Rússia: crise econômica e outros problemas graves colocam em xeque a imagem oficial de Putin como “vencedor”

Putin entra sob aplausos nuçm dos salões do Kremlin: endeusamento oficial será posto à prova com a crise que a Rússia atravessa (Foto: Reuters/Alexsey Druginyn/RIA Novosti/Pool )

Putin entra sob aplausos num dos salões do Kremlin: endeusamento oficial será posto à prova com a crise que a Rússia atravessa (Foto: Reuters/Alexsey Druginyn/RIA Novosti/Pool )

Já há alguns anos que os cidadãos russos perceberam o surgimento de um culto ao redor da personalidade de Vladimir Putin. Presidente pela segunda vez, Putin está efetivamente no poder desde 2000.

Após dois mandatos, foi forçado a abandonar o posto por mandamento da Constituição, mas elegeu seu discípulo e primeiro-ministro Dmitri Medvedev para tapar o buraco de quatro anos até que pudesse voltar ao Kremlin.

Sem erro: em 2012, Putin estava de novo ao leme do Kremlin — e agora para um mandato não de quatro anos, mas de seis, providenciado pelo amigo junto ao dócil Parlamento, com direito a uma nova reeleição em 2018.

O início de um terceiro mandato gerou controvérsias, porque estava clara mesmo aos russos submetidos a um bombardeio de propaganda pró-Putin e carentes de uma imprensa independente a estratégia do presidente de se perpetuar no poder.

Uma pesquisa de opinião feita em outubro de 2011, com o ex-agente da KGB já eleito e a alguns meses de assumir a presidência novamente, revelou que um quarto dos russos acreditava na existência de um culto em torno de Putin.

Outros 30% viam a possibilidade do surgimento de tal adoração. Os números dizem muito quando comparados aos de um levantamento de sete anos antes, 2004, quando Putin era presidente, segundo o qual apenas 10% dos entrevistados percebiam um culto à personalidade.

O problema foi o que aconteceu depois. Na presidência (e fora dela), Putin tomou o controle dos meios de comunicação e propagou sua imagem de líder, e seus seguidores tornaram-se mais enfáticos na pregação de uma figura que teria salvo a Rússia da anarquia dos anos 90, com o colapso da União Soviética, e restaurado a união e o orgulho ao país.

O resultado foi claro. Em 2004, 10%; em 2011, 25%; finalmente, em 2014, sonoros 50% da população russa acreditam que já existe ou pode vir a existir um culto à personalidade do presidente.

Não é para menos. Desde o início do ano, com a anexação da região da Crimeia, pertencente à vizinha Ucrânia, e o consequente isolamento da Rússia no cenário mundial, a imagem do país está cada vez mais deteriorada, mas as taxas de aprovação de Putin parecem se alimentar disso.

No início de 2014, ele ostentava uma quantidade historicamente baixa de apoiadores, para os padrões de uma Rússia desprovida de liberdades públicas e com a população metralhada por propaganda oficial – pouco acima de 60%.

Em outubro, mesmo com o conflito na Ucrânia, a economia estagnada e o clima de Guerra Fria com o Ocidente, o presidente russo atingiu impressionantes 88% de aprovação. Ironicamente, a anexação da Crimeia, internacionalmente repudiada, é um dos feitos de Putin que mais contribuem para sua popularidade atual.

Os números levantam a questão: eliminado do pais o comunismo, que cultuou até extremos de delírio personalidades como as de Vladimir Lenin e, principalmente, de Josef Stálin — prática que logo se espalharia para quase todo o universo comunista –, o endeusamento oficial do líder está voltando a plena carga na Rússia?

Parece que sim. Há alguns meses, quando Putin fez 62 anos, Moscou praticamente parou devido às comemorações. Pessoas na Praça Vermelha enfrentavam filas de até duas horas para comprar camisetas estampadas com o rosto do presidente cada vez mais vitalício, que não estava nem ali para receber homenagens – ele passou seu aniversário na Sibéria, a mais de 300 quilômetros da Rússia urbanizada.

Na capital, uma mostra chamada “Os doze trabalhos de Putin” – sim, equiparando o presidente ao semideus Hércules, da mitologia grega – foi montada em comemoração à data.

Existe até uma proposta de transformar o dia 7 de outubro, aniversário de Putin, em um feriado nacional. Nada que um mero mortal mereça.

Em seu aniversário, o presidente russo foi homenageado com uma comparação a Hércules (Foto: Vasily Maximov/AFP/Getty Images)

O culto à personalidade: no aniversário o presidente russo foi comparado a Hércules, o semideus da mitologia grega (Foto: Vasily Maximov/AFP/Getty Images)

A ascensão do ex-chefe da KGB se deveu em grande parte à sua imagem construída de líder jovem, para os padrões da gerontocracia russa, e determinado. Tudo que corre bem no país foi e é atribuído a ele pessoalmente, mas o contrário não ocorre.

O presidente é sempre apresentado como um campeão, um vencedor, até fisicamente um forte, apesar de sua pouca altura — não se poupam sequer imagens suas se exibindo em lutas marciais, andando a cavalo sem camisa, a bordo de jatos de combate.

Existe, no entanto, uma oposição que vê a situação como ela é. No início do ano, o ex-campeão mundial de xadrez Garry Kasparov se rebelou contra as Olimpíadas de Inverno de Sochi, comparando o evento aos jogos de Berlim, em 1936, e o presidente russo a Hitler. Kasparov afirmou que aquilo fora feito para a promoção de Putin, para solidificar seu legado como um “grande líder”.

Pesquisas de opinião publica mostram que a popularidade de Putin decola quando ele coloca a mão na massa. Seus picos de aprovação comprovam: em janeiro de 2000, seu primeiro mês como presidente, quando enviou tropas para a rebelde república russa da Chechênia, (84% de aprovação); em setembro de 2008, após a vitória russa na guerra contra a Geórgia (88% de aprovação); em março deste ano, quando anexou a Crimeia à Rússia e apoiou rebeldes pró-Moscou na Ucrânia (80% de aprovação – e subindo)…

Outro agrado à população russa é o patriotismo onipresente que Putin faz questão de alardear. “Eu sinto que sou parte da Rússia (…) Não consigo imaginar nem por um segundo morar em outro país”, diz ele. A associação de sua figura com a identidade do país é contagiosa; quando seu presidente é insultado, boa parte dos russos sentem como se a nação inteira também fosse.

Um grande motivo de do grande apoio de que dispõe o presidente é a falta de alternativa. A equipe de Putin fez um trabalho magnífico ao eliminar qualquer figura de oposição que pudesse se projetar com mais força no cenário político, criando para o povo uma imagem de rua sem saída. Entre 2011 e 2012, uma faísca surgiu com Alexei Navalny, um ativista contra a corrupção que se candidatou à prefeitura de Moscou. Quando o governo percebeu o perigo que Navalny apresentava, um mar de acusações criminais contra ele surgiu como num passe de mágica e o opositor perdeu sua força política.

Não se pode esquecer também do domínio quase total que Putin tem sobre a imprensa — TV, jornais, revistas, emissoras de rádio, internet. Ao moldar as notícias para favorecer a imagem do governo, o líder atinge quantidades gigantescas de cidadãos que confiam em veículos estatais para se informar. A questão da Crimeia, por exemplo, chega aos olhos e ouvidos de 94% da população russa exclusivamente por esses meios. Dessa forma, o desafio seria não ter o apoio popular.

O carisma de Putin, porém, está sendo duramente posto à prova nos meses recentes. Estão de pé um confronto com os Estados Unidos por dar asilo a Edward Snowden, o cidadão americano responsável pelo vazamento de documentos secretos das agências norte-americanas de espionagem, juros a 17% para tentar interromper a queda da moeda nacional, guerras com países vizinhos, complicações no comércio com a União Europeia, sanções comerciais e econômicas por parte dos EUA e de seus parceiros europeus…

A Rússia tem problemas estruturais gravíssimos para encarar, como um crescimento demográfico negativo, uma expectativa de vida para homens e mulheres muito abaixo dos principais países da Europa, um parque industrial em grande parte obsoleto e Forças Armadas ainda poderosas — é uma potência nuclear –, mas necessitando de investimentos colossais para estar à altura das ambições estratégicas do país no mundo.

Ocorre, porém, que a gigantesca produção de petróleo a partir do gás de xisto que os Estados Unidos rapidamente desenvolveram quase retiraram do mercado internacional seu maior consumidor, e os preços do principal baluarte da economia russa desabaram. O país entrou em crise econômica e o próprio Putin já avisou à opinião pública de que será preciso aturar pelo menos dois anos de vacas magras.

O presidente manterá seu ímpeto em tempos tão tempestuosos?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

11 Comentários

  • Moacir 1

    Prezado Setti,
    Antes de mais nada , permita-me desejar – muito atrasado mas de coração – a você e aos seus um 2015 pleno de saúde e paz, já que de prosperidade, infelizmente , para todos nós, vai muuuuuito difícil.
    Regressamos ontem , depois de ter prolongado a viagem por mais uma semana e desconectados.
    É um grande prazer abrir o blog e dar de cara com um excelente texto da sua lavra , sobre o qual posso comentar , uma vez que desde meados de dezembro , sobre a política pataxó tenho lido vergonhosamente pouco. Afinal, ser feliz é preciso.
    Vladimir Putin , como tantos líderes de Moscou antes dele, já até mesmo defendeu que o patriotismo russo – sistematicamente manipulado pela comunicação social dominada por ele – venha a se transformar em um nacionalismo para o bem do povo .Parece que a estratégia está dando certo com 90% da população.
    Temo que as ações do grande líder nacionalista de plantão , venham a intensificar a intolerância contra outras etnias e minorias.Ou seja, que passemos a assistir a uma temporada de caça aos não-russos da gema.
    Li dia destes sobre pichações que misturam a bandeira , o simpático urso e palavras do tipo – “Rússia para os russos já!”. Já vimos este filme e sabemos que o final não é lá muito feliz.
    É como se o povo estivesse sendo doutrinado a acreditar que a União Soviética desmoronou por causa de questões étnicas, em vez das econômicas.Propaganda e mistificação também funcionam por lá.
    Putin , assim como a nossa represidentA , tem minimizado o quanto pode as preocupações econômicas e negado veementemente que a Rússia corre o risco de dar um calote em suas dívidas, devido aos baixos preços do petróleo. Mas ele não engana ninguém ao jurar que a Rússia prosperará vendendo petróleo a US $ 60 o barril. Inclusive o orçamento de três anos aprovado recentemente pelo Parlamento da Rússia previa que o preço do petróleo seria de US $ 100 o barril até 2017. Apesar do Ministro da Fazenda russo ter anunciado que a economia se contrairá em praí uns otimistas 0,8%, possíveis revisões do tal orçamento obsoleto são descartadas.
    No entanto, com o petróleo e o gás respondendo por 70% das exportações e 50% das receitas de uma grande pátria , totalmente dependente de um alto preço do petróleo para pagar por suas aventuras bélicas custosas e seus programas sociais caros, a Rússia – que já foi atingida por sanções ocidentais após a sua intromissão na Ucrânia- sofrerá forte e feio e enfrentará uma recessão muito profunda.Os gastos com infraestrutura deverão ser sacrificados para proteger os orçamentos sociais e o da Defesa , o qual com a incursão na Ucrânia demanda um up-grade de 30%.
    As empresas russas que pegaram crédito barato emprestado de bancos ocidentais também estão em apuros, pois deverão pagar os juros sobre os empréstimos em dólares em um momento em que um colapso do rublo significa dólares muito mais caros. Putin vem sendo pressionado para ajudar a pagar tais empréstimos mas , até agora, tem preferido propagandear que o Banco Central conseguirá defender o rublo ,empurrando as taxas de juros pra 17%. Perderemos o título de campeões dos juros mais altos do planeta.Que pena! Enfim…os cumpanheiros compartilham um mundo de fantasia seja lá onde mandem.
    Sabe o que me parece estranho?
    O fato de se comentar minimamente por aqui o desastre que a queda no preço do petróleo
    – como se não bastasse o Petrolão – causará à Petrossauro por conta dos seus mirabolantes 30% nos projetos de altíssimo custo de extração do pré-sal.
    Acho que o nosso ouro negro continuará dormindo no seu berço esplêndido e profundo e que o próximo século será dos americanos , eles SIM muito próximos – por causa do xisto – da sua auto suficiência energética.
    Finalizando , é um prazer voltar a comentar e você faz muita falta.
    Um grande abraço

    Caro amigo Moacir,
    Obrigado por seus bons votos, que retribuo, e pelas demais amabilidades de seu comentário — sólido e fundamentado como sempre.
    É um prazer tê-lo também de volta!
    Abração

  • Ivan, o Terrível

    Não precisamos nos preocupar com a inexistência de oposição ao Putin, na Rússia. Normalmente os líderes auto-endeusados são derrubados pela simples REALIDADE DA VIDA.

  • Leopoldo Dogher

    O Putin só é o Putin porque o Obama é o Obama.

  • Carruagem de Fogo

    Sem liberdades,individuais e coletivas,sem transparência e livre iniciativa,pressupostos da democracia;certamente não se objetem verdadeiramente desenvolvimento com crescimento sustentável,nem aqui e nem na china!,quem for vivo,verá.

  • Fernando Duque

    O poder de Putin foi astutamente planejado pela patota da KGB, nos dias finais da União Soviética. Os agentes da KGB, com a desmoralização do Exército Vermelho, derrotado por um bando de barbudos rústicos do Afeganistão – os futuros talebans -, tomaram o poder facilmente. Já eram corruptos até a medula nos tempos de Gorbatchev e Boris Yeltsin. Aliás, desde Andropov, época em que controlavam o abastecimento de alimentos. Um simples carregamento de biscoitos e de bolachas era fundamento para se vender facilidades ao populacho que pagava um imposto mafioso para garantir sua cota de alimentos. Com esse know how, Putin e sua turma tomaram o poder, sob a bandeira da ordem. E aprenderam bem com o Ocidente de que é fundamental dar ao povo não apenas pão, mas também muito circo. Hoje, as TVs russas exibem uma programação que beira a pornografia. Programas de auditório, de entretenimento, shows musicais repletos de estonteantes loiras, de 1, 85 metro de altura (daí pra cima), em trajes sumários. Sem contar o futebol e os demais esportes, que divertem a plebe. A Rússia hoje é uma plutocracia. Um clube de espertissimos ex-agentes da KGB que tomou o poder e dele não vai sair mais.

  • Edmir de Oliveira

    Como estamos seguindo de perto. Parece que somos muito amigos.Vamos pelo mesmo caminho,sem a estatura internacional.

  • paulo sobreira

    recentemente aqui em belo horizonte, estava numa pizzaria, percebi que o garçom tinha sotaque portugues ,perguntei da onde ele era, ele falou para minha surpresa moldavia. ele gosta do putin, diz que com ele a russia é respeitada. queria que a russia tivesse mais influencia na moldavia, falou que a crimeia é da russia mesmo, que os ucranianos eram nazistas… e so nao perguntei mais porque ele tinha que servir as pizzas. nao estou dizendo que ele esta certo, mas que o culto a personalidade do putin tem funcionado ate nos paises vizinhos…

  • Freed

    Algumas semelhanças com o Capo di tutti capi de São Bernardo. Nunca lí uma linha sequer sobre enriquecimento de Putin. Já, ****……

    Você não leu talvez por falta de empenho. Publicaram-se inúmeras reportagens sobre supostas fabulosas fortunas do dirigente russo em paraísos fiscais.

  • Ismael

    O problema não é Putin, mas a falta de alternativas institucionais na Russia. Todos que detém algum poder lá tendem a ser populistas autoritários, mais ou menos à esquerda. Com aumento da crise, vejo a Rússia mais distante ainda do ocidente. Espero que a China os engula para o bem da paz no mundo.

  • sidinei sila

    Ricardo, feliz ou infelizmente para as pessoas de bem, esta turma do Foro São Paulo não se deu conta de que está caindo o segundo muro de Berlim com o petróleo.

  • Marcelo

    Um povo que por mais de 90 anos vive de esmolas publicas dificilmente toma ânimo para encarar a realidade da vida.
    Bem distante de lá tem uma “nação” que, em pouco mais de uma década de submissão, dificilmente terá forças para reagir ao paternalismo estatal.