Tom Zé: 75 anos e uma inesgotável capacidade de surpreender

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Tom Zé se apresenta no Rock in Rio 4: o último dos vanguardistas? (Foto: Marcos Hermes)

Por Daniel Setti

Felizmente para a música brasileira, uma porção considerável de seus grandes nomes continua viva e em atividade: o mito da bossa nova João Gilberto, os ex-tropicalistas Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé, o inclassificável Milton Nascimento, os campeões de audiência Roberto Carlos e Chico Buarque.

Mas destes mestres eternos, qual continua inovando ou surpreendendo em seus últimos trabalhos? Caetano talvez poderia ser citado, por ainda mostrar paciência de se reinventar (a última das suas foi gravar um disco à frente de um trio roqueiro pós-adolescente). Mas só. E nem sempre.

Mais prolífico – sete álbuns na década passada – e mais velho do que todos desta turma (fora João Gilberto), Tom Zé, que completa 75 anos hoje, se sobressai como a verdadeira e confiável exceção.

Além disso, o baiano de Irará é o único dos grandes, a esta altura da vida e da carreira, capaz de soar mais moderno do que nove entre dez vanguardistas recém-chegados, brasileiros ou “gringos”; o único, também, – verdade seja dita – que nunca desfrutou de um sucesso de público à altura de sua importância.

Provavelmente um fato esteja ligado ao outro – os experimentalismos sempre custam a agradar o mainstream -, mas uma audição cuidadosa de seus melhores álbuns – Estudando o Samba (1976) e Com Defeito de Fabricação (1998), por exemplo – ajuda a entender rapidamente porque o seu lugar destaque na herança da MPB é enorme. Foi preciso o ex-Talking Heads David Byrne “descobri-lo” no começo dos anos 1990 para que voltasse a chamar a atenção – e passasse a ser idolatrado lá fora -, mas tudo bem.

A obra de Tom Zé, espalhada por mais de vinte álbuns (entre registros ao vivo e de estúdio), diferencia-se das demais por seus estranhos arranjos. Muitas vezes parece que ele usa as combinações de notas, acordes e ritmos que todos os outros deixam de lado, e o faz de maneira com que seu som seja totalmente inimitável. Quanto às suas letras, costumam ser subestimadas pelos críticos: estão entre as melhores e mais criativas de nossa música.

No vídeo abaixo, extraído do DVD Jogos de Armar (2003), ele toca “Ogodô Ano 2000”, originalmente gravada no álbum The Hips of Tradition (1992).

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4 Comentários

  • Investidor

    Concordo sobre Tom Zé, mas discordo sobre Caetano, que ultimmente tem feito melodias tão chatas quanto Chico Buarque, que é um espetacular poeta mas suas melodias são conservadoras e pouco criativas. Sobre inovação, acho que Jorge Benjor merece uma inquestionável menção.
    Caro Investidor, a sua lembrança do Jorge foi perfeita. Mas discordo quanto à inovação. Para mim, ele parou de inovar há mais de 30 anos. Acho que foi por isso que esqueci de inclui-lo entre os grandes, grupo ao qual, de fato, ele pertence.
    Um abraço,
    Daniel

  • Kaos

    Tenho sómente o ótimo CD “Com Defeito de Fabricação” do Tom Zé, e realmente é obrigatório conhecer o trabalho deste músico brasileiro.
    Na verdade tem muita coisa boa no Brasil que nunca chegou na mídia, por exemplo, o guitarrista Kadu Lambach, o qual gravou um excelente CD instrumental há alguns anos atrás. Muito bom!
    Tem também o Sólon Fishbone, lá do RS, que lançou alguns CDs de blues/rock e um totalmente instrumental (jazz/blues/rock) … este eu ainda NÃO consegui!!! Pode???

  • Tuco

    .

    DSetti faz justa homenagem a esse
    menir da música. Inigualável, não
    comportaria comparações com outro
    músico brasileiro.
    Decerto, o sempre brilhante DSetti
    traz à baila alguns outros nomes
    pelo simples fato da necessidade de
    comparação. Porém, é certo, nenhum
    deles atinge a nota mínima para se
    aproximar do talento de Tom Zé.
    Pleno na essência, a esse artista
    completo cabe-lhe o todo por si só.
    Numa sociedade medíocre como a nossa,
    o não-sucesso de público é um grande
    prêmio.


    .

  • ruy izidoro

    Caro Setti, gostaria apenas de lembrar outro nome que situa-se no mesmo patamar do Tom Zé: Hermeto Pascoal, um monstro criativo, bruxo ou mago dos sons, que está sempre inovando sem perder o pé na mais tradicional rítmica brasileira.

    Sem a menor dúvida, caro Ruy. Meu filho Daniel, que é jornalista, músico e colaborador do blog, é fã incondicional do Hermeto, com quem já esteve pessoalmente. É um gênio reconhecido internacionalmente — mas, no Brasil, embora aplaudido por muita gente, não tem a recompensa financeira que mereceria, não é mesmo?

    Um abração e volte sempre.