Se renunciar, Demóstenes volta a seu cargo no Ministério Público! Felizmente, porém, hoje existem formas de fazê-lo sentir o peso da lei

Demóstenes: cogitação de renúncia para não se tornar inelegível (Foto: Ed Ferreira / Agência Estado)

É o fim do mundo que, depois de tudo o que veio à tona sobre suas ligações com o malfeitor Carlinhos Cachoeira — inclusive a possibilidade de ter recebido uma grossa dinheirama para ajudar a “proteger” o amigo –, o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), outrora baluarte da moralidade no Senado, cogite, agora, de algo que condenou veementemente em outros políticos: a possibilidade de renunciar para não se tornar inelegível.

Sim, o Supremo Tribunal Federal já validou plenamente a Lei da Ficha Limpa, que, dependendo da velocidade da Justiça e de uma condenação do senador, poderia podá-lo como candidato a qualquer coisa.

O destino do senador está para ser decidido — o DEM concedeu prazo até amanhã para que ele dê “explicações satisfatórias” sobre seu envolvimento, sob pena de expulsão do partido.

Mas o incrível de tudo é que, a essa altura, com sua honorabilidade na marca do pênalti e com a possibilidade de ser processado e ir para a cadeia, o senador continue eventualmente pensando em futuras eleições.

Se o faz, é porque sabe que, “neste país”, malandro se elege sem problemas. É o velho lema do escritor Ivan Lessa: a cada 15 anos, nós no Brasil nos esquecemos de tudo o que ocorreu nos 15 anos passados.

Há ainda uma ironia em toda a história: se renunciar, o senador voltará a seu posto no Ministério Público de Goiás — no Ministério Público, que deve zelar, em nome da sociedade, pela manutenção da Constituição e das leis.

Felizmente algumas coisas mudaram no Brasil. Não há mais imunidade parlamentar para proteger de crimes. O foro privilegiado que o senador manteria, em caso de renúncia, significaria não sua impunidade, mas seu julgamento pelo Tribunal de Justiça de Goiás. E, finalmente, existe o Conselho Nacional do Ministério Público, criado por reforma constitucional no fim de 2004, junto com o Conselho Nacional de Justiça, justamente para casos desse tipo.

Todos têm direito, segundo a Constituição, à presunção da inocência, e não podem ser considerados culpados até que sejam condenados em definitivo pela Justiça.

O senador goza desse mesmo direito.

Sua situação, porém, é complicadíssima e, a menos que ele realize algo parecido a um milagre, acabará sucumbindo ao peso das provas. (Confira as várias reportagens sobre o caso na home page do site de VEJA).

Demóstenes já decepcionou os 2,157 milhões de cidadãos de Goiás que nele votaram e os incontáveis brasileiros que viam em sua atuação contra a bandalheira no Senado um fio de esperança.

Que sofra, agora, o peso da lei.

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Nenhum comentário

  • J.R.Monteiro

    O Demóstenes esta perigosamente quieto e conformado.
    Esperem por um discurso de renuncia com revelações tenebrosas, na linha do “sou, mas quem não é”?
    Ele está juntando munição pesada, e não é só sobre o PT não. Vai sobrar para todo mundo.

  • SergioD

    Ricardo, o MP de Goiás não poderia, pelo menos, colocá-lo na geladeira enquanto aguarda o destino do inquérito da PF e o seu encaminhamento para a justiça?
    Abraços

    É o MÍNIMO que se espera, não, SergioD?

    Aguardemos.

    Abração

  • ari alves

    Diante da campanha orquestrada da petralhada contra VEJA, a melhor publicação da imprensa brasileira, queria prestar a esta gloriosa revista minha irrestrita solidariedade.

  • hilton

    Quem diria em Gil:”Que o chefe da polícia carioca avisa pelo celular Que lá na praça Onze(senado) tem um videopôquer para se jogar…”

  • Amanda

    Vai se catar Ricardo, até qdo vcs continuarão tentando induzir acontecimentos e distorcer os direitos de quem o têm?

    De onde você tirou essa comentário podre? O que é que ele tem a ver com o post que eu escrevi?

    E você não recebeu educação em casa para saber se portar ao escrever para um blog?

  • Amanda

    Não digo quem é aquilo de que você me chamou porque minha mãe me deu educação, o que não parece ser seu caso.

  • Amanda

    Nessa terra de ignorantes sem opiniao propria o que se lê é verdade absoluta.

  • Luiz Pereira

    Setti, bom dia,
    Puxa, mas a mídia golpista não larga do pé do Demóstenes!
    Como já dizia o ex-presidente Lula, ninguém é culpado até prova em contrário!
    Desse jeito, “o poder absoluto da imprensa” já o condena de antemão!!!!
    Engraçado… Não vejo um blogsustentado petista entra por aqui para dizer essas abobrinhas agora…
    Abs

  • Esron Vieira

    Caso perca o mandato por indecoro, o procurador voltará ao ministério público.
    O ministério público não possue mecanismos pra se depurar de indivíduos que se licenciam pra poder se beneficiar de bandalheiras com contraventores?

    Tem, e precisa agir. Além do próprio MP de Goiás, há o Conselho Nacional do Ministério Público, com ressaltei no post.

  • Alberto Porém Jr.

    Toda esta história parece se encaminhar para um grande acordão entre as partes interessadas.

    Demóstenes tem munição suficiente para colocar toda a mídia e oposição de joelhos e o PT não vai perder a chance de enterrar o “mensalão”.

    Acredito que deveríamos comprar narizes vermelhos de palhaços se isto acontecer.

  • Jefff

    Vá ofender em outros blogs, Jefff.

  • Mairalur

    As pessoas usam xingamentos e ofensas para expressar sua decepção (ou, no caso de alguns, regozijo). Até agora, a melhor explicação que li para o comportamento de Demóstenes Torres foi a dada por um professor de Psiquiatria (da UFRJ, se não estou enganada): o homem é psicopata.

  • Severino

    Setti, segui texto exelente de Maria Inês Nassif que cabe perfeitamente.

    O rumoroso caso Demóstenes Torres (DEM-GO) não é apenas mais um caso de corrupção denunciado pelo Ministério Público. É uma chance única de reavaliar o que foi a política brasileira na última década, e de como ela – venal, hipócrita e manipuladora – foi viabilizada por um estilo de cobertura política irresponsável, manipuladora e, em alguns casos, venal. E hipócrita também.

    Teoricamente, todos os jornais e jornalistas sabiam quem foram os arautos da moralidade por eles eleitos nos últimos anos: representantes da política tradicional, que fizeram suas carreiras políticas à base de dominação da política local, que ocuparam cargos de governos passados sem nenhuma honra, que construíram seus impérios políticos e suas riquezas pessoais com favores de Estado, que estabeleceram relações profícuas e férteis com setores do empresariado com interesses diretos em assuntos de governo.

    Foram políticos com esse perfil os escolhidos pelos meios de comunicação para vigiar a lisura de governos. Botaram raposas no galinheiro.

    Nesse período, algumas denúncias eram verdadeiras, outras, não. Mas os mecanismos de produção de sensos comuns foram acionados independentemente da realidade dos fatos. Demóstenes Torres, o amigo íntimo do bicheiro, tornou-se autoridade máxima em assuntos éticos. Produziu os escândalos que quis, divulgou-os com estardalhaço. Sem ir muito longe, basta lembrar a “denúncia” de grampo supostamente feita pelo Poder Executivo no gabinete do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, então presidente da mais alta Corte do país. Era inverossímil: jamais alguém ouviu a escuta supostamente feita de uma conversa telefônica entre Demóstenes, o amigo do bicheiro, e Mendes, o amigo de Demóstenes.

    Os meios de comunicação receberam a suposta transcrição de um grampo, onde Demóstenes elogia o amigo Mendes, e Mendes elogia o amigo Demóstenes, e ambos se auto-elegem os guardiões da moralidade contra um governo ditatorial e corrupto. Contando a história depois de tanto tempo, e depois de tantos escândalos Demóstenes correndo por baixo da ponte, parece piada. Mas os meios de comunicação engoliram a estória sem precisar de água. O show midiático produzido em torno do episódio transformou uma ridícula encenação em verdade.

    A estratégia do show midiático é conhecida desde os primórdios da imprensa. Joga-se uma notícia de forma sensacionalista (já dizia isso Antonio Gramsci, no início do século passado, atribuindo essa prática a uma “ imprensa marrom”), que é alimentada durante o período seguinte com novos pequenos fatos que não dizem nada, mas tornam-se um show à parte; são escolhidos personagens e conferido a ele credibilidade de oráculos, e cada frase de um deles é apresentada como prova da venalidade alheia. No final de uma explosão de pânico como essa, o consumo de uma tapioca torna-se crime contra o Estado, e é colocado no mesmo nível do que uma licitação fraudulenta. A mentira torna-se verdade pela repetição. E a verdade é o segredo que Demóstenes – aquele que decide, com seus amigos, quem vai ser o alvo da vez – não revela.

    Convenha-se que, nos últimos anos, no mínimo ficou confusa a medida de gravidade dos fatos; no outro limite, tornou-se duvidosa a veracidade das denúncias. A participação da mídia na construção e destruição de reputações foi imensa. Demóstenes não seria Demóstenes se não tivesse tanto espaço para divulgação de suas armações. Os jornais, tevês e revistas não teriam construído um Demóstenes se não tivessem caído em todas as armadilhas construídas por ele para destruir inimigos, favorecer amigos ou chantagear governos. Os interesses econômicos e ideológicos da mídia construíram relações de cumplicidade onde a última coisa que contou foi a verdade.

    Ao final dos fatos, constata-se que, ao longo de um mandato de oito anos, mais um ano do segundo mandato, uma sólida relação entre Demóstenes e a mídia que, com ou sem consciência dos profissionais de imprensa, conseguiu curvar um país inteiro aos interesses de uma quadrilha sediada em Goiás.

    Interesses da máfia dos jogos transitaram por esse esquema de poder. E os interesses abarcavam os mais variados negócios que se possa fazer com governos, parlamentos e Justiça: aprovação de leis, regras de licitação, empregos públicos, acompanhamento de ações no Judiciário. Por conta de um interesse político da grande mídia, o Brasil tornou-se refém de Demóstenes, do bicheiro e dos amigos de ambos no poder.

    Não foi a mídia que desmascarou Demóstenes: a investigação sobre ele acontece há um bom tempo no âmbito da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. Nesse meio tempo, os meios de comunicação foram reféns de um desconhecido personagem de Goiás, que se tornou em pouco tempo o porta-voz da moralidade. A criatura depõe contra seus criadores.

  • Severino

    Não publico comentários críticos, sobretudo se ofensivos, a VEJA.

    Já cansei de explicar isso aqui.

    Dirija-se ao diretor de Redação, veja@abril.com.br

  • relume romano

    Da soberba e a arrogancia só provem a ruina,e a altives de espírito precede a queda.

  • relume romano

    Da soberba, arrogância só provem a ruina,e a altives de espírito precede a queda.

  • RILTON L. MARTINS

    ESPERE UM POUCO; VAMOS REFLETIR, QUANDO É QUE ELE ENTRA NA LISTA DA FICHA “SUJA” OU “LIMPA”?!!

  • Tuco

    .

    Quem espera que Demóstenes Cachoeira
    Torres caia atirando, se decepcionará.
    Trata-se de um covarde. E os covardes
    nem pra isso prestam.
    Não aguardem um novo RJefferson.


    .

  • Pedro Luiz Moreira Lima

    Protesto!
    Demostenes é um defensor da ecologia – Cachoeira e Fontes de R$ são suas lutas.

  • Jeferson

    A Lei da Ficha Limpa (LC 64) diz:
    São inelegíveis:
    I – Para qualquer cargo: (…)
    “K” – (…) os membros do Congresso Nacional (…) que renunciarem a seus mandatos desde o oferecimento de representação ou petição capaz de autorizar a abertura de processo por infringência a dispositivo da Constituição (…), para as eleições que se realizarem durante o período remanescente do mandato (…) [redação dada pela LC 135].

    Com a representação oferecida pelo Senador Randolfe Rodrigues junto ao Conselho de Ética, a renúncia não mais impedirá a inelegibilidade. Não obstante a vacância da presidência do Conselho, o fato é que a representação já foi apresentada, e isso é o que basta.

    Com esta interpretação, para evitar a inelegibilidade, o Senador Demóstenes terá de se submeter ao crivo de seus pares, com a garantia do direito de defesa ao parlamentar.

  • Corinthians

    Não acho que ele vá cair. O foro privilegiado é muito importante nestes casos – e mesmo um processo de cassação o fará ganhar tempo, que é o que todos os corruptos querem.
    Agora acho também que ele não será cassado… o político tem muitos amigos, e muitos outros que não são amigos tem interesse em ver este tipo de atitude impune. Acho também que neste caso a atuação do DEM, como no caso Arruda, foi exemplar.
    Espero que isso não seja mais uma decepção.

  • Jefff

    Enquanto você não voltar a padrões mínimos de civilidade, não sairá comentário seu aqui, Jefff.

  • Jefff

    Não precisa aceitar esse post. Ele é só para vc mesmo. Vc sabe que eu não falei nada de mais. Não me culpe pelo erros dos outros.