Sócrates, o craque e o cidadão: deixo de lado a objetividade jornalística e choro sua morte

Sócrates: sua identificação definitiva com o Corinthians ia muito além da mera paixão clubística (Foto: Irmo Celso)

A morte de Sócrates, o grande craque, doi e revolta.

Sócrates não foi apenas um dos grandes craques da história do futebol brasileiro, o gênio de calcanhar de ouro, dos dribles surpreendentes para quem tinha seu porte físico, da visão inteligente e criativa de jogo.

Sócrates foi um brasileiro de seu tempo, preocupado com seu país e sua gente. Líder da democracia corintiana, foi aos palanques da campanha das Diretas-já em pleno regime militar, sempre se lixando para o que pensavam ou poderiam fazer os cartolas de clube ou os mandachuvas da CBF.

O futebol como metáfora da vida

Suas simpatias políticas, daí para a frente, poderiam ser questionadas, mas isso não importa: diferentemente da massa alienada de craques que só pensam em ganhar dinheiro e nos prazeres que ele pode proporcionar, Sócrates era um cidadão consciente, sintonizado  com os problemas de seu país e alguém que sentia fundo as dores do mundo.

Sua identificação com o Corinthians seria algo que o acompanharia até seu triste e prematuro fim, e não decorria de mera paixão clubística. Enxergava no futebol mais do que um esporte: uma metáfora da vida, cheia de paixão e fúria, de grandeza e miséria. Um esporte, sim, mas que espelhava o que existe de mais profundo na alma humana: a solidariedade, o altruísmo, a superação, a entrega, a comunhão com o povo – e também o outro lado da medalha.

A partida contra o Palmeiras, hoje, em que o Corinthians selou seu quinto título de Campeão Brasileiro, acabou sendo uma grande homenagem do Timão e especialmente da torcida a um de seus maiores ídolos em mais de 100 anos de história. “Doutor Sócrates, eternamente em nossos corações”, dizia uma das faixas portadas por torcedores, que lançou mão de um verso do hino do clube para dar seu recado de tristeza e de adeus.

 

 

O capitão Sócrates quando tocava a bola para fazer o segundo gol do Brasil, no fatídico 3 a 2 para os italianos em 1982 (Foto: Rodolpho Machado)

 

Saudável ceticismo diante da condição de ídolo

Tive o prazer e a honra de conviver longamente com Sócrates há muitos anos, durante os meses de preparação da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo de 1982, na Espanha, e,depois, durante os 50 dias em que a Seleção permaneceu na Europa para disputar aquele título que, mais do que nenhuma outra, merecia ganhar.

Telê Santana, técnico formidável, não errou ao escolhê-lo capitão do time. Sua liderança era natural, espontânea, ninguém a colocava em dúvida.

Pude testemunhar, nesse período, seu alto grau de inteligência, seu senso de humor, seu interesse por uma enorme variedade de aspectos da vida e do mundo, o saudável ceticismo com o qual ele encarava tanto sua condição de ídolo quanto toda uma série de situações artificiais e efêmeras que o futebol propicia.

Guardo até hoje sua camisa 8

Um homem reto, bom, generoso. Até hoje tenho – sob guarda de meu filho Daniel –, a camisa 8 que ele tanto honrou e que me deu na concentração da Seleção em Mas Badó, nas proximidades de Barcelona, no dia seguinte à histórica vitória de 3 a 1 sobre a Argentina, com Maradona e tudo, e às vésperas da fatídica e injusta derrota para a Itália que colocou fim ao sonho do time de Telê Santana levantar a Copa FIFA.

O tamanho da figura de Sócrates para o Corinthians e o futebol brasileiro tornariam desejável que tivesse um velório no qual pudesse ser homenageado por muitos milhares de torcedores — na sede do Corinthians, no Estádio do Pacaembu, na Assembleia Legislativa do Estado, onde fosse. A família, porém, cuja vontade deve ser respeitada, preferiu uma cerimônia menos ruidosa em Ribeirão Preto, a 330 quilômetros de São Paulo, a cidade onde se radicaram seus pais, paraenses, e onde nasceram vários dos irmãos do Doutor, como Raí.

Hoje, deixando de lado qualquer objetividade jornalística, choro por ele.

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31 Comentários

  • Welbi Maia Brito

    Confesso que também chorei com a perda do meu ídolo.

  • Teresinha

    Realmente é uma dor, é um sentimento de perda nacional, mas deixa as melhores lembranças de um bom cidadão que honrou o esporte – futebol.

  • Reynaldo-BH

    Inconformismo com o mundo em que vivia. Genialidade co mas palavras, mesmo sendo irônicas (ou mais até por isso). Virtuosismo com uma bola nos pés. De bem com a vida. Inteligência a serviço do que acretiva e isto é que importa.
    Predeu uma guerra contra um mal que mata mais que o crack. Mesmo sabendo de cada passo, de cada copo, de cada consequência. Quem irá acusá-lo? Que ninguém levante a voz para criticar que ousou levar a liberdade até o extremo de suas próprias escolhas pessoais. Na mesma semana que assistimos, desiludidos e surpresos, a Ronaldo Fenômeno se prestar a ser laranja de Ricardo Teixeira, perdemos o doutor magrão.
    A brasilidade – feita de trabalho, alegria e ética – perdeu um símbolo.
    E nós faltam quem o substitua.
    Vá em paz, dr. Sócrates.
    Se houver um outro lado desta vida, lá certamente terá um gramado, uma bola de futebol e uma mesa de bar para depois dos jogos.

  • Marco

    Amigo Setti: Quem o conheceu como pessoa, diz se tratar de um grande cara, apesar de eu não gostar como jogador, gosto de jogador combativo, meu amigo me solidarizo contigo.
    Abs.

  • Ricardo

    Ah, a seleção de 82. Trocaria as duas copas que ganhamos depois pela Taça que não levamos. Aquela foi a primeira copa que acompanhei (tinha 11 anos) e o futebol mais bonito dos que fizemos em Copa. Belas lembranças eles nos deixaram…

  • pena que eu tou torcendo não pro futuro estadio corintiano se chamar socratão e sim lulão.

  • ALGUEM ME AJUDA AI...

    O Socrates foi um marco em seu tempo de jogador,pois alem de tudo era culto,formado em medicina.Mas por outro lado deu um pessimo exemplo, pois sendo medico detonou sua saude abusando do consumo de alcool,era livre e podia fazer o que bem entendesse de sua vida e saude e eu sou livre para discordar de suas beberagens descontroladas.

  • Vera Scheidemann

    A maioria dos brasileiros também.
    Muito triste !
    Vera

  • Tarcísio Lobato

    Sócrates, paraense d nascimento, coincidencia ou não Paulo Henrique Ganso ao meu ver tem um estilo d jogo muito parecido com o do nosso querido magrão. Q Deus o tenha.

  • SergioD

    Até hoje choro a perda da Copa de 82. Para mim aquela foi a melhor selação brasileira desde a de 70. Com o comando de Socrates, com o toque de mestre do saudoso Tele Santana. Saudades Doutor. Vá com Deus.

  • JOSÉ CARLOS WERNECK

    Muito bacana o seu texto.
    Que o doutor descanse em Paz!

  • Tuco

    .

    Bonita homenagem, Grande RSetti.
    O Gigante dos Pés Pequenos merece!


    .

  • carlos nascimento

    O Brasil perdeu um raio de “luz” nesse mundo de trevas dos bastidores esportivos, justamente por suas convicções e opiniões fundamentadas, nunca compactuou com o jogo praticado nos gabinetes, isso foi a causa de ter sido desprezado pelos dirigentes, tanto da cbf como do Corinthians, Dualibi e Sanchez tinham pavor da presença do MAGRÃO, pois sabiam que o jogo teria que ser transparente. Uma pena, perdemos um raro exemplo de cidadão e ídolo do futebol.
    O Corinthians é devedor do Dr.Sócrates, por tudo que ele fez pela Instituição, talvez se tivessem lhe incumbido de missões de gestão, o trabalho poderia ter ajudado e dado uma chance de vencer o álcool. Da mesma forma que o trabalho salvou CASÃO.
    DESCANSE EM PAZ SÓCRATES. Os livros da história já possuem páginas de sua maravilhosa trajetória.

  • Esron Vieira

    Grande Socrates, nunca me esqueço do gol dele contra a União Sovietica em 92.
    Antologico.

  • Esron Vieira

    92 não, 82.

  • Pedro Luiz Moreira Lima

    Amigo Setti:
    Vale uma palavrão nessa hora? – PQP Deus! não dava para postergar a morte do Socrates para daqui no minimo uns 40 anos?
    É só que tenho a dizer.

  • Corinthians

    Vá com Deus Doutor.
    Sentimos sua falta.

  • maisvalia

    Suas simpatias políticas, daí para a frente, poderiam ser questionadas, mas isso não importa: diferentemente da massa alienada de craques que só pensam em ganhar dinheiro e nos prazeres que ele pode proporcionar, Sócrates era um cidadão consciente, sintonizado com os problemas de seu país e alguém que sentia fundo as dores do mundo.

    “Quanto ao Fidel Castro, símbolo da Revolução Cubana, como Che Guevara, as pessoas estão mal informadas. No nosso país se conhece muito pouco o que acontece fora daqui e mesmo aqui dentro. A estrutura política cubana é extremamente democrática. Eu queria que meu filho nascesse lá, eu queria ser um cubano”.

    Se ele falasse isso a respeito do Pinochet, igualmente ditador deplorável, será que também deixaríamos de lado como se não importasse?

  • Markito-Pi

    Sou sãopaulino e anticorintiano, o que não me impede de juntar minha lágrima à tua.Sócrates foi um craque em todos os sentidos.

  • Caio Frascino Cassaro

    Prezado Ricardo:
    Sou palmeirense, como já deixei claro várias vezes aqui neste seu espaço. Mas sempre fui admirador do bom futebol, não importando a camisa do eventual praticante. Sócrates foi um dos jogadores mais cerebrais que pude ver em um campo de futebol. A Copa de 82 foi um golpe do destino contra toda uma geração e em particular o Doutor, que com sua enorme inteligência comandava de dentro do campo o carrossel mágico inventado por Telê Santana naquele torneio. Sócrates aliava uma visão de jogo espetacular a uma absoluta letalidade na conclusão – quando saia com a bola de frente para o goleiro não tinha conversa: era caixa. E, além de tudo, era um grande sujeito. Uma pena que tenha cuidado tão mal de si mesmo. Vai fazer falta.
    Um abraço

  • Tuco

    .

    Que se tenha em consideração as justas
    e caras homenagens ao Ídolo, firmadas pelo
    Grande RSetti e seus Nobres Colaboradores.
    Que se execre a tal “nação corintiana”
    que transformou a tarde de homenagens e
    de alegrias num patético campo de batalha,
    onde digladiaram-se, como sempre acontece,
    por conta da imbecilidade de seus pares…
    Coisa de gentalha.


    .

  • Luiz

    Sócrates deixou dois exemplos: COMO SER!!! e infelizmente: COMO NÃO SER!!! Auto-abreviou sua vida!

  • Marco

    Amigo Setti: O face do comentarista “Caio Blinder” é verdadeiro ou Fake ?
    Abs.

    Não sei, caro Marco. Vou perguntar a ele.
    Abração

  • bereta

    Choremos juntos. Mais um grande brasileiro que nos deixa.

  • Ana

    Ricardo sei que já tratou do assunto uma vez , ajude a divulgar o abaixo assinado do quarteirão do ItaimBibi
    http://www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/7756
    Obrigada

  • Tuco

    .

    Ana – 05/12/2011 às 16:39
    Prezada senhora Ana, passando ao largo
    do que motiva o relevante movimento,
    ouso informá-la que, 20.000m2, naquele
    local, tem justo valor de, timidamente,
    cem milhões de reais. Mais de uma vez
    presenciei proprietários recusarem 7,
    8 mi em 1.000 m2 em região de valor
    correspondente.


    .

  • Anti petista

    maisvalia
    – 05/12/2011 às 8:08

    Sócrates fazia uso de bebida alcoolica e não se conhece as condições em que uma pessoa deve estar para dizer que existe democracia em Cuba. Só isso.

    Não discrimino pessoas por suas ideologias, meu caro Antipetista. O fato de Sócrates achar isso ou aquilo de Cuba não muda o fato de que ele, para mim, era uma ótima pessoa. Quanto a fazer uso de bebida alcoólica, como diz você, no caso específico Sócrates era alcoólatra que, caso você não se recorde, é uma DOENÇA.
    Abraços

  • vanderlei

    pra quem teve a oportunidade de ver o Sócrates jogar,
    foi maravilhoso o cara era craque de verdade ou melhor resumindo era gênio

  • suzi

    contrariando meus irmãos mais velhos – tricolores desde o nascimento – meu coração se tornou corintiano pela admiração infantil (desde os 2 anos de idade) ao Sócrates. Fica a saudade e o grito: Doutor, eu não me engano, meu coração é corintiano!

  • érico cordeiro

    Prezado Érico, no blog, por razões óbvias — aqui não é o espaço para tal — não publicamos críticas à revista VEJA, que devem ser dirigidas a seu diretor de Redação pelo e-mail veja@abril.com.br

  • érico cordeiro

    Ricardo,
    Mas democracia não signignifica conviver tolerantemente com as críticas?
    E a famosa “liberdade de expressão”?
    Censurar um comentário me parece coisa do falecido líder sul-coreano e não de um baluarte da democracia…
    Por isso é que eu continuo como ex-assinante.
    De qualquer forma, obrigado pela decência de ter exposto as razões da não publicação do meu comentário e reforço os votos para que você – e outros profissionais sérios e honrados que ainda trabalham aí – vençam!