Estamos vivendo, Deus sabe, dias tumultuados. A inundação do noticiário pela guerra dos Estados Unidos e seus aliados ao terrorismo deixou tudo o mais em segundo plano – da crise da Argentina à agonia do mandato do ex-senador Jader Barbalho, da baderna miúda do MST ao lamentável troca-troca de legendas de políticos antes do prazo final de filiação partidária visando as eleições de 6 de outubro de 2002.

Se tudo isso ficou em segundo plano, houve um assunto que foi remetido a um terceiro, quarto plano: decorrido o prazo fatal de filiação, no último sábado, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, não assinou ficha nem ingressou em nenhum partido político. Cumpriu-se, assim, o que o ministro vinha declarando publicamente “pelo menos desde o início do ano 2000”, conforme ele próprio acentuou, em nota oficial. 

E, de fato, se houve algo que Malan disse e repetiu ao longo desse mais de ano e meio, foi isso: ele não era candidato a nada, muito menos a presidente da República, não se filiaria a partidos políticos, porque entendia que essa ação poderia de alguma forma prejudicar a condução dos negócios de seu Ministério, não tinha ambições políticas. Como se sabe, foram, porém, inúteis esses inúmeros desmentidos. Políticos de oposição, sindicalistas de esquerda, rivais de Malan dentro do governo e muitos repórteres, articulistas e comentaristas de jornais, revistas e emissoras de TV continuaram, impávidos, a tratar da filiação e da candidatura.

Em nome delas, aproveitou-se para bater mais em Malan – agora, além do tradicional fogo cruzado que integra o calvário básico de um ministro da Fazenda diante dos problemas da condução da política econômica, dos recuos e avanços do déficit público, do balanço de pagamentos, da inflação, da muita ou pouca preocupação social, Malan passou a carregar nas costas também o peso adicional de que fazia isso ou aquilo, ou deixava de fazer, porque era, seria ou pelo menos queria ser candidato. Discursos, debates no Congresso, entrevistas à imprensa – em tudo isso, enxergava-se em Malan uma “postura de candidato”.

A atitude de defesa implacável do ministro em relação ao programa e à gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, passou a ser creditada, ou debitada, basicamente a este fato: ele defende o governo porque pretende ser candidato do governo. A constatação elementar de que um ministro deve ser leal ao presidente, que é seu chefe, não parece ter ocorrido aos críticos de Malan. Tudo bem que a lealdade não seja moeda corrente na política brasileira, inclusive entre integrantes do governo. O que precisamos é passar a admitir pelo menos a hipótese de que ela exista.  

Volta e meia, vinha o recado do ministro: não vou me filiar a partidos, não sou candidato, defendo o governo porque acredito em seu programa, que ajudei a formular. Não adiantou nada, e certamente o governo – não Malan – contribuiu para isso, já que houve pressão contínua para que ele ingressasse num partido, de preferência o PSDB. Até o prefeito do Rio, César Maia, teria participado de uma articulação que incluiria o lançamento de Malan como candidato a governador no ano que vem, com o beneplácito do Palácio. 

Não se trata, aqui, de defender o ministro – não é este o foco da discussão. O que interessa no caso é o pouco ou nenhum valor que, em nosso país, atribuímos à palavra das pessoas, inclusive (ou principalmente) dos homens públicos. Uma explicação parcial para o fenômeno talvez venha da falta de consenso que vivemos, no Brasil, em relação aos itens mais básicos de um projeto nacional. Não há consenso sequer sobre as instituições – e as dezenas de emendas a uma Constituição que nem completou 15 anos são um bom indício do problema. A falta de consenso, e a radicalização ideológica, têm contribuído para um clima em que o adversário é sistematicamente tratado como inimigo e, portanto, precisa ser desqualificado. Parte desse processo de desqualificação consiste em não dar crédito ao que ele diz.

Na nossa vida pública pouco se combatem idéias com idéias. Não. As críticas, sobretudo as dirigidas a quem tem a missão de governar (que, não custa lembrar, foi conferida pelo povo), quase sempre incluem um julgamento de pesado valor moral: o governo, e seus ministros, órgãos e agências, ou dilapidam o patrimônio nacional, ou querem destruir os trabalhadores, ou estão vendendo a pátria a preço de banana. Implicitamente todos são, portanto, canalhas. Todos são mal-intencionados. Ninguém presta. 

Basta lembrar da polêmica ocorrida quando, no começo de 1999, o presidente da República, com o governo assoberbado por uma terrível crise cambial, com o abandono da política de flutuação do dólar em bandas ocorrendo simultaneamente a uma torrente de suspeitas sobre o então presidente do  Banco Central, Francisco Lopes, resolveu chamar para o comando do BC o economista Armínio Fraga. O mínimo que se disse sobre Fraga era o aposto, colado a ele como uma tatuagem, de que se tratava de um “funcionário do megaespeculador George Soros”. Pouco importaram, para essa maré de críticas, as reais tarefas profissionais de Armínio Fraga no complexo de empresas que Soros conduz ou de que participa. Pouco importou, também, o impressionante currículo do atual presidente do BC, que incluía uma rica passagem na diretoria do próprio BC, além de uma notável experiência prática com a dura vida das operações financeiras internacionais – coisa que poucos dos acadêmicos que assolaram o BC nas últimas décadas podiam ostentar.

O que importava, na época, era associar Armínio Fraga ao “megaespeculador” – uma figura complexa, aliás, que tem críticas ao capitalismo e à globalização muito mais duras, fundamentadas e instigantes do que as de boa parte da esquerda. Além dessa associação, importava também fazer a pergunta terrível, sempre carregada de suspeição, mais ou menos nos seguintes termos: “O que levaria um sujeito com ganhos anuais fabulosos a deixar uma confortável posição em Nova York, mudar-se para Brasília e assumir um cargo dificílimo, em que além de tudo vai ganhar mal?”

Aparentemente não passou pela cabeça de nenhum crítico a hipótese singela, translúcida e perfeitamente aceitável – mais que isso, meritória – em qualquer país civilizado de que Armínio Fraga poderia ter a intenção de prestar um serviço a seu país. Não se trata, aqui, novamente, de “defender” Fraga. Trata-se de indagar se, com esse tipo de patrulha ideológica e existencial, de dúvida sistemática e pertinaz, que abrange a biografia e o caráter das pessoas, não estamos indo longe demais.

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