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CARRASCO ELEITORAL — Hannelore Kraft: a governadora do maior Estado alemão impôs a 11ª derrota eleitoral estadual ao partido de Merkel (Foto: AP)

Viga-mestra na sustentação do ambicioso, generoso e hoje um tanto cambaleante projeto da União Europeia, a chanceler Angela Merkel pareceu, a certos observadores, ter abalado sua posição de líder mais importante da Europa depois da derrota eleitoral sofrida por seu partido no domingo passado.

De fato, foi feia a derrota no mais populoso e importante dos 16 Estados que compõem a Alemanha – o land de Renânia do Norte-Westfália, com 17,8 milhões de habitantes, entre os 82 milhões do país, quatro das maiores alemãs e 22% do colossal produto Produto Interno Bruto alemão, de 3,6 trilhões de dólares, o quarto maior do mundo.

A reeleição da social-democrata Hannelore Kraft, 51 anos, economista, casada, um filho, não foi nada, perto do desabamento da União Democrata-Cristã de Merkel, que, com apenas 26,3% dos votos, ficou aquém até das piores previsões anteriores pleito, que conferiam 30% ao partido, e teve seu pior desempenho no land desde a criação da República Federal da Alemanha, em 1949.

É cedo e arriscado fazer previsões para o 2º semestre de 2013

Além disso, o fato de ser a décima-primeira derrota consecutiva em eleições estaduais do partido de Merkel parece dar um recado de que os alemães estariam fartos de sua política de austeridade e, sobretudo, do apoio da Alemanha aos resgates de países da União Europeia em dificuldades, como Irlanda, Portugal e Grécia – com a Espanha na fila.

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NOVOS AMIGOS — Merkel com Hollande em Berlim: além de defender, com o colega francês, a permanência da Grécia no euro, a chanceler fez uma concessão às teses do novo presidente ao dizer que não são inconciliáveis a disciplina fiscal com o crescimento (Foto:tvi.iol.pt)

Não seria Hannelore Kraft, portanto, a candidata ideal dos social-democratas para derrotar Merkel nas próximas eleições – que deverão ocorrer em data ainda não fixada entre setembro e outubro de 2013 – e voltar ao poder que perderam há sete anos?

Seria Kraft a “nova Merkel”, mas uma Merkel de centro-esquerda, que daria uma reviravolta na austera política econômica da Alemanha e da União Europeia?

É muito cedo para dizer – cedo e arriscado. Em primeiro lugar, Kraft já deixou claro que não aspira ao cargo, embora se saiba que tudo pode mudar, como ocorre em política. Mais importante, ela pouco falou de política nacional e europeia durante sua campanha eleitoral, que tratou em grande parte de temas do dia-a-dia dos cidadãos – elevadores nos metrôs, o recolhimento e reciclagem do lixo, o fechamento de piscinas públicas por contenção de despesas.

Seu partido, o SPD, por sua vez, tem apoiado as principais medidas de austeridade de Merkel no Bundestag, o Parlamento alemão. E Kraft – característica relevante para a Alemanha como um todo – tem fama de “gastadora”: o Estado apresentou um déficit de 3,9 bilhões de dólares no ano passado e sua proposta de orçamento para este ano, que previa um déficit ainda maior, de 4,7 bilhões, foi rejeitada pelo parlamento estadual.

Vigor político invejável

O principal de tudo, porém, é o vigor político invejável que Merkel, com as derrotas locais e tudo, ainda ostenta, depois de sete difíceis e exaustivos anos no poder. Ela é, de longe, a personalidade política mais bem avaliada do país, com 64% de “bom” e “ótimo”.

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SOB PROTEÇÃO — Merkel e Hannelore se protegem da chuva para ouvir o papa Benedito XVI em Berlim, a 23 de setembro do ano passado (Foto: DPA)

“Na hora de fazer um balanço”, diz o dirigente democrata-cristão Peter Altmaier, “os alemães estão satisfeitos com sua liderança e, por isso, as eleições gerais é que vão contar, não os resultados estaduais”. Sua posição de dureza fiscal é apoiada por 55% dos alemães, segundo recente pesquisa de opinião realizada pelo jornal Die Welt, um dos mais importantes do país.

Finalmente, proeza das proezas, numa época em que desabam as finanças dos grandes países, principalmente na Europa, a chanceler ostenta um projeto de Orçamento para 2013 com um espantoso, quase inacreditável déficit zero.

É cedo, portanto, para começar a se pensar no fim da “era Merkel”. Aos 57 anos, e a despeito de todas as enormes dificuldades e desafios representados pela situação da Europa, a chanceler que recebeu esta semana o novo presidente socialista francês, François Hollande, e que defendeu a permanência da Grécia na zona do euro parece ter ainda muito caminho pela frente.

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Willer em 18 de maio de 2012

Olá, Ricardo. Respondendo a sua pergunta: -Sim, vivo na Alemanha. Obrigado, caro Willer. Abraços

Willer em 17 de maio de 2012

Ricardo, temo que minha competência não exceda o limite de um comentarista mediano e se uma das chaves de certa felicidade é o reconhecimento dos próprios limites, inclusive os intelectuais, então prefiro o papel de comentarista júnior.rs Seu comentário sobre o Liberais foi certeiro, havia me esquecida deste acontecimento. Na verdade ainda estou me debatendo na questão da popularidade de Merkel e como esta popularidade pode ser dividida entre temas políticos internos e externos, como minha percepção da realidade difere daquela tabulada por pesquisas e enfim como esta popularidade pode se traduzir num novo período na chancelaria. Kraft seria uma 'Merkel com açucar", realmente não tenho posição sobre isto. Merkel tem popularidade robusta, sim, se comparada com a fauna política atual, de uma Social Democracia desfigurada, de uma esquerda perdida e sem propostas concretas, de um partido recente que não disse ainda a que veio e enfim do próprio partido que foi canibalizado por ela(esta canibalização merece um capítulo a parte), chegamos ao ponto onde não há um sucessor natural ao seu cargo. Os alemães apoiam a proposta de austeridade? Depende de como a pergunta foi formulada, eles apoiam a austeridade alheia e principalmente um freio em qualquer processo de transferência de recursos entre países dentro da Zona do Euro mas se existe algo que não apoiam é o desmonte do Estado Social, foi este desmonte que ocasionou a queda da Social Democracia, foi este desmonte que lançou os liberais em desgraça eleitoral. Agradeço sua resposta, como disse o Augusto, sua elegância no trato de seus visitantes é algo notável. Peço perdão pelo maneira como expresso meu ponto de vista, mas juro que neste momento me abandono às minhas constatações e deixo um pouco de lado indicadores, por mais sérios e sólidos que possam parecer. Grande abraço! Obrigado por seu comentário e sua modéstia, exagerada, está desculpada. Permita-me uma pergunta: você vive na Alemanha? Um grande abraço

Augusto Guia em 17 de maio de 2012

Setti, Como sempre elegante no trato com seus leitores. Forte abraço É meu dever -- e também meu modo de ser --, prezado Augusto. Obrigado pela gentileza de seu comentário. Abraços

Willer em 17 de maio de 2012

Ricardo, sua sintonia fina com os temas políticos alemães é admirável. Bom, só posso aqui comentar a fala de Altmaier sobre esta suposta alegria alemã em relação a Merkel. Evidente que como homem de confiança da chanceler ele só pode dizer o que disse, mas satisfeitos com Merkel os alemães não estão, algumas de suas posições já foram duramente batidas pelo eleitorado e a punição nas urnas dos estados é um sinal de reprovação à política federal, aliás um sinal sério. A tentativa de reduzir a importância destas vitórias da oposição não se sustenta quando se entende que leis na Alemanha não precisam da aprovação somente do Bundestag(Parlamento) e do Presidente da Republica, leis precisam passar pelo Bundesrat (Conselho Federal) e este conselho é formado pelos governadores dos Estados ou seus representantes. Se a maioria dos governadores pertence à oposição..então adeus aprovação e aqui se geram as crises que derrubam gabinetes em regimes parlamentares como o alemão. É neste detalhe espertamente esquecido por Altmaier que Merkel pode se dar mal. Enfim, se Kraft vai ser candidata ou não, isto aí ainda está para ser decidido, ela é simpática a muitos alemães e teria boas chances. Importante lembrar a acensão do Partido Pirata que está quase deslocando os Verdes como terceira força política no país, estes sim podem reservar surpresas e Mutti anda meio chateada com o desempenhos deste pessoal. Caro Willer, não me considero em sintonia fina com os problemas alemães. Quem me dera... Sei perfeitamente das resistências existentes a Merkel, mas -- não publiquei para não deixar mais extenso o texto -- um especialista fez um comentário muito interessante a respeito da relação do eleitorado com ela: as resistências são menos à chanceler do que à Europa que ela quer. De todo modo, acho que os percentuais de apoio a ela, levantados por entidades idôneas, são significativos. E o SPD ainda está longe de ter consenso sobre quem será seu candidato em 2013. Ponto interessante nas eleições do "land" de Renânia do Norte-Westfália foi que não ocorreu o desastre que se previa para os liberais-democratas. Previa-se que não conseguiriam chegar aos 5% para se manter no Parlamento estadual, e na verdade eles chegaram próximos a 8%. Se você quiser escrever um Post do Leitor sobre Merkel, a Alemanha ou o papel de ambos na Europa, sinta-se à vontade. Terei prazer em publicar. Um abração.

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