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A polícia da Tailândia a bordo do jato da Air Asia: prendendo turistas chineses baderneiros — um chegou a ameaçar explodir uma bomba (Foto: Weibo)

Alguns passageiros temeram que terroristas estivessem sequestrando o Airbus A-320 da Air Asia que fazia um voo charter do Aeroporto Don Mueang, em Bangkok, para Nanquim, na China, tal a confusão a bordo — até porque, a certa altura, um cidadão chinês, no meio de uma briga de socos e pontapés com outros passageiros e parte da tripulação, ameaçou explodir uma bomba.

A namorada do rapaz não agiu de forma mais calma: disse, com a maior tranquilidade, que iria abrir a janela de emergência em pleno voo, algo que provocaria a sucção de passageiros para fora e poderia derrubar o Airbus. Com os nervos ainda mal acalmados graças ao empenho da tripulação, o comandante do aparelho anunciou que regressaria a Bangkok — o que fez, com a Polícia da Tailândia esperando os baderneiros já no finger de desembarque para entrar a bordo e prendê-los.

O stress foi tão grande que comissárias de bordo, encerrada a confusão, desataram a chorar.

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Encerrado o episódio de arruaça no jato da Air Asia, algumas aeromoças desataram no choro, tanto foi o stress sofrido (Foto: singaporesee.com)

O episódio não é de agora, é de meses atrás, mas foi marcante porque as notícias a respeito circularam intensamente em toda a Ásia, a começar pela própria imprensa oficial chinesa. O jornal em língua inglesa China Daily dedicou-lhe um editorial, no qual perguntava: “O que estavam pensando essas pessoas ao agredir a comissária? Não perceberam que estavam pondo em risco a segurança do voo?”. No mesmo texto, anunciava “severo castigo” para o casal.

O caso é um a mais a expor um aspecto pouco edificante de algo muito positivo — o avassalador processo de crescimento da China que levou centenas de milhões de cidadãos a um poder aquisitivo que os permite viajar com facilidade, e em massa, ao exterior.

O problema é que um número considerável deles não fez acompanhar o tamanho da conta bancária com o apropriado nível de educação, e se comporta mal em países estrangeiros, a ponto de preocupar o governo. Falar aos berros ou gargalhar em museus onde o silêncio é cultuado, comer com maus modos em restaurantes, roubar talheres, ser inconvenientes em shows, embriagar-se além de conta em cassinos… Há episódios quase inacreditáveis, como o de uma senhora que tentava abrir a saída de emergência antes da decolagem de seu voo porque estava “muito calor” a bordo, ou de criançase até adultos queusaram outras áreas do avião que não os banheiros para suas urgências.

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O vandalismo em obra de 3.500 anos em Luxor, no Egito: “Ding Minhao” esteve aqui, escreveu o adolescente chinês. Os pais foram à TV pedir desculpas (Foto: ibtime.com)

Tudo isso vem sendo registrado sem a censura usual pela imprensa chinesa, de forma que o vice-primeiro-ministro Wang Yang, irritado, chegou a fazer um discurso advertindo que essa minoria que não sabe se portar adequadamente está “arranhando” a imagem internacional da China. “Eles falam alto em público”, reclamou Yang, “e chegam a rabiscar seus nomes em atrações turísticas”, exemplificou.

Em seguida, citou o adolescente que, há alguns anos — num episódio que os chineses não esquecem, pois se transformou em motivo nacional de vergonha — inscreveu seu nome e danificou uma peça de arte de 3.500 anos no Templo de Luxor, no Egito.

Wang Yang não é pouca coisa — é um dos 25 membros do Politburo do Partido Comunista da China, o pequeno grupo que realmente manda neste país colossal de 1,3 bilhão de habitantes.

A relíquia danificada com a inscrição em chinês “Ding Minhao esteve aqui” explodiu nas mídias sociais chinesas em 2013 a partir de sua postagem no Weibo, o equivalente chinês ao Twitter, que tem dezenas de milhões de seguidores. A coisa chegou a um ponto que os pais do adolescente foram à TV desculpar-se por supostamente não lhe terem propiciado suficiente educação.

Episódios desse tipo levaram a Autoridade Nacional Chinesa de Turismo a editar e distribuir milhões de exemplares de um Guia de Viagem e Turismo Civilizados, com 64 páginas advertindo os viajantes a evitar atitudes como sair à rua com os cabelos desalinhados ou o rosto sem lavar, e em público evitar deitar-se ou tirar sapatos e meias.

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A legenda desta ilustração do “Guia” não poderia ser mais explícita: “Não cuspa secreções ou chicletes nem jogue lixo no chão, nem urine ou evacue onde lhe der na telha. Não tussa, espirre ou mexa no nariz ou nos dentes na frente de outras pessoas”

O livreto dedica parte importante ao uso de banheiros — não vou entrar em mais detalhes aqui –, enfatizando, por exemplo, a necessidade de sempre dar descarga.

Mas a preocupação das autoridades atinge vários outros setores. Inclui, por exemplo, etiqueta a ser seguida em restaurante (não comer de boca aberta, não palitar os dentes nem sugá-los como forma de limpeza etc) e em espetáculos, como teatro ou shows (“respeite os artistas… se um deles cometer um erro, você deve perdoá-lo e não assobiar ou vaiar”, o uso de piscina em hotéis (“não cuspa em piscina de hotéis, e absolutamente nunca faça xixi nelas”) e até a postura adequada ao fazer mergulhos (“em qualquer lugar do mundo em que você vá mergulhar, não deve em hipótese alguma apossar-se de qualquer elemento da fauna ou flora marinha”).

Quem achar exagerada a preocupação do governo chinês com o tema deve levar em conta que o turismo de cidadãos da China no exterior cresce a taxas alucinantes, superior a 10% ao ano, tendo atingido, em 2014, cerca de 100 milhões de pessoas.

Um manual como o chinês não faria mal se fosse editado em outros países, se é que vocês me entendem.

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24 Comentários

Fernando Duque em 20 de fevereiro de 2015

A China é seguramente o país do mundo com o maior número de homônimos. Fazendo uma analogia com o Brasil, lá deve ter uns cem milhões de Silvas, mais uns cem milhões de Santos, outros cem milhões de Souzas, mais uns cem milhões de Oliveiras, e por aí vai. E para nós, ocidentais, eles têm tudo a mesma cara. Se um chinês aprontar no exterior, quem vai reconhecer o cara ? É mais fácil achar uma agulha no palheiro.

Fernando Duque em 20 de fevereiro de 2015

O fato é que a Europa está numa pindaiba desgraçada e nenhum europeu quer encrenca com chineses, pois estes despejam milhões e milhões de euros quando ali vão a turismo. O negócio é aguentar mesmo, não tem jeito. A necessidade de grana fala mais alto. Pagando bem, que mal tem ?

Fernando Pawwlow em 19 de fevereiro de 2015

Caro Setti,conheço chineses muito educados,e que trabalham em lanchonetes,restaurantes,etc. Mas conheci uma chinesa que me perguntou em um bar onde estavam as garrafas,que ela supunha que eu houvesse ocultado para não pagar.Tive que falar grosso.Passei outro dia na rua por um sujeito muitíssimo parecido com chinês,e que jogou ostensivamente o copo de plástico na rua,no centro da cidade- e ainda olhando com ar desafiador - "Jogo mesmo,e daí?". Sabe o que acho,caro Setti? Quando um país é potência militar ,e na própria casa,o sujeito evita jogar papel de bala no chão,ele vomita a incivilidade em países subalternos,desarmados e notoriamente sem governo. Mais que o dinheiro para viajar,alguns chineses têm a arrogância de se saberem cidadãos de uma potência. O dia em que as autoridades(do PM ao funcionário do corpo diplomático)começarem a tratar estes jecas que erraram de século para fora de países com recomendação expressa de nunca mais retornar,eles tomarão jeito.Antes,não. Que as cidades sobrevivam às hordas. Tenho certeza que os chineses educados,cultos e de espírito aristocrático(espírito que não ocupa somente corpos de endinheirados) não se ofenderão com o seu artigo,e com este e outros comentários. Os ofendidos saberemos de quem se trata. Abraços do Pawwlow

Juca em 19 de fevereiro de 2015

Durante a copa, aqui em Salvador, os holandeses (loiros de olhos azuis) promoveram bebedeiras e algazarra nas ruas, chegando a agarrar mulheres à força e pichar carros. Claro que não foi a maioria, mas que incomodaram, isso incomodaram. Gente sem educação, sem compostura e sem respeito existe, como sabemos, em todos os lugares. Em alguns mais, em outros menos. Mas o ser humano é assim, né? Abraço

junior em 19 de fevereiro de 2015

Eu pensava que era brincadeira. Mas me deparei com um aviso alusivo na cabine de um banheiro no marketing Fish em Sydney para chineses, orientando-os passo-a-passo a fazerem suas necessidades na privada. Vc pode até achar engraçado, mas é a pura realidade.

Walterson em 19 de fevereiro de 2015

Setti, Ano passado peguei o trem de Moscou a São Petersburgo, juntamente com meu filho, e nos acomodamos na cabine correspondente. Daí a pouco apareceu um monte de chineses, falando alto naquela voz esganiçada lá deles, e "invadiu" o trem. Tratava-se de uma (ou várias) famílias numerosas que excursionava pela Rússia. Só sei que o trem saiu da estação, meus companheiros de cabine foram mudados 4 vezes até que um pai com o filho pequeno se instalou definitivamente, quase 1 hora depois de iniciada a viagem. Neste tempo, com este entra-e-sai e barulho de conversas, ficou impossível dormir. Mas depois o pai se revelou uma pessoa educada e falava um inglês razoável, quando então pudemos conversar um pouco. Foi bom porque ele deu algumas dicas interessantes sobre segurança no trem. Mas só quero deixar registrado que os caras parecem uma manada em movimento.

carla em 19 de fevereiro de 2015

Pois nós também precisaríamos de uma cartilha destas. Passei a maior vergonha no metrô de Paris quando travestis brasileiros fizeram tanta "histeria" que o metrô foi PARADO e eles foram retirados pela polícia local! A falta que faz uma boa educação!

Marcos F em 19 de fevereiro de 2015

Que bela matéria, Setti! Realmente, no Aeroporto Schipol de Amsterdam, na Sala de Repouso (para dormir), eu não pude dormir porque uma comitiva de chineses passou a noite inteirinha fazendo algazarra. Acredite: tudo para divertir uma só mulher, que deveria ser "a Chefe" - uma empetecada bravíssima que humilhava a todos. Enfim, um nojo. Uma noite de domingo, na Piazza del Duomo em Milano, os italianos tiveram que sair para dar lugar às arruaças de centenas de chineses que tomaram todos os cantos fazendo pic-nic com sujeira geral. É, está acontecendo. Vão re-afundar a China.

Fernando Duque em 19 de fevereiro de 2015

Leitor "razumikhin", Se algum dia vier para São Paulo, desça no Metrô Praça da Árvore, e na boca de uma das escadarias, quase na esquina com a Avenida Jabaquara, você vai encontrar a PASTELARIA CHANGAI (com "ch" mesmo), comandada há 56 (CINQUENTA E SEIS) anos por Paulo Lin Fon Kam, o chinês mais educado e gentil que eu já conheci. É o melhor pastel de São Paulo e do Brasil. E só tem de carne, palmito e queijo. ABDURDAMENTE DELICIOSOS, inigualáveis. Viciante. Há 40 anos me delicio com estes pastéis, pois tenho o privilégio de morar ali perto. E mesmo que não morasse próximo, eu iria sempre ali, pois é um prazer indescritível. E de quebra ainda tem uma esfiha e uma coxinha maravilhosas. A PASTELARIA CHANGAI é a única concessão que eu faço aos chineses. De resto, mantenho distância regulamentar.

O Bebum da Rosemary em 19 de fevereiro de 2015

Bom,no Japão os chineses estão em primeiro lugar e os brasileiros em segundo em problemas com a polícia...

Alex em 18 de fevereiro de 2015

Setti, Pode comentário como o do João Alves - 18/2/2015 às 18:56? Sou baiano, e tenho educação melhor que a dele, pois não usaria de preconceito de procedência regional ou nacionalidade, como ele fez. Não pode, não, caro Alex. Agradeço sua crítica. Acabo de dar uma busca, encontrei o comentário e coloquei, ali, apenas minha resposta, sem o texto original: "Seu comentário preconceituoso e racista foi deletado". Sempre que notar algo do tipo que nos tenha escapado, agradeço se avisar. Um abração.

Alex em 18 de fevereiro de 2015

Setti, É interessante como os japoneses e chineses são tão diferentes entre si, apesar da origem comum (origem comum bem remota, eu sei, mas real).

Marcelo em 18 de fevereiro de 2015

Mas apesar de tudo têm uns trocados, o pior é onde faltam os bons modos e os recursos.

Marcos em 18 de fevereiro de 2015

Setti, Quem deveria fazer algo similar é o nosso governo brasileiro, mas infelizmente eles estão preocupados com a perpetuação no poder a qualquer custo. E não adianta vir com aquela estória de pátria educadora que não cola. Nosso povo é mal educado e segue exemplos dos seus governantes que quando são pegos com a boca na botija, como se diz no popular, ao invés de assumir a culpa apontam o dedo para o vizinho ou adversário. Aquilo que um dia julgou-se ou auto intitulou "o partido da ética", mostrou com o passar do tempo que ética é uma palavra que não existe no seu dicionário. E nós, pobres pagadores de impostos, vamos perdendo preciosos anos de desenvolvimento na educação, saúde, segurança, etc. "Pátria educadora" parece coisa da ditadura militar. E a piada é o ministro, esse troglodita ex-governador do Ceará. Educação ele não tem nem à mesa!

estela em 18 de fevereiro de 2015

Eles são terríveis, eles entram nos lugares e passam como tufão,tirando fotografias, mesmo nos locais proibidos, não querem nem saber. São uns vândalos, aliás parecidos com os latinos, sem tirar nem por. Calma. Toda generalização é injusta e, no caso, preconceituosa. Há turistas chineses educadíssimos e respeitosos, o que eu próprio posso comprovar em frequentes viagens que preciso fazer ao exterior, por razões de família. Quanto aos "latinos", a quem você, também preconceituosamente, se refere? São latinos os franceses, os espanhóis, os italianos, os brasileiros, os chilenos...

Marcelo Silva em 18 de fevereiro de 2015

Educacao comunista.Ainda chegaremos la! Qual e o lema mesmo do desgoverno Dilma? Patria educadora, ou algo assim?

Bruno Sampaio em 18 de fevereiro de 2015

Caramba, essa do moleque rabiscar uma obra de 3.500 anos é de arrepiar. É isso que dá quando a renda aumenta e a educação fica onde estava. Aqui debaixo da minha janela presencio muitos playboys de classe média alta em suas pickups caríssimas se comportando como um bando de hienas. Na Barra da Tijuca então, é fogo, para não usar outra palavra...

Ivan, o Terrível em 18 de fevereiro de 2015

O engraçado, é que nem sempre a má educação tem a ver com a classe social. Conheço MUITAS pessoas de classe média baixa, e pobres, que se comportam como aristocratas vitorianos. E pit-boys endinheirados, que se comportam como membros do PCC...

João Alves em 18 de fevereiro de 2015

Seu comentário preconceituoso e racista foi deletado.

RONALDE em 18 de fevereiro de 2015

Ricardo, eu entendi muito bem.

aparecido f. em 18 de fevereiro de 2015

Abrir a porta de emergencia do avião prestes a decolar.. fizeram isso há quinze dias no Rio de janeiro...Os brasileiros são mal educados aqui e lá fora também...e não é só pobres.. tem muita gente da alta que é tão mal educados quanto classe média...Os mais velhos lembram de uma viagem do governador Paulo Maluf ao Japão em 1981 e os empresários que o acompanhavam roubaram tanta coisa dos restaurantes e hoteis que o governo do Japão só liberou a volta do avião após uma detalhada revista das bagagens...

nena em 18 de fevereiro de 2015

Quando a educação não avança junto com o aumento da conta bancária temos o que chamammos de 'emergentes", comendo melado e se lambuzando. São uma praga nesta nossa república das bananas e facilmente encontráveis falando alto, gargalhando, vaiando, assobiando, em restaurantes, cinemas, praças, shoppings, transpostes. E se a gente comenta a falta de educação e o mau gosto é logo taxada de preconceituosa, que não gosta que pobre tenha acesso a lugares das elites, reacionária, etc. Ao invés de crescerem, aprendendo, querem é nivelar tudo por baixo. Que falta faz a Educação!

Francisco em 18 de fevereiro de 2015

Brasileiro fala muito alto no exterior e gosta de aparecer, mas chineses não ficam atrás empurrando as pessoas que estão observando um quadro, vendo algo em alguma atração, dei uns empurrões num ching-ling no Louvre, defronte a Monalisa...o sujeito foi inconveniente demais..

razumikhin em 18 de fevereiro de 2015

Alguém come com segurança um pastel numa pastelaria chinesa? Nem eu. Os chineses fazem zona fora da terra de Mao Dzedong porque são muitos e fica difícil para as polícias nacionais prendê-los; eles sabem disso. Mas, os brasileiros no exterior são poucos e, igualmente, mal educados. Aliás, brasileiro no exterior adora ficar dando vexame; é que nem o baiano que não nasce, estreia. Quando chegam perto de mim para perguntar qualquer coisa, já respondo em francês.

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