Foi um tremendo flagrante – o país inteiro viu. Esta semana, finalmente, o falso leão foi desmascarado. Tratava-se, conforme se previa, de um travesti: debaixo da frondosa juba leonina do bicho que se alimenta de dinheiro, o que havia, na verdade, era a carantonha mofina de um mamífero “carnívoro e digitígrado”, como informam os dicionários: a hiena.

Não foi apenas pela aparência física, porém, que se deu a descoberta. O bicho, feio como ele só, exibiu nos últimos dias um comportamento inequívoco. Ao invés da valentia do rei dos animais, uma covardia de manual. Quando a tribo, atacada, conseguiu botar um pouco de organização na taba, fez soar os tambores e começou a pintar o corpo com as cores da guerra, a hiena bateu em retirada e deixou, pela primeira vez, uma parte de sua presa na pradaria.

O clamor generalizado que se ergueu contra as iniqüidades do imposto de renda, somado às pressões organizadas que os cidadãos conseguiram pôr em andamento, foram vitórias que, embora modestas, não podem ser ignoradas. Na verdade, quanto mais os brasileiros fazem a hiena do imposto de renda reagir, melhor eles a conhecem.

Até agora, as informações sobre ela não eram muitas. Restringiam-se, na maior parte, a seus medos. Sabia-se basicamente que a hiena corria quando dava de cara com gente graduada da tribo. Ela não podia, por exemplo, ver pela frente um militar, um ministro do Supremo ou um deputado – fugia em disparada, ganindo. Um rico, então, causava – como ainda causa – um verdadeiro pavor no bicho.

É que essa hiena não tem a desenvoltura de suas parentes africanas. Não é selvagem – é um bicho de zoológico, quase um bicho de circo, tal o grau de treinamento que é capaz de exibir. Parece até cachorro de Pavlov: quando vê um brasileiro de classe média, o reflexo é imediato – só que, ao invés de salivar, a hiena vai e morde.

Com a informação de que a hiena, além de tudo o que já se sabia dela até agora, tem medo do barulho dos nativos, o brasileiro não enriqueceu somente seus conhecimentos: ele diversificou seu kit de ferramentas para se fazer respeitar mais como cidadão. É claro que ficou faltando um bocado de coisa.

Faltou, por exemplo, o governo adotar os valores reais de mercado para o abatimento dos gastos com dependentes, educação, saúde, aluguel e, mesmo, juros do sistema financeiro da habitação – os níveis atuais só que não são completamente ridículos porque, como no caso da velha piada, se o contribuinte rir, vai doer.

Faltou devolver tudo o que a hiena deve ao contribuinte, e não limitar a compensação das dívidas mútuas a 70 OTNs. Faltou, sobretudo, mudar a mentalidade francamente escandalosa, pela qual, no Brasil, quem ganha mais paga menos imposto.

É ainda verdade que, em seu recuo estratégico, a hiena partiu levando na boca nacos dos rendimentos dos brasileiros mais pontuais, mais organizados e mais crédulos na fantasia de que as leis, neste país, de fato “pegam”. (Uma vez mais, quem entregou declaração nos prazos da lei e pagou antecipadamente foi desrespeitado com as invariáveis exceções de última hora.) Mas não se pode dizer que o brasileiro tenha terminado a semana de mãos vazias. Não só as presas que a hiena largou são um bom começo. Há, também, que comemorar a boa ação dos políticos que afagaram a hiena e aplacaram seu apetite.

Afinal, se uma minoria de organizados se deu mal, uma grande maioria de contribuintes que, brasileiramente, esperou até a última hora, acabou beneficiada pela prorrogação da data de entrega das declarações e pela possibilidade de utilizar parte do dinheiro que tem a haver da hiena como tira-gosto do bicho.

Que não se negligencie a diligência dos líderes do PMDB e do PFL, por favor. Pois se há uma ocasião em que eles podem jactar-se de não terem legislado em causa própria foi esta. Trata-se de um caso típico (e raro) de generosidade dos políticos: eles agiram mesmo para beneficiar os outros, já que, definitivamente, não precisam eles próprios preocupar-se com o imposto de renda.

Por tudo isso, o brasileiro, na sua justa e santa indignação com a hiena, não deve chegar a este Domingo de Páscoa desanimado: está provado que, com organização e pressão, a hiena cede. No ano que vem, quem sabe, vamos conseguir botar o bicho numa dieta vegetariana.

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