Pesa exatamente 1 quilo e 450 gramas –1 quilo e 450 gramas de prazer, diversão, informação, bom gosto e originalidade, em tamanho grande, de 36 por 28,5 centímetros, como um coffee table book.

O número 1 da Rev. Nacional, sonho confessado de seu idealizador, o grande fotógrafo J. R. Duran, tem também 1 quilo e 450 gramas de leveza. Como ele mesmo diz, não se trata de uma revista de fotografia, mas de uma revista de temas, “para ver, ler e guardar”, inspirada nas publicações ilustradas do começo do século passado.

O número 1 chega com um versátil elenco de colaboradores que inclui, entre outros, jornalistas, escritores, modelos, uma indigenista, um publicitário, um compositor e poeta, e um cineasta. São 2.000 exemplares numerados, exclusivíssimos, num projeto bancado pela gráfica Burti que Duran considera “ambicioso e arriscado”: uma vez por ano, ao longo de uma década inteira, “juntar em uma revista os assuntos, lugares e nomes que despertam o interesse e, de certa maneira, formam um espelho do Brasil”.

Vamos dar uma olhada?

Foram necessários o olho e a sensibilidade do mestre Duran para enfim capturar a graça — que a TV sempre esconde — das cheerleaders que se apresentam durante as partidas de futebol, especialmente mas não apenas em São Paulo e no Rio. Sempre me perguntava por que raios ninguém mostrava essas garotas, nem mesmo as seções esportivas dos jornais. Pois bem, ei-las aqui, nessa reprodução de uma das páginas duplas da Rev. Nacional

Image
A modelo Cássia Ávila, “escandalosamente bonita”

[A modelo] Cássia Ávila é tão escandalosamente bonita que fica difícil prestar atenção nos outros atributos dela. Que, aliás, são muitos”, escreve, como sempre divinamente, o jornalista Nirlando Beirão. “Dá uma trabalheira, sim, abstrair aquele rosto talhado por Michelângelo em dia de superior inspiração; desviar-se dos olhos de jabuticaba; ignorar o magnetismo do corpo elástico da felina; driblar a tentação de mulher completa”.

“Para muita gente, beleza basta. Eu mesmo, quando a conheci, seria capaz de me perguntar: precisa mais que isso? Modelo de talento espantoso, ela foi estudar jornalismo. (…) Cássia sabe bem o que quer, ou sabe muito bem o que não quer. Não quis virar, no minueto social das aparências, um bibelô, mero objeto de decoração — nem mesmo objeto de adoração”. E, como nota Beirão, a bela escreve bem: é dela o perfil do ator Cauã Reymond.

Image
Os índios Zo’é: um dos últimos povos Tupi a travar contato com o homem branco: 14 páginas da revista

Quem pensa em Duran só fotografando moda e lindas mulheres nuas se esquece dos múltiplos interesses desse piloto de helicóptero nas (poucas) horas vagas. Durante quase um ano ele percorreu a remota, áspera Etiópia para construir o instigante livro Cadernos Etíopes (Cosac Naify, 2008), em que retrata cinco tribos e escreve, num diário, sobre seus costumes e quotidiano.

A sacada para a Rev. Nacional veio depois de publicado o livro sobre a Etiópia. “Como é que nunca fui atrás de alguma coisa tipicamente brasileira?”, perguntou-se esse brazuca nascido em Barcelona. Resolveu fotografar índios, no estado menos contaminado possível pela “civilização”. Assim, chegou à quase desconhecida tribo dos Zo’é, no noroeste do Pará, um dos últimos povos Tupi a travarem contato com o homem branco, há pouco mais de uma década.

Os índios renderam um “material riquíssimo”, e Duran viu que havia ali 14 páginas prontas para a revista, na qual trabalharia durante um ano.

Image
Parte da sequência de fotos de Duran com o maestro João Carlos Martins

A magnífica sequência com o maestro João Carlos Martins é parte do trabalho que Duran realizou para a revista Brasileiros. Se as fotos exibem o padrão de qualidade que se imagina, os textos não ficam atrás.

O leitor se diverte, entre tantos, com o texto em que o escritor e jornalista Ronaldo Bressane descreve sua “iniciação à cafajestagem que concede a todo torcedor um manto de invisibilidade moral — e dos corinthianos em relação aos são-paulinos em especial”, na primeira partida do Corinthians a que assistiu, em 1988.

Idem com o texto do escritor e roteirista Reinaldo Moraes, desafiado — entre fotos feitas por Duran da espetacular modelo Isabeli Fontana — a escrever sobre a “preferência nacional”, desde que não abordasse aquilo que todo mundo considera ser a preferência nacional.

Por falar em nacional, longa vida à Rev. Nacional. No Twitter: @revnacional

Não deixe de visitar o ótimo site de Duran e ver seu portfólio.

Image
Palhaços: o publicitário Luiz Toledo lembra, no texto, do tio-herói que levava a molecada ao circo num automóvel Simca Chambord

DEIXE UM COMENTÁRIO

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

14 − 14 =

7 Comentários

Lucas Mack em 25 de março de 2014

Conheço pessoalmente o Duran , é um workaholic perfeccionista , exigente e HONESTO . Em seu escritório no bairro de Pinheiros , SP , ele sabe de tudo sobre a empresa de notas fiscais , entregas , correspondências , etc . Quando chegou um sofá vermelho e os carregadores o retiraram do caminhão ele pessoalmente conferiu seu estado e se era o que queria , sempre discreto e de poucas palavras , seu trabalho é inimitável ,tem a arte que só ele consegue traduzir nas melhores fotos que conheço quando clica musas maravilhosas.

Flavico em 13 de dezembro de 2010

Setti, Desculpe a sinceridade, mas isso aí está com cara de coisa feita pela "patota" para a "patota". Coisa "entre amigos". Jornalista, fotógrafo, publicitário, Gráfica Burti... Para "poucos e bons". Uma maçaroca de assuntos desconexos e sem profundidade alguma. Tribo indígena, palhaço Carequinha (ou Paçoquinha?), cheerleaders... (Bocejo). Who cares? Mas uma coisa é certa, a qualidade gráfica das imagens é estupenda. O projeto vale por essa razão apenas. No mais, muito pretensioso. Espero que aceite a crítica na boa, de um admirador seu. Abraço, Você deveria fazer um julgamento tão severo depois de ver a revista, caro Flavico. Obrigado por se dizer meu admirador, mas o post revela o meu julgamento. Se você visse a revista, certamente concordaria em que é ótima. Abraço Flavico

Marco em 13 de dezembro de 2010

Caro R. Setti: Através do seu trabalho de dar prazeres nas cores e nas formas,Duran conquistou com o seu olhar o q chamamos de inteligência Artística ! Abs. É verdade. Duran é um mestre. É um privilégio ser seu amigo. Abraço

Lilian em 13 de dezembro de 2010

Setti, J.R.Duran é um artísta, dois mil exemplares é egoísmo de Duran (brincadeira) espero ter acesso a Revista Nacional. Abraços! Cara Lílina, acabei não incluindo a informação no post, que já estava um tanto longo, mas a partir do número 2 -- só no ano que vem... -- ele pretende que a revista esteja em algumas bancas. Abraços

marcos moraes em 13 de dezembro de 2010

Que beleza! MAM Sou obrigado a concordar. É o fno do fino. Abração

Dulce Toledo / BH em 13 de dezembro de 2010

Um trabalho espetacular, de um fotógrafo não menos que espetacular, com um material espetacular. Cadê a revista? Um abraço. Cara Dulce, por ora é de circulação dirigida. A próxima edição, no ano que vem, deve ir para algumas bancas. Abraços

Tânia Lopes em 13 de dezembro de 2010

Adorei o post sobre Revista Nacional, estou na fila.

VER + COMENTÁRIOS
TWITTER DO SETTI