Artigo de 2003: Sonhos do governo Lula podem derreter

Artigo de 2003: Sonhos do governo Lula podem derreter Henrique Meirelles (dir.), presidente do Banco Central durante os governos Lula, ao lado do ex-presidente (Foto: Paulo Whitaker - Reuters)

E mais: a falta de Lula, governadores com medo de Beira-Mar, a nova era da cobertura de guerras, Marta x Heloísa, bispos que contestam o Holocausto, mais Pelé, Zico e Romário, os brincos de Marina fazendo escola e o não à censura prévia

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Mesmo à sombra dos efeitos da guerra ao Iraque, foi um sucesso a fala do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, no almoço oferecido esta semana, em Milão, pela Federação Brasileira das Associações de Bancos (Febraban) a duas centenas de representantes de instituições financeiras internacionais e do Brasil. O ágape ocorreu durante a reunião anual do Banco Interamericano do Desenvolvimento (BID), ocorrida em Milão porque a Itália é um dos 18 países-sócios do banco situado fora das Américas.

Meirelles e o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foram apontados como pragmáticos, sérios e confiáveis pelos banqueiros. Entre as informações apresentadas pelo presidente do BC estava um gráfico apontando a proporção decrescente entre a dívida pública brasileira e o Produto Interno Público (PIB) nos próximos anos. Este é um indicador-chave sobre a capacidade de um país fazer frente a seus compromissos. Constitui, portanto, um dos fatores centrais da confiabilidade de investidores estrangeiros e instituições multilaterais.

A relação dívida-PIB atingiu 55,89% em 2002. Ela terá um soluço este ano, pulando alguns centésimos de percentual e podendo atingir 56,14%. A partir daí, se o crescimento médio da economia nos anos seguintes for de 3,5% ao ano – ele não passou de 2% nos últimos quatro anos do governo Fernando Henrique Cardoso –, chegará a 50,47% no final de 2006, coincidindo com o final do governo Lula, ou pelo menos do primeiro mandato do presidente.

Mas Meirelles avançou nas projeções, e mostrou um cenário no qual a relação estaria em confortáveis 35,8% em 2011.

Tudo bem. Beleza. O problema é que, para isso, além dessa interessante taxa de crescimento e de um dólar um estabilizado por volta de R$ 3,40 – itens problemáticos num quadro complicado como o atual, quando a maior economia do planeta vê-se envolvida num grande conflito militar sem ter resolvido o marasmo de seu crescimento interno –, o país precisaria continuar cortando na carne o orçamento público: o cenário prevê a manutenção do atual superávit primário (receita menos despesa, excetuadas os pagamentos de juros) de 4,25% do PIB.

O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, conseguiu há algumas semanas convencer o presidente Lula da necessidade desse superávit este ano em face dos perigos enfrentados pela economia, como a volta da inflação, a vulnerabilidade externa do país e as incertezas no plano internacional. E significou, como se sabe, um brutal sacrifício para um governo surgido das urnas com o compromisso de começar a quitar um enorme débito social e minorar desigualdades humilhantes. Houve um corte de 14 bilhões de reais em custeio e investimento e espalharam-se sacrifícios para todos os lados, a um custo político alto, e crescente.

Claro que cenário, em geral, não passa muito disso: cenário. Meirelles, homem sério e aplicado, mostrou projeções, hipóteses e alternativas – os estudos do BC contemplam, para efeito comparativo, até superávits avassaladores, de 6% do PIB.

Mas o fato é que Palocci já havia mostrado os mesmíssimos números na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. Diante, aliás, de um silêncio pasmo e bovino dos senadores. Isso tudo, se materializado, provavelmente seja ótimo para a confiabilidade externa no país. Mas, no plano político, como prorrogar o arrocho até o final do governo Lula, e, eventualmente, além? Com quem isso ficou combinado? Os ministros aprovam – antes disso, eles sabem? O PT e a base política do governo foram consultados? E os governadores? Em quais plenários esses números foram discutidos?

Aos poucos, parece que esses números e tendências vão se consolidando, fazendo os sonhos do governo escoar pelo ralo.

Faltou alguém no enterro do juiz

O presidente Lula sabe como poucos a importância de gestos simbólicos, e deles lança mão em profusão. Na segunda-feira, 24, por exemplo, ele desfilou em carro aberto na fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo (SP), como parte das comemorações dos 50 anos da empresa no Brasil. Ecoou JK, protagonista da mesma cena, embora acenando para outros operários, quando da inauguração da mesma fábrica, em 1959.

Pois bem. O fato – gravíssimo – mais importante ocorrido no país nos últimos dias foi o assassinato do juiz da 5ª Vara de Execuções Penais do Espírito Santo, Alexandre Martins de Castro Filho. Morto a tiros em Vila Velha na mesma segunda, 24, dez dias depois do atentado que roubou a vida do juiz-corregedor dos presídios da área de Presidente Prudente (SP), Antonio José Machado Dias, o crime gritou alto sobre o descalabro reinante na segurança pública, um dos temas centrais da campanha eleitoral de Lula.

A família sepultou o corpo do juiz na terça, 23, no cemitério de Inhaúma, na zona norte de sua terra natal, o Rio. Entre as poucas autoridades presentes, não estava o presidente.

Segurança, assim?

O juiz, tudo indica, tombou vítima do crime organizado. E de todos os lados ouve-se um clamor para combatê-lo e para enfrentar a bandidagem.

Mas, na hora de colaborar, a coisa muda. Veja-se o caso da vergonhosa fileira de governadores com horror à idéia de ter o traficante Fernandinho Beira-Mar cumprindo pena em seus respectivos Estados – inclusive o de São Paulo, Geraldo Alckmin, que aceitou receber o bandido na seguríssima penitenciária de Presidente Bernardes por um prazo de apenas 30 dias, prestes a expirar.

Correspondentes

A guerra anglo-americana ao Iraque vai provocar uma definitiva revisão do papel, da utilidade e do conceito do correspondente de guerra. Acabou de vez, definitivamente, para sempre – e há muito tempo, se por acaso as pessoas não haviam percebido – a figura romântica, hemingwayana dos repórteres que vão à luta pela notícia no front, tentam contar o que vêem e, sobretudo, procuram oferecer a leitores, telespectadores e, agora, internautas o significado de tudo aquilo.

A torrente de informações que estamos recebendo sobre a guerra vai de irrelevantes e comezinhas descrições do dia-a-dia de repórteres que, na verdade, não sabem nada, até à cobertura facciosa transformada em propaganda deslavada (veja-se a Fox News, disponível nos sistemas de TV paga Sky e Net). No meio, a espetaculosidade gratuita e vazia: de que nos servem repórteres dependurados em tanques rumando para Bagdá, mostrando imagens por videofone?

Cobrir uma guerra é difícil, dificílimo – um dos supremos desafios do jornalismo. Não se pretende fazer pouco de quem tenta cumprir essa tarefa. Mas na verdade poucos são os jornalistas que, à custa de imenso sacrifício, estão conseguindo ser realmente úteis à compreensão da avalanche de informações ora desabando sobre o cidadão comum.

Sai faísca

Como diziam os cronistas sociais d’antanho, não coloquem na mesma mesa a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy (PT), e a senadora Heloísa Helena (PT-AL).

Casa nova

Aliás, a prefeita acaba de se mudar para uma nova casa, na chiquérrima Rua Dinamarca, no Jardim Europa. Passou poucos meses na anterior, situada numa rua que, no passado, se transformou em roteiro de romaria política: a Campo Verde, no Jardim Paulistano, onde viveu por décadas o deputado Ulysses Guimarães, morto em acidente de helicóptero em 1992.

Previdência, inimigos e aliados

Do ex-deputado, ex-governador do Rio Grande do Sul e ex-ministro da Previdência Antonio Britto, que entende do assunto:

– A reforma da Previdência é o tipo da questão que faz inimigos à vista e aliados a prazo.

O piedoso sacerdote e os judeus

Inacreditável o artigo do arcebispo de Porto Alegre, dom Dadeus Grings, contestando os números e o significado do Holocausto. Publicado no site www.portaldocatolico.com.br, veio à luz na Folha de S. Paulo. E espantosas foram suas declarações à Agência Folha: “O número de 22 milhões [de mortos provocados pelo nazismo entre sua ascensão ao poder na Alemanha, em 1933, e a derrocada, ao final da II Guerra Mundial] já foi comprovado. Os 6 milhões [de judeus exterminados], não. (…) E se forem 6 milhões, o que isso representa dentro de 22 milhões? Nós, católicos, fomos as principais vítimas do Holocausto”.

Dom Dadeus tem, no mínimo, problemas com cifras. Além de contestar os 6 milhões de judeus massacrados, ninguém sabe de onde tirou os 22 milhões de vítimas do nazismo — só de russos mortos durante a invasão nazista de seu país, por exemplo, estima-se que tenha havido 25 milhões. Ele também sacou de fonte obscura outro número: o de 850 mil judeus supostamente “salvos” pelo papa Pio XII, acusado por muitos historiadores sérios de ter feito justamente o contrário – sido omisso diante do Holocausto.

Mas, filiando-se à corrente dos crentes em que Pio XII “salvou” judeus, o piedoso sacerdote se indaga, na entrevista ao jornalista Leo Gerchmann: “O judeus denigrem a imagem de Pio XII. Valeu a pena ele fazer tanto esforço para salvá-los?”

Se defendesse essas idéias na terra de seus ancestrais, e com o rigor da legislação anti-intolerância em vigor na Alemanha, dom Dadeus poderia perfeitamente estar não no púlpito, mas na cadeia.

Lavando as mãos

Igualmente inacreditável foi a reação de dom Jaime Chemello, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), diante da repercussão do artigo de dom Dadeus. Lá pelas tantas, sentenciou o outro piedoso sacerdote: “Quanto aos judeus, sem dúvida eles sofreram muito. Mas não gosto de falar de situações das quais não tenho dados concretos”.

Para quem preside uma entidade, como a CNBB, que se pronuncia sobre tudo – basta o internauta consultar o site www.cnbb.org.br e verificar documentos e pronunciamentos a respeito de temas tão diferentes como a vitória eleitoral de Lula, a questão dos povos indígenas, o processo eleitoral, fome e miséria, migrações, solo urbano e até uma das invasões à fazenda da família do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso –, soa estranhíssimo dom Jaime ter tão poucos “dados concretos” sobre o Holocausto.

A II Guerra Mundial é o episódio mais documentado da história.

Estatística inútil

Existem quarenta banheiros no Palácio do Planalto, com exatos 195 vasos sanitários.

Estatística útil

Você sabia que o Brasil, com todas as suas mazelas, gasta 9% de seu Produto Interno Bruto (PIB) em educação – contra 7% da França e 6% da Alemanha?

Agora, se gasta direito já é outra história. Dar universidade pública de graça para a elite, às custas de maior investimento em ensino infantil e fundamental, por exemplo…

A eficiência do Baixinho

Sempre que a coluna aborda futebol, acaba tendo de fazer um repique. A recente nota sobre os gols de Zico, a propósito da comemoração de seus 50 anos de idade (clique ao lado em “Suplentes de senador lembram a urgência da reforma política” e veja em “50 anos do nota 10”), provocou a curiosidade de vários internautas.

Zico vem a ser o terceiro maior artilheiro da seleção, depois de Romário, o segundo, e de Pelé, o primeiríssimo – certo? Mas qual deles deve ser considerado o número 1 em eficácia, ou seja, quem fez a melhor média de gols por partida?  Nem todo mundo sabe, mas cabe ao Baixinho a primazia nesse quesito. Nas 74 vezes em que atuou pela Seleção, Romário fez 69 gols – a incrível média de 0,93 por jogo. Pelé marcou 95 em 114 partidas, uma média de 0,83 por jogo. Zico goleou 67 vezes em 93 partidas, sendo sua média, portanto, de 0,72.

Em jogos oficiais, porém, o Rei ganha: novamente exatos 0,83 gol por jogo em 92 partidas, num total de 77 redes balançadas. Romário vem em segundo, com 0,78 por partida, de um total de 54 disputadas, e Zico alcança 0,67, em 71 jogos.

Não à censura prévia

Honra o Judiciário a decisão unânime da 4ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo que cassou as absurdas condições impostas à revista “Você S. A.”, da Editora Abril, pelo juiz Antônio Dimas Cruz Carneiro, da 2ª Vara Cível da Capital, para a publicação de uma reportagem sobre empresas de recolocação de executivos.

Sentindo-se prejudicada pelo que imaginava fosse ser a reportagem, uma das empresas, a Dow Right Consultoria de Recursos Humanos, impetrou uma ação cautelar junto à 2ª Vara Cível. No despacho em que concedeu a medida liminarmente (de forma provisória, até seu posterior julgamento definitivo), no dia 26 de dezembro, o juiz condicionou a publicação da reportagem da revista à prévia leitura do texto por representantes da empresa e à publicação de suas explicações na íntegra.

A decisão foi considerada como “censura prévia” – algo impensável sob a Constituição – pelo jornalista Sidnei Basile, diretor do Grupo Exame, que, na Abril, edita a revista. O TJ, agora, concordou com a tese. Afinal, a legislação brasileira oferece a quem se sentir atingido por um veículo de imprensa o direito de resposta e até a possibilidade de processá-lo criminalmente.

Se as condições constantes da decisão do juiz passassem a vigorar no país, seria impossível o funcionamento regular da imprensa.

Não se trata de apenas de uma vitória da Abril, da revista ou dos jornalistas. Ganha a liberdade de imprensa – que é não um privilégio de jornalistas, mas um patrimônio dos cidadãos.

Style news

A ausência de Marina Silva (PT-AC), licenciada para ocupar o Ministério do Meio Ambiente, não privou o Senado de parlamentar do sexo feminino adepta de brincos, colares e outros adereços indígenas, na linha “étnica”.

Saiu Marina Silva, entrou a nova senadora Ana Júlia (PT-PA).

Viva a notícia boa

Comentou-se, aqui, na semana passada, o estardalhaço com que a mídia vinha cobrindo os graves incêndios florestais em Roraima. Acompanhava o comentário a previsão de que, quando chovesse, como ocorreu nos incêndios de 1998, provavelmente teríamos como manchetes dos jornais inundações e desabamentos por toda parte, mas não a extinção do fogo nas florestas do Estado.

Justiça seja feita: o “Jornal do Brasil” registrou, na segunda-feira, 24, o começo da chuva em Roraima, e informou que o fogo começa a se apagar.

Já encheu

Ninguém agüenta mais ler ou ouvir falar das negociações do PMDB para compor a base do governo Lula no Congresso.

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