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Berlusconi com Mario Monti após a posse do novo premier: prejudicar seu governo prejudicará também os negócios do ex-premier (Foto: VEJA)

O ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi renunciou dia 12 de novembro passado alegando, entre outras razões, que o fazia “pelo bem da Itália” e pela “concórdia”.

Tanto ele quanto dirigentes de seu partido, o Povo da Liberdade (PDL), porém, brandiram ameaças contra o governo formado por técnicos do novo primeiro-ministro Mario Monti, economista respeitado e ex-comissário (espécie de superministro) da União Europeia, que por enquanto estão apoiando.

O secretário-geral do partido, e uma espécie de faz-tudo de Berlusconi, o ex-ministro da Justiça Angelino Alfano, por exemplo, vociferou: “Quando quisermos, nós puxamos o fio da tomada e esse governo cai”.

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A sede da gigante Mediaset, de Berlusconi, em Milão: o ex-premier tem muito a perder se a Itália não se reerguer

Na verdade, isso não parece provável. Não apenas para as consequências que uma eventual queda de Monti teria para a credibilidade da Itália e para a confiabilidade dos credores. Há um dado da situação toda que passou um tanto despercebido em todo o noticiário sobre Berlusconi: seu gigantesco império empresarial Mediaset, avaliado em algo entre 3 e 4 bilhões de euros (entre 7,4 e 10 bilhões de reais), perdeu 50% do valor em bolsa desde o início do ano até a posse de Monti, no dia 17 de novembro. Houve um único pregão na Bolsa de Valores de Milão em que o Mediaset perdeu 350 milhões de euros (857 milhões de reais).

A Mediaset é um colosso impressionante. Seus três canais de TV, Canale 5, Italia 1 e Retequattro – que concorrem com os três canais da rede pública RAI –, abocanham 45% da audiência total de televisão da Itália e 60% do faturamento publicitário. Possui ainda participação em canais de TV em outros países, principalmente na Espanha. A empresa também controla o venerando grupo editorial Mondadori, que tem 30% do mercado de livros e 38% do de revistas na Itália e ramificações, via franquias ou associações, em vários países. E ainda possui um dos grandes jornais da Itália, Il Giornale, de Milão.

A Mediaset, presidida por um amigo dos tempos de colégio de Berlusconi, Fedele Confalonieri – um executivo de 76 anos comvários graus universitários que foi, na juventude, pianista de navios de cruzeiro –, tem como vice o segundo dos cinco filhos do ex-primeiro-ministro, Piersilvio Berlusconi, 42 anos. E é apenas parte do império do ex-premier, centralizado numa holding, a Fininvest, que também está presente em setores tão diversos como seguros, indústria alimentícia, construção civil, listas telefônicas e empresas gráficas.

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O vice-presidente da Mediaset e segundo filho de Berlusconi, Piersilvio, com a mulher, a ex-apresentadora de TV Silvia Toffanin

Estima-se que o patrimônio total da família Berlusconi passe de 9 bilhões de euros (22 bilhões de reais) – uma fortuna que, se a Itália for abismo abaixo, sofrerá um duríssimo golpe. Até por isso, é bem possível que Berlusconi controle sua gula pelo poder, que exerceu por 17 anos alternados, e não perturbe o governo de Mario Monti, que pretende esgotar o mandato do ex-premier, governando até maio de 2013.

Nem que seja apenas por essa razão, já estará bem. E espero que a era Berlusconi fique definitivamente para trás, com tudo o que ela significou de cinismo, de corrupção, de desmoralização das instituições, de deboche, de comportamento pessoal machista, cafajeste e incompatível com o cargo.

Também me pergunto, como o jornalista espanhol Dario Valcárcel, diretor da publicação Estudios de Política Exterior, “por que um país de tal qualidade deu a esse homem tantos votos? A confiabilidade, o crédito e a honra da Itália foram brinquedo de criança em suas mãos. Ninguém, nos tempos modernos, causou tando dano a essa grande nação, inventora da Europa”.

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José Alberto Scur em 08 de dezembro de 2011

E QUANDO TEREMOS O FIM DA ERA SARNEY? O NOSFERATU SUGADOR DA REPUBLICA NÃO CAI NUNCA? PORQUE EM VEZ DE FICAR ATACANDO PERSONALIDADES ESTRANGEIRAS NÃO COMEÇAMOS UM MOVIMENTO DERRUBA VAMPIROS? COMECEMOS POR SARNEY....

Mari Labbate *44 Milhões* em 08 de dezembro de 2011

ITALIA È IL PAESE PIÙ BELLO DEL MONDO, porque abriga o PAPA, em suas terras! Sairá vitoriosa, com toda a certeza! VIVA Mario Monti! ABBRACCIO!

Francisco Pinheiro em 07 de dezembro de 2011

Por que a Itália deu tantos votos a Berlusconi? Ora, meu prazado, porque os erros e acertos da democracia não se realizam apenas pelas escolhas feitas, mas também pelas que não são feitas. Nem Lula acha que o Brasil errou com Collor em 1989. Já tivemos o tempo de tudo, menos Maluf. Depois, viu-se que até Maluf serviria. Pensando bem, acho que o verdadeiro caminho da democracia é pelo menos pior. Lembremo-nos que a alternativa a Lula não seria Serra em 2002, mas o desequilibrado do Ciro.

Marta Otto em 07 de dezembro de 2011

Prezado Setti, Vivemos a época em que todos sabemos e podemos reclamar de alguma coisa neste país, já está passando da hora de fazermos do verbo a ação que representa. O autor do texto abaixo, jornalista Leonardo Sakamoto, nos oferece, não só a reflexão, como também, uma excelente oportunidade para nos encorajarmos e defendermos os valores que acreditamos. O chamamento serve não somente aos profissionais jornalistas, mas a todos que contribuem com seu trabalho e sua competência para um Brasil mais justo e mais humano. Acessível em http://envolverde.com.br/sociedade/reflexao-sociedade/jornalista-nao-e-trabalhador-ou-pensa-que-nao-e/#comment-3235 "07/12/2011 - 09h38 Jornalista não é trabalhador. Ou pensa que não é De tempos em tempos, nós – jornalistas – somos surpreendidos com notícias de demissões coletivas em veículos de comunicação. Atos que foram batizados carinhosamente de “passaralhos” (imaginem o porquê). Não vou discutir as razões que levam à dispensa de colegas de profissão – os motivos dos “ajustes” vão desde a justa necessidade de sobrevivência do próprio veículo (fazer bom jornalismo pode ser caro) à maximização de lucros da empresa. Então, para não ser leviano, precisam ser analisadas caso a caso. Vou me ater ao outro lado do balcão, ou seja, como reagimos a isso. Até porque, após a atual leva de demissões, não fiquei sabendo de nenhum ato de solidariedade aos demitidos. Talvez pelo medo de também perder o emprego, talvez pela sensação de impotência que resulta da lenta e contínua acomodação, talvez por algo maior que isso. Trago aqui uma discussão já travada com os leitores. Nós, jornalistas, muitas vezes não nos reconhecemos como classe trabalhadora. Devido às peculiaridades da profissão, desenvolvemos laços com o poder e convivemos em seus espaços sociais e culturais, seduzidos por ele ou enganados por nós mesmos. Só percebemos que essa situação não é real e que também somos operários, transformando fato em notícia, quando nossos serviços não são mais necessários em determinado lugar. Ou, às vezes, nem isso. Já vi colegas se culparem por terem sido demitidos sem justa causa no melhor estilo “perdoa-me por me traíres” de Nelson Rodrigues. “Deveria ter virado mais madrugadas na redação”, “deveria ter me oferecido para trabalhar em todos os finais de semana”, “não deveria ter corrigido o português ruim do meu chefe”… Fazer protestos por melhores condições, que incluem uma certa estabilidade para reportar sem temer o que se escreve? Imagina! É coisa de caixa de banco, de operário sujo de graxa ou de condutor de trem, que atrasam nossa vida e geram congestionamentos na cidade. Ou de inglês, francês e italiano que têm a vida ganha e mamam no Estado. Enquanto isso, quem tem consciência de que é um trabalhador e reivindica coletivamente, como muitos bancários, metalúrgicos e metroviários, tem mais chances de obter o que acha justo. Quando vejo algumas coberturas jornalísticas mal feitas de protestos e greves fico pensando como pessoas que não conseguem se reconhecer como classe trabalhadora podem entender as reivindicações de trabalhadores. O fato é que não somos observadores externos e nem podemos ser. Somos parte desse tecido social, desempenhamos uma função, somos parte da engrenagem, gostemos ou não. Muitos não se perguntam de onde vem o dissídio. Como uma criança que acha que o leite vem do mercado, pensamos que o reajuste vem do nada, sem ter sido fruto de muito diálogo entre capital e trabalho. Não é irônico que os profissionais que informam sobre e analisam a democracia diariamente não exerçam sua “cidadania profissional”? A vida de jornalista, deixando de lado o falso glamour, não é fácil. Ainda mais para aqueles que são patrões de si mesmos, não por decisão própria (para empreender algo, por exemplo), mas porque foram empurrados para isso. Sempre gostei do poema do dramaturgo alemão Bertolt Brecht que tratava da indiferença: “Primeiro levaram os comunistas,/Mas eu não me importei/Porque não era nada comigo./Em seguida levaram alguns operários,/Mas a mim não me afetou/Porque eu não sou operário./Depois prenderam os sindicalistas,/Mas eu não me incomodei/Porque nunca fui sindicalista./Logo a seguir chegou a vez/De alguns padres,/ Mas como nunca fui religioso,/também não liguei./Agora levaram a mim/E quando percebi,/Já era tarde.” Andaram pela mesma linha Maiakovski e Niemöller, escrevendo sobre o não fazer nada diante da injustiça para com o outro, até que, enfim, o observador passivo se torna a vítima. Hoje, não é comigo, então que se danem os outros. E quando chegar o amanhã e vierem bater à sua porta? Ou, lembrando John Donne, poeta inglês, citado em Por Quem os Sinos Dobram, de Ernest Hemingway, ao defender que a morte de qualquer homem me diminui, pois sou parte da humanidade: nunca procure saber por quem os sinos dobram. Pois eles dobram por ti."

Anti petista em 07 de dezembro de 2011

Como Brasil e Italia são incrivelmente parecidos, não é ? O trecho que foi extraido do texto foi escrito para qual contexto, mesmo ? Italia de berlusca ? Brasil do regime petista ? "tudo o que ela significou de cinismo, de corrupção, de desmoralização das instituições, de deboche, de comportamento pessoal machista, cafajeste e incompatível com o cargo."

Silas S. Carvalho em 07 de dezembro de 2011

Caro Ricardo Setti, bom dia. Desculpe tratar de assunto alheio à matéria. É que isso é sério, e urgente! Por isso, passei a mesma questão aos seus colegas Reinaldo Azevedo e Augusto Nunes, pela força, eloquência e serenidade que os senhores têm. Na entrevista de Marco Antonio Villa publicado pelo site da VEJA de ontem, o professor levanta uma questão importante e gravíssima, que tem sido ignorada pela imprensa: O STF não vai julgar o processo do mensalão antes de junho do ano que vem, por que em maio de 2012 o governo irá substituir mais alguns ministros da Suprema Corte e, com isso, todo o STF será composto por ministros indicados por Lula e Dilma. Os indicados pelo governo petista tendem a seguir a orientação de Lula em seus votos. Este é o mote para inocentar a quadrilha de mensaleiros! Por favor, esclareça os seus milhares de leitores acerca deste fato. Deus lhe abençoe. Caro Silas, o governo não tem como "trocar" ministros a seu bel prazer. O que vai acontecer em 2012 é que se aposentarão, por atingir a idade-limite de permanência no Supremo, dos ministros: o ministro Cezar Peluso (no dia 3 de setembro) e o ministro Ayres Britto (no dia 18 de novembro). Os dois foram nomeados por Lula. Os indicados pelo governo petista não seguiram o desejo do governo em vários casos. Acredito na independência da maioria dos ministros. Estarão na Corte ao longo de 2012 os dois únicos ministros não nomeados por Lula ou Dilma que restaram, Celso de Mello (que se aposenta só em 2015) e Marco Aurélio (em 2016). Um abraço

Esron Vieira em 07 de dezembro de 2011

Esta foto do rebento do Berlusconi, dá uma impressão de que está a usar uma peruca densa na parte anterior do couro cabeludo.

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