Artigo de 2003: Sarney e Mailson foram precursores da transição

Artigo de 2003: Sarney e Mailson foram precursores da transição Maílson (o segundo da esquerda para direita) participa de evento ao lado do empresário Roberto Civita, da Editora Abril, e os também ministros Almir Pazzianotto e João Batista de Abreu, a 10 de maio de 1988 (Foto: Luiz Novaes - Folhapress)

E mais: Marta apaixonada, a nova vida de Berzoini, o apetite de Lula, reencontro de Gil e Waldir Pires, Fernando Morais dizendo não, as nuances da dívida externa do setor privado, a incógnita Ciro – e uma pergunta difícil

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Sejam quais forem as dificuldades que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá de agora em diante, elas certamente não decorreram da transição do governo Fernando Henrique Cardoso para o seu. Considerada exemplar por Lula e pelo PT, a transição organizada por FHC, espera-se, iniciará uma tradição na vida política brasileira.

Mas, finda a transição, é justo, com o auxílio de dois dos participantes, lembrar seus precursores, e eles se chamam José Sarney, presidente da República de 1985 a 1990, e seu último ministro da Fazenda, Mailson da Nóbrega.

Tudo começou ainda no segundo turno das eleições de 1989. Na ocasião, com a inflação batendo nos 80% ao mês, a função do Ministério da Fazenda era tocar o barco e administrar as expectativas. Foi dentro desse quadro de não piorar as coisas que o então ministro propôs a Sarney a abertura dos números dos ministérios da Fazenda e do Planejamento para os assessores dos dois candidatos que chegaram ao segundo turno, Fernando Collor e Lula. Seria a primeira vez que isso seria feito.

Jamais houvera uma transição minimamente organizada no país. Golpes de Estado, suicídios e rivalidades ferrenhas tinham impedido, ao longo da história, até simples reuniões formais entre o presidente que entrava e o que saía. Mesmo durante o regime militar dificuldades entre diferentes correntes das Forças Armadas que chegavam ao Planalto foram um obstáculo a uma transição que funcionasse.

No caso Sarney, a princípio ocorreram resistências no governo porque Collor tinha adotado uma linguagem virulenta contra o presidente e o próprio Mailson durante a campanha.

Não chegou a haver conversas pessoais com os candidatos. Mas a insistência de Mailson junto a Sarney e a argumentação de que, na pior das hipóteses, teria sido um gesto construtivo convenceram o presidente dar o OK para o processo. O ministro fez uma declaração pública oferecendo os números do governo para os candidatos que disputariam o segundo turno. O PT aceitou imediatamente, e indicou os economistas Guido Mantega (hoje ministro do Planejamento) e Aloizio Mercadante (senador eleito por São Paulo). Foram recebidos por Mailson, na Secretaria do Tesouro, no Banco Central e em outras áreas. Collor, bem a seu estilo, recusou a oferta.

Eleito Collor, a equipe de Sarney imaginou que seria procurada. Em vez disso, porém, a futura ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, começou a recrutar às escondidas gente do governo para conversar. Mailson telefonou a Zélia dizendo que, tratando-se de um presidente eleito, não havia mais questão política a ser levada em conta e sugerindo a requisição aberta de funcionários e de informações, o que seria do interesse do próprio governo em fim de mandato. Zélia disse que iria pensar.

Finalmente, os dois times acabaram se encontrando durante um jantar na casa do empresário Pedro Paulo Leoni Ramos, o “Pepê”, futuro secretário de Assuntos Estratégicos (e de acusações de irregularidades que não foram à frente): Mailson, o secretário-geral do Ministério, Paulo César Ximenes (o cargo hoje se denomina secretário executivo), e o secretário do Tesouro, Luís Antonio Gonçalves.

Zélia acabou se abrindo com Mailson: “Tenho ordem do presidente para não me relacionar com você”. O ministro sugeriu que os contatos para requisição de pessoal, material e documentos fossem feitos com Ximenes.

Em fevereiro, desanuviado um pouco o ambiente hostil de parte a parte, Collor foi de helicóptero ao sítio São José do Pericumã, que Sarney tem nas imediações de Brasília. Tomaria posse no dia 15 de março, uma quinta-feira, e pediu para Sarney decretar feriado bancário a partir do dia 13. Solicitou, ainda, que o presidente enviasse mensagem ao Senado propondo Ibrahim Eris para a Presidência do Banco Central, de forma a que pudesse já estar no comando do BC desde o primeiro dia do novo governo.

Sarney aquiesceu, embora não tivesse idéia de que o Plano Collor decretaria o confisco de contas correntes e poupanças.

Olhando para trás, Mailson se lembra, hoje, de que havia feito a si mesmo a promessa de tomar duas garrafas de uísque quando deixasse o Ministério. No dia 16 de março, com Zélia já empossada na Economia (que passou a abranger a Fazenda e outros ministérios econômicos), já livre do fardo, o ex-ministro voltou para casa e, de tanto cansaço, dormiu sem perceber – e sem tomar uma só dose de uísque.

Acordou com um telefonema de Sarney:

– Mailson, você já viu a TV? Eles seqüestraram tudo!

É lindo

Sempre que um amigo lhe elogia a boa forma e os vistosos 58 anos, a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, há dois anos separada do senador Eduardo Suplicy (PT-SP) e namorando firme o franco-argentino Luiz Favre, assessor do PT, responde:

– É o amor…

Sinal dos tempos

Ex-radical do PT, ex-dirigente bancário e integrante de piquetes raivosos à frente da sede de bancões, o novo ministro da Previdência, Ricardo Berzoini, tem livre trânsito nos principais baluartes do capitalismo brasileiro. Na Bolsa de Valores de São Paulo, por exemplo, tem amigos que vão do pessoal do pregão à diretoria.

Saúde presidencial

Ainda que sob recomendação médica de perder peso, o presidente Lula se esbaldou à mesa nos feriados de fim de ano, sobretudo no Natal. A ceia servida em seu apartamento em São Bernardo do Campo incluía, entre outros itens proibidos em seu novo cardápio, leitão a pururuca. Duas semanas antes, também em seu apartamento, fotógrafos de plantão flagraram comida sendo entregue pelo sistema delivery na cobertura do presidente– e ela incluía feijoada e rabada com polenta.

Mesmo em eventos formais, o presidente faz invariável jus a sua fama de bom garfo. Um exemplo: no jantar oferecido a líderes de vários setores da sociedade americana em Washington, no dia 10 de dezembro, depois de seu encontro matutino com o presidente George W. Bush, Lula regalou-se com o sorvete da sobremesa, e reclamou que não pôde repetir a dose.

O médico pessoal de Lula, Roberto Kalil Filho, atesta que o presidente, excetuada a bursite no ombro direito (inflamação de membranas da articulação), tem boa saúde, mas precisa reduzir peso e baixar sua taxa de colesterol. Duas nutricionistas do Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas de São Paulo indicadas por Kalil recomendaram uma dieta que faça o presidente consumir não mais que 1.800 calorias diárias – contra 2.500 a 2.800 de um adulto médio.

Na verdade, Lula, com 93 quilos para seu 1,70 metro, está pelo menos 20 quilos acima do peso ideal, o que é notório fator de risco cardíaco. Como leva vida sedentária (não faz exercícios regularmente), fuma charutos e cigarrilhas, está constantemente submetido a stress (e, daqui por diante, estará mais ainda) e costuma praticar esportes em finais de semana, o presidente eleito tem o elenco completo dos fatores de risco cardíaco, excetuada a hipertensão.

Cuidar-se, assim, não tem nada a ver com vaidade – o presidente já não está tão ajustado a seus ternos bem cortados de campanha –, mas com sua saúde.

Que, devido ao cargo que ocupa, é assunto de interesse público.

Que tal, em nome da transparência, o Palácio do Planalto divulgar daqui a alguns meses o peso, a taxa de colesterol e as condições gerais de saúde de Lula?

 Waldir x Gil

Os dois são homens de bem e notórios boas-praças, mas, sem trocadilho, há um caldo de cultura para azedar as relações de dois integrantes do primeiro escalão do novo governo, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, e o corregedor-geral da União, Waldir Pires.

Pires, hoje no PT, era governador da Bahia pelo PMDB em 1988 e vetou as pretensões de Gil de se candidatar a prefeito de Salvador. Acabou sendo eleito vereador, com cabalísticos 11.111 votos.

A opção Fernando Morais

Por falar em ministro da Cultura: quando ainda se cogitava de qual seria o nome a ser escolhido, um influente quadro petista trabalhou em favor do jornalista e escritor Fernando Morais.

Ao saber da movimentação, Morais telefonou ao na época presidente do PT e atual chefe da Casa Civil, José Dirceu, dizendo que apoiou Lula durante a campanha eleitoral, apoiaria de todas as formas o governo Lula, mas não desejava ser ministro.

Respiro para dívidas

A crise do dólar durante o ano recém-encerrado foi uma dureza para a economia do país, para o governo e para as empresas, mas vai produzir algumas folgas neste ano novo.

Como as empresas brasileiras tiveram dificuldades em obter empréstimos no exterior em 2002 para rolar suas dívidas, foram obrigadas com freqüência a buscar dólares no mercado interno para amortizar débitos.

Isso pressionou para cima a taxa da moeda americana. Em compensação, como as empresas pagaram parcelas de dívida que seriam roladas, o endividamento total caiu. Neste ano de 2003 inteiro, os compromissos do setor privado em dólares somam pouco mais de 17 bilhões, contra quase 22 bilhões no ano passado.

Neste primeiro trimestre do mandato do presidente Lula, os vencimentos da dívida externa de responsabilidade do setor privado são de 2,6 bilhões de dólares, contra quase 5 bilhões no primeiro trimestre de 2002.

Ciro e o futuro

Nem partidários do neo-sapo barbudo Ciro Gomes entendem qual estratégia política norteou sua decisão de aceitar o Ministério da Integração Nacional de Lula.

Ciro não quer ver nem pintada a hipótese, defendida por partidários, de ser candidato à Prefeitura de Fortaleza em 2004 – já ocupou o posto, já foi governador do Ceará, ministro da Fazenda e duas vezes candidato à Presidência e não se faz política voltando para trás. Mas não teria aceito o Ministério só para isso.

Se for para firmar sua imagem pública, pergunta-se então: para quê? Para ser candidato a presidente em 2006? Mas é evidente que o projeto de poder do PT inclui a reeleição de Lula ou, na improvável hipótese de o presidente realmente manter sua posição de não aceitar a recandidatura, o lançamento de um candidato do próprio partido, e não do PPS de Ciro.

Seria então para ser candidato contra o governo que integra?

Não se sabe, ainda, a resposta.

 É a democracia

Levante a mão quem souber de cor os nomes dos três novos comandantes das Forças Armadas.

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