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Vargas Llosa, à esquerda, entrevistado por Ricardo Setti (Foto: Alexandre Battibugli / Editora Abril)

O Prêmio Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa esteve hoje na Editora Abril, participando de um programa denominado “Diálogos Culturais”. Deixou a empresa há 10 minutos.

Fui incumbido de conduzir a conversa no auditória da Editora. Depois, almoçou com um grupo, entre os quais dois jornalistas de VEJA que o entrevistaram para as “Páginas Amarelas”.

O vídeo da conversa irá ao ar, em segmentos, dentro em pouco no site de VEJA.

Enquanto isso, vamos rapidamente resumir alguns dos muitos temas de que ele tratou aqui na Abril:

Sobre mudanças na sua vida desde o anúncio do Nobel: “Eu estou acostumado com o assédio, mas nada, nem de longe, se compara a que vem ocorrendo nos últimos 6 dias. Ninguém, fora de minha família e de poucos amigos, sabe onde estou residindo em Nova York [ele é professor da Universidade de Princeton, situada perto de NY]. Pois bem, cinco minutos depois da divulgação do prêmio, assisti a meu apartamento ser invadido por 20 pessoas que eu jamais vi antes em minha vida, e que não sei como chegaram lá — cinegrafistas suecos, jornalistas noruegueses, câmeras, microfones, holofotes. Desde então não tenho sossego durante as 24 horas do dia. Mas estou feliz.”

Sobre a associação que Cuba fez, em declaração oficial, sobre seu Nobel e o da Paz, atribuído ao dissidente chinês Liu Xiaobo, ambos, disse Havana, “manipulados pelo imperialismo americano”: “Não se poderia esperar de Cuba reação diferente. Na verdade, fico muito honrado de ser associado a Liu Xiaobo. E é importantíssimo que um homem de sua coragem e dignidade haja recebido o Nobel da Paz. O comitê do Nobel do Parlamento da Noruega fez muito bem em atribuir o prêmio, porque chama a atenção para o fato de que, a despeito de haver adotado o capitalismo com grande êxito e melhorado a vida de seu povo, a China continua sendo uma ditadura feroz, que encarcera, mata ou condena às catacumbas do silêncio aqueles que querem a mudança do regime e pedem mais liberdade.”

Sobre o que vai fazer com o 1,5 milhão de dólares do prêmio: “Ah, isso é assunto para a minha mulher, Patrícia. Temos uma divisão de trabalho e ela cuida de tudo o que se refere à administração dos nossos assuntos. Ela me dá uma mesada mensal, e é com isso que eu me viro [risos]“.

Sobre uma proposta esdrúxula que recebeu sobre como utilizar o dinheiro: “Recebi um fax de um cidadão que me propôs investir tudo em uma fábrica de sorvetes [risos]“.

Sobre o presidente Lula: “Lula fez muito bem em continuar a política econômica liberal do presidente Fernando Henrique Cardoso. O Brasil está passando por um surto extraordinário de progresso e há um consenso, em toda parte, de que caminha para ser uma potência mundial. Mas me entristeceu muito vê-lo confraternizar com o regime decrépito e assassino de Cuba e com o ditador Fidel Castro no mesmo instante em que um dissidente político morria em consequência de uma greve de fome. É horrível também vê-lo relacionar-se com o ditador do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, líder de um regime tirânico que condena à morte por apedrejamento mulheres supostamente adúlteras e suprimiu as liberdades públicas no país.”

Sobre um modelo de estadista contemporâneo: [O ex-presidente da África do Sul] Nelson Mandela. É um homem extraordinário. Saiu do cárcere para se entender com seus algozes em prol da pacificação do país. Poderia permanecer no poder por quanto tempo quisesse, mas deixou a Presidência após quatro anos de mandato. Tenho por ele uma admiração sem limites”.

Sobre a América Latina: “Sou otimista quanto ao futuro da América Latina. Excetuados casos isolados, como os regimes da Venezuela e da Nicarágua, temos em diferentes graus democracias em todos os países. É espantoso, por exemplo, que no Uruguai um ex-guerrilheiro dos Tupamaros, um grupo de esquerda absolutamente radical no passado, o presidente José Mujica, conduza agora uma política econômica tão equilibrada e sensata. Não podemos dizer que na Venezuela haja uma ditadura. Grandes setores da sociedade resistem a Hugo Chávez, inclusive poderosos sindicatos de trabalhadores, e as recentes eleições parlamentares, mesmo manipuladas — um deputado da oposição necessitava obter 150 mil votos para se eleger, um do governo, 30 mil –, mostraram que a maioria do eleitorado votou contra Chávez. A economia da Venezuela vai muito mal, a inflação está em alta, o país importa alimentos, há falta de energia elétrica. A má administração vai derrotar Chávez”.

Sobre sua experiência de candidato à Presidência do Peru, em 1990: “Éramos muito ingênuos, as forças que me apoiavam e eu mesmo. Achamos ser possível vencer pregando idéias, falando de temas absolutamente tabu num terreno envenenado pela esquerda — a livre iniciativa, a necessidade de investimentos estrangeiros, a proposta de abertura para o exterior. A experiência de perder foi dolorosa, claro, mas aprendi muito sobre a política e o poder, que são capazes de despertar o que há de pior dentro dos homens. A experiência, contudo, valeu. E acho que algo de nossa pregação permaneceu no Peru, nos dois governos democráticos que se sucederam após o pesadelo que foi a ditadura de Alberto Fujimori (1990-2000)”.

Sobre se sua atividade como polemista político prejudica ou não sua literatura: “Não consigo ficar fechado num gabinete. Acho que o escritor tem uma obrigação moral de se manifestar sobre os problemas de seu país, de seu mundo e de seu tempo. Não pode se omitir. Daí os artigos sobre política e os livros de ensaios sobre o tema que publico. Mas minha verdadeira e inarredável paixão é a literatura. A literatura é a minha vida”.

Sobre planos para o futuro para alguém, como ele, que está com 74 anos de idade: “A vida é uma dádiva maravilhosa, e procuro viver como se não fosse morrer nunca, com muitos projetos e muito trabalho. Procuro viver como se a morte fosse apenas um acidente. Isso me faz manter a vontade de viver e de produzir, a manter ilusões e esperanças.”

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5 Comentários

Kitty em 24 de janeiro de 2011

Caro Ricardo, me perdoe!!!! Não prestei muita atenção na data do headline do post. Acho que me atrapalhei no final do texto pensando no tempo presente. A entrevista foi de alto nível.Com todo respeito, Ricardo,você estava "SUPERB". Abraços,kitty

Marco em 14 de outubro de 2010

Caro R. Setti: 1 te parabenizar pela elegância e 2 dizer q isso não é para qualquer um ! Abs. Muito obrigado, caro Marco. Muito gentil seu comentário. Um abração.

Marcia em 13 de outubro de 2010

Ficou maravilhoso!!!!! Vc é craque!!!!!! Precisa ter chamada na primeira página do site. Beijos de muita admiração. M. Vai ter, querida. Vai ter. Imagine você que o áudio não estava bom, tecnicamente. Tem chiados e outros problemas. Mas vamos em frente. Beijos.

julio em 13 de outubro de 2010

Como não poderia ser diferente, um equilibrio falante.

maisvalia em 13 de outubro de 2010

Que pena que o Vargas não nasceu no Brasil. Parabéns pela ótima entrevista.

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