Estamos a pouco mais de três semanas das eleições – 27 dias, para quem gosta de precisão – e a campanha eleitoral em São Paulo começa a dar sinais de que emerge da pasmaceira. A disputa claramente esboçada entre os candidatos [a governador] do PSDB e do PMDB pela segunda vaga do segundo turno, alguns apoios relevantes que começam a ser exibidos pelos candidatos, como ocorre com o do empresário Antônio Ermírio de Moraes ao concorrente do PMDB, Luiz Antônio Fleury Filho, e a transformação da figura do governador Orestes Quércia em foco de debates estão conferindo vida a uma campanha que se arrastava, até aqui, no ritmo tedioso, quase bocejante, da mera obrigação cívica.

O quadro de possibilidades, por sua vez, já tem contornos visíveis a olho nu. Parece claro, para quem não lance mão de mais do que o bom senso para examinar as perspectivas dos seis candidatos ao principal governo estadual em jogo no País, que a disputa se reduz, hoje, basicamente a três nomes. Caso por caso, teríamos o seguinte leque:

Paulo Maluf:

O forte efeito residual das seguidas eleições de que tem participado, somado a uma campanha eficiente, que foge da overdose autocongratulatória característica das disputas passadas, tem mantido o candidato do PDS num confortável primeiro lugar, do qual parece muito difícil desalojá-lo. 

Ainda e sempre, o grau de rejeição a seu nome é a preocupação que seus estrategistas devem ter em mente para o segundo turno das eleições. Os adversários não têm sabido como atacá-lo, nem sequer pela exposição da inviabilidade do cumprimento de todas as promessas que vem fazendo. Elas provavelmente exigiriam 12 anos de governo, e não quatro, mas Maluf segue em frente sem ser molestado de forma significativa.

Mário Covas:

Nem seus mais ardorosos partidários podem negar que a campanha vive dias difíceis e dramáticos. A queda gradual e segura nas pesquisas de intenção de voto, somada à simultânea e veloz ascensão de Fleury, constituem um amargo cardápio para o candidato do PSDB engolir e não poderia ocorrer em momento pior. Mas o senador é bom de voto, está subindo de tom para polarizar com Quércia – o que não é má tática – e seria prematuro imaginá-lo fora do segundo turno.

Falta, ainda, endereçar um discurso específico a seu eleitorado de classe média que não gostou da subida no palanque com o PT no segundo turno da eleição presidencial do ano passado. E falta, também, falar de programa de governo. Candidato que não fala de programa de governo passa a impressão de que não acha que vai governar.

Luiz Antônio Fleury Filho:

Faz tudo o que pode para tentar repetir o fenômeno Orestes Quércia em 1986 – ou seja, sair de trás, desacreditado, e atropelar no final para vencer. Há, porém, duas diferenças cruciais nem sempre presentes para quem faz a comparação: Fleury não é Quércia, e em 1986 não havia dois turnos.

Mas Fleury protagoniza uma campanha eficiente, auxiliado pela poderosa máquina e pela inegável imagem de governador eficiente de Quércia, sobretudo no Interior. Tem repetido com êxito uma estratégia do próprio Quércia em 1986: corre dos temas políticos, por sentir a exaustão ideológica do eleitorado, e se concentra minuciosamente no que pretende fazer se chegar ao Palácio dos Bandeirantes. Está cada vez mais no páreo e, se passar ao segundo turno, vai ser um osso duro de roer para Maluf.

A campanha em São Paulo até há pouco se arrastava em ritmo tedioso e bocejante. Agora, mudou

Plínio de Arruda Sampaio:

Um discurso ideológico que não funcionou no passado em São Paulo, combinado com uma concentração de ataques ao presidente Fernando Collor, cuja popularidade no Estado ainda é muito grande, não formam propriamente uma receita de vitória para o candidato do PT. Seu companheiro aspirante ao Senado, Eduardo Suplicy, tem um índice de intenções de voto quase três vezes maior – e não por acaso vem passando em sua campanha uma mensagem politicamente mais atenuada, marcada sobretudo pela defesa da moralidade no trato com a coisa pública. Plinio está com um pé e meio fora do páreo.

Os candidatos do PDT, Almino Affonso, e de um certo PRP, Adhemar de Barros Filho, embora cada um a seu modo — sobretudo o primeiro – tenham construído carreiras políticas com períodos de relevância, fariam melhor se desistissem já da eleição.

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