Artigo de 2003: Romário não deve chegar aos mil gols

Artigo de 2003: Romário não deve chegar aos mil gols Romário, em jogo do Fluminense, em 2003 (Foto: ESPN/Uol)

E mais: mau sinal na Petrobras, o hospital de Henrique Meirelles, ministros recorrem a Deus, FGC em expansão, José Aníbal com Alckmin, o DNA – e as olheiras – de Aécio, o cheque de Giselle ao Fome Zero e a morte do magnata da FIAT

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É uma pena, mas mesmo que, se Deus quiser, continue infernizando os goleiros adversários ainda por um bom tempo, é praticamente impossível que um dos mais extraordinários artilheiros do futebol em todos os tempos – Romário, hoje no Fluminense – chegue aos mil gols.

O Baixinho já foi e voltou em sua promessa de ser esta temporada de 2003 sua derradeira no futebol. Mas, mesmo que não, os mil gols são uma quimera irremediavelmente distante: os supostos 857 gols já acumulados em sua carreira – que exigiriam um fôlego extraordinário para, aos 37 anos de idade, balançar mais 143 vezes as redes adversárias com seu toque preciso – são, na verdade, bem menos: 778.

Os números foram minuciosamente levantados pelo jornalista Celso Unzelte, 34 anos, um fanático pela precisão considerado pela instituição do jornalismo esportivo brasileiro que é Juca Kfouri como “o mais confiável dos nossos pesquisadores” no terreno das estatísticas do futebol. Unzelte, que, entre outras redações, já trabalhou nas das revistas “Placar” e “Quatro Rodas”, é o autor do best-seller “O Livro de Ouro do Futebol Brasileiro” (Ediouro, 2002) e do “Almanaque do Timão” (Abril Multimídia, 2000) – este último de uma tal profusão de dados sobre o Corinthians que serve de base às estatísticas oficiais do clube. Coordenou, também, a equipe que produziu as magníficas 796 páginas do “Anuário Placar 2003”, em bancas e livrarias, um tesouro para quem gosta de bola. E colabora em um leque de publicações.

Se os dados do jornalista levam à conclusão de que o Baixinho não terá como fazer, neste final de carreira, os cabalísticos 222 gols que lhe permitiriam chegar aos mil, nem por isso seu papel solar no futebol pode ser diminuído. Com 778 gols, ele é o segundo maior artilheiro da história do futebol brasileiro, superado apenas pelos inalcançáveis, míticos 1.281 de Pelé, e muitos gritos de torcida acima do terceiro colocado, o grande Zico, que fez 701 gols. Romário também é o segundo maior artilheiro de todos os tempos da Seleção, com 69 gols, superando os 67 de Zico mas, claro, bem abaixo dos 95 de Pelé.

Para “limpar” a estatística inflada de Romário, muito divulgada mas que inclui números sempre imprecisos e pouco confiáveis da fase juvenil e até dente-de-leite, Unzelte fez o que é certo: tomou como ponto de partida o primeiro jogo do craque como profissional, pelo Vasco, em 1985 – o mesmo critério que sustenta os números de Pelé, Zico e todos os outros figurantes do ranking de artilheiros. (Aliás, por falar nisso, depois de Pelé, Romário e Zico completam o time dos cinco maiores goleadores do país Roberto Dinamite, com 660 gols, e Cláudio Adão, com 591).

Unzelte, que costuma ter a freqüente colaboração de outro jornalista, Rodolfo Rodrigues, explica que há uma dificuldade considerável em se saber o quadro de maiores artilheiros de todos os tempos no mundo. “O resto do mundo não costuma se ocupar desta questão como nós, brasileiros”, diz ele. A Fifa, por exemplo, faz questão de restringir sua área de atuação às seleções, deixando de lado os clubes. E, mesmo assim, só conta jogos oficiais (país contra país). “Toda e qualquer conta divulgada até hoje sobre os Di Stefanos e Euzébios da vida envolvendo suas atuações em seleções e clubes não passa de mera especulação, não tem fundamento matemático”, assegura. Mas garante: “o que se sabe é que ninguém de outro país chegou perto da marca do trio Pelé, Romário e Zico”.

Se você quer conferir números de futebol mundo afora, o melhor site para isso, segundo Celso Unzelte, é o da Associação Internacional dos Estatísticos de Futebol, com sede na Alemanha: www.rsssf.com. Para conhecer mais o trabalho do próprio Unzelte, além das publicações já citadas, vale conferir a coluna “O País do Penta” no www.trivela.com. E está para entrar no ar a qualquer momento seu www.almanaquedotimao.com.br, que vai atualizar a cada jogo o esplêndido levantamento sobre o Corinthians produzido para o “Almanaque”.

Mau sinal

O novo presidente da Petrobras, o ex-senador e ex-sindicalista José Eduardo Dutra, prometeu à direção da Federação Única dos Petroleiros (FUP) negociar um tema que vinha sendo tabu na empresa há oito anos: a reintegração da meia centena de funcionários demitidos na greve da categoria que estourou no raiar do governo Fernando Henrique Cardoso, em 1995.

Para quem não se lembra, não apenas a direção da FUP na ocasião promoveu a baderna, desacatando abertamente decisão do Tribunal Superior do Trabalho sobre a ilegalidade da greve – o que, como se sabe, constitui crime –, como também alguns de seus diretores ofenderam publicamente ministros do TST.

Consolo

Está certo que o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, teve fraturados três ossos do tornozelo esquerdo quando escorregou na rua em Davos, na Suíça, onde fazia parte da delegação brasileira ao Fórum Econômico Mundial. Em compensação, testemunhas oculares descrevem como “uma maravilha” a vista que se descortina do quarto de Meirelles no hospital em que foi operado: montanhas nevadas, chalés, pinheirinhos… Parece cartão de Natal.

Registro

Já foram dois os ministros do presidente Lula – Antônio Palocci, da Fazenda, e Anderson Adauto, dos Transportes – a usarem com a imprensa, nos últimos dias, o nefando bordão tornado célebre pelo ex-ministro da Justiça do governo Ernesto Geisel (1975-1979) Armando Falcão, que jamais dava informação alguma sobre qualquer assunto:

– O futuro a Deus pertence.

Mais FGV

A Fundação Getúlio Vargas (FGV) amplia sua abrangência em São Paulo. Além dos cursos de diversos níveis em sua área tradicional de atuação – economia e administração –, começam a funcionar este ano as escolas de Economia, dirigida pelo ex-secretário da Fazenda de São Paulo Yoshiaki Nakano, e a de Direito, sob o comando do advogado Ary Oswaldo Mattos.

O próximo passo será uma Escola de Ciência Política e Relações Internacionais, já em formatação.

O futuro de Aníbal

O deputado José Aníbal (SP), presidente nacional do PSDB, deverá ser abrigado na administração do governador Geraldo Alckmin em São Paulo caso não se reeleja para o cargo em maio, em conseqüência da possível tentativa dos setores ligados ao senador eleito Tasso Jereissati (CE) de controlar o partido.

Aníbal concorreu ao Senado em outubro e não se elegeu, apesar de ter feito a nona campanha mais cara para essa eleição em todo o país (o PSDB gastou 1,847 milhões). Por um claro erro de marketing político, os estrategistas de Aníbal – um parlamentar brigão e da ala mais “ideológica” do PSDB – não aproveitaram nenhuma de suas características mais marcantes, optando por uma incompreensível e morna linha de “trazer mais recursos para São Paulo” e “colaborar com o governador Geraldo Alckmin”.

O resultado é que com a segunda vaga – já que o então deputado Aloizio Mercadante (PT) era imbatível para a primeira – ficou o insípido, inodoro e incolor senador Romeu Tuma (PFL).

Vida dura

Não chegam a ter um padrão assim Pedro Malan, mas, vistas de perto, impressionam as olheiras que um mês à frente dos problemas de Minas Gerais provocaram no governador Aécio Neves (PSDB).

DNA político

Ainda sobre Aécio: o programa “Roda-Viva”, da Rede Cultura, que entrevistou na segunda-feira, 27, o governador de Minas, restabeleceu parte da verdade histórica sobre seu DNA político. Invariavelmente identificado pela mídia como “neto de Tancredo Neves”, esquece-se que Aécio vem de forte linhagem do lado paterno – sim, porque o Neves pertence ao lado materno, já que sua mãe, Inês Maria Neves da Cunha, é filha do falecido presidente.

A Cultura lembrou que seu pai, Aécio Cunha, também foi deputado. De fato, Aécio Cunha, hoje com 76 anos, foi duas vezes deputado estadual e nada menos que seis vezes deputado federal. Começou no velho PR e, com o regime militar, integrou-se à Arena e depois a seu sucessor, o PDS. Em 1985, juntou-se à dissidência do partido governista que se opunha à candidatura de Paulo Maluf no Colégio Eleitoral, a Frente Liberal, e votou em Tancredo. Foi, depois, fundador do PFL e, pelo partido, candidatou-se a vice-governador de Minas na chapa do então senador Itamar Franco, à época no PL, derrotada por Newton Cardoso (PMDB).

Nomeado por Sarney para o Tribunal de Contas da União (TCU), Aécio Cunha protagonizaria a primeira desistência ao cargo na história da República, em protesto contra o silêncio de Sarney às declarações de Newton Cardoso segundo as quais o filho Aécio, já deputado federal, teria votado pelos cinco anos de mandato para o então presidente na Constituinte em troca da nomeação.

O pai de Aécio Cunha e avô do governador Aécio, Tristão da Cunha, foi vereador, promotor público e quatro vezes deputado federal, tendo exercido ainda a presidência do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) durante dez anos, até sua morte, em 1974.

Perguntar não ofende

Com toda essa confusão político-administrativa-financeira em torno do Fome Zero, onde será que o secretário de Segurança Alimentar, José Graziano, depositou aquele cheque doado à campanha pela Giselle Bündchen?

Lembranças de Agnelli

Na correria de sempre, a maior parte da nossa mídia não cobriu como deveria a morte aos 81 anos de Giovanni “Gianni” Agnelli, o controlador da Fiat.

Dono de uma biografia que daria não um, mas vários livros, o homem que herdou uma fábrica de automóveis do avô e construiu um império multifacetado – a Fiat, mesmo atravessando problemas, é o maior colosso privado da Itália e um dos maiores do mundo, abarcando da indústria aeronáutica à construção naval, dos automóveis às finanças – foi também, na juventude, um conquistador mitológico e, ao longo da vinda, um bon vivant, um mecenas e um mito que, por anos a fio, muitos italianos queriam ver na política para “salvar a Itália”.

Um dos pouquíssimos jornalistas brasileiros que o entrevistaram foi  Marco Antonio de Rezende, hoje diretor da revista “VIP”. Era para as “páginas amarelas” de “Veja” em 1976, quando a Fiat inaugurou sua fábrica no Brasil. Agnelli, que na época, como se dizia na Itália, só era menos famoso que o papa, mandou pedir antecipadamente, por escrito, uma lista de perguntas, para saber que temas seriam tratados. Ao chegar à sede histórica da Fiat, no Corso Marconi, 14, em Turim, o então correspondente da “Veja” atravessou duas antecâmaras de secretárias até chegar ao gabinete de “L’Avoccato” (“O Advogado”, como Agnelli era chamado). Agnelli recebeu-o em pé.

“Foi cortês e formal”, lembra Rezende, “mas, como se isso fosse a coisa mais normal do mundo, não me convidou para sentar, e continuamos de pé até o fim”. Com o papel na mão, foi logo dizendo: “Ótimo questionário, mas várias dessas perguntas aqui podem ser agrupadas. Esta e esta têm a ver com esta, aquela e aquela têm a ver com aquela”. Rezende percebeu que o grande homem não podia perder tempo e perguntou quanto tempo teria. Ele olhou no relógio e disse: “20 minutos”.

As “amarelas” da “Veja” na época não ficavam boas com menos de hora, hora e meia de entrevista. Mas Rezende conta: “Me virei fingindo agrupar perguntas, fui desagrupando ao longo do caminho, ele disparava respostas precisas, curtíssimas, já editadas (um profissional, parecia americano nisso) e depois de 22 minutos saí de lá com a preciosa entrevista”. Que, diga-se, ficou ótima.

 

 

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