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Soraya com Rajoy no Congresso de Deputados: sua mais leal colaboradora é agora a mais poderosa dos ministros (Foto: EFE)

Ela é mulher, jovem, mãe recente e, a partir de hoje, a segunda pessoa mais poderosa da Espanha. (Tiremos o Rei da história, pela especifidade única de suas funções na monarquia constitucional, em que tem papel fortemente simbólico mas também é o comandante supremo das Forças Armadas).

Soraya Sáenz de Santamaria, 40 anos, fiel assessora do recém-empossado primeiro-ministro (“presidente do governo”, na terminologia espanhola) Mariano Rajoy, assumiu hoje, com as funções de vice-presidente do governo, cumulativamente, as de ministra da Presidência, porta-voz do governo e — fato inédito na história do país — responsável pelos serviços secretos e de informação, até então adstritos ao Ministério da Defesa.

O conservador Partido Popular de Rajoy, assim, mantém o perfil “mulher, jovem e mãe recente” que já aparecera no governo de seu antecessor, José Luís Rodríguez Zapatero, do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), de centro-esquerda, que promoveu ao importantíssimo Ministério da Defesa a deputada Carme Chacón.

Então aos 37 anos, ela quebrava não apenas o tabu relacionado a idade e a origem, catalã, como também se tornara a primeira mulher a ocupar o cargo e a primeira ministra de qualquer pasta a tomar posse grávida. A imagem de soldados no Afeganistão batendo continência à futura mãe com barriga de sete meses correu o mundo.

Muda o governo, repete-se o perfil

Os anos se passaram, novas eleições vieram (no último 20 de novembro) e o poder na Espanha passou às mãos do Partido Popular. E, ao definir nesta quarta-feira a sua equipe, o novo presidente do governo confirmou que muita coisas vão mudar de agora em diante, a começar por uma política econômica mais austera, favorável a polêmicos cortes de gastos públicos e alinhadas com as novas diretrizes europeias.

A designação de Soraya não foi surpresa — mas seu acúmulo de poderes, sim.

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Foto: Daniel Sánchez-Alonso – El País

Nascida há 40 anos em Valladolid, na comunidade autônoma de Castilla y León, centro-oeste espanhol, a advogada Soraya Sáenz Santamaría terá imensa responsabilidade enquanto cria o filho de apenas um mês, que recebeu o mesmo nome do pai, Iván Rosa, advogado com quem se casou – vejam só – no Brasil em 2006, em discreta cerimônia civil. Para as motos, a cerveja e as pistas de dança, suas outras paixões, dificilmente sobrará tempo.

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Com o marido Iván Rosa: casamento no Brasil (Foto: Vanitatis)

Tremendo alvoroço por ensaio sensual

Como a maioria dos caciques do PP, Soraya não é conhecida exatamente por sua simpatia. Tanto é que, há três anos, quando topou ser entrevistada sobre a vida pessoal e posar para fotos levemente sensuais para o jornal madrileno de direita El Mundo — sabe lá Deus o que passou por sua cabeça –, causou enorme burburinho nos incontáveis programas de TV e revistas de fofocas da Espanha.

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O ensaio “mezzo” sensual que Soraya fez para o jornal “El Mundo” em 2009 (Foto: Luis Malibrán / El Mundo)

Parte da repercussão se deveu ao fato de que a própria estrela do ensaio endossara coro de críticas a uma reportagem fotográfica que a revista Vogue organizara com ministras de Zapatero anos antes.

Soraya desfruta, porém, de considerável respeito dos rivais, principalmente pela personalidade forte, a boa formação e a precocidade política.  Iniciou-se na profissão no ano 2000, como assessora jurídica de Rajoy, que então exercia uma das funções que ela assumiu esta semana, a de ministro da Presidência (de José María Aznar, que governou de 1996 a 2004). Oito anos depois, já em seu segundo mandato como deputada, foi escolhida por Rajoy como líder do PP no congresso. Seria a primeira grávida a exercer tal posição.

Aplicadíssima, capaz de trabalhar 24 horas seguidas sem perder o humor, leal como nenhum outro colaborador a Rajoy, ela revelou-se, como líder da oposição ao governo socialista, uma deputada que fazia impecavelmente a lição de casa, mostrava-se ao par de cada detalhe dos problemas discutidos e, a despeito da aparência miúda e delicada, revelou-se capaz de duelar nos debates com os mais aguerridos adversários e enfrentar sem maiores problemas o tiroteio de questionamentos da imprensa.

Tudo o que fez até agora, porém, é pouco diante dos desafios que a jovem ministra tem pela frente, num período em que a Espanha vive a maior crise econômica desde a volta da democracia ao país, há 35 anos.

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Nenhum comentário

Eustaquio Santos em 28 de dezembro de 2011

O bom jornalista publica as informações mais interessantes. Nesta época de muita informação, mas pouco conteúdo, é agradável acompanhar um jornalista experiente que busca o que interessa. Esta jovem senhora deputada espanhola, por exemplo, nunca tinha lido a respeito, apesar de ser um internauta atento nos grandes portais. Obrigado e parabéns. Agradecemos em nome do Ricardo Setti. Abraços, Equipe do blog

Turismo Hospitalar em 24 de dezembro de 2011

Bom saber disso. eu vou opinar no post adequado

Turismo Hospitalar em 23 de dezembro de 2011

Ricardo, nenhum post sobre o natal ? A Propósito, o que você acha daqueles que consideram Jesus um " hippie sujo da esquerda festiva " ? Teremos posts sobre o Natal amanhã e depois. Amanhã é que é a véspera de Natal, e o Natal, como você sabe, é no domingo. Evidentemente não concordo com essa visão de Jesus. Abraço

Vera Scheidemann em 23 de dezembro de 2011

Aparentemente competência ela tem. Desejo que teha muita sorte ! Vai precisar. Vera

marina silva em 23 de dezembro de 2011

Vamos ver o que vai se passar porque a coisa por aqui esta HORRIVEL,nunca havia visto aqui tanta gente pedindo esmola,sem casa(os alojamentos da cáritas estao tao sobrecarregados que só podem alojar por 9 noites AO MES aos necessitados)tudo isso temperado com um FRIOOOOOO que tornam os pobres mais desgraçados ainda.Emprego aqui é pedido de papai noel e mais valorizado que o premio do gordo da loteria porque simplesmente DESAPARECEU,isto tudo com gente que era classe media(alguns donos de seus negocios inclusive!).O brasileiro que aprenda com a desgraça dos outros e nao se endivide mais do que pode para nao passar o mesmo!Feliz Natal a ti Ricardo e obrigada por nos informar tao bem como andam as coisas aí na terrinha! Sou quem quem agradece sua presença aqui e seu comentário, da mesma forma que seus bons votos, que retribuo, prezada Marina. Espero que em 2012 as coisas melhorem. Um grande abraço

Reynaldo-BH em 23 de dezembro de 2011

Meus novos amigos Ricardo e Daniel. Talvez seja este um - mais um - comentário para não ser publicado. Certamente é mais um abusando deste espaço que tantos comentaristas reconhecem como democrático. E eu diria, instigante e meio que a sala da casa de um amigo. Este post sobre uma mulher - elas, as essenciais sem as quais uma vida sempre será incompleta - que é poderosa sem deixar de curtir motos, posar com para câmeras em ensaios e com um companheiro ao lado, me fez acreditar que este novo governo espanhol tem boas chances de ser... humano. Estamos na antevéspera do Natal. Data difícil para quem é solitário. Por opção própria ou por imposição da vida. Tento me valer da alegria de outras famílias, na falta de uma. Tento ter algo de fé que me anime. Tento não fazer balanços que me levem a enxergar, nestes momentos, mais erros que acertos nesta louca viagem que é a vida. Enfim, tento transformar uma noite de Natal em somente mais uma noite. Só concorda que a noite de Natal é falsa e de alegria forçada entre familiares, quem não os tem. Sim, é. Ou melhor, pode ser. E o que isto a faz menor? Expressar carinho e amizade mesmo em uma data marcada é necessariamente ruim? Ruim é não ter a quem expressar isto. No meu agnosticismo, "quebrei" a cabeça para enviar a vocês um link (me expresso melhor com imagens e músicas, mesmo de outros) relativo a esta data. Sem as apelações emotivas - que esta sim, creio falsas - ou as religiosas, pois (AINDA) não as tenho. Penso que a demonstração de afeto - qualquer afeto, mas real - pode condensar o que desejo dizer. Mesmo com este jeito meio confuso meu. Natal é isto. Uma época de encontros. De deixar a vida ser mais livre e amorosa com o próximo. Assim, amigos, segue este link de um pedido de casamento não tão inusitado. De partilhar a vida, futuro e natais. Eles sequer sabem - ou se importem - mas por aqui estará alguém que torcendo para que no próximo ano, ambos estejam em alguma festa de Natal. Com as famílias. E felizes. Pois que NATAL é isso. Um recomeçar que é, no fundo, continuidade. UM BOM NATAL junto aos seus, prezados amigos Daniel e Ricardo. ABRAÇOS! http://vimeo.com/33507366 Obrigado por sua comovedora -- uma vez mais -- mensagem, amigo Reynaldo. Falo em meu nome e no do Daniel. Retribuo todos os seus belos votos, e tenho certeza de que em breve você estará com toda a felicidade que merece, pela pessoa que você é. Um grande abraço e obrigado por sua enorme e preciosa colaboração a este blog ao longo de todo o ano.

Eduardo em 23 de dezembro de 2011

Prezado Setti. Nao há dúvidas de que o governo Zapatero destruiu a Espanha, principalmente por sua inabilidade em gerenciar o país em meio a uma crise internacional, mas também por causa da má gestao e dos disperdícios produzidos em seus 7 anos de governo por seus ministros, alguns deles sem nem mesmo formaçao superior. Contudo, há controvérsias se essa é a maior crise da Espanha desde a transiçao para a democracia, haja vista que, quando o governo do também socialista Felipe Gonzalez acabou (1996) a Espanha estava arrasada, basicamente pelos mesmos motivos, exceto que nao havia uma conjuntura de crise internacional como há agora. Sugiro nao se fiar somente nas matérias do jornal "El País" porque é um periódico cuja linha editorial é de TOTAL apoio ao grupo socialista liderado pelo Sr. Rubalcalba, ex-ministro, co-responsável por ambos desastres (foi ministro de Zapatero e F. Gonzalez!) e candidato derrotado recentemente nas eleiçoes para a chefia do governo. Um abraço. E de onde você tirou que eu fico me baseando no jornal "El País"? Eu vivo na Espanha a maior parte do ano desde há vários anos, sei do que estou falando. E as coisas não são nem de longe tão simples como você coloca: o que é que um ministro sem curso superior tem a ver com uma crise? Além do que o governo de Felipe González, embora em crise no final de seus 14 anos de poder, foi o grande responsável pela consolidação da democracia na Espanha e pelo grande avanço econômico e social do país. A maioria dos analistas isentos que tenho visto e consultado o considera o melhor de todos os "presidentes de Gobierno" desde a volta de democracia. E, em TODOS os jornais, e em todos os analistas que aparecem na TV, é um consenso de que é esta, sim, a maior crise desde a volta da democracia. Estando aqui, conversando com fontes, lendo os jornais, vendo TV, vivendo e viajando pelo país, não vejo controvérsia alguma quanto a isso. Jamais a Espanha teve, por exemplo, mais de 20% de sua força de trablaho desempregada. E por aí vai. Um abraço pra você também.

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