Artigo de 2004: Respeito é bom

Artigo de 2004: Respeito é bom Foto: domínio público

E mais: diferentes formas de encarar a imprensa livre, uma nova linguagem de greves, galinhas em manifestação,  as preferências culinárias de Mario Amato, mais namoro entre Maluf e o PT, Itamar quase passa batido entre populares – e (mais) um erro dos sem-teto

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Não adiantam as explicações do Itamaraty de que se procurou “ganhar tempo”. Pintar com as cores da ONU os caminhões e jipes do Exército que estarão com os 1.470 soldados brasileiros em missão de paz no Haiti antes que o Congresso aprove, como manda a Constituição, a ida das tropas, é um desrespeito ao Legislativo.

O Congresso, é sempre bom lembrar, é o poder republicano por excelência.

IR e batata quente

Tremenda batata quente para o governo o projeto aprovado nesta quarta, 19, por grande maioria, pela Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados prevendo a correção anual da tabela do Imposto de Renda, a partir de 2006, pelo índice de preços ao consumidor (IPCA).

Indo adiante na Comissão de Justiça e no plenário, o que é muito provável, como Lula vai explicar um veto, se o projeto dá quase dois anos de prazo ao governo para se adaptar a um menor ganho de receita do IR? E se o projeto original é do então deputado e hoje ministro do Trabalho Ricardo Berzoini (PT-SP). Mas, por outro lado, como sancionar, se a correção determinada pelo projeto é retroativa e reajustaria a tabela, em valores de hoje, em mais de 50%?

O delegado na Abin

O novo diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) indicado pelo presidente Lula, o delegado da Polícia Civil de São Paulo Mauro Marcelo Lima e Silva, é um precursor no combate a crimes pela internet no Brasil. Com cursos no exterior, inclusive no FBI americano – alguns deles, por sinal, financiados do próprio bolso –, ele era objeto de ciumeiras em alguns setores da corporação e estava nos últimos meses fora do trabalho de investigação, lecionando na Academia de Polícia.

NYT e FHC

Nem todos os presidentes têm a mesma reação a uma matéria do correspondente no Brasil do The New York Times, Larry Rohter, que toca em questões pessoais.

Durante o segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, Rohter escreveu uma reportagem sobre o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) alegando que FHC lhe tinha “medo físico”.

O governo ignorou essa passagem, o Itamaraty silenciou, não aconteceu nada nem repercutiu coisa alguma.

Está durando

Se o episódio da expulsão do país do correspondente Larry Rohter não fosse revertida e o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, realmente pedisse demissão como se chegou a prever, ele estaria deixando de bater sucessivos recordes de permanência na pasta.

Num país menos neurastênico que o Brasil, um ministro com apenas 1 ano, quatro meses e 20 dias, completados nesta quinta, 20, estaria apenas aquecendo motores no cargo. Mas, com essa marca, Thomaz Bastos ultrapassou o senador Renan Calheiros (PMDB), ministro de abril de 1998 a junho de 1999, e se tornou o terceiro mais longevo entre os 19 titulares do Ministério desde a volta do Brasil à democracia, em 1985.

Só falta bater dois

Só ficaram mais tempo na Justiça do que o atual um dos quatro ministros que trabalharam com o presidente José Sarney (1985-1990), Paulo Brossard, e um dos nove que voejaram sobre a pasta durante a Presidência Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), Nelson Jobim, atual presidente do Supremo Tribunal Federal (STF).

Isso, é bom lembrar, num país, como o nosso, que tem gravíssimos problemas em várias das áreas de que cuida o Ministério da Justiça, começando pelo papel do governo federal na segurança pública.

Greve em nova linguagem

A decisão dos agentes e outros funcionários da Polícia Federal em greve de “voltar ao trabalho por tempo indeterminado” enquanto negociam com o governo utiliza linguagem nova, novíssima em matéria de paralisação de funcionários públicos.

Com freqüência alarmante, grevistas têm pulado todas as etapas normais utilizadas para, gradualmente, exercer pressão contra o governo em uma greve – manifestações, abaixo-assinados, greves simbólicas de advertência, paralisações por tempo certo – e partido direto para a radical decisão da “greve por tempo determinado”.

 O estímulo do desconto salarial

Oficialmente, a greve foi suspensa a pedido da Câmara dos Deputados, que serve de intermediária no caso. Mas por trás dessas belas palavras com certeza serviu de incentivo aos grevistas a decisão do governo, tardia mas correta – e também raríssima, diga-se – de cortar o ponto dos grevistas e, assim, descontar dos salários os dias parados.

Galinhas civilizadas

Outra rara manifestação civilizada de grevistas foi a de funcionários da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) no Rio. Não apenas fizeram uma greve por tempo determinado – 24 horas – como também, na bem-humorada manifestação que promoveram no centro do Rio, distribuindo duas mil galinhas a populares, lançaram mão de dinheiro do sindicato para comprar as aves.

O estoque galináceo da Embrapa permaneceu intacto.

Amato e água na boca

Sem aparatos de segurança e sem fazer o menor alarde, o empresário Mário Amato – polêmico ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) – costuma percorrer pessoalmente os perfumados e irresistíveis estoques de guloseimas da centenária padaria e mercearia italiana Basilicata, no coração do velho bairro do Bexiga, em São Paulo.

Ele mesmo, minuciosamente e com visível água na boca, faz as compras.

Lula, Marta e Alckmin

Se o projeto de lei do governo instituindo o chamado novo marco regulatório para o setor de saneamento básico realmente passar aos municípios a titularidade dos serviços desse tipo, Brasília estará tomando partido na maior briga que separa a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy (PT), do governador do Estado, Geraldo Alckmin (PSDB).

Marta sancionou recentemente lei municipal que reivindica para o município o controle dos serviços de água e esgoto que, porém, são atendidos por uma companhia do Estado, a Sabesp. A prefeita quer cobrar o governador pela concessão.

Fashion news

Alguma alma caridosa precisa dizer ao ministro da Fazenda, Antonio Palocci, que as mangas de seus paletós estão compridas demais.

Pindaíba

O presidente da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), José Mário Abdo, que deixa o posto no final do ano, tem dito a interlocutores só ter dinheiro para tocar o órgão até setembro. Mesmo o dinheiro recolhido pelas concessionárias para que a Aneel as fiscalize está sendo contingenciado pela equipe econômica do governo.

Maluf, queridinho do PT

Quem diria que esse dia iria chegar: o Palácio do Planalto, de mangas arregaçadas, trabalhando a todo vapor, com oferecimento de cargos e tudo, para ter certeza de que o ex-prefeito Paulo Maluf (PP) atrapalhe os planos de José Serra (PSDB) na disputa pela prefeitura de São Paulo contra a prefeita Marta Suplicy (PT).

Prender Marta no cargo

O governo e setores do PT não desistiram de um segundo objetivo na campanha eleitoral paulistana: o de que a prefeita Marta entregue ao PMDB a candidatura a vice, publicamente prometida a seu secretário de Governo, o também petista Rui Falcão. Até Lula entrou com tudo na manobra, como se viu nesta terça, 17, antes da reunião do presidente com prefeitos de 21 capitais.

Com isso, o governo aplacaria um pouco da fome do sempre guloso PMDB e, de quebra, se Marta for reeleita, “prenderia” a prefeita no cargo até janeiro de 2009 para não entregar o cargo a outro partido, deixando livre o terreno para que o presidente do PT, José Genoino, o senador Aloizio Mercadante ou, mais remotamente, o próprio ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, disputem em 2006 a sucessão do governador tucano Geraldo Alckmin.

Ar livre

Quem quiser encontrar o ministro das Cidades, Olívio Dutra, sem passar pelas quase intransponíveis barreiras da burocracia, basta ir aos domingos de manhã ao Parque da Cidade, em Brasília.

Ali, o ministro, com os vastos bigodes de sempre mas sem camisa, tenta manter a forma pedalando uma bicicleta.

Mediawatch

Ficou involuntariamente hilariante a tradução feita pela Folha de S. Paulo de  um slogan gritado pela multidão liderada pelo ditador Fidel Castro, em Havana, em protesto contra novas medidas restritivas a seu regime tomadas pelos Estados Unidos:

– Bush, seu fascista, não existe uma agressão à qual Cuba não possa resistir.

Teria sido o mais longo e complicado slogan jamais bradado por uma multidão em todos os tempos.

Um anônimo Itamar

É dura a vida, inclusive a pública. Ele foi presidente da República, implantou o Plano Real, elegeu seu sucessor e viu acontecerem, durante seu mandato (1992-1995), os melhores indicadores econômicos desde a volta do país ao regime civil, em 1985.

Quanto o ex-presidente Itamar Franco desembarcou dia desses no Aeroporto Presidente Juscelino Kubitschek, em Brasília, porém, levando à mão uma pastinha preta, tendo a esperá-lo seu ex-chefe da Casa Civil, Henrique Hargreaves, e um casal amigo, parecia um anônimo. Itamar desceu numa ala situada num dos extremos e, para atingir uma saída privativa lateral do aeroporto, percorreu toda a sua extensão, ante a total indiferença de dezenas de pessoas, inclusive das que o reconheceram.

Durante todo o trajeto, foram três os cidadãos que o cumprimentaram.

Carro velho

Na saída lateral, Itamar era aguardado por um segurança e um motorista. Embarcou num Omega preto, não australiano, a que tem direito como ex-presidente – o que significa tratar-se de um modelo no máximo de 1998, último ano em que a General Motors montou os Omegas no Brasil.

Diferentemente dos Omegas australianos do presidente Lula, os vidros do carro de Itamar não são protegidos por película escura.

Disseram

Antiquíssimo provérbio romano, válido ontem, hoje e sempre:

– Corruptio optimi pessima (“A pior corrupção é a dos melhores”).

Governo de SP e os sem-teto

Na capital, sem-teto têm quartel-general em prédio do INSS na 9 de julho do qual o governo federal gostosamente abriu mão. O líder é Gegê, irmão do cantor Chico César. Invadiram casarão na 13 de maio pertencente a jovem de 23 anos órfa de pai e mãe e estudante.

A dificuldade com a Justiça é encontrar o réu no meio dos invasores.

Advogados desconfiam que a procuradoria do Município ajuda os caras.

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