troféu Berzoini de Crueldade”, dados assombrosos sobre armas de fogo, IBGE aponta melhoras, mais futebol e a febre das fechaduras biométricas

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Esse espantoso escândalo dos “gafanhotos” do Estado de Roraima – espantoso pela amplitude da roubalheira e pela desfaçatez com que vinha sendo praticada – é proporcionalmente um dos maiores já descobertos no Brasil desde Cabral e tem cacife até para encarar a corrupção de republiquetas ditatoriais da África.

A ladroagem levantada pela Polícia Federal, como se sabe, era baseada em 5.000 funcionários que não existiam, mas recebiam pagamento dos cofres públicos, na verdade embolsado por algumas dezenas de políticos e autoridades. Não é brincadeira roubar do povo, todo santo mês, o equivalente a mais de 10% do total da folha de funcionalismo do Estado.

Riscos para o PT

Além do provável ingresso no livro Guiness da pouca vergonha com a coisa pública, o caso dos “gafanhotos” que devoravam os miseráveis recursos de Roraima é exemplo gritante dos problemas potenciais que a política de filiação desordenada de políticos, atraídos pela capacidade sucção do poder, pode acarretar ao PT.

Zunzum de gafanhotos

O governador Flamarion Portela, com efeito, embora filiado ao minúsculo PSL, era vice do então governador Neudo Campos (PP), hoje temporariamente hospedado na Cadeia Pública de Boa Vista, em cujo mandato se perpetrou o assalto aos cofres públicos. Quando a cúpula do PT começou a negociar a filiação de Portela, ele já havia assumido o governo no lugar de Neudo, que renunciou para tentar o Senado, era candidato à reeleição e já havia um zunzum sobre a bandalheira dos “gafanhotos”. Suficiente para que o PT se precavesse contra a hipótese, bastante razoável, de que o hoje petista Portela tivesse sido, no mínimo, omisso diante do escândalo.

Sem a Arábia Saudita

Apesar de toda a fanfarra em relação à atual visita do presidente Lula ao mundo árabe, a exclusão da Arábia Saudita do roteiro esvazia a missão, ao deixar de fora o país da região com maior poder de compra e que já foi o maior fornecedor de petróleo do Brasil.

Segurança e geopolítica

A explicação oficial para a Arábia Saudita não estar no roteiro foi a demora do governo de Riad em responder à proposta de visita, embora existisse grande preocupação em Brasília com a questão da segurança. A Arábia Saudita tem tido sérios problemas de terrorismo por sua estreita associação com os Estados Unidos.

O riquíssimo Kuwait certamente ficou de fora por esta última razão. E a geopolítica deve ter pesado na não inclusão do Qatar – que vem conduzindo uma inteligente política de atrair a seu território, a peso de ouro, filiais das melhores universidades dos Estados Unidos e da Europa. É que esteve sediado ali o comando das operações militares americanas na guerra do Iraque.

A favor e contra

Política é política. Vice-presidente de FHC de 1995 a 2003, o hoje senador Marco Maciel (PFL-PE) passou oito anos solidário às tentativas do governo de então de promover mudanças na Previdência. Mas na semana passada, na hora de, como senador, votar na reforma proposta por Lula – que em vários pontos vai além do que FHC tentou –, votou contra.

Tempo quente no Supremo

Reduto por excelência de civilizados, o Supremo Tribunal Federal (STF) não está, porém, isento de aumentos de temperatura entre seus 11 ministros.

Em semanas recentes, o tempo chegou a esquentar. Trocas exaltadas se deram, por exemplo, entre o ministro Nelson Jobim e os ministros Carlos Ayres de Britto e Marco Aurélio de Mello, e entre este e o ministro Sepúlveda Pertence.

Ampulheta

Por falar no Supremo, faltam, a partir desta quinta, 4, exatos 157 dias para o ministro Maurício Corrêa se aposentar por atingir a idade-limite de 70 anos e, com isso, deixar a corte e a presidência.

Ao governo, que andou às turras com o ministro, essa contagem interessa duplamente: por um lado, Corrêa não representará mais obstáculo político; por outro, abre-se mais uma vaga para Lula preencher no STF.

O exemplo de cima

A briga do PT do Paraná para que o governador Roberto Requião (PMDB) aumente os recursos da saúde no Orçamento de 2004 só reforça a ruindade do exemplo dado pelo próprio governo Lula ao querer empurrar como gastos do setor recursos que na verdade eram do Fome Zero. Ao tentar contrabandear como sendo de saúde dinheiro de outras áreas, o que Requião fez foi só copiar o que Brasília quis fazer, mas recuou.

Aritmética

O presidente Lula errou nas contas no discurso em que, dia 27, praticamente confirmou no cargo o ministro do Esporte, Agnelo Queiroz. “Nós estamos completando hoje 10 meses e 27 dias de governo”, disse ele, a certa altura. “Ainda temos 3 anos e 3 dias para terminar nosso mandato”. Faltavam, na verdade, 3 anos e 34 dias para isso.

Por alguma razão, o presidente se esqueceu de contar 31 dias inteirinhos.

Diploma de doutor

O presidente, em recente fala a pescadores, voltou a falar das maravilhas de não se ter diploma de curso superior. Em direção oposta, seus ex-colegas de sindicalismo Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, e Luiz Marinho – respectivamente ex e atual presidente da CUT –, louvam em outdoors em São Paulo o curso de Direito da Universidade Bandeirantes, freqüentado por ambos.

Vicentinho, hoje deputado (PT-SP), se forma neste fim de ano, e Luiz Marinho, no ano que vem.

Troféu Berzoini

Frases de três integrantes do governo estão concorrendo ao “Troféu Berzoini de Crueldade” do PFL – provocação instituída pelo partido em seu site na internet depois da decisão do ministro da Previdência, Ricardo Berzoini, de suspender pagamentos aos aposentados de mais de 90 anos que não se recadastrassem no INSS.

Curiosamente, frase do próprio Berzoini tem se mantido sistematicamente como a menos votada no site do partido.

Juros e investimentos

O setor público reduziu de 11,4 para 9,8 bilhões de reais seus gastos com juros de setembro para outubro, informam os últimos relatórios do Banco Central.

Que bom – até nos lembrarmos de que apenas o gasto em outubro com juros é o dobro de tudo o que o governo federal prometeu investir no ano todo de 2003.

Erramos

A coluna se enganou em nota sobre a recente operação-despiste autorizada por Lula – ele queria se encontrar sigilosamente com ministros e políticos do PT na Granja do Torto e, tentando sobretudo enganar jornalistas, deixou hasteado no Palácio da Alvorada o Pavilhão Presidencial, que, escreveu-se aqui, “identifica a presença do presidente em determinado local”. Na verdade, não é assim.

Os casos

Segundo o decreto 70.274, de 9 de março de 1972, que, entre outras coisas, “aprova as normas do cerimonial público”, o Pavilhão Presidencial – uma bandeira azul com as armas da República – precisa estar hasteado “na sede do governo” (o Palácio do Planalto), quando “o Chefe de Estado estiver presente”, nos “ministérios e demais repartições federais, estaduais e municipais,  sempre que o Chefe de Estado a eles comparecer” e também “nos locais onde estiver residindo o Chefe de Estado”.

Números relevantes

Do total de homicídios cometidos no Brasil entre 1991 e 2000, 82,2% foram por armas de fogo.

Números irrelevantes

O Palácio da Liberdade, sede do governo de Minas Gerais, tem 1.898 metros quadrados de área construída.

Rindo por último

A mortalidade infantil encolheu e a expectativa de vida aumentou, informa o IBGE, com dados de 2002. A fome, atesta a ONU, diminuiu, o que colocou o país em situação de destaque em relação a todos os seus congêneres. E o crescimento do PIB no ano passado, retifica o próprio governo, não foi de 1,5%, mas de 1,9% – contra os esperados 0,4% deste ano.

Se continuar assim, daqui a pouco FHC vai começar a tripudiar.

Ronaldo contra o Baixinho

A coluna registrou, na edição passada a controvérsia em torno do real número de gols marcados por Ronaldo na seleção brasileira de futebol – se são até agora 50, 51 ou 52 (se quiser ver, clique à direita em “É com o Congresso”, nota “Ronaldo e o 50° gol” e as duas que se seguem).

Seja quantos forem, é bom esclarecer que o Fenômeno, embora ainda longe de sua meta de alcançar Pelé como o maior goleador com a camisa canarinho em todos os tempos, com 77 gols em partidas oficiais – ou seja, contra outras seleções, não valendo disputas com clubes ou combinados – está pertíssimo de ser o segundo dessa lista, ultrapassando Romário. O Baixinho, carta fora do baralho na seleção há muito tempo, tem 54 e vai parar neles.

O Rei

No total, incluindo partidas não-oficiais, Pelé tem quase inalcançáveis 95 gols.

Ética relativa

Entrou para a galeria das grandes declarações controvertidas do governo a do general Jorge Armando Félix, ministro da Segurança Institucional da Presidência, ao qual se reporta a Agência Brasileira de Inteligência (Abin): “Se raciocinarmos com a chamada ética absoluta, não haverá inteligência”.

O ministro justificou sua afirmação dizendo que “a inteligência se propõe, entre outras coisas, a obter um tipo de informação que os indivíduos ou as organizações não querem disponibilizar”.

A “democracia relativa”

Se não há ética absoluta, pode-se inferir que, para o general Félix, há uma ética relativa nas atividades de inteligência. Quem gostava de relativizar certos fundamentos era o general Ernesto Geisel, que reinou no regime militar de 1974 a 1979 e criou o conceito de “democracia relativa”.

Segurança no dedo

Estão virando equipamento-padrão de segurança, em lançamentos imobiliário de classe média alta em São Paulo, as chamadas “fechaduras biométricas”. Abrem portas ao reconhecer a impressão digital dos moradores da casa. Algumas têm capacidade de reconhecer cem impressões digitais diferentes.

Atrás de Angola

Angola é um dos países mais pobres do mundo. Sofreu cinco séculos de dominação colonial de Portugal, da qual se libertou em 1975 depois de década e meia de guerra, mas mergulhou logo depois num conflito civil que só terminou no ano passado. Ao todo, enfrentou 40 anos de guerra, que matou centenas de milhares de pessoas, destruiu o país de ponta a ponta e mutilou parcela importante da população. Não bastasse isso, durante 15 anos, depois da independência, viveu sob uma férrea ditadura de tinturas comunistas.

Pois bem, com tudo isso, segundo o Banco Mundial, hoje em dia um empreendedor leva 146 dias em média para abrir um negócio em Angola. No Brasil, de acordo com o mesmo estudo, a mesma operação demora 152 dias.

Fonte de surpresas

Por essas e outras, vale xeretar o documento do Banco Mundial, “Fazendo Negócios em 2004” – Entendendo Regulamentos”, que mostra o quanto a burocracia inferniza a economia de 133 países.

Embora já comentado aqui e ali pela mídia, é uma fonte de surpresas neste link.

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