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O ex-sequestrado Gilad: síndrome de Estocolmo ou genuíno gesto de reconciliação?

Quando se pensa num sargento do Exército se imagina, como nos filmes de Hollywood, um sujeito durão, sólido, que com um olhar furioso e alguns gritos coloca ordem num batalhão inteiro de recrutas.

Nada mais distante do que a figura frágil, pálida, e a aparência de professor de matemática de Gilad Shalit, o sargento das Forças Armadas de Israel libertado dia 18 passado pelo grupo extremista palestino Hamas após cinco anos e meio de cativeiro, em troca de 1.027 prisioneiros palestinos, 477 dos quais já foram libertados.

Na verdade, Shalit, sequestrado de um posto militar vizinho à Faixa de Gaza por um comando palestino, durante um enfrentamento em que morreram dois terroristas e dois militares israelenses, não era um militar de carreira, mas apenas um estudante recém-formado no ensino secundário, de 19 anos, que prestava o obrigatório serviço no Exército e, graças a seu empenho, atingira o posto de cabo. No cativeiro, recebeu três promoções até atingir o que equivaleria, no Brasil, a primeiro-sargento.

Tão logo foi libertado, após rápidas declarações à TV de Israel, Shalit desapareceu para exames médicos. Ao que tudo indica, permaneceu esses cinco anos e meio num esconderijo subterrâneo de dois cômodos em Gaza, tendo sido muito afetado por falta de luz solar. Como suplício psicológico adicional, sendo míope, viu-se privado durante todo o tempo de seus óculos.

Os terroristas do Hamas, que não o torturaram fisicamente, foram implacáveis durante sua captura, não admitindo sequer que fosse visitado pela Cruz Vermelha Internacional ou por qualquer organização de direitos humanos. Em cinco anos e meio, só teve contato com seus captores e só pôde receber, da família, três cartas, uma fita de áudio e um DVD – e mesmo assim sob a condição de que o governo de Israel libertasse vinte prisioneiras palestinas.

Pois bem, depois de todo o estardalhaço feito por sua libertação, negociada pelo governo de extrema direita do primeiro-ministro Benyamin Netanyahu, Shalit não voltou a se expressar publicamente. E, propositalmente, o governo de Israel e a mídia que o apoia deixaram passar em branco palavras de concórdia do jovem soldado.

Vejam só:

— Espero que esse acordo [de troca de prisioneiros] leve à paz entre os dois lados. Eu me sentiria muito feliz se fossem libertados todos os presos palestinos, para que possam voltar a suas famílias e a suas terras.

Talvez por essa declaração é que Shalit, segundo algumas versões não confirmadas, estaria sob suspeita de sofrer da “síndrome de Estocolmo” – o peculiar problema psicológico que acomete pessoas submetidas a longos sequestros de ficarem de alguma forma emocionalmente ligadas a seus capturoes.

Aparentemente, muita gente — sobretudo o governo de Netanyahu — prefere acreditar nisso, e não que o jovem soldado, apesar do que passou e do que sofreu sua família, queira realmente que haja paz entre Israel e os palestinos e haja expressado suas convicções.

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Pedro Luiz Moreira Lima em 06 de novembro de 2011

Concordo totalmente com o Anthony Kudsi - e digo mais hoje o grande inimigo do Povo de Israel, de todos os judeus no mundo e da humanidade É O GOVERNO DE ISRAEL ao ameaçar,propor,iniciar uma guerra com o Irã - isso sim que é uma LOUCURA. O soldado Gilad como soldado sabe muito bem o que é uma LOUCURA DE UMA GUERRA - JUDEUS DO MUNDO ouçam o soldado Gilad e não um governo louco como o atual de Israel - Paz Agora! Shalom!

Anthony Kudsi Rodrigues Rodrigues em 05 de novembro de 2011

Quer dizer que um soldado que viu a guerra de perto, com todas as suas nefastas consequências, não pode dizer que quer a paz?, ele sim tem autoridade para dizer isto e não os que querem desacreditá-lo, estimulando um ódio mantenedeor de guerra só que a 15 mil km de distância, numa verdadeira "Síndrome de Genghis Kan", o carniceiro, mas lembro que até o seu império "caiu do cavalo".

Sul em 04 de novembro de 2011

Síndrome de Estocolmo ou lobotomia. Israel não prende palestinos à toa. Inclusive os palestinos trocados por ele eram assassinos de marca maior, como foi bem lembrado aqui no próprio blog.

Gamal em 04 de novembro de 2011

Creio que ambas as hipóteses sejam cabíveis. Só uma junta médica com especialistas seria capaz de diagnosticar a natureza da declaração.

patricia m. em 04 de novembro de 2011

Sindrome de Estocolmo, logico. Mais ou menos parecido com aqueles alpinistas retardados americanos, que ficaram em uma prisao iraniana por 2 anos: ao inves de culparem o Iran, que os prendeu a troco de nada, culparam os Estados Unidos. Eh de chorar de rir se nao fosse tragico.

Mendes em 04 de novembro de 2011

Procurei no Google e não achei declaração feita por Gilad Shalit à TV de Israel. Achei sim as declarações feitas à TV estatal egípcia tal como relatou o leitor Sam Spade. Aliás, eu já tinha lido no site www.midiasemascara.org que ele disse.

Vera Scheidemann em 04 de novembro de 2011

Estamos tão acostumados com as reações beligerantes de judeus e palestinos que custamos a acreditar numa declaração de paz. Vamos dar a Shalit o benefício da dúvida e acreditar que suas palavras foram proferidas em momentos de equilíbrio e lucidez. Quem sabe todos esses anos de cativeiro não o fizeram refletir seriamente sobre a inutilidade dessas guerras que só têm trazido mortes e prejuízos para ambos os lados. Torço para que tenha sido assim. Vera

Sam Spade em 04 de novembro de 2011

Enquanto os matadores de judeus saíam das cadeias israelenses saudáveis, corados e bem dispostos (foram logo tomando parte nas celebrações preparadas pelo Hamas), Shalit surgiu magro, abatido, pálido, com dificuldade de respirar, psicologicamente debilitado, submetido a uma última provação por seus raptores: uma maliciosa entrevista na TV estatal egípcia na presença de homens do Hamas armados, incluindo o mestre de cerimônia. Foi nessas condições que a entrevistadora, árabe, perguntou ao israelense quais "lições" ele aprendeu no cativeiro. Em hebraico, o confuso Shalit disse acreditar que um acordo poderia ter sido acertado mais cedo. Nisso interveio o homem do Hamas para anunciar que o soldado estava elogiando o fato de que o acordo foi acertado "num tempo tão curto". Em outro ponto a moça perguntou: "Há mais de quatro mil palestinos [sic] detidos em prisões israelenses. Você vai fazer alguma campanha pela libertação deles?". Depois de alguns segundos de silêncio, aparentemente sem ter entendido direito a indagação, Shalit respondeu: "Eu ficaria muito contente se eles fossem libertados, desde que eles não voltem a lutar contra Israel". Mas o intérprete, na maior inocência, esqueceu de traduzir a segunda metade da frase, e foi essa frase incompleta, sem a ressalva essencial, que ganhou o mundo pela reprodução da mídia ("Soldado israelense diz que ficaria feliz com libertação de palestinos", etc., etc.). No início da entrevista, Shalit foi questionado sobre sua condição médica. "Eu não me sinto muito bem", ele disse. Tradução do Hamas, repetida pela mídia: "Eu me sinto bem". E assim o terror colheu mais um ganho publicitário pelas manchetes dos jornais. A declaração que mencionei foi feita à TV de Israel.

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